Uma língua com séculos de história só terá futuro se continuar também a ser uma língua de conhecimento, criação e inovação. No tempo da inteligência artificial, o próximo território do português é digital.
Durante séculos, os territórios foram representados em mapas. Hoje existe outro território que não cabe em nenhum mapa. É feito com dados, conhecimento, algoritmos e inteligência artificial. E também aí as línguas ocupam espaço — ou podem perdê-lo.
Para Portugal, esta não é uma questão menor.
No final do século XIII, durante o reinado de D. Dinis, generalizou-se o uso do português na chancelaria régia. A língua não nasceu então: já era falada, escrita e cantada. Mas a sua afirmação na documentação do reino significou mais do que uma mudança de idioma. Uma comunidade que se administra em sua própria língua também reforça a capacidade de se reconhecer, organizar e afirmar.
Quando olhamos para os 900 anos de Portugal, encontramos, lado a lado, território, instituições, identidade e língua. Mas a história reservou ao português um destino maior do que o desse território.
A língua atravessou oceanos, encontrou outras culturas, incorporou palavras e tornou-se um veículo de múltiplas literaturas e identidades. Hoje, segundo a CPLP, é falada por mais de 280 milhões de pessoas em quatro continentes. Já não pode ser considerada propriedade de um país. É uma língua partilhada e plural.
Essa dimensão global constitui um património extraordinário. Mas património não é apenas aquilo que recebemos. É também aquilo que somos capazes de transmitir.
Cada época tem as suas fronteiras. As do século XXI também são digitais.
Uma parte crescente da nossa relação com o conhecimento passa a ser mediada por sistemas de inteligência artificial. Procuramos informação, pedimos explicações, traduzimos textos, estudamos, escrevemos e organizamos ideias por meio deles. Aquilo que há poucos anos parecia excecional começa rapidamente a integrar o quotidiano.
Esta transformação tem uma dimensão linguística que não devemos ignorar.
Os grandes modelos de linguagem são desenvolvidos a partir de enormes volumes de dados produzidos por seres humanos. A quantidade conta, mas contam também a diversidade e a qualidade do conhecimento disponível em cada língua. Não basta, portanto, que o português tenha muitos falantes. É preciso que haja presença qualificada nos ambientes digitais onde o conhecimento do futuro está a ser produzido.
A própria União Europeia reconhece o problema. Em 2026, a Comissão Europeia disponibilizou um modelo institucional concebido para servir melhor as 24 línguas oficiais da União e lançou um referencial multilingue para avaliar grandes modelos de linguagem, já disponível em português. A mensagem é clara: a qualidade da presença digital das línguas tornou-se uma questão estratégica.
Isto obriga-nos a ampliar o que entendemos por defesa de uma língua.
Durante muito tempo, preservá-la significou ensiná-la, publicar livros, conservar manuscritos, criar dicionários e proteger arquivos. Tudo isso continua a ser indispensável. Mas já não basta.
Precisamos agora de cuidar também do nosso património linguístico digital.
Bibliotecas, arquivos históricos, investigação científica, materiais educativos, terminologias especializadas e o conhecimento produzido pelas universidades precisam encontrar lugar neste novo ecossistema. E digitalizar não chega. É necessário organizar, preservar, tornar acessível e criar condições para que esse conhecimento seja utilizado de forma responsável nas novas tecnologias.
Não se trata de competir com o inglês nem de transformar a defesa do português numa trincheira linguística. A ciência é internacional, o conhecimento circula e o multilinguismo é uma vantagem.
O verdadeiro risco é outro: uma língua pode continuar a ser falada por milhões de pessoas e, ainda assim, perder a capacidade de dizer o que de novo está a acontecer no mundo.
Uma língua permanece intelectualmente viva quando continuamos a utilizá-la para explicar o desconhecido, criar conceitos, ensinar matérias complexas e discutir problemas emergentes.
Por isso, talvez a pergunta decisiva não seja apenas quantas pessoas falarão português daqui a cem anos.
É também esta:
O que seremos capazes de pensar em português daqui a cem anos?
Esta pergunta leva-nos inevitavelmente à educação.
As crianças e os jovens que hoje entram nas escolas e universidades viverão num mundo em que conversar com sistemas de inteligência artificial poderá tornar-se tão natural quanto pesquisar na Internet. O desafio educativo não pode limitar-se a ensiná-los a usar essas ferramentas. Teremos de os preparar para as utilizar sem lhes entregar aquilo que continua a exigir responsabilidade humana: formular boas perguntas, interpretar contextos, confrontar argumentos, verificar fontes, criar ideias e responder pelo que se escreve e se decide.
Quando uma máquina consegue produzir, em segundos, uma resposta aparentemente convincente, saber perguntar torna-se ainda mais importante.
E saber pensar também.
Talvez esteja aqui uma das grandes questões educativas do nosso tempo: a melhor forma de defender uma língua não é apenas protegê-la. É continuar a produzir pensamento relevante através dela.
É aqui que os 900 anos de Portugal encontram verdadeiramente o século XXI.
Celebrar uma história tão longa não pode significar apenas recordar batalhas, tratados ou acontecimentos fundacionais. A memória cumpre plenamente a sua função quando nos ajuda a compreender o presente e a preparar o que ainda não aconteceu.
Portugal pode contribuir para mobilizar universidades, centros de investigação, bibliotecas, escolas, empresas e instituições em torno de uma ambição concreta: aumentar não apenas a quantidade, mas, sobretudo, a qualidade do conhecimento disponível digitalmente em português.
Mas este não pode ser apenas um projeto de Portugal.
O futuro digital da língua portuguesa terá de ser tão plural quanto a própria língua. Portugal, Brasil, os países africanos de língua portuguesa, Timor-Leste e as comunidades espalhadas pelo mundo dispõem aqui de um território fértil para a cooperação científica, cultural, educativa e tecnológica.
Podemos imaginar bibliotecas digitais partilhadas, recursos educativos abertos, arquivos interoperáveis, projetos científicos conjuntos e tecnologias capazes de compreender melhor as diferentes variedades do português.
Seria uma nova forma de internacionalização: não assente na expansão territorial de um país, mas na circulação do conhecimento produzido por uma comunidade linguística global.
Durante séculos, Portugal aprendeu a olhar para o mar e a perguntar o que havia para além do horizonte. Hoje, o horizonte mudou.
Já não é apenas marítimo.
É também digital.
Os 900 anos de Portugal oferecem-nos, por isso, muito mais do que uma oportunidade para perguntar de onde vimos. Convidam-nos a decidir o que queremos transmitir àqueles que viverão quando já não estivermos aqui.
D. Dinis não poderia imaginar algoritmos, modelos de linguagem ou inteligência artificial. Mas a lição histórica permanece: uma comunidade afirma-se também através da língua em que administra, aprende, cria conhecimento e pensa o futuro.
Nove séculos depois do nascimento de Portugal, o desafio já não é apenas garantir que continuemos a falar português. É garantir que continuemos a pensar, descobrir, criar e imaginar o futuro em português.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]