Quando ouvimos falar em ensaios clínicos, muitos pensam em laboratórios distantes. Mas a verdade é que estes estudos dizem respeito a todos nós. É graças a eles que surgem novos medicamentos e terapias que podem salvar vidas.
O problema é que o processo está cada vez mais lento, caro e difícil. Hoje, desenvolver um novo medicamento pode levar mais de uma década e custar mais de 2 mil milhões de euros. Os ensaios clínicos representam quase metade dessa despesa e, apesar disso, cerca de 90% acabam por falhar.
Europa a perder terreno
Na última década, a Europa perdeu competitividade global neste campo. A percentagem de ensaios da indústria farmacêutica realizados no continente caiu de 22% para 12%. Isto significa menos acesso dos doentes europeus a terapias inovadoras e maior dependência de outros continentes. Para quem está em tratamento oncológico em Portugal, esta estatística não é apenas um número: pode traduzir-se em anos de espera por uma terapia que já está a ser usada noutro país. Se nada mudar, corremos o risco de ficar para trás – não apenas em termos de ciência, mas também no acesso dos nossos cidadãos a cuidados de saúde de ponta.
Uma nova ferramenta aplicada aos ensaios clínicos: Inteligência Artificial
É neste contexto que surge a Inteligência Artificial (IA), incluindo a chamada IA generativa. Longe de ser apenas uma moda ou algo saído da ficção científica, a IA já está a ser usada pelas grandes empresas farmacêuticas para acelerar os ensaios clínicos, reduzir custos e melhorar resultados. Inclusive, algumas farmacêuticas já recorrem a IA para prever centros com maior sucesso em termos de recrutamento ou para ajustar protocolos.
Mas este artigo não é um apelo à indústria farmacêutica – é um apelo direto aos Centros de Investigação Clínica (CIC). Estes Centros, espalhados por hospitais e instituições de saúde, são peças fundamentais da investigação: são eles que acolhem os doentes, gerem os protocolos e garantem que os estudos decorrem com qualidade e segurança.
Se os CIC não acompanharem o ritmo da transformação digital, arriscam-se a perder relevância e a serem ultrapassados por estruturas noutros países.
Como podem os Centros de Investigação Clínica beneficiar da IA
A adoção de IA nos processos internos dos CIC pode trazer ganhos muito concretos:
Desenho dos ensaios: apoiar equipas na análise de dados históricos e na construção de protocolos mais eficazes, poupando tempo e evitando emendas dispendiosas.
Escolha de locais e viabilidade: usar modelos preditivos para perceber que centros têm maior potencial de recrutamento, evitando esforços sem retorno.
Recrutamento de participantes: identificar perfis elegíveis e personalizar a comunicação com os doentes, aumentando a adesão e reduzindo desistências.
Análise de dados: organizar e validar grandes volumes de informação clínica de forma mais rápida e segura.
Automatização de tarefas administrativas: libertar profissionais de tarefas repetitivas, permitindo-lhes concentrar-se na relação com os participantes e na qualidade científica.
No fim de cada gráfico e de cada base de dados está sempre uma pessoa: um doente que espera por um tratamento. Estas vantagens não são abstratas: podem traduzir-se em mais doentes tratados, em menos atrasos e em ciência feita em Portugal com impacto global.
Em termos simples, para os CIC, a IA não é apenas uma oportunidade de eficiência. É uma condição para continuarem a desempenhar um papel central na investigação clínica global.
A IA não é uma varinha mágica
Naturalmente, a adoção da IA traz desafios: a fragmentação e a qualidade desigual dos dados, a falta de regulamentação e a necessidade de formar equipas.
Por isso, não se trata de adotar IA apenas porque está na moda, é preciso integrá-la de forma responsável, transparente e sempre centrada no benefício do doente. O que realmente importa é gerar valor concreto para os doentes, para os profissionais de saúde e para os sistemas de saúde.
É o momento de decidir
Apesar dos obstáculos, uma coisa é clara: a revolução da Inteligência Artificial nos ensaios clínicos já começou. Os Centros de Investigação Clínica que conseguirem utilizá-la de forma responsável e estratégica estarão na linha da frente: não só podem acelerar o acesso a novas terapias, como também podem contribuir para um sistema de saúde mais eficiente, inclusivo e seguro.
No fundo, a questão é simples: queremos ser meros espectadores desta transformação, ou protagonistas de uma nova era da investigação clínica?