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Os assinantes do Observador têm acesso antecipado a todos os episódios desta série, já disponíveis em observador.pt. Quarta-feira, dia 27 de julho de 1983. Seis da manhã, hora de alvorada nas camaratas da PSP na Ajuda, em Lisboa. Todos os dias de manhã, a rotina é a mesma para aquelas dezenas de homens e mulheres que ali vivem juntos. Tomar banho, fardar e seguir pra esquadra, pra formatura. Nas camaratas não se come. O pequeno-almoço toma-se mais tarde, já no bar do posto da polícia, antes de o serviço começar. Da camarata à esquadra de Belém, são cinco, 10 minutos no máximo. O agente Abílio Pereira está pronto a sair. Só falta cumprir um ritual.

Tínhamos um espelho. Quando saíamos da camarata, depois de nos fardarmos, passávamos pelo espelho pra vermos como estávamos. Quando nos fardávamos, olhávamos pro espelho e depois íamos para a rua.

Desce a calçada da Ajuda e já na esquadra toma finalmente o pequeno-almoço. Uma sandes de fiambre e um copo de leite. 06h45, hora da formatura. O agente Abílio Pereira junta-se a todos os outros no hall de entrada da esquadra de Belém. Hoje são pelo menos 10 os agentes prontos pra renderem os colegas de turno na rua. São os mais novos, acabados de sair da escola da polícia. Alguns ainda nem têm autorização pra fazer serviço sozinhos. Primeiro, vão ter de passar um mês na companhia de um agente mais experiente. Não é o caso de Abílio Pereira, mas até podia ser. Hoje é apenas a terceira vez que vai sair em patrulha individual. Segunda-feira esteve de serviço ali mesmo, à porta da esquadra. Terça, fez patrulha na Avenida da Torre de Belém e esta quarta-feira é escalado pra Avenida das Descobertas, também no Restelo. São 7h quando a carrinha da polícia arranca pra deixar os novos agentes nos postos e recolher os que estiveram de serviço durante o turno da noite. Abílio Pereira é um dos primeiros a sair. O colega que vai render passa-lhe o rádio e o roteiro da PSP, onde consulta a ronda que vai ter de assegurar durante as próximas seis horas. Começa a caminhar pelo passeio. O turno só acaba à 13h, mas desta vez não vai chegar ao fim. São 10h40. O agente Abílio está deitado no meio da estrada. À volta dele, há uma poça de sangue que vai alastrando lentamente. Tem cinco balas no corpo e não há ninguém por perto pra o ajudar. Passam 108 dias desde que Issam Sartawi foi assassinado em Albufeira, por ordem da organização palestiniana Abu Nidal. Nesta manhã de verão, em Lisboa, vai acontecer um novo ataque, ainda mais mortífero. O responsável é um outro grupo terrorista que faz atentados em todo o mundo. Ainda há 12 dias, cometeu um massacre no aeroporto de Paris. Uma mala armadilhada explodiu num balcão de check-in e fez oito mortos e 55 feridos. Agora a estratégia vai ser diferente. Não envolve apenas explosivos. Há um grupo de homens armados preparados pra entrar numa embaixada, fazer reféns e ficar o tempo que for preciso. E se for necessário, matar. "1983: Portugal à Queima Roupa" é uma série pra ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Vitória Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Episódio três: Ataque à Embaixada.

