Se há dez anos me dissessem que iria viver no Dubai, provavelmente acusaria essa pessoa de insanidade. Como muitos portugueses, tinha uma ideia preconcebida de que os Emirados Árabes Unidos eram só hotéis de luxo, centros comerciais megalómanos e uma certa obsessão pelo excesso. Essa não era uma realidade que me fascinasse particularmente.
Quando me mudei para o Dubai, nunca cá tinha estado e vim com a ideia de que ficaria apenas um ano. Despedi-me do cozido e dos enchidos e cheguei com duas malas de 23 quilos. Numa delas levava uma mini árvore de Natal e cerca de vinte camisolas de manga comprida. Estava convencida de que vinha para uma realidade cultural muito diferente daquela a que estava habituada. Foi ainda no aeroporto que percebi que esta cidade é bastante mais complexa do que os preconceitos que trazia comigo.
Ao longo dos últimos três anos a trabalhar no setor da hospitalidade, percebi que o maior ativo do Dubai não é o petróleo, não são os arranha-céus, nem sequer a imagem de luxo que domina as redes sociais. É a capacidade de receber.
Em Portugal, a hospitalidade nasce connosco. Faz parte da nossa identidade. Está na forma como pomos mais um prato na mesa, como damos indicações a um turista perdido sem muitas vezes falarmos a mesma língua, ou como insistimos para que alguém fique para a sobremesa que ainda vamos improvisar. É aqui que surge uma diferença importante. Em Portugal, a hospitalidade é um talento inato. No Dubai, é uma estratégia.
No Dubai existe uma obsessão quase utópica pela experiência. Não interessa se estamos num café de bairro, num restaurante da moda ou num hotel de cinco estrelas. Há uma preocupação constante em antecipar necessidades, resolver problemas e encontrar soluções. Quem trabalha em hospitalidade conhece bem esta realidade. O que distingue os melhores hotéis ou restaurantes raramente é a comida, a decoração ou a localização. É a capacidade de fazer com que as pessoas se sintam vistas e valorizadas.
No Dubai existe também uma predisposição cultural para tentar, mesmo quando tudo indica que será difícil. É daqui que muitas vezes nasce o famoso inshallah. A tradução literal é “se Deus quiser”, mas a sua interpretação popular significa é improvável, mas vamos tentar. Talvez seja essa uma das maiores lições que Portugal pode retirar do Dubai. A arte de transformar a hospitalidade numa vantagem estratégica.
Portugal tem talento, tem profissionais reconhecidos internacionalmente, tem chefs premiados, hotéis de excelência e uma das culturas mais acolhedoras do mundo. Mas por vezes falta-nos a capacidade de valorizar essa excelência de forma consistente e ambiciosa.
Um dos prémios mais prestigiados da indústria da hospitalidade no Médio Oriente são os Time Out Awards. A marca Time Out está fortemente presente em Portugal, mas não existe um reconhecimento equivalente para a indústria da restauração e hospitalidade. Ainda assim, vemos muitos profissionais portugueses a serem distinguidos internacionalmente por competências que desenvolveram no nosso país. Isso deveria levar-nos a refletir sobre a forma como promovemos, valorizamos e celebramos aquilo que fazemos tão bem.
Depois de três anos a viver no Dubai, percebo que o verdadeiro luxo desta cidade não está nos hotéis, nos arranha-céus nem na extravagância. Está na capacidade de fazer com que as pessoas queiram ficar mais um bocadinho. E, acima de tudo, na convicção coletiva de que quase tudo é possível quando existe vontade de fazer acontecer.