Em Portugal não temos medo da mudança; temos medo de que a mudança resulte. Exige-se modernização, critica-se a inércia e reclamam-se reformas. Mas basta surgir o primeiro contratempo para que os mesmos que pediam mudança passem a defender o regresso ao passado.
Foi precisamente isso que aconteceu com o novo modelo de correção dos exames nacionais.
Os problemas técnicos registados na plataforma de correção são reais e devem ser resolvidos. Mas uma coisa são falhas de implementação; outra, muito diferente, é o mérito da reforma.
O Ministério da Educação decidiu modernizar um processo praticamente inalterado durante décadas. E fê-lo em duas dimensões essenciais.
A primeira prende-se com a própria avaliação. Até agora, cada prova era corrigida integralmente por um único professor. Apesar da competência dos docentes, nenhuma avaliação humana está totalmente livre de subjetividade. Ao distribuir a correção por diferentes classificadores, cada um responsável por critérios específicos, reduz-se a discricionariedade individual, aumenta-se a uniformidade das classificações e reforça-se a igualdade de tratamento entre todos os alunos. É um modelo potencialmente mais justo e mais transparente.
A segunda dimensão é a digitalização. Num mundo em que praticamente todos os serviços públicos evoluem para plataformas digitais, não fazia sentido manter um processo de correção essencialmente analógico. A correção online permite maior rastreabilidade, uniformização e eficiência. Não é um capricho tecnológico; é uma adaptação necessária à realidade do século XXI.
Naturalmente, uma transformação desta dimensão pode enfrentar dificuldades. É legítimo questionar se a plataforma deveria ter sido mais testada antes da sua implementação. Provavelmente sim. Mas uma falha técnica não invalida uma boa decisão política.
Importa separar responsabilidades. Não é o Ministro da Educação quem desenvolve software ou resolve problemas informáticos. Cabe-lhe definir a estratégia, exigir que o sistema funcione e garantir que as falhas sejam corrigidas. A resolução dos problemas técnicos compete às equipas responsáveis pela plataforma.
Mais surpreendente foi assistir aos pedidos de anulação dos exames. Em Portugal existe uma preocupante tendência para transformar qualquer dificuldade num argumento para desistir da mudança. Em vez de corrigir o que falhou, prefere-se deitar tudo abaixo.
O Ministro resistiu a essa tentação e fez bem. Anular os exames teria sido profundamente injusto para centenas de milhares de alunos que realizaram as provas em condições normais, comprometendo o calendário de acesso ao ensino superior e transmitindo uma imagem de fragilidade do Estado.
As falhas devem ser corrigidas e prevenidas. Mas uma implementação imperfeita não transforma uma boa reforma numa má reforma.
Portugal precisa de perceber que modernizar implica aceitar riscos, corrigir erros e persistir. O verdadeiro teste de uma reforma não é saber se tudo corre bem no primeiro dia, mas se, ultrapassados os problemas iniciais, o sistema se torna mais justo, mais eficiente e mais credível. Caso contrário, continuaremos a exigir reformas… desde que nada mude.