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Ao sábado é dia de viajar pelos temas em agenda e que marcam a atualidade nos cinco continentes, sempre aqui na Rádio Observador e também em podcast. Eu sou o João Costa e Silva. Olá, Bruno Cardoso Reis. Sê muito bem-vindo.

Obrigado. Tudo bem.

Ouvi a edição da semana passada. Estava atento.

Nós ameaçamos aqui fazer um questionário.

Tu e a Vanessa Cruz.

Exatamente. Não vamos fazer, até porque a Vanessa não está cá, ela é que seria ótima.

Exato.

Fazer esse tipo de coisa.

Estou safro, para já. Vamos começar esta nossa semana na Ucrânia. Trump vai ser o protagonista desta edição, vamos falar muito dele. Trump que falou com Putin e afirmou que a Ucrânia está militarmente derrotada, alegando que já nem tem marinha. Bruno, isto é uma leitura correta da realidade militar no terreno ou é mais um pretexto da retórica de Donald Trump para forçar aqui uma negociação de paz que possa ser em moldes favoráveis para Moscovo?

Realmente é extraordinário e vale a pena continuar a notar estas coisas extraordinárias, que é na mesma semana, até foi no mesmo dia ou foi no dia a seguir, em que o chefe militar máximo dos Estados Unidos, o general Dan Kane, foi ao Congresso e embora não tenha em sessão aberta detalhado, afirmou taxativamente que os Estados Unidos têm provas de que a Rússia está a ajudar o Irão nos seus ataques aos Estados Unidos. A suspeita é que nomeadamente com coisas como intelligence, informações via satélite, etc., mas que o Irão não tem para ajudar a atingir alvos. Nós falámos aqui, por exemplo, que era muito pouco provável que o Irão por si só conseguisse fazer aquela tentativa de ataque à base de Al Garcia. Basicamente no mesmo dia, Donald Trump tem uma chamada de mais de uma hora com Putin e a conclusão dessa chamada é Donald Trump a seguir dizer: "A Ucrânia está derrotada". Ou seja, o que nós percebemos é, aparentemente, a Rússia estar a ajudar o inimigo dos Estados Unidos no contexto de um conflito armado, não altera esta empatia, esta confiança que Donald Trump tem em Putin. Nós já vimos isso, inclusive no primeiro mandato, Donald Trump a afirmar explicitamente que confiava mais no que lhe dizia Putin do que naquilo que lhe diziam os seus próprios serviços de informações. E portanto, quero acreditar que os serviços de informações dos Estados Unidos estejam a dizer ao presidente a realidade, ou seja, que isso, de facto, não é assim. Certamente terá sido algo que Putin terá dito a Trump. Dizer que a Ucrânia não tem marinha, isso realmente é verdade. Mas a Ucrânia não tem marinha desde 2014.

Não é um facto novo.

