Há algo de irónico, mas profundamente honesto, no facto da mais importante mostra de arte contemporânea do mundo acontecer numa cidade que se afunda. Veneza não serve apenas de palco para a Bienal, porque é, também, a metáfora perfeita deste mundo. Uma cidade que ganha estrutura sobre estacas de madeira cravadas no lodo, que, lentamente, milímetro a milímetro, cede ao peso do que sobre ela assentou. Tal como a civilização que a rodeia. E opostamente ao que acontece em Portugal, em Lisboa, na Baixa que Pombal erigiu das cinzas, que contra o impensável, resiste, mantém-se à tona e mostra-se ao mundo.

Esta edição da Bienal de Veneza parece acontecer com um profundo mimetismo da geopolítica que nos rodeia ao viver a maior crise de governação na sua história de 131 anos, pois o que já se vê passar nos Giardini e no Arsenale é, ao mesmo tempo, uma exposição de arte e um documento político em tempo real, não porque os artistas assim o tenham decretado, mas porque esta rotação convulsiva do mundo que vivemos não lhes deixou outra escolha. E não exploro aqui apenas o impacto da morte da sua maior instituição (da Bienal, já que no mundo, há muito que algumas instituições estão mortas), mas o tema que ela deixou para este ano e para memória futura: “In Minor Keys”. Em tons menores, em voz baixa, num sussurro, num convite à introspeção para se poder olhar o mundo de outra nova forma, como sugeriu a sua curadora antes de sair de junto de nós.

Mas há um paralelismo que tento estabelecer entre esta mostra e este mundo.

E para isso preciso de falar sobre o pós-guerra.

A ordem que nasceu depois de 8 de maio de 1945, apesar de todas as suas imperfeições, foi a mais ambiciosa tentativa de construção de um sistema de convivência entre nações que se conhece na História. Com a ONU, o TPI, as COP’s ou as declarações de direitos universais fomos construindo uma espécie de nova Babel acreditando que a vida seria melhor em cooperação do que em conflito e de que seria possível criar regras mínimas pelas quais todos se regeriam e aceitariam. Apesar de, curiosamente, brincarem neste mesmo parque infantil  crianças que acreditavam nessas regras e outras que viviam sob as suas próprias regras que conseguiam sempre impor aos outros, neste código partilhado de hipocrisia civilizada que, paradoxalmente, funcionava como travão.

E em 1989 tínhamos julgado atingir a maioridade quando aquele muro físico, ideológico, cultural e civilizacional que, fisicamente, separava a Europa, tombou!

Que beleza! De repente, acabava-se o acne da guerra fria e a compostura adulta de uma democracia global, plena e capaz de diálogos vencia sobre os “monoteísmos” autoritários. Começava agora, de novo, de fresco, a História!

E também em Veneza os pavilhões nacionais seriam, cada vez mais, celebrações de uma humanidade em comum. E foram, aparentemente, como reflexo do que se pretendia mostrar. Sempre as pretensões! O mundo deixou de se dividir entre este e oeste e passou a dividir-se entre norte e sul o que, para nós, ocidentais a norte, com o seu centro em Veneza, pareceu-nos ótimo. Só que, parecendo que foi de repente, tudo mudou, as alianças mudaram, e o parceiro já não é só o vizinho do lado, mas alguém do outro lado do mundo, emergindo novas potências, ressentimentos antigos, novos equilíbrios e, sobretudo, desequilíbrios entre diferentes arcos do mesmo edifício da humanidade. Na Bienal deste ano, o reflexo disso não passa ao lado, quando o júri coloca Rússia e Israel juntos na mesma gôndola de punições. O da terra ocupada e o da terra prometida.

E a sucessão de posições que se sucedeu é coeva com o resto do mundo, desde os cortes da UE à bienal, à saída de artistas, às disputas legais, ao pavilhão da Rússia, propriedade de Moscovo, mas fechado. Todos com a sua razão, sem ninguém saber o que fazer nem encontrar um ponto comum, que seja desconfortável para todos, mas que acolha todos e as suas diferenças. Pessoalmente, confesso a minha enorme dificuldade em ser tolerante neste caso, sobretudo enquanto a Ucrânia é atacada diariamente.

Curiosamente, esta crise não é tanto reveladora de violência, mas de impotência, já que talvez a Bienal não tenha instrumentos jurídicos para excluir estados que são proprietários dos seus pavilhões, e porque o júri não tem mecanismos para fazer valer as suas posições sem a cumplicidade da instituição. As sanções bloqueiam a abertura do pavilhão ao público mas a presença do edifício nos Giardini está lá. Já é uma afirmação por si.
É como se todo um sistema que  nos move revelasse aqui os seus limites, com a arte, involuntariamente, a testá-lo e a documentá-lo.

Importa, contudo, ser preciso: não foi a arte que causou esta crise.
Não a resolveu.
Não deve resolvê-la.
Tenho como visão que o papel da arte não é o de interventor político; não é o de quem entra em campo com um programa ou uma agenda. É o de espelho. Um espelho que reflete o estado das coisas com a crueza e a objetividade a que a diplomacia raramente se permite.

É isso que torna o pavilhão português desta edição tão perturbadoramente adequado (perfeito?!). “RedSkyFalls”, de Alexandre Estrela, junto ao Grande Canal, mostra um mundo “artificializado”, mas que responde em tempo real à atividade sísmica de todo o mundo. Uma obra que naquele centro artístico e geoestratégico do globo traduzirá em som e em luz a tensão emergente entre as superfícies da terra e do seu movimento. Num choque de realidade, Portugal mostra-se ali, numa expressão artística interdisciplinar e simbiótica, num pavilhão sobre sismos, num canal que se afunda, numa cidade que é, ela própria, uma metáfora do mundo. São as “minor keys” da natureza que Alexandre Estrela nos mostra. Sem julgamento, nem intervenção, apenas escuta e conexão.

Veneza continuará a afundar-se, como desde há séculos, como continuará depois de nós. E o modelo civilizacional que construímos depois dos campos de concentração, amadurecido com o fim da Guerra Fria, chega agora a um ponto que não sabemos ainda nomear, nem projetar, mas será de transformação, de criação, com a certeza da ciclicidade que o olhar sobre a História nos dá e com a evidência de que há respostas que não se têm em tempo real. A arte sente-as, interpreta-as, regista-as, com a subtileza de quem perscruta um sismo, com a honestidade de quem mostra o espelho sem prometer que o reflexo agrade, com a persistência de quem continua a acontecer mesmo quando o chão treme.

É isso que a Bienal de Veneza, apesar de tudo – ou talvez por causa de tudo -, ainda consegue ser. É o retrato involuntário de uma ordem mundial que perdeu o fundo onde assentava. Mesmo quando tudo se afunda.