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7:30 da manhã. O despertador tocou há 60 minutos num dos prédios mais antigos da Estrada de Chelas. É lá que mora José Santos Silva, homem discreto de 48 anos, que se prepara pra sair de casa em direção ao trabalho. Todos os dias faz o mesmo trajeto às mesmas horas. Apanha um autocarro que o leva ao Cais do Sodré e depois outro pra Avenida das Descobertas, no Restelo, onde trabalha como motorista na Embaixada da Turquia. 8:30. José cumprimenta o segurança turco responsável pelo edifício da chancelaria e faz a vistoria ao carro que conduz desde que aqui trabalha. É um Lancia azul-escuro blindado e pertence ao corpo diplomático. No edifício ao lado, e ainda dentro do terreno da embaixada, fica a residência do embaixador turco. Na verdade, o diplomata está de férias. Por isso, por agora, só lá está o encarregado de negócios. No interior da casa, Yurttas Evrim Macolu despede-se da mulher e também sai pro trabalho. Desce as escadas, atravessa o terraço e chega ao escritório na chancelaria. Dez da manhã. Toca um novo despertador. O filho do encarregado de negócios turco é o último a acordar. Tem 17 anos e está de férias em Portugal. O plano é ficar até 14 de agosto, dia em que regressa a Ancara pra fazer exames. No futuro, quer seguir a carreira do pai. Na cozinha está Maria Lúcia. É a única empregada doméstica da residência que não foi de férias de verão. Nesta casa, parece tudo muito calmo, mas ninguém esquece o que aconteceu há pouco mais de um ano. A 7 de junho, um diplomata turco e a mulher estavam a estacionar o carro à porta de casa, em Linda-a-Velha, quando foram abordados por um homem misterioso de chapéu e luvas pretas. Estava calor. A janela do carro estava aberta. O homem disparou quatro vezes com uma pistola em cada mão e matou o diplomata à queima-roupa. A mulher ainda tentou fugir, mas também foi atingida na cabeça. O assassino nunca foi encontrado. Desde o atentado, foram reforçadas as medidas de segurança para todo o pessoal diplomático turco em Lisboa e para o edifício da embaixada. Há o receio de que possa ser alvo de um ataque a qualquer momento. 10:28. A mulher do embaixador, Cahit Efe, colhe flores no jardim da embaixada e chama a empregada Maria Lúcia. Faltam garrafas de água e é preciso passar pelo supermercado. É melhor ir de carro pra ser mais rápido. Pode ir como motorista, o senhor Silva, como costumam chamá-lo. Cahit Efe volta pra dentro e põe as flores numa jarra de cristal. O Lancia do corpo diplomático sai pelo portão principal. Na casa de dois andares, ficam apenas a mulher e o filho do encarregado de negócios. Quando o carro sai pra Avenida das Descobertas, o agente Abílio Pereira já vai a meio do dia de trabalho e já perdeu a conta às vezes que subiu e desceu a rua. Não se cruzou com quase ninguém. A cidade está praticamente deserta e o calor começa a apertar. Só há dois dias é que está sozinho na patrulha. Tem 23 anos e quer mostrar que está pronto. Quem entra na polícia espera uma vida de ação. E quando se juntou à quarta divisão da PSP, Abílio Pereira sabia que era justamente pra isso que estava a inscrever-se. Tem um primo na Polícia Judiciária e outro na GNR. Como acabou a escola da polícia com boas notas, podia ter escolhido a esquadra que quisesse. Mas em vez de optar por uma posição tranquila, o agente Abílio Pereira, trazido de Angola com três anos pra crescer com os avós em Chaves, preferiu a divisão que é responsável pela patrulha de zonas de Lisboa, como o Calvário, Campo de Ourique ou Belém. O que significa que entre as zonas em que vai ter de trabalhar estão o Casal Ventoso, o Bairro 2 de Maio e o Casalinho da Ajuda. Nada menos que alguns dos bairros mais problemáticos da cidade.

Era óbvio. Na altura, era óbvio. Optei por ali porque tinha familiares próximos e tinha camaradas que tinham onde ficar

Por agora está longe do perigo. Ou acha que está longe do perigo. Na Avenida das Descobertas, em pleno Restelo, não há rusgas nem perseguições. É uma zona da cidade onde só há embaixadas e pouco mais. Apesar disso, sente-se nervoso.

No terceiro dia, a pessoa vai com medo, porque a farda é um incômodo, é pesada. Quando a pessoa começa a trabalhar sozinha, a farda é pesada. A pessoa começa a olhar pra todos os lados, não sabe como há de estar. É um incômodo.

