A leitura de notícias sobre as exposições que, em 2025, se vão realizar em todo o mundo, com especial destaque na Europa, será um exercício fascinante mas ao mesmo tempo penoso para os leitores residentes em Portugal. Por um lado, permitirá aos mais afortunados planearem viagens às cidades que participam nessa rede internacional de circulação de oferta cultural. Por outro, expõe de forma crua a persistente ausência das cidades portuguesas dos circuitos internacionais de artes plásticas. Em simultâneo, uma leitura atenta da oferta cultural dos teatros portugueses, em especial dos teatros com estatuto de nacional, expõe também a sua quase permanente condição excêntrica em relação às redes de produção teatral europeia.
Através destes exemplos, mas outros haverá certamente, evidencia-se a exclusão quase absoluta de grande parte das organizações culturais portuguesas de redes culturais internacionais de produção e de circulação, não permitindo aos públicos nacionais o acesso a uma extensa oferta cultural e não promovendo a circulação de produção cultural portuguesa nesses mesmo circuitos. Mesmo no que se refere à relação com o Atlântico Sul, tantas vezes enaltecida como referencial na cultura portuguesa, verificamos que a relação de uma parte significativa das organizações culturais portuguesas com as suas congéneres de Angola, Cabo Verde e Brasil é reduzida ou simplesmente inexistente.
Por que motivo as principais instituições culturais portuguesas sob tutela do Estado se mantêm fora dos circuitos internacionais? Por que razão o Governo não assume a cultura como um activo económico estratégico que pode e deve ser exportado e não reconhece o património e a criação contemporânea não só como tesouros nacionais mas também como um soft power insubstituível? Em síntese, o Governo de Portugal alguma vez assumirá a acção cultural como um pilar da sua política externa?
Ironicamente, o discurso político em Portugal, tem vindo a explorar, há décadas, o tema da internacionalização da cultura. Na atualidade, o Ministério da Cultura, no seu site “Cultura Portugal”, promove os fundos europeus disponíveis, enquanto no seu site do GEPAC divulga a “Programação Cultural Cruzada Portugal-Espanha: 50 anos de democracia”, nada referindo sobre estratégias nacionais de internacionalização. Por sua vez, o AICEP, sob a tutela do Ministério da Economia, publicita a “fileira das indústrias culturais e criativas”, apoiando feiras e bienais, ao passo que o Instituto Camões, sob a tutela do Ministério dos Negócios Estrangeiros, consome os escassíssimos recursos destinados à acção cultural numa frágil e desconexa programação, através da sua rede de centros culturais.
Num contexto em que a voragem dos acontecimentos e das redes sociais procura obliterar no dia seguinte o que foi feito e dito no dia anterior, importa manter a memória viva enquanto instrumento de reflexão, mas também de responsabilização cívica e política. Por isso, relativamente ao “Programa Internacionalizar 2030”, aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 189/2017, de 6 de dezembro, pergunto qual é o seu contributo para a promoção da cultura? Quais foram os objectivos que mobilizaram os recursos do Estado para a realização da “Temporada Cruzada Portugal – Espanha 2024/ 2025”, ainda a decorrer? E que balanço foi feito da “Temporada Cultural Portugal – França 2022”?
Contudo, posso e devo referir bons exemplos de integração de organizações culturais portuguesas nos circuitos internacionais, nomeadamente a Casa da Música, o Centro Cultural de Cascais, o Festival Internacional de Teatro de Almada, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação de Serralves. Gostaria também de referir exemplos de boas práticas de adidos e conselheiros culturais do Instituto Camões, nomeadamente Eduardo Prado Coelho em Paris (1989-1999), Margarida Gouveia Fernandes em Bona, Berlim, Moscovo e Bruxelas (1991-2012) e, mais recentemente, Isabel Corte-Real em Paris (2021-2024).
Nas organizações culturais referidas identifico um persistente conhecimento da realidade cultural internacional e das suas dinâmicas, um pensamento e uma reflexão acerca da sua inserção no contexto nacional e internacional, uma capacidade de planeamento a médio prazo, acompanhada de previsibilidade e estabilidade financeiras, características que lhes permitirão serem consideradas e respeitadas enquanto organizações parceiras em diversas redes internacionais.
E nas pessoas acima mencionadas reconheço a disponibilidade para se integrarem no sistema cultural dos países em que a diplomacia as colocou, a par da capacidade para conceberem e concretizarem projectos culturais em coprodução, para negociarem em contextos eventualmente adversos e para captarem recursos financeiros bem para além das sofríveis dotações do Estado português.
Será possível aceitarmos um Estado sem pensamento e sem reflexão acerca da realidade cultural nacional e do contexto internacional, dos seus agentes e criadores, sem conhecimento profissional e actualizado das dinâmicas internacionais e dos seus mercados, sem capacidade de planeamento a médio e longo prazo e sem previsibilidade e estabilidade financeiras? De que modo se articulam, em Portugal, os Ministérios da Cultura, da Economia e dos Negócios Estrangeiros, para definirem uma acção concertada da política cultural externa? Estarão alguma vez disponíveis as atas das eventuais reuniões conjuntas destes ministérios?
Após o 25 de Abril de 1974, e especialmente na década de 90, a acção cultural externa portuguesa foi determinante para a consolidação do processo de integração europeia de Portugal no âmbito da sua adesão à CEE. Nesse contexto, o país adotou uma estratégia proactiva na acção cultural externa e apresentou-se à Europa e ao mundo como uma nação europeia, democrática e em vias de modernização, solidamente ancorada num valiosíssimo e extenso património cultural, mas também numa vibrante criação contemporânea em múltiplos domínios. O apogeu efetivo e simbólico da valorização política da cultura portuguesa, naquela época, terá ocorrido com o Festival Europalia Portugal 1991.
Hoje a acção cultural externa de Portugal não aparenta ter um rumo e não revela capacidade de iniciativa e de investimento. Contudo, a gritante escassez de recursos financeiros não explica tudo. A internacionalização da cultura portuguesa carece de reflexão, de definição de uma estratégia política integrada, a médio e longo prazo, que assegure uma acção contínua para além de atos celebratórios oficiais e que envolva as organizações culturais e os criadores. Tal reflexão implicaria um pensamento crítico consolidado, que procurasse compreender o lugar da cultura e da língua portuguesas num mundo em mutação, pós-colonial e pós-global.
Entre promessas e miragens, a acção cultural externa de Portugal não tem estado à altura do desafio que a cultura lhe coloca e o país exige. Apesar disso, a cultura portuguesa pôde demonstrar qualidade e capacidade de diálogo, quando aberta ao mundo e à cultura dos outros.