Celebrar os 900 anos de Portugal significa reconhecer uma força discreta, mas decisiva, que atravessa séculos de história nacional: a capacidade empreendedora dos portugueses. Desde o navegador que partiu sem mapa ao engenheiro que hoje cria soluções globais a partir do Porto, há um traço que nos une: a arte de pensar “fora da caixa”, de surfar na “crista da onda” e de concretizar ideias.
A palavra “empreendedorismo” pode soar importada do vocabulário das startups, mas o seu conteúdo abrange a totalidade das atividades humanas e tem a ver com a capacidade de criar valor. Na sua essência, sempre nos foi familiar. Os Descobrimentos do século XV foram, antes de tudo, um gesto radical de empreendedorismo. Os navegadores arriscaram tudo para encontrar novas rotas, inventaram soluções técnicas como a caravela, estabeleceram redes comerciais e culturais à escala global. Hoje, os mapas são digitais, os oceanos são algoritmos, mas a atitude mantém-se. É o mesmo ímpeto que move as equipas da Unbabel, que combinam inteligência artificial com tradução humana; os fundadores da Feedzai, que desenvolvem tecnologia antifraude para bancos internacionais; ou a Sword Health, que nasceu em Portugal e hoje oferece fisioterapia digital em vários continentes. Estes exemplos não são exceções. São somente a face visível de uma nova geração que vê o mundo como mercado natural.
E não é só cá dentro que Portugal empreende. A nossa diáspora está cada vez mais ligada a projetos de inovação e impacto. De São Paulo a Toronto, de Maputo a Luanda, de Macau ao Luxemburgo, há portugueses a criar empresas, liderar equipas, lançar movimentos sociais, ensinar, inventar. Muitos partiram à procura de oportunidade — mas não cortaram laços: ampliaram-nos. Hoje, são pontes vivas entre Portugal e o mundo. Exemplo disso é a Cristina Fonseca, cofundadora da Talkdesk e uma das 100 líderes femininas a impulsionar a inovação na Europa. Outro exemplo é Pedro Oliveira, criador da Patient Innovation, uma plataforma global de soluções desenvolvidas para doentes e cuidadores, e professor na Copenhagen Business School. Também as redes de alumni das universidades portuguesas, como a de Lisboa, do Porto, a Católica ou a Aberta, alimentam teias de talentos que colaboram ao nível internacional, sem perderem a ligação à comunidade portuguesa.
Não é por acaso que Lisboa acolhe a Web Summit. Nos últimos anos, Portugal tornou-se um dos ecossistemas de inovação mais atrativo da Europa. Há talento tecnológico, há criatividade cultural, há centros de investigação de ponta e uma qualidade de vida que atrai nómadas digitais e investidores. Mas talvez o mais interessante seja aquilo que sempre nos acompanhou: a capacidade de improvisar, de adaptar, de “desenrascar”. Este traço, tantas vezes desvalorizado como improviso, é hoje reconhecido como uma soft skill essencial. Saber pensar “fora da caixa” e estar na “crista da onda”, criar com poucos recursos e lidar com a incerteza, tudo isto está no ADN de quem empreende. E nós sempre o fizemos, mesmo sem lhe dar esse nome.
Importa, no entanto, não reduzir o empreendedorismo ao universo das startups ou à linguagem dos negócios. Empreender é, na sua essência, criar valor. Valor económico, sim, mas também social, cultural, educativo. É por isso que o empreendedorismo floresce onde há uma cultura que valoriza a criatividade, a inovação, o aprender com os erros, o trabalho em equipa. Tanto é gerado nas escolas públicas como nas privadas, tanto nas grandes cidades como nas pequenas aldeias, tanto em associações locais como em redes de solidariedade. É o que acontece na Casa do Impacto, em Lisboa, onde se apoiam ideias que querem mudar o mundo. Ou no Vale do Douro Tech Hub, que atrai talento para o interior do país. Acontece ainda através nos programas de educação empreendedora que, progressivamente, são integrados nas escolas e universidades, associando as hardskills às softskills e os projetos profissionais aos projetos de vida. Assim, as gerações mais jovens são educadas a serem criadoras do seu futuro e não somente candidatas a um emprego.
Claro que ainda há barreiras a derrubar. Muitos projetos encalham devido à falta de financiamento, às burocracias, ou à escassez de apoio continuado. Os erros ainda são vistos como fracassos e a mesquinhez ainda bloqueia oportunidades. No entanto, há uma tese essencial a defender: o empreendedorismo é uma competência para todos. Não é só para quem inicia uma organização, ou seja, o clássico empreendedor, mas é também para todos os que inovam no seu trabalho, denominados de intraempreendedores. É tanto para o funcionário do setor privado como para aquele do setor público.
Apesar de todos os sinais de inovação, há um peso cultural que precisa de ser superado: o medo dos velhos do Restelo. Empreender implica risco e errar faz parte do processo. E para arriscar, o país precisa de mais confiança no seu próprio talento, mais políticas públicas estáveis, mais pontes entre ciência, cultura e economia. Porque empreender não é um luxo de poucos, é uma necessidade de todos.
Portugal tem todas as condições para ser uma referência em empreendedorismo tecnológico, criativo e social. Temos uma história que nos ensinou a sair do lugar, a experimentar, a acolher. Temos talento, temos rede, temos criatividade. Urge aproveitar a oportunidade. O mundo enfrenta desafios complexos, como aqueles relacionados com o clima, a inteligência artificial e a ética, e precisa de soluções sustentáveis. Portugal pode ser um laboratório de futuro: um país pequeno, mas com ideias grandes; um território limitado, mas com horizontes abertos. Nesse sentido, aplica-se o lema da pedagogia empreendedora: Sonhar grande, começar pequeno e agir já!
Os 900 anos que agora celebramos inspiram a avançar com determinação na conceção e execução de projetos inovadores. Importa ter lucidez sobre onde queremos e podemos chegar nas próximas décadas, e agir com determinação. Se Portugal quiser continuar a ser um país de sol e de pessoas com brilho nos olhos, o empreendedorismo não será uma opção. Será, como sempre foi, a nossa marca cultural.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]