10:30 da manhã. O agente Abílio continua a seguir o percurso que foi deixado pelos colegas do turno anterior. Mais uma vez, sobe uma rua, passa pelas traseiras da Embaixada da Turquia e dá a volta de regresso à avenida principal. No caminho, passa por dois homens. Tirando estarem ambos de casaco, apesar do calor, não há nada que lhe chame a atenção. Ignora-os e segue pela avenida abaixo. É um erro enorme. Está a passar em frente à Embaixada da Turquia, distraído, a tirar notas num caderno. Cruza-se com ele um carteiro, que de repente lhe lança um alerta pra o perigo.

Quando o carteiro se apercebe dos indivíduos, porque um deles tem a arma atrás das costas e o carteiro me diz: "Fuja!" Quando o carteiro diz fuja, eu viro-me pra ele pra ver, eu ouvi o som, o que se passava. Quando me rodo pra olhar pro carteiro, o mesmo elemento tira a arma atrás das costas e efetua uma rajada que me acerta com um tiro no braço.

O agente Abílio Pereira acaba de ser atingido. Cai no passeio atordoado, enquanto o carteiro foge por entre os arbustos que dão pra embaixada vizinha. Ainda no chão, olha à volta e vê dois carros, ambos marca Ford Escort. Um deles já aqui tinha passado ontem, conduzido por um homem que disse que vinha apenas visar o passaporte. Mas foi do outro que saíram os dois homens que o atacaram. A custo, consegue levantar-se.

Eu levanto pra fugir, pra altar a entrada que ele tem na embaixada e o mesmo elemento que me dá a primeira rajada, levanta-se. Levanta-se não, ele olha pra mim, vê-me a correr e faz um outro disparo , onde me acerta com mais quatro tiros. Quando eu fico de cócoras, nessa mesma entrada que eu era pra eu fugir, vem um outro com uma ponta, a arma à cabeça, onde eu não peço nada. Levanto o braço, peço clemência interiormente pra não me matar. Vá lá.

Implorar pela vida é a única coisa que lhe resta.

Eu pensei, eu nesse preciso momento, mentalizei-me que ia morrer. Interiormente, eu mentalizei-me. Quando vejo o indivíduo com a arma apontada em direção a mim, eu disse: "Vou morrer". E ele abanou a cabeça a dizer que não. Desarmou-me e foi embora.

Abílio Pereira está deitado no chão. Já não tem forças pra fugir, nem pra pedir ajuda. E mesmo que tivesse, de pouco serviria. Em pleno verão e numa avenida em que não mora praticamente ninguém, o Restelo está deserto. Arrasta-se devagar pelo passeio com a ajuda do braço direito, o único membro que não foi atingido pelos cinco tiros. Consegue chegar ao lancil e deixa-se cair pra lá de canto. Fica ali deitado, com a cabeça no chão, junto à borda do passeio. Está quase inconsciente. Não se recorda se chega ou não a perder os sentidos. Nem sequer se apercebe do que continua a acontecer à volta dele. Muito menos tem noção de que, dentro do recinto da embaixada, o ataque está apenas a começar.

O segundo critério seria o número de presidências de câmaras municipais ganhas ou perdidas. E o terceiro critério seria os

Em julho de 1983, Portugal está ainda a tentar sair de um período de grande instabilidade política, que se arrasta desde o final do ano anterior.

As tendências apontam para uma diminuição significativa da porcentagem nacional de votos recebida pelo conjunto dos partidos que integram a Aliança Democrática.

