São muitos os relatos de excessos que ocorrem no desporto. Sempre tive conhecimento deles através de notícias, ou de relatos de terceiros, até ao momento em que o meu filho mais velho, o António, tomou a decisão de ir praticar futsal, como iniciado, sendo que me recordo da reportagem que o Observador publicou em Fevereiro de 2016, intitulada “Existem pais hooligans no desporto jovem? Muitos…”
Tenho assistido a algumas reacções, todas elas, irracionais. Insultos ao árbitro, ofensas a jogadores adversários, críticas aos próprios filhos (que deviam apoiar), tentativas de invasão de campo para tirar esforço de um lance mais duro. E os miúdos que dentro do pavilhão só querem jogar à bola, independentemente do resultado que fica para a história, não merecem nem precisam de assistir a tristezas que, filmadas, causariam vergonha e embaraço de quem as faz.
Com essas reacções, para os nossos filhos, os árbitros nunca vão estar certos, os treinadores nunca farão as melhores escolhas, os adversários nunca serão colegas. Os miúdos jogarão sempre com receio de desiludir os pais, de vergonha pelas suas reacções e medo pela consequência dessas mesmas reacções.
O clube, que o António orgulhosamente representa, a ADQC – Associação para o Desenvolvimento da Quinta do Conde, tem feito um esforço hercúleo, no sentido de eliminar as más prácticas dos adeptos na bancada (e por adeptos, leia-se pais e familiares). Mas basta um pai que, com mais ligeireza, se exalte, uma avó mais dominadora do calão ou uma mãe mais nervosa, para deitar tudo a perder e por vezes a violência poder escalar…
Tenho assistido a alguns dos seus jogos, tendo o seu clube perdido mais vezes do que aquelas que ganhou. Mas sinto que perdemos todos quando assistimos a actos menos correctos e a uma violência verbal exacerbada, e objectivamente sem razão de ser.
Sou um dos ‘pais novos’ nestas andanças e considero os desportos, sejam eles individuais ou colectivos, formadores de carácter, sobretudo nas modalidades ditas amadoras.
Todos queremos o melhor para os nossos filhos, sendo isso uma condição que nos é imposta (e até exigida) a partir do momento em que eles nascem. Não sou um pai perfeito, mas não sou ausente.
Aprendi com a vida, que o melhor que posso passar para os meus filhos são valores e princípios. Mais do que tudo que possam ter, quero que tenham tudo naquilo que são.
Não me compete questionar decisões tácticas ou técnicas da equipa que treina o meu filho, como também não me compete questionar decisões tomadas pelo árbitro de um jogo, concordando ou não com as mesmas decisões. Posso manifestar o meu desagrado de forma urbana e civilizada, e fazer a diferença naquilo que é a forma como o meu filho vê as minhas reacções.
A mim, como pai, compete-me transmitir ao meu filho que mais importante do que ser primeiro é ser melhor.
Ser primeiro é efémero. Ser melhor é eterno.
O ser primeiro é um resultado que fica para uma história. O ser melhor é viver bem a sua história.
A forma como tratamos os outros define claramente a forma como seremos recordados. Sobretudo perante actos ou palavras que não vão de encontro aquilo que entendemos como, no caso do desporto em geral e no futsal em particular, a verdade desportiva.
Claro que fico contente quando o meu filho faz um bom passe ou até marca um golo. Mas sinto-me mais realizado e feliz quando o vejo a apoiar um colega que chega ao banco frustrado, ou a pôr a mão por cima do ombro de um dos guarda-redes quando sofre um golo.
Detesto e fico revoltado quando ele é alvo de uma falta ou daquilo a que eu possa considerar uma má decisão do árbitro. Mas a minha revolta tem de me deixar, que ele e a sua equipa saibam reagir a essa adversidade, pois quando ele o faz sem a minha pressão, ou sem os meus insultos ao árbitro ou impropérios a quem cometeu a falta, ele cresce e fica mais forte.
Também vos digo uma coisa, os nossos filhos também fazem faltas, também têm atitudes menos correctas, também cometem os seus excessos, e é importante que os façam nos seus tempos, e mais importante é que percebam que o fizeram, e que isso acarreta consequências. E isso cabe-nos a nós, pais em primeira instância, só depois aos professores, treinadores e a todos aqueles a quem os confiamos, fazê-lo também na hora certa.
Eles dentro do campo não precisam de nos ouvir. De ouvir para marcar aquele ou passar para o outro. De ouvir para subir ou de descer no campo. De ouvir para marcar atrás ou à frente. Eles só precisam de saber que estamos lá. Eles, no caso do António, têm três treinadores e uma delegada. São eles que têm de ser ouvidos.
A nós, pais, eles só têm de escutar e sentir o nosso apoio.
As direcções dos clubes terão de ter mão firme perante os prevaricadores e se for caso disso, proibir a entrada dos pais “mal comportados” nos recintos, salvaguardando a práctica do desporto e o bem-estar de todos aqueles que o practicam, mas também de todos aqueles que assistem.
O desporto é diversão, formação, mas também competição.
Para vencer, nem sempre precisamos de ganhar, mas para ganhar temos, sobretudo, de saber vencer.
Nota: Uma palavra especial de agradecimento pelo combate à violência no desporto para a direcção da ADQC na pessoa do dirigente Paulo Godinho, da Directora de Equipa Tânia Heloísa, dos treinadores José Fernandes, Luís Valente e José Maia.