Não é um facto novo. Ou seja, a Ucrânia perdeu a sua marinha porque confiou nas garantias de segurança dos Estados Unidos e da Rússia, no chamado Memorando de Budapeste, 1994. Como parte do esforço para acomodar as necessidades de segurança de estatuto da Rússia, a Ucrânia aceitou a manutenção de bases militares russas, nomeadamente a principal base naval russa no Mar Negro, em Sebastopol, na Crimeia, quando a Crimeia era território ucraniano. E como resultado disso, os russos utilizaram precisamente essa base e essa presença militar para, em 2014, ocupar a Crimeia toda e de caminho, tomar conta da marinha ucraniana, que também estava baseada aí no essencial. Obviamente, a Ucrânia basicamente tem costa para o Mar Negro, portanto, era essa a sua base militar principal. Já que estamos a falar de marinha, em termos de guerra naval, a Ucrânia está claramente em vantagem. Se há uma área onde essa vantagem tem sido evidente, é exatamente essa. Aliás, com grandes implicações para todos os Estados e para todas as marinhas, inclusive um Estado como Portugal, que é um Estado em que a segurança marítima deve ser uma prioridade, ou para os Estados Unidos. Basicamente, o modelo que a Ucrânia usou com sucesso para derrotar a frota russa do Mar Negro é o modelo que o Irão agora está a usar também. Ou seja, usar sobretudo drones, drones aéreos, drones navais, drones subaquáticos, portanto, meios não convencionais, mísseis, para atingir estas plataformas tradicionais, estes grandes navios tripulados das grandes marinhas tradicionais, com grande eficácia, ao ponto de forçar a Rússia a retirar os seus meios da zona de Sebastopol, não os consegue usar praticamente no conflito com a Ucrânia e basicamente retirou-os para a parte mais afastada possível da costa russa do Mar Negro em relação à Ucrânia. Portanto, realmente nada disto faz sentido, mas é revelador realmente desta proximidade, desta empatia, desta simpatia, desta confiança entre Donald Trump e Putin, que justifica realmente que se pense que a pressão dos Estados Unidos, e enfim, também tudo o que temos ouvido em público vai nesse sentido, a pressão dos Estados Unidos é sempre sobre a Ucrânia e portanto, nesse sentido, tende a favorecer realmente um acordo que fosse mais nos termos que a Rússia deseja. Aqui o que está realmente a correr mal é precisamente que a Ucrânia continua a resistir militarmente, tem revelado até grande eficácia na utilização de novos drones, inclusive drones terrestres também no combate terrestre, drones aéreos e mísseis com ataques cada vez mais frequentes e mais eficazes contra as infraestruturas críticas que permitem, por exemplo, à Rússia produzir, refinar, exportar petróleo, gás, que são cruciais para alimentar a máquina de guerraE tem feito isso, sobretudo, já agora, também vale a pena sublinhar isso, com o apoio europeu. Portanto, uma das grandes dúvidas, e era uma dúvida real, era se a Ucrânia conseguiria continuar a defender-se, se não haveria um risco de colapso da resistência ucraniana, se conseguiria continuar a defender-se apenas com o apoio europeu, ainda com algum armamento, algumas munições norte-americanas, mas mesmo essas pagas pela Europa e, sobretudo, com apoio militar europeu e obviamente da própria indústria de defesa ucraniana, que também se tem desenvolvido e tem inovado muito. E a resposta, aparentemente, é que sim, a Ucrânia realmente continua a conseguir resistir. Portanto, de facto, a conclusão factual que podemos tirar é desta proximidade bizarra, paradoxal entre Putin e Trump, mesmo no contexto em que a Rússia está a ajudar o Irão.

E que já conheceu também muitos avanços e recuos. Precisamente no Irão, o guia supremo fez uma declaração no Dia do Golfo do Pérsico, que celebra a derrota portuguesa em abril de 1622. Nesta crise, Bruno, que parece avançar em câmera lenta no Médio Oriente, quem é que tem o tempo do seu lado? O Irão, com a sua paciência estratégica, ou o Ocidente, com a pressão diplomática? Que cenários é que se abrem aqui nesta crise no Médio Oriente?

Realmente, esta comemoração é interessante, eu não sabia que ela existia. Não é assim tão antiga, começa a partir de 2005, e faz parte, por um lado, deste constante cultivar de uma cultura estratégica de resistência contra o Ocidente. Os iranianos tendem a esquecer-se que, como já falámos aqui, a perda de Ormuz pelos portugueses, que estavam na altura em união dinástica com Espanha, com os Habsburgos de Madrid, em 1622, é feita com a ajuda dos ingleses. Portanto, é o início da presença inglesa nesta zona, que depois se vai tornar hegemônica no século XIX. Não é uma coisa tão simples como a versão nacionalista iraniana do regime quer fazer crer, mas também tem a ver com o facto de não é apenas Donald Trump que vive obcecado com alterar nomes no mapa, a questão do Golfo do México passar a Golfo dos Estados Unidos. Desde a década de 60 que os países árabes insistem em chamar ao Golfo Pérsico, e essa é a designação mais corrente por todo o mundo e da Organização Cartográfica Internacional, mas insistem em chamar de Golfo Arábico, com o argumento que há mais países árabes em torno do Golfo do que apenas um persa que é o Irão. E, portanto, é também parte dessa guerra de palavras. Mas neste caso, realmente foi um pretexto para mais uma declaração do guia supremo, que continua desaparecido, mas continua a comunicar por via destes discursos.

E há muitas notícias a circular sobre esse desaparecimento, não é?