Em dezembro de 1982, PSD, CDS e PPM, partidos da Aliança Democrática, a coligação que governa o país, conseguem cerca de 42% dos votos nas eleições autárquicas, contra 31% do PS. Apesar da vitória, é uma queda de mais de sete pontos percentuais em relação às últimas autárquicas, e uma perda de 30 câmaras municipais. O vice-primeiro-ministro, Diogo Freitas do Amaral, líder do CDS, classifica o resultado como um desaire eleitoral. O primeiro-ministro, Francisco Pinto Balsemão, demite-se uma semana depois e propõe ao presidente da República, o general Ramalho Eanes, o nome de Vítor Crespo para passar a liderar o governo. O chefe de Estado recusa e convoca novas eleições para abril de 1983. Como principal legado, o executivo liderado por Balsemão deixa a revisão constitucional que extinguiu o Conselho da Revolução e pôs fim à tutela militar do país. Essa alteração tem uma consequência indireta ao nível da segurança. Começam a estabelecer-se as bases para criar serviços de informações civis ou serviços secretos, como hoje os conhecemos, para substituir a DINF, o Departamento de Informações Militares em funcionamento desde 25 de abril. O coronel Francisco Rodrigues, diretor do OSCCHT, o Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, explica que nesta altura a DINF era o único departamento com competências para tentar defender o país de ameaças externas e internas. Como já tinha ficado evidente com o assassinato de Issam Sartawi a 10 de abril, em pleno Congresso da Internacional Socialista no Algarve, era preciso fazer mais.

Nós ainda demoramos alguns anos a estabilizar politicamente. Houve uma década em que não havia serviços de informações estruturados, tal e qual como eles se encontravam ontem, ainda estava muito ligado às informações militares, à questão da existência do departamento de informações da DINF. Eram muitas informações militares. As informações militares tratavam das informações propriamente militares, mas também tudo aquilo que eram informações civis, era a DINF que fazia tudo.

Agora, com as alterações à Constituição, a fundação de um serviço secreto civil torna-se finalmente possível. Mas primeiro é preciso clarificar a situação política. Quando acontece o atentado no Algarve, o país está em plena campanha eleitoral e o governo está em gestão. Ângelo Correia fazia parte desse executivo. Tinha a pasta da Administração Interna e considera que o caso não teve qualquer tipo de influência no resultado das legislativas, que acontecem apenas duas semanas mais tarde.

Nessa altura, o grande problema não era a insegurança, era a fome. Estávamos perante uma crise que estava a vir o FMI, desvalorização do escudo, contração financeira dos empréstimos bancários, redução dos montantes a emprestar, agravamento de impostos, agravamento de taxas. Começou o período de uma deflace, de uma recessão muito forte em Portugal.

O Partido Socialista vence as eleições sem maioria absoluta e faz uma aliança com o PSD, criando o governo do Bloco Central, que só toma posse em junho. Nessa altura, já a polícia acredita ter fechado o caso do homicídio de Issam Sartawi. É neste mês que começam a ser apresentados os relatórios finais da investigação e é concluída a autópsia do dirigente da OLP. O principal suspeito, Youssef Al-Awad, continua sem revelar a verdadeira identidade e está preso à espera de julgamento. Em julho, menos de duas semanas antes de o agente Abílio Pereira ser atingido com cinco tiros à porta da Embaixada da Turquia, o secretário de Sartawi, também ele vítima do atentado em Albufeira, tem alta do Hospital Regional de Faro e abandona imediatamente o país. O destino do secretário não é revelado, mas a saída repentina de Portugal começa a levantar dúvidas em torno do braço direito de Sartawi. Restelo, 10h35 da manhã. Cinco minutos depois de o agente Abílio Pereira ser atingido com cinco tiros. Com o agente da PSP neutralizado, os terroristas começam a apontar ao alvo principal: a Embaixada da Turquia. Com um dos carros tentam abalroar o portão, que não cede. Decidem continuar a pé. Ao todo, são cinco. Estão encapuzados e cada um leva uma metralhadora na mão. Saltam os muros e quando estão a preparar-se para invadir a embaixada, encontram outro obstáculo. Túlio Rosado faz parte do grupo de segurança pessoal da PSP, destacado para proteger a embaixada. Sai do edifício de pistola em riste e dispara para o ar para dissuadir os terroristas de avançar. Os invasores respondem e começa um tiroteio. Túlio volta rapidamente para trás para alertar a restante segurança e grita: " terroristas!" Também estava de serviço na embaixada no dia anterior. Foi ele quem reparou no Ford Escort branco estranho que ali tinha passado. Por precaução, memorizou a matrícula do automóvel. Percebe imediatamente que o carro que viu é o que acaba de embater contra o portão. Alertado pelos tiros e pelos gritos de Túlio, um dos guardas turcos sai da embaixada, também pronto a disparar.

