“Alguns dizem que vêm poesia nas minhas pinturas, eu só vejo ciência”
Georges Seurat

O ano de 1886 trouxe-nos algumas inovações notáveis tais como a Coca-cola, o primeiro automóvel industrialmente produzido a combustão interna (da Benz) e o Pontilhismo, técnica de pintura inserida no movimento de impressionista que usa apenas pontos de cor para representar formas e padrões. Ao contrário das técnicas anteriores, que misturavam cores para depois as aplicar diretamente em tela, o pontilhismo usava o cérebro humano para interpretar novas cores e formas a partir apenas de pontos numa tela coloridos com cores (quase) primárias.

Devemos este novo estilo ao experimentalismo e coragem de Georges Seurat e Paul Signac. A referência talvez mais conhecida é Un dimanche après-midi à l’Île de la Grande Jatte de Seurat, na qual nos podemos juntar a parisienses numa tarde quente de domingo à beira do rio Sena onde “uns vagueiam outros estão sentados ou esticados preguiçosamente na relva azulada”.

O Pontilhismo é uma analogia muito feliz ao processo atual de digitalização. Com os primeiros pontos de tinta na tela, é quase impossível um observador apreender alguma forma. Imaginando Seurat a picotar a tela, a definição de alguma forma aparece apenas quando há pontos suficientes para que a nossa cognição seja capaz de identificar uma feição. Curiosamente, é muitas vezes com a adição de apenas mais um ponto na tela que acontece esta passagem da indefinição para a definição. Esta passagem é precisamente aquilo que acontece quando transformamos meros dados em informação, na escala crescente de conhecimento que caracteriza a atual transformação digital.

Uma vez concluída a primeira figura, Seurat provavelmente debruçou-se sobre as seguintes e espéculo que poderíamos ver uma tela sobretudo branca, mas já com uma dezena de pessoas representadas. Neste momento o observador começa a entender a relação entre elas. Alguns claramente estão juntos, como o casal de pé do lado direito ou as crianças a brincar mais atrás. Outros, isolados e não relacionados. No mundo do digital, esta compreensão do relativo é a passagem da informação ao conhecimento.

Por fim, resta uma parte muito importante e que banha todas as personagens do quadro, o cenário e resto do fundo. É aqui que aprendemos o contexto onde se inserem as personagens e percebemos que se trata dum jardim, que está sol e calor e que estamos à beira rio. É com este contexto que agregamos finalmente todo o sentido do quadro de Seurat. E é esta a passagem que ocorre com o conhecimento digital anterior e o transforma em compreensão.

Dados > Informação > Conhecimento > Compreensão

“O processo de transformação digital já arrancou de forma massiva mas em momentos diferentes, conforme o setor/indústria”
— “Estudo da Maturidade Digital das empresas portuguesas” desenvolvido pela EY com a Nova SBE

O digital e as novas tecnologias digitais seguem precisamente esta evolução na escala do conhecimento que começa com dados soltos, os agrega para criar informação, a relaciona para criar conhecimento e, finalmente, a contextualiza para criar compreensão. Com a compreensão vêm os modelos que, acreditamos, regem o mundo onde vivemos, o jogo que jogamos ou o mercado no qual competimos.

Se é verdade que este mapeamento é bem conhecido e as técnicas digitais são acessíveis, o facto é que as empresas em Portugal, em geral, estão baixas em literacia e implementação digital nos seus negócios. No recente “Estudo da Maturidade Digital das empresas portuguesas” desenvolvido pela EY com a Nova SBE vemos claramente que a transformação digital já arrancou de forma massiva, mas que ainda está em curso e nos primeiros passos, ainda longe de tirar tanto proveito do digital como seria expectável.

De notar que os resultados do estudo demonstram alguma discrepância com aquilo que é a nossa experiência Global na Beta-i e na Singularity University (em joint-venture com a Nova SBE e a Câmara Municipal de Cascais) onde reparamos que as empresas portuguesas estão atrasadas com cerca de 3-4 anos na experimentação e adoção do digital de ponta. O estudo aponta essa mesma discrepância, mas faz notar que a maioria das empresas reporta já ter começado a sua transformação digital, 41% delas há mais de 5 anos e 24% há pelo menos dois anos.

Neste processo de transformação digital, torna-se vivamente claro que o desafio principal é a transformação e não tanto o digital, leia-se a tecnologia. Isto porque a tecnologia consolidada e já disponível comercialmente ainda está longe de estar implementada. Esta é a tecnologia que já é conhecida, já tem provas dadas e benefícios comprovados. A transformação é difícil porque entra de menos na agenda estratégica das empresas e por isso não a elevam do nível tático ao estratégico. Sem prejuízo das restantes complexidades inerentes à transformação digital, este, o de a tornar estratégica e compreender o seu impacto transformacional, é o passo mais importante a ser tomado pelas empresas em Portugal.

Assim, todos concordamos que a viagem digital é inevitável, que representa custos financeiras mas sobretudo custos culturais e de transformação. Enfrentemos corajosa e estrategicamente o digital, incluindo-o nos processos de decisão o quanto antes. Vemos muitas vezes empresas aprenderem mais com o processo do que com o plano, por isso faça-se!

“Un dimanche après-midi à l’Île de la Grande Jatte” de Georges-Pierre Seurat, Art Institute of Chicago

Faculty da SingularityU Portugal