Sim, é realmente algo muito estranho e que justifica todo o tipo de suspeitas, desde que ele está em coma, portanto, é uma espécie de fantasma, de fake cerdosa, algo assim, uma fachada para outros setores, nomeadamente a Guarda Revolucionária, setores mais duros tentarem dominar a agenda política iraniana, até que está gravemente ferido, desfigurado, etc. Há aqui realmente algo de estranho, mas a verdade é que é assim que estamos e essas declarações têm algum significado. No fundo, procuram passar a mensagem de que o Irão está disponível para algum tipo de acordo, mas não a qualquer preço, e sobretudo voltam a insistir nesta ideia de que o Golfo e que o estreito serão iranianos a prazo. Isso realmente parece algo inaceitável e extremamente perigoso. Aliás, nesta semana já ouvimos, por exemplo, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Indonésia, que é um país que temos falado aqui muitas vezes, que controla o estreito de Malaca e também o estreito de Sunda, que são dois estreitos que são cruciais para ligar todo o Extremo Oriente, toda a Ásia Oriental ao resto do mundo. Como eu disse nesse discurso, à volta de 70% do comércio de energia que circula entre a Ásia Oriental e o resto do mundo passam por ali. E veio dizer: "Se calhar devemos começar a cobrar também". Realmente falámos já aqui disso, mas temos aqui prova de que a questão cada vez mais está a ser colocada em cima da mesa, que é se isto é assim com o Irão, que ainda por cima este estreito é um estreito claramente internacional, ou seja, de um lado temos o Irão, mas do outro temos Omã, como também no estreito de Malaca, de um lado temos a Malásia, do outro lado temos a Indonésia, mas se esta moda pega, criamos aqui um precedente perigosíssimo. O que podemos concluir daqui é que, olhando também para as declarações do lado do Donald Trump, do lado do guia supremo, as declarações são no sentido do Irão nunca vai deixar de resistir e nunca vai desistir do estreito. Do lado dos Estados Unidos, Donald Trump vem dizer qualquer coisa como: "O Irão já nem tem militares", o que mais uma vez também não é verdade. As estimativas dos próprios peritos americanos é que o Irão continua a ter à volta de 40% dos drones, 60% dos lançadores de mísseis, muito graças a abrigos subterrâneos, etc. Continua a conseguir lançar mísseis, atacar países por toda a região até o Sarfogu, continua a conseguir condicionar a navegação segura no Estreito de Ormuz. Mas o problema aqui é que os dois lados parecem continuar convencidos que estão a vencer. E aqui a questão que tu colocavas é realmente central: na verdade, a quem é que o tempo favorece? À partida, eu diria, se nós olharmos para o histórico, o tempo tende a favorecer o ator aparentemente mais fraco, mas que opta por um conflito de tipo irregular, assimétrico, e que é o ator local. A grande potência que à partida teria vantagem.

E mais meios.

E que tem muito mais meios, mas temDe estar a projetar, a sustentar e a alimentar esses meios extremamente pesados e dispendiosos a milhares e milhares de quilómetros do seu próprio país, e tem de justificar isso constantemente em termos também políticos. Estamos a falar de gastos, estimativas entre 500 milhões e mil milhões por dia. Eu diria que o histórico aponta para o tempo favorecer mais o Irão. Ainda mais quando isto coloca um problema enorme à economia global. Nós temos estimativas de que se isto não se alterar até setembro, basicamente em setembro temos um colapso da economia dos hidrocarbonetos, com necessidade de racionamento extremo em termos de combustíveis, etc. Além do custo económico que se vai acumulando, que já vemos na inflação do preço de combustível, dos fertilizantes, portanto produtos derivados. Tudo isso realmente aponta para uma vantagem para o lado do Irão. Agora, em termos de cenários, só para terminar, eu diria que há aqui um cenário que é o mais racional, que é avançar-se num acordo mais limitado para abrir o estreito enquanto se negoceia outras coisas. Aparentemente, o Irão estaria a propor algo desse tipo, os Estados Unidos terão a recusar, o que me parece completamente irracional, mas nem sempre a razão prevalece. A outra possibilidade é voltar-se, de facto, ao conflito armado, seja numa modalidade semelhante à anterior, mas mesmo aí, apenas guerra aérea, dificilmente isso seria possível sem uma escalada, porque os alvos mais evidentes militares, por exemplo, muitos deles já foram atingidos, portanto, teríamos de passar para coisas como aquilo que Trump foi ameaçando, pontes, infraestrutura crítica energética no Irão. O Irão iria retaliar certamente com ataques ainda mais pesados, por exemplo, contra a infraestrutura energética de países como a Arábia Saudita, aquele oleoduto que liga a costa leste ao Mar Vermelho, e eventualmente uma escalada também horizontal, ou seja, a entrada dos Hutis e portanto ameaçar não apenas o estreito de Ormuz, mas também o estreito de Aden, o que obviamente obrigaria a desviar forças navais para garantir também a segurança desse outro ponto de estrangulamento da navegação global. Esse cenário de uma escalada militar parece-me bem possível, até porque temos indicações de que tem havido um reforço dos meios e também da logística de apoio aos meios militares norte-americanos, e portanto acho que corremos o risco de isso poder acontecer. Um terceiro cenário dentro desta escalada seria eventualmente até ações terrestres anfíbias norte-americanas, algo que se tem também especulado, ou a destruição por via aérea de Kharg, ou tentar tomar a ilha de Kharg com marinhas, forças especiais, etc., ou algumas ilhas na zona do estreito de Ormuz para tentar facilitar a ação militar aí. Mas isso, à partida, é muito arriscado em termos de baixas e dessas forças também depois poderem tornar um alvo.

