Foi preciso ultrapassarmos a marca histórica do cinquentenário do 25 de Abril para que, no hemiciclo da Assembleia da República, alguém tivesse a coragem de dizer em voz alta o que os portugueses sussurram e sentem há anos. O discurso do Presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, não foi apenas uma lufada de ar fresco numa cerimónia habitualmente refém da retórica ideológica, foi um diagnóstico clínico e implacável sobre a doença que corrói a nossa democracia.

Aguiar-Branco fez aquilo que poucos ousam, pois despiu a capa do politicamente correto e assumiu o papel de “advogado do diabo”. Mas, para compreendermos a profundidade da ferida que ele expôs, precisamos de resgatar conceitos que a nossa classe política teima em esquecer e cruzar essa realidade com a falta de exigência que nós próprios permitimos.

A Política como Serviço ao Bem Comum

A Doutrina Social da Igreja há muito que nos recorda um princípio basilar que deveria estar gravado à entrada do Parlamento. A política é uma das formas mais altas da caridade, precisamente porque é o serviço dedicado ao Bem Comum. Não é uma carreira para proveito próprio, não é um refúgio para quem não triunfa no setor privado, nem é um palco para o engrandecimento do ego. É um sacrifício em prol da dignidade humana e da comunidade.

A nação não é uma coutada dos partidos, é uma empresa gigante que pertence a todos nós, Portugal. Os cidadãos são os acionistas que, através dos seus impostos, injetam o capital necessário para manter a estrutura a funcionar. Os políticos eleitos não são uma elite intocável nem os donos da empresa. São, pura e simplesmente, prestadores de serviços ou colaboradores contratados a termo certo para gerirem os nossos recursos e entregarem resultados. O problema é que os portugueses, enquanto patrões, têm sido excessivamente tolerantes com os piores empregados imagináveis.

A Transversalidade do Desvio Institucional

Como o discurso de Aguiar-Branco deixou implícito, a desconexão com o País Real e a ilusão de impunidade são problemas estruturais. Se aplicássemos as regras básicas do tecido empresarial a quem se senta no Parlamento e nos Ministérios, uma boa parte já teria sido despedida por justa causa há muito tempo. Pensemos no comportamento inadmissível que nos habituámos a normalizar, provando que a falta de ética e o desrespeito pela “nossa empresa” atravessam todo o espetro político.

O picar o ponto pelo colega. A total subversão das regras básicas de assiduidade e ética laboral ficou patente no escândalo das presenças fantasma, protagonizado por altos quadros do PSD. O país assistiu com perplexidade a deputados que acederam ao sistema informático para registar a presença do então Secretário-Geral do partido, usando a sua palavra-passe, enquanto este se encontrava a quilómetros de distância. Numa fábrica ou num escritório, quem pica o cartão pelo colega que ficou a dormir em casa é imediatamente alvo de um processo disciplinar com vista ao despedimento por burla.

O reality show e a falta de decoro institucional. A falta de ética atingiu proporções surreais quando olhamos para a degradação no Ministério das Infraestruturas sob a alçada do Partido Socialista. O país assistiu a um cenário de agressões físicas entre membros do gabinete ministerial, barricadas, o roubo de um computador com informação classificada e o envolvimento bizarro dos serviços secretos a meio da noite. Numa empresa a sério, isto resultaria no despedimento sumário de todos os envolvidos por quebra irreparável de confiança, mas na política arrastou-se em justificações patéticas.

O marketing pessoal no meio da tragédia. A desconexão com a realidade atingiu o seu pico quando um governante usou uma catástrofe nacional para autopromoção. Enquanto o país sofria o rasto de destruição e mortes provocado pela depressão Kristin, o Ministro da Presidência, António Leitão Amaro, publicou um vídeo altamente editado nas suas redes sociais para mostrar como geria a crise. Com música dramática, planos a preto e branco e mangas arregaçadas, o ministro transformou a gestão de uma calamidade pública num exercício de vaidade. O vídeo acabou apagado perante as críticas inflamadas da sociedade, mas a publicação provou que, para alguns eleitos, gerir uma crise é apenas um pretexto para o culto da imagem. Numa empresa séria, aproveitar uma fatalidade para protagonismo resultaria na destituição imediata da liderança.

A gestão ruinosa e a dança de cadeiras. A gestão socialista na TAP ilustra na perfeição a brincadeira com o dinheiro dos outros. Uma gestora pública recebeu meio milhão de euros para sair da companhia aérea detida pelo Estado, apenas para ser nomeada meses depois para a liderança de outra empresa pública e, posteriormente, para a própria equipa do Governo. Numa empresa privada, este nível de promiscuidade e delapidação de capital seria alvo de uma auditoria implacável e de processos de responsabilização civil e criminal.

A Urgência do Fim dos “Ministros do Monopólio”

Em suma, o drama de Portugal reside na bizarra inversão de prioridades dos seus cidadãos, que demonstram um nível de exigência paupérrimo perante quem gere os seus destinos. Somos implacáveis com o treinador que falha uma substituição, rigorosos com as metas escolares dos nossos filhos e minuciosos até ao último detalhe quando negociamos os extras de um automóvel novo. Contudo, quando o assunto é o governo do país, parece que baixamos a guarda e aceitamos o amadorismo como se fosse inevitável.

Elegemos sucessivamente governantes que nunca sentiram na pele a dureza de um dia de trabalho real fora da redoma partidária. Temos decisores que gerem o erário público com a leveza de quem brinca num tabuleiro de Monopólio, saltando de assessoria em assessoria e de gabinete em gabinete, sem nunca terem produzido um cêntimo de valor na economia privada. O currículo desta casta (como a identificou o Presidente da Assembleia da República) resume-se a saber ganhar eleições de concelhias e distritais e a sobreviver nos corredores do poder, o que explica o estado de estagnação a que nos conduziram.

É nesta falta de contacto com a realidade que florescem os chamados Ministros do Monopólio. Refiro-me aos responsáveis pelos destinos públicos, cujos únicos actos de gestão empresarial foram as compras, vendas e arrendamentos no tabuleiro no jogo do monopólio, escapando, talvez, muitas vezes à prisão, porque tinham em sua posse um cartão de imunidade.

O que o discurso de Aguiar-Branco veio validar é que necessitamos de uma exigente regeneração de atitudes nesta forma de fazer política. Não precisamos de mais profissionais da política, mas sim de políticos que sejam profissionais competentes, pessoas com provas dadas no mundo real, cuja ética e verdade sejam os pilares da sua prática. Enquanto a abstenção continuar a ser o refúgio de quem desistiu, ela será sempre a maior aliada da incompetência que nos governa. É tempo de deixarmos os jogos de tabuleiros para as crianças e exigirmos uma alternativa de gestão séria e profissional para a nossa empresa que é também a nossa nação.