Portugal está a falhar uma geração – não por falta de vagas, mas porque o Ensino Superior continua preso a um modelo do século passado, surdo ao ritmo acelerado do século XXI. No centro desta inércia está o Estudante, que já não é apenas recetor passivo, mas um agente que merece voz e protagonismo – quiçá um lugar no desenho do novo Ensino Superior.
O presente do Ensino Superior que hoje conhecemos foi desenhado no século passado. As regras, as prioridades e até os preconceitos que moldam as nossas Instituições de Ensino Superior nasceram num contexto económico e social que já não existe. E, pior, continuamos a ensinar como fazíamos há 20 ou 30 anos: sucessões intermináveis de PowerPoints, metodologias de avaliação repetitivas, trabalhos de grupo feitos para cumprir calendário e um modelo pedagógico pouco centrado no estudante. Este, por sua vez, é empurrado para uma aprendizagem passiva – ouvir, copiar, repetir – quando devia ser desafiado a pensar, criar, questionar e agir.
Dizer isto é desconfortável, mas necessário. Porque o sistema educacional não está a preparar os jovens para o futuro, mas para um passado que já não existe.
O problema não é apenas tecnológico – é cultural. Mudámos as ferramentas, mas não mudámos o pensamento. Passámos do retroprojetor para o projetor digital, mas mantivemos a mesma lógica: uma sala virada para um púlpito, um fluxo de informação unidirecional, um sistema de avaliação que mede a memória e não a capacidade de resolver problemas.
O que está em causa agora não é “ajustar” o modelo – é redesenhá-lo para a próxima década. E isso exige coragem para quebrar dogmas que, por mais respeitáveis que sejam na sua origem, hoje funcionam como correntes.
Há uma questão ainda mais incómoda, que raramente se ousa formular, porque requer coragem: o que vale, hoje, um diploma?
Durante anos, alimentou-se a ideia de que todos deviam ir para o Ensino Superior. O diploma passou a ser visto como passaporte garantido para o sucesso. Mas a realidade é dura: há jovens a aprender mais em programas de formação profissional, em estágios bem estruturados, em academias de empresas ou até em experiências de trabalho direto, do que em alguns cursos superiores onde a ligação ao mundo real é quase inexistente.
Dizer isto ainda é tabu. Parece quase uma heresia para quem vive dentro do sistema. Mas é precisamente este tabu que temos de quebrar. Porque, se não o fizermos, estaremos a manter uma mentira institucional que prejudica os jovens, degrada o valor do Ensino Superior e mina a confiança da sociedade na academia.
Ensinar não pode ser apenas transmitir conhecimento teórico – tem de ser treinar pensamento crítico, resolução de problemas, comunicação, criatividade e adaptação. O diploma do futuro terá de ser mais do que um certificado em papel: terá de ser a prova de que o seu titular consegue gerar valor no mundo real.
De acordo com a OCDE, 40% dos jovens licenciados em Portugal trabalham em áreas que nada têm a ver com a sua formação. Enquanto isso, setores estratégicos continuam a ter mais vagas do que candidatos qualificados.
Precisamos de um Ensino Superior ágil, capaz de criar cursos em áreas de procura real com a mesma velocidade com que o mercado muda. As Instituições têm de ter essa capacidade de resposta, antecipando tendências e oferecendo formações alinhadas com necessidades concretas. Mas falta-lhes um ecossistema de competitividade e ação. Enquanto o mercado evolui em meses, o sistema educativo demora anos a aprovar um novo curso.
Quatro mudanças urgentes
Se queremos um Ensino Superior que volte a servir o país e prepare verdadeiramente os estudantes para o futuro, é urgente promover uma transformação estrutural que não se fique por ajustes cosméticos. Eis as quatro mudanças imprescindíveis:
Oferta formativa dinâmica e conectada ao futuro. Cursos alinhados com as necessidades emergentes da próxima década, construídos em estreita colaboração com empresas, especialistas e comunidades locais, e com mecanismos que permitam adaptação rápida às mudanças do mercado.
Reconhecimento e valorização plural do Ensino Superior. Todas as vias de formação devem ser reconhecidas e valorizadas igualmente, acompanhadas por uma revisão urgente do Modelo de Avaliação e Acreditação, conferindo maior autonomia às Instituições para que possam responder em tempo real às necessidades regionais e nacionais.
Apoios financeiros reais e justos. Políticas de financiamento e bolsas de estudo ajustadas ao custo efetivo de vida em cada território, para evitar que a localização do estudante se transforme num fator de exclusão ao acesso e à continuidade dos estudos.
Fomento da ligação direta ao mercado e à prática profissional. Incentivo estruturado à integração de estágios, parcerias com empresas, formação prática e experiências no terreno, para que o Ensino Superior forme para gerar valor real e imediato na economia.
O futuro exige mais coragem, mais pragmatismo e menos dogmas.
Reformar o Ensino Superior não é uma questão de ideologia, é uma questão de sobrevivência nacional. Cada ano perdido é uma geração menos preparada para competir, inovar e liderar.
Podemos continuar a discutir e resgatar velhos debates, mas isso é como pintar as paredes de uma casa que está a afundar. O tempo de remendos acabou. É hora de reerguer todo o edifício – e fazê-lo já.