Às vezes, dar um nome a algo cheio de significados e interpretações pode ser tão limitador que “Sem título” é o mote para dar a cada um a liberdade de refletir sobre a reflexão individual que levou a um dado ato criativo. E é isso que fica da viagem pela obra monumental de Manuel João Vieira que João Pinharanda levou ao MAAT.
Tantas vezes se repete a história do filho de alguém relevante numa qualquer área ter dificuldade em afirmar-se pelas suas capacidades sem que seja acometido a comparações e olhares de soslaio carregados de desconfiança. E quando o pai é João Vieira, esse caminho pode tornar-se ainda mais difícil. Mas Manuel João Vieira (MJV) já tem um estatuto próprio e garantido na cultura portuguesa, ganho pela intensidade do seu trabalho artístico ao longo de já mais de quatro décadas. A música e a política espetáculo têm sido os seus principais campos de reconhecimento, e nos quais todos nós, independentemente da idade, lhe reconhecemos o valor justo da medida da sua intervenção. Goste-se ou não, a qualidade da sua obra nestes campos é indiscutível, tendo-se tornado uma espécie de persona de culto para muitos da minha geração, mas também das gerações seguintes, que sorriem de imediato ao primeiro acorde de Marilu ou de Conan, o homem rã, sentindo aquele calafrio que nos faz viajar à memória daquelas deliciosas noites sem dia seguinte do velho Maxime, em que a conversa, a música e a alegria sem filtros enchiam o espírito da sala, num cliché geracional que parece que já não mais se repetirá.
Mas a notável consistência do trabalho musical de MJV e do seu próprio modelo de intervenção cívica são apenas uma parte do seu legado artístico, onde a ironia, o desafio da norma e a glorificação satírica de um certo bas-fond como espelho evidente do mundo que nos rodeia e de onde desviamos o olhar, assumem a matéria soberana do seu palco. E ainda que seja, provavelmente, a face mais conhecida da generalidade de nós e aquela onde mais se tem destacado socialmente, não é, para mim, aquela onde as suas qualidades criativa e estética mais se destacam.
Não é, decerto, a minha palavra que tem a força para dizer que MJV é um artista plástico pleno e que a sua obra, da qual uma pequena parte está agora exposta no MAAT, mostra isso mesmo. Mas é o seu percurso artístico, o seu traço, a consistência do seu trabalho, a estrutura da sua paleta e o vigor com que cada elemento das suas obras nos desafiam a uma interpretação mais vasta, que nos leva a essa assunção.
Sabia bem ao que ia. A exposição com que confrontei no MAAT mostra a maturidade de um artista com um percurso rico, confronta-me com a dimensão monumental das obras expostas e com a multiplicidade da figuração com que preenche as telas, levando-me a recapitulações do fantástico alegórico de Bosch, quer pelos temas, quer pela composição de cada pequeno recanto, quer pelas figuras – algumas delas também “desconstruídas” com membros avulso ou aparentemente desconectadas da linha que guia cada obra, mas imprescindíveis para compor a sua complexa profundidade.
É notável a capacidade com que MJV domina diferentes escalas sem ficar intimidado nem comprometer a construção do espaço e o desenvolvimento do tema da obra, com uma coerência na espessura do traço tanto em telas pequenas, quanto nas obras que preenchem toda uma superfície, e impressionou-me, sobretudo, identificar duas paletas distintas – uma mais aberta e variada, outra mais fechada e quase monocromática – que conjuga em polípticos que, ainda assim, são absolutamente uniformes na linguagem com que nos gritam.
Imagino a dificuldade de montar uma exposição que tem de desembrulhar obras desta escala, onde a imensa tira de “banda desenhada” a tinta da china choca com as cores vivas das telas, deixando uma imensa parede forrada a banco com traço preto. Aquela obra é quase uma exposição só por si, tal a densidade da composição.
Sabendo bem ao que ia, não pude deixar de me sentir emocionado pela intensidade de cada pormenor que escrutinei e pela beleza formal de cada conjunto pictórico.
Será, talvez, ousado afirmar MJV como um polímata, mas há nele um certo carácter renascentista, pleno e interventivo que me compele a afirmá-lo, de peito feito às dissonâncias, porque não é só um músico, nem um artista plástico, nem um empresário, nem um homem que desafia o status quo da política e da sociedade vestido com uma capa de loucura bonacheirona. É um homem constrói diferentes visões do mundo, todas coerentes, conforme o suporte que utiliza, sem títulos que não o seu nome próprio.