Nos últimos dias, Portugal foi abalado pela notícia trágica de mais um forcado colhido em plena arena. Jovem, cheio de vida, com sonhos e futuro pela frente, perdeu a vida numa “tradição” que insiste em manter-se à custa do sofrimento humano e, acima de tudo, do sofrimento animal. É impossível ficar indiferente.
Muitos dizem que ser forcado é um ato de coragem, que só vai para a arena quem quer. E sim, é verdade que existe um risco — como existiria para um domador de leões ou de tigres. Mas a grande diferença é que o mundo mudou: já quase não vemos espetáculos de circo com animais selvagens. Estão a acabar, felizmente, porque entendemos que não faz sentido submeter animais ao sofrimento em nome do “entretenimento”. Por que motivo a tourada continua a escapar a esta mudança de consciência?
No caso da tourada, continua a usar-se a palavra “tradição” como argumento, como se a tradição justificasse tudo. Mas nem todas as tradições resistem ao tempo. Há tradições que desaparecem precisamente porque deixam de fazer sentido. E esta é uma delas.
Hoje, até os próprios jardins zoológicos são contestados. A sociedade interroga-se sobre o direito que temos de prender animais selvagens, mesmo quando não há maus-tratos visíveis, apenas para satisfazer a nossa curiosidade. E se até isso está em causa, como é possível aceitar-se que continuemos a espetar ferros, a cansar e a humilhar um animal, em nome de um espetáculo que muitos já não conseguem ver sem desconforto?
A tourada implica sofrimento animal, não há como o negar. É por isso que é contestada em todo o mundo. É por isso que muitos países já a proibiram. E é por isso que, mais cedo ou mais tarde, também em Portugal terá de acabar. Não se trata apenas de proteger os animais. Trata-se de proteger a dignidade humana, de reconhecer que o verdadeiro respeito pela natureza não pode ser compatível com práticas que causam dor apenas para entreter.
Não ignoro que há quem veja na tourada uma ligação às raízes culturais e familiares. Mas cultura não pode ser sinónimo de violência. Cultura deve ser sinónimo de evolução, de criação, de beleza. Manter a tourada em nome da tradição é como manter a escravatura ou a pena de morte pelo mesmo argumento: “sempre foi assim”. Isso nunca será suficiente.
Peço desculpa se estas palavras ferem sensibilidades. Mas acredito que muitos, em silêncio, pensam o mesmo. A tourada não tem futuro. E, mais cedo ou mais tarde, vamos perceber que é precisamente honrando o touro — enquanto ser livre e selvagem — que estaremos a honrar a verdadeira tradição: a da ligação do ser humano à natureza.
Até lá, quantos mais jovens terão de arriscar a vida? Quantos mais animais terão de sofrer em silêncio para mantermos um espetáculo que já não faz sentido?
Está nas nossas mãos decidir: ou continuamos a alimentar uma prática que pertence ao passado, ou damos um passo corajoso em direção a um futuro mais justo, mais sensível e verdadeiramente humano.