Com as eleições autárquicas concluídas e os novos executivos a iniciarem funções por todo o país, abre-se uma espécie de esperança para a maioria dos portugueses de que o poder local seja mais capaz de  levar a cabo as mudanças, as melhorias, em suma, as alterações, que aos olhos de cada um parecerão melhores.

Reconheço que, tal como acabei de referir, cada um achará que as alterações por que espera são mais relevantes que as do vizinho. É expectável. O que torna difícil a tarefa dos autarcas, um pouco por todo o país, no concílio dos interesses de todos, sabendo que nunca nenhum problema parecerá estar resolvido porque haverá sempre alguém que, por inveja, incompreensão, espírito maledicente, ou, simplesmente, vontade de mostrar descontentamento permanente com o que quer que os outros façam virá sempre tentar falar mais alto – por estratégia, ou por não se saber fazer ouvir – contra o que é feito. Mas parece que, segundo consta, as regras da democracia cada vez mais moderna são mesmo assim!

Isto não invalida que cada um possa ter a sua opinião, e que esta não esteja de acordo com o que é decido no fórum adequado, e por aqueles que foram legitimamente eleitos por nós para decidir, mesmo que consideremos que as justificações são credíveis, adequadas, balizadas em estudos e opiniões adequadas.

Toda esta conversa prévia e enrolada em perspetivas diferentes e justificações para validar os opostos para chegar, finalmente, a Sintra. Tal e qual um turista (estrangeiro ou português) ou um local (do concelho ou da região) que queira chegar a Sintra ao fim de semana, ou visitar algum dos seus monumentos durante o horário em que estão abertos: perde muito tempo num trânsito muito enrolado antes de lá chegar, sem a garantia de que não se irá perder pelo caminho.

Quem acompanha de perto o que ali se tem passado, nota como na última década assistiu-se a uma degradação significativa das condições disponíveis para quem visita a zona, nomeadamente o centro da vila e os monumentos que se constituem como os óbvios ex libris deste local, devido às decisões que os responsáveis autárquicos foram tomando. E esta degradação não se reflete apenas no que o “turista” sofre para poder beber da magia que a vila espalha sobre nós, mas também naqueles que, sendo da região e conhecendo-a por toda uma vida, encontram-se agora numa espécie de labirinto em que nem Teseu encontraria, alguma vez o seu minotauro, porque só via caminhos de saída.

Compreende-se – e aceita-se – a relevância de remover o trânsito do centro da vila  por questões também ambientais, mas isso choca com a proliferação de tuk-tuks, na sua maioria com motor de combustão para conseguirem aguentar as dificuldades da subida à Pena, mas também com a acumulação de trânsito parado na N249, nas traseiras da vila, por deficiente informação ou pela situação embaraçosa com que a generalidade dos visitantes se deparam quando descobrem que têm que ir a Colares para poder “dar a volta”.

Do mesmo modo, citamos apenas um exemplo paradigmático do que foi feito com este local que, relembremo-nos, integra a área reconhecida como Património Mundial pela UNESCO. O que foi feito à Quinta da Regaleira nesta última década é um reflexo da incapacidade em interpretar o património aí existente – cultural e natural -, adequar o seu discurso para formar e informar os visitantes e interessados e promover sistemas de partilha e leitura que sejam capazes de dar aos visitantes dados consistentes (e coerentes) sobre este relevante elemento patrimonial português. A inversão do percurso da visita, a orientação condicionada que esta inversão criou, a eliminação de elementos relevantes para a compreensão da história associada à Regaleira, a limitação da visita ao palácio, que agora é feita em regime de “linha de montagem” e numa área demasiado reduzida que não permite contextualizar toda a dimensão artística que faz deste um local único no mundo. O modelo de “terra queimada” que foi seguido na última década e que desvalorizou todo o trabalho que foi feito na primeira década do século XXI demonstra-se na incapacidade de executar os investimentos da instituição que a gere, que tem o aumento das suas receitas indexadas ao aumento circunstancial do turismo nacional, ainda que, quando comparado, esse crescimento fique abaixo dos números da região, denotando uma óbvia incapacidade em atrair e gerir este fluxo devido à implementação das políticas municipais adotadas.

Se Lord Byron chegasse agora na sua charrete a Sintra, talvez não considerasse estar agora no seu Éden glorioso. Provavelmente, seria obrigado a seguir pela estrada que o levaria para fora da vila, como acontece com quase todos os que a visitam.

Mas, apesar deste nevoeiro denso que paira sob as decisões tomadas em detrimento das pessoas, do comércio, do turismo e deste imenso património que a vila contém, acreditamos que se abre agora um sol radioso com o novo ciclo que começa, e que foi interrompido há 12 anos. Impõe-se, agora, corrigir muitos dos erros cometidos por competências inadequadas, falta de conhecimento técnico e ausência de sensibilidade para compreender os valores intrínsecos deste património cultural tão único e perceber que “rentabilizá-lo” não é só pôr dinheiro de parte, mas sim estudá-lo, divulgá-lo, promovê-lo e convidar todos a vivê-lo e a aprender um pouco mais do que aquilo que se vê além do palmo de nevoeiro à frente do nariz.