E Bruno, em dois minutos, perguntar também a importância que tem neste contexto a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP, a Organização de Países Exportadores de Petróleo. Temos dois minutos.

A OPEP é criada em 1960, em Bagdá. É a organização dos produtores e exportadores, porque os Estados Unidos produzem o dobro da Arábia Saudita, mas obviamente são eles próprios grandes consumidores, portanto o principal exportador é a Arábia Saudita. Importa produzir muito e consumir pouco, e os países do Golfo aí são cruciais. Ele é fundado realmente em 1960, com cinco Estados membros: o Irão, o Iraque, o Koweit, a Arábia Saudita e a Venezuela. Atualmente são a Argélia, o Congo, a Guiné Equatorial, o Gabão, o Irão, o Iraque, Koweit, a Líbia, Nigéria, Arábia Saudita e Venezuela, depois mais a Rússia, na chamada OPEP+. Mas realmente aqui os Emirados não são o primeiro país a sair. Angola já tinha saído, por exemplo, em 2024. Antes disso, o Equador, o Catar ou a Indonésia. Geralmente ou porque se querem focar noutros negócios ou deixaram de ser exportadores, é o caso da Indonésia, passaram a importar, ou Angola quer aumentar as quotas. Aqui o especial significado disto é que os Emirados Árabes são o outro grande produtor com capacidade sobrante de produção a par da Arábia Saudita, e portanto, nesse aspeto, tem importância, e sobretudo significa também uma rutura na coesão, na aliança estreita entre os países do Golfo. Significa que os Emirados Árabes Unidos estão mesmo muito chateados com a Arábia Saudita e outros países do Golfo, que não lhe deram o apoio que eles achavam que deviam ter tido quando se tornaram o principal alvo dos ataques do Irão. Importa sublinhar isso, os Emirados Árabes foram mais atacados do que Israel pelo Irão, e portanto isto é um sinal realmente dessa insatisfação e de que esta guerra pode criar problemas e tensões na região, para além simplesmente da questão do Irão ou de Israel. Neste caso, está a criar claramente tensões também entre os Emirados Árabes e a Arábia Saudita.

Na segunda parte vamos falar de Donald Trump, que redirecionou o discurso, e de Cuba, que pode ser mesmo o próximo alvo, e também do país em destaque esta semana, que é a Grã-Bretanha. Até já, Bruno. Estamos de regresso para a segunda parte do "Cinco Continentes". Eu sou o João Costa e Silva, está comigo também o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, ficámos aqui com um assunto pendente da primeira parte, um assunto que foi desenvolvido ao longo das últimas horas, declarações de Donald Trump, que ameaçou uma ação militar contra Cuba. Será isto uma boa ideia, antes de resolver aquilo que falávamos na primeira parte, a questão do conflito no Irão?

Mais uma vez, eu percebo que haja pessoas que já estejam um bocadinho fartas do Donald Trump e de ouvir falar de Donald Trump, mas realmente, lamento, mas é o líder da potênciaDa grande potência mais poderosa a nível global.

Dita as regras nesse sentido.