Entretanto, quem está na chancelaria da embaixada, que é o guarda deles, está sempre a arranjá-los a eles todos. Por isso o comandante Rajadamni é morto por esse guarda turco. O que malvejou é morto ao entrar.

10h40. Os terroristas voltam a sair do recinto da embaixada e refugiam-se num dos carros. À segunda tentativa, conseguem finalmente derrubar o portão e acionam o plano B. Dos cinco homens que começaram o atentado, restam agora quatro. O objetivo inicial era entrar no edifício da embaixada, mas o tiroteio à entrada e a morte de um dos membros do grupo obrigam-nos a mudar de ideias. Invadem a casa do embaixador, colada ao edifício principal. Lá dentro, no rés do chão, está Djaide, a mulher do encarregado de negócios. Os homens levam-na para o primeiro andar do edifício, onde também está Atassai, o filho dela, de 17 anos. É ali, com os dois reféns a servir de escudo, que vão montar uma barricada. O agente Abílio Pereira foi atingido há 10 minutos. Ainda não apareceu ninguém para o ajudar. São 10h40. As poucas pessoas que vivem nas redondezas ou estão no trabalho ou de férias. E das embaixadas vizinhas também não sai ninguém para o socorrer. Com o passar do tempo, vai perdendo cada vez mais sangue. Está sozinho, estendido na estrada, sem se mexer. Se alguém o vir, o mais provável é que pense que está morto. E é esse pormenor que vai fazer com que a polícia apareça pouco depois.

A primeira comunicação foi dada porque eu estava estendido no chão e um carro que passa vai comunicar à esquadra que estava um polícia morto à entrada. Porque eu quando levo os tiros, quando me arrasto para a estrada, entre o lencil e a estrada, eu estico. Tapei a cabeça, claro, para ficar num plano mais baixo. E um senhor que passa e que vê-me esticado diz que para ir, que na esquadra estava um polícia morto à entrada.

Acaba por ser um acaso a salvar o agente. Precisamente naquele momento, passa na rua uma ambulância a caminho do hospital. Pára para socorrer Abílio e dali leva-o para as urgências de São José. Quando os primeiros reforços chegam à Rua das Embaixadas, já não encontram o agente ferido. A primeira coisa a fazer é cercar toda a embaixada. Rapidamente se monta um forte dispositivo policial. A seguir, a polícia inspeciona os carros dos atacantes. O Ford Escort vermelho está parado no meio do passeio da avenida, perto do local onde o agente Abílio Pereira foi baleado O Ford Escort branco, que já tinha rondado o local no dia anterior, está dentro do recinto da embaixada. Com as matrículas, a polícia consegue rapidamente perceber de onde vieram os automóveis. O vermelho foi alugado cinco dias antes, no Estoril. À imprensa, uma funcionária da agência de rent-a-car há de explicar que foram dois homens altos e morenos com passaporte libanês a levantar o carro alugado. À saída fizeram conversa, explicaram que tinham vindo passar férias a Portugal e até aproveitaram para dizer que estavam ambos solteiros. O outro automóvel foi alugado em Lisboa, no mesmo dia. A única informação que a polícia consegue apurar é que o homem que o foi buscar também era estrangeiro. Os dois carros, agora deixados na entrada da embaixada, estão carregados de explosivos. Mas têm também vários mantimentos, um fogão de campismo, recipientes de combustível e até um megafone. São indicadores de que o comando terrorista planeia ficar instalado na embaixada durante muito tempo. Ainda não é claro se conseguiram levar algum tipo de material para dentro da residência, mas uma coisa é certa: para tudo aquilo ter ficado ali, algo correu mal e o plano mudou. O que quer dizer que agora o grupo está a improvisar. E isso pode ser ainda mais perigoso. O ataque começou há menos de meia hora, quando o Lancia azul escuro com matrícula diplomática regressa do supermercado com duas paletes de água no porta-bagagens. O senhor Silva, o motorista da Embaixada da Turquia, e Maria Lúcia, a empregada, apercebem-se de que há alguma coisa de errado assim que entram na Avenida das Descobertas. No meio da estrada, estão carrinhas da polícia e agentes a cercar o edifício. Um deles, com metralhadora na mão, aproxima-se do carro pra o mandar dar a volta e sair dali. E conta aos dois passageiros o que acaba de acontecer. Lúcia é retirada do carro, visivelmente abalada com a notícia, e é levada para uma das residências ali perto. Se não tivesse saído para ir comprar água, seria agora uma das reféns dos terroristas. O senhor Silva faz marcha atrás e estaciona o carro no passeio. Aproxima-se de um dos agentes de guarda à embaixada, ainda sem acreditar no que está a ver. E é ao polícia que faz o primeiro desabafo: "Por dois minutos eu estaria morto". São 11:00. O cerco continua a ser reforçado à porta da embaixada e já foi ativado o Centro de Operações Policiais contra atividades violentas. A notícia já se espalhou por todo o país.

