Durante demasiado tempo, continuámos a fingir que as universidades são templos do saber imunes às leis do mercado. Mas não são. Hoje, a educação é um bem transacionável. As universidades competem entre si por estudantes, professores e financiamento — nacional e internacional. Operam num mercado global de conhecimento. E, num mercado, quem não se adapta, desaparece.

É por isso que defendo, sem rodeios: as universidades portuguesas precisam de ser geridas por dois corpos de liderança autónomos — um Reitor e um Presidente.

O Reitor deve liderar o que é académico: o ensino, a investigação, a internacionalização, a liberdade intelectual. O Presidente deve gerir o que é empresarial: finanças, recursos humanos, contratos, parcerias, estratégia e sustentabilidade.
Dois líderes. Duas missões. Um objetivo comum: garantir que o conhecimento floresce num ambiente estável, profissional e competitivo.

Esperar que um Reitor seja simultaneamente um académico brilhante e um gestor financeiro de excelência é tão absurdo como pedir a um cirurgião que dirija uma empresa de construção. São competências diferentes, formações diferentes, responsabilidades diferentes.Esperar que um Reitor seja simultaneamente um académico brilhante e um gestor financeiro de excelência é tão absurdo como pedir a um cirurgião que dirija uma empresa de construção.
E a verdade é que muitos Reitores passam mais tempo presos em relatórios orçamentais, auditorias e negociações administrativas do que a pensar o futuro académico da sua instituição.

Hoje, gerir uma universidade é gerir uma organização complexa, com orçamentos de centenas de milhões de euros, milhares de trabalhadores e uma teia de contratos públicos e privados.
Não é por acaso que várias universidades portuguesas adotaram o estatuto de fundação — como a Universidade do Porto ou a Universidade Nova de Lisboa. Estas instituições já gerem receitas próprias obtidas fora do financiamento estatal: parcerias empresariais, investigação contratualizada, patentes, doações, serviços.
Ora, se estas universidades se comportam já como verdadeiras organizações híbridas — públicas na missão, privadas na operação — por que insistimos num modelo de governação pensado para os anos 80?

Um Reitor deve ser livre para pensar a universidade: desenhar políticas de ensino, atrair talento, reforçar a qualidade científica, promover a liberdade intelectual. Não deve ser refém da burocracia.
O Presidente, por sua vez, deve ser o gestor profissional que assegura a sustentabilidade financeira e a eficiência organizacional. Deve responder por contas, não por currículos.

Este modelo — duas lideranças complementares — é comum em várias universidades internacionais de topo. Não há perda de autoridade, há especialização. Não há competição entre Reitor e Presidente, há cooperação. E, sobretudo, há resultados.

Portugal gosta de falar em “autonomia universitária”, mas continua a tratá-la como uma autonomia de fachada. Autonomia sem gestão profissional é só desorganização disfarçada de liberdade.
Se queremos universidades fortes, internacionalizadas e competitivas, precisamos de estruturas de gestão modernas, transparentes e eficientes. Precisamos de líderes académicos que liderem o saber — e de gestores que saibam liderar a máquina.

É hora de deixar de romantizar o passado e encarar a realidade: as universidades são instituições de conhecimento e organizações complexas de serviços. Precisam de ser geridas como tal.
Separar a liderança académica da liderança administrativa não é dividir — é somar.

Somemos.