Nesse sentido, é um pouco difícil ignorar coisas do gênero: "Vamos atacar Cuba". Era isso que eu queria destacar: o normal, quando um presidente vai atacar ou ameaçar atacar um país, é fazer essas declarações num contexto devidamente preparado, com um discurso também devidamente preparado. Neste caso, o que temos é Donald Trump falando, tanto quanto percebi, das alterações arquitetônicas na Casa Branca e, a respeito disso, fala do seu arquiteto preferido, com quem tem trabalhado muito, que é um cubano-americano, Rick González. Depois, a pretexto, vamos pôr isto aqui entre aspas, já que está falando de Cuba, diz que podemos a seguir invadir o país. É neste contexto que surge esta ameaça de invadir um país. De caminho, o que vale a pena sublinhar é que isto mostra que Donald Trump está cheio de vontade de resolver a questão do Irão, declarar vitória e seguir em frente. O que ele diz é: quando resolvermos a questão do Irão, quando estiverem a regressar esses meios, ele fala do porta-aviões mais recente, mais avançado, o USS Abraham Lincoln, pode tratar de Cuba. Mais uma vez revela o mesmo problema que existiu no Irão, que é subestimar o adversário, dizendo que Cuba está acabada. É verdade que o regime parece estar, de fato, numa situação crítica, mas a verdade é que já ultrapassou múltiplas crises desde 1959, muitas vezes à custa do fato de ser um regime autoritário repressivo, que não quer saber da economia, da qualidade de vida para a população, mas tem resistido muitas vezes. Apesar de tudo, é importante dizer que Donald Trump parece ter a noção de uma coisa fundamental que você referiu, que é: faz sentido começar uma nova guerra quando ainda não se acabou esta?

Mas a resistência possivelmente seria diferente, muito, se calhar, idêntica à questão da Venezuela, não é?

Sim, a partir do regime cubano, em termos militares, também temos todas as indicações de que está muito enfraquecido, não teria as capacidades que tem o Irão. Militarmente, isso talvez não pusesse grandes problemas. Agora, nunca se pode excluir coisas como, por exemplo, uma guerrilha a seguir ou algo desse tipo.

Sim.

Em todo caso, seria provavelmente um alvo mais fácil, mas nunca é boa ideia subestimar completamente o adversário, dizer que o regime está acabado. O regime ainda não acabou, continua lá.

A Rússia fez isso com a Ucrânia, ainda que em moldes diferentes, e o fato é que o conflito continua passados quatro anos.

Os Estados Unidos claramente fizeram isso também com o Irão nesta campanha. Isso parece-me sempre problemático, perigoso, mas, em todo caso, é verdade, Donald Trump diz: "Primeiro vamos acabar esta, vamos acabar o Irão". Ele parece dar por adquirido que isso no Irão se irá resolver rapidamente com uma vitória decisiva norte-americana. Não parece tudo claro. Se isso não acontecer, não sei se Donald Trump não se sentirá tentado a mudar a conversa, mudar o tema, fazendo algum tipo de ação contra Cuba enquanto as coisas não estão ainda resolvidas no Irão. Isso realmente é, na estratégia, um grande erro. A partir de uma das regras básicas da estratégia, é nunca, por opção própria, às vezes não é possível evitar isso. Por exemplo, na Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos foram forçados a combater uma guerra em duas frentes, contra o Japão no Pacífico e contra a Alemanha Nazista e os seus aliados no Atlântico, na Europa, e contra o Japão na Ásia. Mas a verdade é que isso não foi uma opção norte-americana. Sendo possível, deve-se obviamente evitar ter mais do que uma guerra, mais do que uma frente, porque isso obriga a dispersar recursos, a dispersar meios, torna muito mais difícil conseguir uma vitória decisiva. Foi um dos problemas que os Estados Unidos tiveram com o Afeganistão e o Iraque, aliás, nas últimas décadas. Vamos ver se realmente Trump evita cair nesse erro.

Estaremos atentos para perceber os próximos episódios. Sabemos que Donald Trump é sempre muito imprevisível. Vamos agora para o país em destaque esta semana, a Grã-Bretanha, mas em particular o destaque agora para a longa história de relação com os Estados Unidos. Aqui, Bruno, tu queres abordar a ideia desta relação especial com os Estados Unidos da América. Será que ainda é o pilar que os britânicos gostariam? E também qual é o papel diplomático da monarquia britânica, neste caso, em tudo isto?

