Escrever sobre a atividade do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) não é uma tarefa fácil. A natureza da sua missão e o carácter discreto da sua atividade assim o aconselham. Mas numa sociedade global e interdependente, com ameaças cada vez mais difusas, oriundas de atores estatais e não estatais, é importante que os portugueses saibam que, diariamente, as mulheres e os homens do SIED estão na primeira linha da defesa do Estado e dos seus interesses. São eles que, com resiliência e discrição, trabalham para que o decisor político esteja na posse da informação necessária, cumprindo o seu objetivo último: salvaguardar a independência e defender os interesses nacionais. Fazem-no há 30 anos, assinalados no final de setembro passado, sob o lema “Adivinhar perigos, e evitallos”.

Na celebração das três décadas de serviço, tivemos oportunidade de escutar testemunhos de fundadores e antigos dirigentes. Pelas suas palavras, ficou claro que a criação do Serviço de Informações externo de Portugal foi um processo árduo. A espaços manietado pela ausência de recursos. Noutro momentos, pela desconfiança de instituições e personalidades desconhecedoras da utilidade de um organismo desta natureza, ou que carregavam em si resquícios ideológicos e desconfianças perenes quanto à própria existência de serviços de informações. Mas o passar dos anos, a reconhecida competência dos seus quadros e os sucessos que estes alcançaram, vieram alterar perceções. Hoje, o SIED é uma instituição a quem é reconhecida excelência e singularidade. Sempre na sombra, mas nunca à margem dos grandes acontecimentos geopolíticos do nosso tempo e atento às tendências que se desenham no horizonte.

O SIED nasceu formalmente em 1995, ainda com a designação SIEDM, que aliava a função civil das Informações Externas à componente militar.  O mundo estava ainda a ajustar-se ao fim da Guerra Fria. No panorama onde se projetavam os interesses portugueses, subsistiam vários conflitos regionais. Esse quadro internacional obrigou o então SIEDM a crescer e a afirmar-se rapidamente. Só assim pôde responder a crises várias, defender as diásporas portuguesas, acompanhar a guerra no Kosovo, golpes de Estado na Guiné-Bissau, a guerra civil em Angola, a transferência de Macau para soberania chinesa ou a luta pela independência de Timor-Leste.

Foram assuntos que dominaram a política externa portuguesa da época. Outros se seguiram no novo milénio. Dos atentados terroristas do 11 de Setembro à invasão do Afeganistão. Da guerra no Iraque às Primaveras Árabes. Da pirataria no Corno de África à conflitualidade na África Subsariana. Da instabilidade em países da América Latina com significativas comunidades portuguesas aos períodos conturbados em diversos Estados africanos. Da guerra na Ucrânia ao reacender da crise no Médio Oriente. Em todos esses momentos, o SIED desempenhou a sua missão: produziu as informações necessárias à boa tomada de decisão, contribuindo para desfechos favoráveis aos interesses nacionais.

O agravamento das denominadas ameaças híbridas e a emergência de conflitos armados no continente europeu, a par de uma agudização generalizada das tensões internacionais e do aumento da imprevisibilidade do quadro geopolítico, impele o SIED a continuar a correr riscos, a recrutar, a investir em novas tecnologias e a alargar a rede de parceiros nacionais e internacionais.

Todos os temas e áreas geográficas que relevam para o interesse do Estado integram o quadro de produção de informações do SIED. Oficiais de informações, treinados e especializados, operam nos cenários mais voláteis e complexos, num raio de ação global que inclui o acompanhamento das comunidades portuguesas no estrangeiro, a monitorização do ciberespaço e de ações hostis de Estados adversários ou competidores. Com rigor, os seus profissionais identificam e analisam ameaças e oportunidades em campos como terrorismo, insurgências, conflitos armados, proliferação, tráficos e criminalidade organizada, migrações, ameaças híbridas ou soberania económica.

A componente estratégica da missão do SIED eleva-o acima da mera reação à espuma dos dias. Compreender os factos, a sua trajetória e tendências, ajudar os nossos parceiros e decisores a prepararem-se para cenários mais complexos e desafiantes, promovendo os interesses nacionais das mais diversas formas e onde quer que se manifestem. Para lidar com a incerteza inerente ao atual contexto geopolítico, as Informações Estratégicas trabalham com graus de probabilidade e avaliações do ambiente securitário, recorrendo a meios próprios, por natureza distintos das demais instituições do Estado.

No cumprimento da sua missão, o SIED não age sozinho. Desde logo está integrado no Sistema de Informações da República Portuguesa, juntamente com o serviço irmão, o Serviço de Informações de Segurança. Conta, por um lado, com o apoio dos parceiros nacionais, por outro, no plano internacional, com os serviços congéneres, com os quais tem vindo a desenvolver uma cooperação bilateral cada vez mais estreita. Sem esquecer a cooperação multilateral, com as estruturas de intelligence da UE e da OTAN. Considerando o carácter internacional e transversal das principais ameaças comuns, a colaboração entre Serviços é decisiva para a consolidação de uma comunidade alargada de Informações.

Embora menos visíveis, as Informações Estratégicas, a par da Defesa e da Diplomacia, são um pilar fundamental do Estado. A sua missão: produzir Informações Estratégicas de Defesa, tendo em vista a salvaguarda da independência nacional, os interesses nacionais e a segurança externa do país, no estrito respeito pelos Direitos, Liberdades e Garantias plasmados na Constituição e na Lei. Foi assim nas últimas três décadas. Continuará a ser assim no futuro.

Os portugueses podem contar com os profissionais do SIED para afirmar Portugal perante os desafios do Século XXI, para continuar a “Adivinhar perigos, e evitallos” servindo Portugal com Inteligência.