Estamos neste preciso momento a sobrevoar o edifício da Embaixada da Turquia. Estas imagens falam por si.

Os jornalistas tentam por todos os meios descobrir a identidade dos homens que invadiram a residência do embaixador. Mas há uma redação que não vai ter de se esforçar para saber quem está, afinal, por detrás do ataque. À portaria do Diário de Notícias, na Avenida da Liberdade, chega um envelope misterioso. Com letras desenhadas com escantilhão, traz escrito o nome do jornal e a palavra importante. No interior, está uma carta escrita em inglês.

"Recusamos qualquer forma de interferência policial. Pedimos que a polícia se abstenha nas próximas 48 horas do seguinte: estacionamento de agentes ou soldados que visem o isolamento do local; utilização de saídas de incêndio, acesso ao telhado ou caves, de modo a introduzirem-se na área de operações; estacionamento de atiradores nos telhados dos edifícios em redor; organização de grupos de assalto. Uma ação de tal ordem resultará, sem dúvida, em baixas entre a polícia e os reféns. Recusamo-nos a comunicar com a polícia porque não somos criminosos. Somos revolucionários. O nosso objetivo é a defesa dos legítimos direitos do povo arménio. Assinado: o Exército Revolucionário Arménio".

Agora a polícia já sabe quem são os homens que invadiram a embaixada. Já conhece as ameaças do comando terrorista arménio. E mais do que isso, já tem noção de que vai ter de gerir a situação com cuidado redobrado, ou não estivesse a lidar com um dos grupos bombistas mais temidos em todo o mundo, com dezenas de atentados registados na última década. À mesma hora, o telefone toca no comando da PSP de Lisboa. A chamada vem do interior da residência do embaixador da Turquia. Do outro lado da linha, e a tentar falar em português, está um dos paramilitares arménios que acabam de tomar de assalto o edifício. Tem uma ameaça clara e parece determinado em cumpri-la. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio. 11h50. Assim que chega à Avenida das Descobertas no carro patrulha, afasta-se dos colegas que vieram com ele, dá a volta pelo jardim junto à entrada da embaixada e passa para as traseiras do edifício. Sabe perfeitamente que no rés do chão há uma janela por onde é possível entrar.

Eu pensava que aquilo era um assalto normal, com umas pistolinhas normais. Pensava que era um assalto pouco, nunca pensei que era um atentado daquela natureza.

"1983: Portugal à Queima Roupa" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Vitória Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. O guião e as entrevistas são de Vasco Maldonado Correia. A sonoplastia e o desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.