É realmente uma longuíssima história, mas há realmente na cultura estratégica americana, a partir da Segunda Guerra Mundial, muito esta ideia da relação especial, um pouco como Portugal tende a ter também com países como o Brasil ou Angola. No fundo, a ideia de uma antiga colônia que se torna mais poderosa do que a antiga metrópole, e a antiga metrópole, de alguma forma, procura retirar algumas vantagens desta proximidade histórica, cultural, linguística, embora isso também suscite algumas reações. Aliás, precisamente com esta visita, o atual embaixador britânico na Grã-Bretanha, foi passada à imprensa uma conversa que ele achava que era à porta fechada com um grupo de estudantes, embora provavelmente pudesse ter sido mais prudente, em que ele diz precisamente que não gosta desse termo, uma relação especial. Acha que isso é uma coisa um pouco passadista e faz com que a Grã-Bretanha apareça como estando numa posição muito, a expressão em inglês é needy, portanto, muito à procura de sinais de proximidade com os Estados Unidos. Mas a verdade é que isso tem sido um pilar na cultura estratégica e na política externa britânica há muitas décadas. Mas realmente a história é muito longa. Podemos talvez, para facilitar, dividi-la em alguns períodos para evitarTemos o período da própria guerra da independência, que começa em 1775, a declaração de independência é em 1776. Obviamente, a monarquia é um irritante, é um alvo. A declaração de independência, no fundo, aparece como uma listagem de acusações contra o monarca, contra o rei George III. Já agora, vale a pena dizer que esse distante avô, o quinto avô, parece, do rei Carlos III, que ele aliás referiu nos seus vários discursos nesta visita, na verdade, em privado, até era favorável a uma solução negociada com os colonos norte-americanos. Achou que a linha dura do governo provavelmente não era a mais sábia, mas a verdade é que a Grã-Bretanha já estava a evoluir para uma monarquia constitucional, embora o monarca ainda tivesse muitos poderes nessa época. Quanto estive nos Estados Unidos, tive a oportunidade de ver uma exposição magnífica sobre os dois Georges, o George III, o rei da Grã-Bretanha na altura da Guerra da Independência, e o George Washington, que obviamente foi chamado George porque o seu pai era um leal súbdito britânico e, portanto, em homenagem aos vários reis Georges no século XVIII, mas que depois se torna o líder do exército independentista. Nessa correspondência, por exemplo, o George III deixa claro que ele está a ser um rei leal ao Parlamento. Portanto, isto é uma guerra do Parlamento contra os colonos americanos e que ele está a defender o seu Parlamento, o seu governo, apesar de poder ter aí algumas dúvidas. Basicamente, há um período, podemos dizer, entre 1776 e 1815, de relações muito tensas, muito conflituosas. Temos a Guerra da Independência, que termina em 1783 com o acordo de paz e o reconhecimento forçado da independência pela Grã-Bretanha, mas depois temos muitos momentos de tensão. É um período de guerras também, guerras globais, não se chamam guerras mundiais, mas, por exemplo, as guerras napoleônicas são guerras globais, sobretudo navais. E, por exemplo, a Grã-Bretanha tem esta política de tentar impor um bloqueio naval à França, e isso cria muitos conflitos com países neutros que querem continuar a exportar, a fazer comércio, como os Estados Unidos. Foi por isso que se tornaram independentes também e muitas vezes esses navios são interceptados pela Marinha Britânica, isso cria muitos conflitos e acaba por levar, aliás, a uma segunda guerra. Os americanos até chamam, por vezes, a Segunda Guerra da Independência, em 1812, 1815 ou 1814, que leva a que os britânicos inclusive ocupem, durante uns dias, a capital, Washington, que ainda estava em construção e queimam a Casa Branca. Também o rei Carlos, nesta visita, não deixou de dar essa nota em relação a estes planos de mudança da Casa Branca do Donald Trump, dizendo: "Bem, eu devo confessar que nós também tentamos fazer isso aqui há uns anos atrás", era uma referência até à ideia de que uma das razões por que a Casa Branca é branca, embora aparentemente isso não seja muito histórico e científico, é que foi pintada de branco para ajudar a disfarçar as manchas do incêndio provocado pelas tropas britânicas. Depois, temos um período de coexistência e gradual reaproximação, mas sempre com tensões, com problemas, que basicamente é todo o século XIX, desde esta paz do tratado de 1814 até o final do século XIX. Há disputas fronteiriças, por exemplo, nós não podemos esquecer, o Canadá continua a ser uma colônia britânica e durante muitas e muitas décadas, o Donald Trump agora voltou a isso, mas durante o século XIX havia muitos norte-americanos que achavam que o Canadá naturalmente devia ser parte dos Estados Unidos e isso cria ali várias tensões. Há uma disputa fronteiriça na zona do Oeste, onde a fronteira não estava definida, mas isso é um primeiro exemplo de um acordo de que Londres cada vez mais privilegia manter boas relações com esta potência emergente que são os Estados Unidos. Portanto, em 1846, até com algumas queixas dos canadianos, eles aceitam uma delimitação que é relativamente favorável aos Estados Unidos nesta fronteira do Oregon. Depois, na Guerra Civil Americana, há um novo momento de tensão, também com estas questões navais, de comércio, etc. Os norte-americanos têm muito receio que a Grã-Bretanha reconheça os estados do Sul como um Estado independente. Aí, a aversão britânica à escravatura, a impopularidade da escravatura na opinião pública britânica, é muito importante para evitar isso, porque do ponto de vista estratégico ainda podia fazer algum sentido. O fato de isso não ter acontecido ajuda a melhorar as relações, é um pouquinho um ponto de viragem, mas, por exemplo, logo em 1866, há