As alterações climáticas deixaram de ser uma preocupação distante para se tornarem uma realidade que transforma profundamente a forma como vivemos, trabalhamos e pensamos o futuro. No mundo ocidental, onde o património cultural é vasto e diversificado, esta realidade obriga a repensar como se desenham e aplicam as políticas culturais. As mudanças no clima, com temperaturas médias mais altas, fenómenos meteorológicos extremos mais frequentes e alterações nos ecossistemas, colocam em risco monumentos, museus, arquivos, tradições e práticas culturais que até há poucas décadas pareciam seguras. As políticas culturais, que tiveram como foco principal a promoção das artes, a preservação de monumentos e a democratização do acesso à cultura, precisam agora de integrar uma nova dimensão: a resiliência face às mudanças ambientais.

O impacto é visível tanto no património material como no imaterial. Edifícios históricos, muitos deles construídos com técnicas e materiais sensíveis à humidade, ao sal e às variações bruscas de temperatura, sofrem uma degradação acelerada. Cidades como Veneza enfrentam não só o problema da subida do nível do mar, mas também as consequências da intensificação de fenómenos como as marés altas. Por outro lado, práticas culturais ligadas ao calendário agrícola, à navegação ou a recursos naturais específicos veem-se ameaçadas quando o clima altera os ritmos e as condições de que dependem. A perda ou transformação destas tradições é mais do que uma questão económica ou de memória: é uma alteração na forma como as comunidades se reconhecem e se relacionam com o território.

Na União Europeia (UE), este desafio tem vindo a ser encarado cada vez com mais seriedade: através de programas como o European Green Deal, a UE estabeleceu a meta de neutralidade carbónica até 2050 e reconheceu que a cultura é parte integrante dessa transição. Isso significa que projetos culturais, desde a construção ou renovação de teatros e museus até à organização de festivais, passam a ser avaliados não apenas pela sua relevância artística ou social, mas também pelo seu impacto ambiental. A sustentabilidade deixou de ser uma questão acessória para se tornar numa necessidade e numa exigência. A reabilitação energética dos equipamentos culturais é um exemplo concreto: ao melhorar a eficiência térmica de museus e arquivos, não só se reduz o consumo de energia como se criam condições mais estáveis para conservar peças e documentos valiosos.

Outra iniciativa relevante é o New European Bauhaus, que procura combinar sustentabilidade, estética e inclusão social. Inspirado no movimento modernista do século XX, este projeto incentiva urbanistas, arquitectos, artistas e comunidades a repensarem os espaços culturais e urbanos de forma que sejam ambientalmente responsáveis e ao mesmo tempo agradáveis e funcionais. Muitas das intervenções que se têm feito no âmbito desta iniciativa, convocando múltiplos saberes e valorizando práticas comunitárias e tradicionais, mostram que é possível preservar a identidade histórica de um lugar e, simultaneamente, prepará-lo para resistir aos impactos climáticos do futuro.

Vários países europeus têm implementado políticas específicas para lidar com estas questões. Nos Países Baixos, por exemplo, a ameaça constante das inundações levou a que museus e arquivos desenvolvessem sistemas avançados de proteção e planos de evacuação de obras. Em Itália, cidades como Florença e Veneza criaram programas de restauro que utilizam materiais resistentes à água e instalaram barreiras móveis para minimizar os danos das cheias. Em França, o governo lançou um plano nacional para integrar práticas sustentáveis nos museus e teatros, incluindo a redução do uso de plásticos e o investimento em energias renováveis.

Portugal, pelas suas características geográficas e climáticas, enfrenta desafios específicos, sobretudo devido aos incêndios florestais. Os fogos de grande dimensão, como os de 2017 e 2022, não destruíram apenas áreas naturais, mas também património edificado e tradições comunitárias. Capelas, moinhos, fornos comunitários, matas e hortas foram danificados ou perdidos. E com eles, grande parte do ecossistema animal que os povoava. Para responder a estas situações, surgiram programas de recuperação do património rural e iniciativas artísticas que procuram reforçar a identidade e coesão social das comunidades afetadas.

Contudo, a Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas não contempla, incompreensivelmente, medidas para a protecção do património cultural em zonas de risco, assim como não considera incentivos à criação artística como forma de comunicação e de sensibilização para a prevenção e a adaptação. À luz da política climática portuguesa, a política cultural nacional e os agentes culturais não são considerados como mais-valias, quer no âmbito das áreas temáticas quer no que diz respeito aos grupos sectoriais de referência (Resolução do Conselho de Ministros n.º 56/2015, de 30 de julho).

No entanto, a ligação entre alterações climáticas e cultura não será apenas defensiva. A cultura também pode ser um motor de mudança e de adaptação. Instituições como museus e centros culturais, a par dos artistas e dos artesãos, têm um papel importante na sensibilização pública para os problemas ambientais. Exposições, peças de teatro, filmes, artesanato e outras formas de expressão artística conseguem frequentemente transmitir a urgência da ação climática de forma mais direta e emocional do que relatórios técnicos ou debates políticos. Além disso, a recuperação e a valorização de saberes tradicionais sustentáveis, como técnicas agrícolas adaptadas a climas secos ou métodos construtivos que tiram partido da ventilação natural, pode ajudar as comunidades a adaptarem-se às novas condições do clima.

Apesar dos avanços, existem obstáculos. A adaptação do setor cultural às exigências ambientais implica investimentos consideráveis, e nem sempre o financiamento disponível é suficiente. Há também uma falta de dados detalhados sobre quais os bens culturais mais vulneráveis e quais as melhores formas de os proteger. E, em alguns casos, existe resistência por parte de instituições ou mesmo de profissionais, ao considerarem que a missão principal da cultura deve manter-se centrada na criação e na preservação, sem distrações ambientais. No entanto, a realidade impõe que as duas dimensões deixem de ser vistas como concorrentes: em pleno século XXI, preservar e criar cultura implica, inevitavelmente, enfrentar a crise climática.

No mundo ocidental, e na UE em particular, esta integração entre políticas culturais e políticas climáticas é cada vez mais reconhecida como uma necessidade. A preservação do património e a promoção da criação artística, mas também da criatividade e da inovação, não podem ignorar o contexto ambiental em rápida mudança em que todos vivemos. A UE, com o seu vasto património histórico e a sua capacidade institucional, está a assumir um papel de liderança, mas o desafio é global e exige a partilha de conhecimentos e práticas entre países e regiões. Os exemplos positivos mostram que é possível proteger a memória e a identidade dos povos ao mesmo tempo que se constrói um futuro mais sustentável.

A acção no presente é imperativa: é necessário implementar medidas concretas que integrem o setor cultural em estratégias de mitigação, de adaptação e de sensibilização, baseadas em dados científicos e na capacitação institucional. A cooperação entre agentes culturais, ambientais e comunitários pode potenciar a cultura, mais uma vez e sempre, como um agente transformador, capaz de influenciar comportamentos e de fortalecer a coesão social. O seu potencial criador e mobilizador permite conjugar invenção, inovação, disrupção mas também responsabilidade, preservando patrimónios e práticas, enquanto se adaptam novas formas de expressão. Com visão e pragmatismo, a cultura pode afirmar-se como pilar central de uma sociedade resiliente, solidária e comprometida com o futuro comum.