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Há muitos anos que sou professora de Educação Musical e o meu percurso profissional pautou-se entre o ensino público e o ensino privado. Em todas as escolas em que lecionei, encontrei um grupo de alunos que mantinha um nível de desmotivação para a disciplina que me deixava inquieta. Questionei a minha forma de ensinar e procurei uma solução para este problema. Pensei em deixar o método tradicional de ensino e chegar à sala de aula de uma forma mais prática e ativa, que fosse ao encontro dos gostos dos alunos.

Coloquei para segundo plano o manual escolar, onde os conteúdos estão formatados. Questionei os alunos sobre os estilos musicais que ouviam diariamente e sugeri uma pesquisa e interpretação de temas à sua escolha. Surgiram muitas apresentações e “aquele grupo”, menos motivado anteriormente, participou ativamente. Como se fosse magia, começámos a falar a mesma “língua”, a da música. Passámos a construir os nossos próprios materiais musicais para realizarmos apresentações fora da sala de aula.

Nunca descurando das competências essenciais da disciplina, fui adaptando a envolvência dos alunos e propus estudarmos bandas e músicos que influenciaram os estilos musicais que nasceram nos últimos 20 anos. Para além de estudar e interpretar obras musicais aliciantes, conversámos sobre assuntos da sociedade inerentes a essas bandas — como as drogas, a homossexualidade, o bullying e a pobreza. Foi aí que os alunos ficaram sensibilizados com as carências alimentares que se encontravam no seu meio envolvente e quiseram fazer algo para ajudar.

Durante o ano letivo 2015-2016 surgiu a vontade de criar um projeto musical dentro da disciplina. Um concerto solidário que ajudasse quem mais precisa. Apadrinhamos a Associação de Ajuda Humanitária Dá-me a Tua Mão para receber a nossa ajuda. Aconteceu o primeiro concerto para os encarregados de educação, comunidade escolar e público em geral. E foi um sucesso. Como bilhete de entrada, solicitámos bens alimentares com o objetivo de ajudar pessoas carenciadas do concelho do Seixal através da associação em questão. No ano seguinte, o concerto ganhou mais força e formou-se também um coro de pais e funcionários que abriram o espetáculo. Decidimos que a bilheteira seria para ajudar na aquisição de uma carrinha nova de distribuição de alimentos a pessoas sem abrigo. E novamente conseguimos. A Câmara Municipal do Seixal assistiu ao nosso evento, ofereceu o restante valor e ainda levou o nosso espetáculo para o palco principal das Festas Populares do Seixal. Nunca mais parámos. Os dois últimos temas trabalhados foram Queen e Michael Jackson. E outros palcos pisámos, como o Altice Arena e o Casino do Estoril.

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A forma como os alunos entram na sala de aula depois de um concerto, inspira-me. Referem que pertencem a algo para além do contexto escolar, pois o seu trabalho de meses é reconhecido por um público que os aplaude de pé. É emocionante assistir ao carisma destes pequenos alunos que pisam o palco de grandes nomes do panorama musical. Dito pelo Dinis do 5ºA: “Isto aconteceu com as nossas turmas, e se todas as escolas do concelho, do distrito ou do país, fizessem o mesmo pela sua comunidade? Conseguíamos ajudar no combate à fome?”

Este projeto está cada vez mais consciente e consistente. Renasce todos os setembros com a chegada de novas turmas. Ver o fruto dos espetáculos é algo reconfortante e apaziguador. Pensar a disciplina “de dentro para fora” e fazer com que os alunos se sintam verdadeiramente artistas em cima de um grande palco e ao mesmo tempo, fazerem algo pela sociedade. O principal papel do professor é dar alicerces ao seu aluno para que este se transforme num cidadão íntegro, solidário e atento ao que se passa ao seu lado. Saber olhar para os problemas do mundo, mas principalmente entender que com um simples gesto podemos fazer a diferença na vida de alguém.

É reconfortante constatar que alunos, estudantes do secundário, se tornaram voluntários e que também eles foram parte integrante dos primeiros concertos solidários. Não foram só alunos, mas também vários encarregados de educação que, depois de tomarem contacto com o projeto, tornaram-se voluntários da associação, abraçando esta nobre causa.

Devemos olhar para Educação como a ferramenta preciosa para a construção de um futuro melhor, pois é nela que crescem os Homens e Mulheres de amanhã. Tratar a sala de aula como uma horta, um cultivo. Um semear de coisas boas, para um transbordar de esperança na sociedade futura. E porque não, vivermos num futuro próximo, uma disciplina obrigatória de voluntariado, com o lema “ajudar alguém sem olhar a quem”? Sonho com o dia em que este projeto se torne de todos nós. Fica a semente.

Caderno de Apontamentos é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.