um raide de irlandeses independentistas republicanos contra o Canadá, contra o Império Britânico, a partir dos Estados Unidos. É isso que vai, aliás, ajudar a formar depois a Federação do Canadá em 1867. Continua a haver aqui tensões. A partir do final do século XIX, começa a haver uma viragem, mas ainda há uma última crise importante, 1902, 1903, que leva, aliás, ao chamado Corolário Roosevelt, que Trump também agora veio voltar a falar à doutrina Monroe. O presidente Teddy Roosevelt vai dizer: "Bem, os britânicos, alemães estão a intervir na Venezuela para tentar cobrar dívidas." É essa a crise em 1902, 1903. "Nós não achamos isso bem, não vamos tolerar isso no futuro. Se houver necessidade de algum tipo de intervenção militar para lidar com uma guerra civil, um Estado nas Américas que não está a cumprir as suas obrigações internacionais, seremos nós a fazer isso." E a Grã-Bretanha acaba por aceitar isso. Também aceita arbitrar a delimitação de fronteiras entre a Venezuela e a colônia britânica da Guiana, que também já temos falado aqui várias vezes, desses conflitos fronteiriços que agora voltaram, e aceita resolver isso como diação norte-americana, portanto, reconhecendo um certo papel dos Estados Unidos.E depois, o que temos durante o século XX é o começar do forjar dessa relação especial e depois o consolidar disso. Na primeira metade do século XX, até a Segunda Guerra Mundial, ainda como uma aliança de iguais, ou seja, os Estados Unidos já são claramente uma grande potência. A partir da década de 80, de 90, do século XIX, com a segunda revolução industrial, os Estados Unidos já são economicamente maiores do que a Grã-Bretanha, portanto, uma economia maior, mais pujante que a Grã-Bretanha, mas obviamente, a Grã-Bretanha continua a ter o seu vasto império e, portanto, cada vez mais esta ideia, não de uma relação assimétrica com um Estado que está ainda a emergir, um Estado independente, jovem, frágil, no início do século XIX. Portanto, há aí uma relação especial, mas equilibrada, um pouco entre iguais. Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, obviamente, Churchill está nas grandes cimeiras com Stalin e com Roosevelt, mas com a Primeira Guerra Mundial e sobretudo com a Segunda Guerra Mundial, realmente, isso vai provocar um enorme desgaste do poder britânico, que depois ajuda a explicar a descolonização, o fim do império, que acentua ainda mais esta assimetria crescente de poder entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. Obviamente aqui os Estados Unidos foram cruciais, a sua intervenção foi crucial para decidir quem vence a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, ao lado da Grã-Bretanha, mas os Estados Unidos já antes da Segunda Guerra Mundial, vale sempre a pena sublinhar estes números, basicamente com metade da produção industrial do mundo. O resto do mundo somado produz tanto como os Estados Unidos, que são a única grande potência, a única grande economia que não é diretamente atingida pela guerra. A partir daí, a Grã-Bretanha vai basicamente ter como prioridade da sua política externa não ter crises sérias nas relações com os Estados Unidos, ter as relações o mais próximas possíveis. E a crise do Suez, que é a última grande crise nas relações bilaterais, 1956, uma intervenção britânica e francesa no Egito, que eu aliás aqui referi também a respeito agora destas queixas do Donald Trump por a NATO não o apoiar no Irão. A NATO foi criada em 49, foi muito uma iniciativa também britânica e norte-americana, mas não está obrigada a apoiar ações militares britânicas no Egito, como não está obrigada a apoiar ações militares norte-americanas no Irão. Mas em 56, o presidente Eisenhower não só não apoia, como publicamente critica, distancia-se, pressiona os britânicos e os franceses a retirar. A lição que a França retira disso, logo dois anos depois vem de Gaulle, é: nunca mais vamos estar dependentes dos Estados Unidos, autonomia estratégica no nuclear, por exemplo. A lição britânica é: nunca mais vamos permitir que haja aqui este género de tensões, de diferendos, e portanto, vão se colar muito mais ainda aos Estados Unidos. Por exemplo, em termos nucleares, a Grã-Bretanha não tem um programa nuclear, não tem armas nucleares completamente autónomas, depende de tecnologia de cooperação com os Estados Unidos. Esta relação especial tem levado, de facto, muitas vezes, os primeiros-ministros britânicos a apostar uma colagem quase a qualquer preço. E vimos isso, por exemplo, com Tony Blair na guerra do Iraque em 2003. É verdade que a Starmer realmente não seguiu essa linha, desta vez no Irão, também porque Trump é extremamente impopular por toda a Europa, inclusive na Grã-Bretanha. Continua a haver alguma realidade nesta relação especial. Por exemplo, o mercado americano é crucial para as exportações britânicas, por exemplo, em termos de defesa de informações, a proximidade, a interpenetração entre os britânicos e os americanos não tem realmente paralelos. Por exemplo, em termos de recolha de informações, de intelligence, os famosos Five Eyes, são os cinco países de língua inglesa, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Grã-Bretanha e Estados Unidos, que colaboram para recolher informações, por exemplo, a interceção de comunicações, etc, por todo o mundo, depois partilham essas informações de uma forma que não fazem com mais ninguém. Mas realmente é uma relação cada vez mais assimétrica, em que cada vez mais os Estados Unidos pesam e a Grã-Bretanha muitas vezes se sente quase que obrigada a seguir e às vezes isso não é evidente que seja no interesse realmente da Grã-Bretanha. Obviamente, a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, o Brexit, ainda acentuou mais essa assimetria e essa dificuldade britânica de gerir estas relações com a grande potência americana.

Temos quatro minutos até o final, Bruno. Vamos ainda, antes da tua recomendação, e de forma breve, falar das tarifas pesadas de 25% sobre os automóveis europeus. Além deste impacto econômico, o que nos diz esta decisão de Trump nesta fase?

O que nos diz é: Trump realmente não é de fiar. E esta estratégia de chegar a um acordo comercial quase a qualquer preço com Donald Trump não resultou. Um dos grandes argumentos era a importância da exportação de automóveis da União Europeia para os Estados Unidos. Este setor é realmente extremamente importante, representa mais de 10% do PIB da União Europeia. Por exemplo, no caso de Portugal, representa mais de 10% das exportações portuguesas, emprega milhões de pessoas em múltiplos setores, porque não é apenas as próprias empresas de automóvel, é todas as outras empresas que fornecem componentes para automóveis. E realmente o principal mercado de exportação da União Europeia são os Estados Unidos, em termos de valor. Mas claramente com Donald Trump não é possível chegar a acordos duráveis, ele não se deixa condicionar por acordos, mesmo quando eles são assinados por ele próprio. Além disso, a verdade é que ele vem dizer: "Bem, os europeus não estão a cumprir o acordo anterior." Isso em parte é verdade, porque há ali componentes, por exemplo, de investimentos ou de importações dos Estados Unidos, promessas que foram feitas que eram, obviamente, completamente impossíveis de fazer. A União Europeia não podia garantir isso, porque isso dependia das decisões de privados. E, portanto, sempre me pareceu que Donald Trump, com facilidade, podia utilizar esse argumento exatamente para voltar a pôr em questão o acordo. Mas isso realmente mostra que para Donald Trump, a União Europeia continua a ser um inimigoUm inimigo comercial e que é impossível construir qualquer tipo de relação estável com os Estados Unidos com Donald Trump. Portanto, parece-me que realmente é a altura da União Europeia pensar em usar as tais medidas anti-coercivas, de anti-coerção económica, que não usou anteriormente. Acho que é evidente que se elas foram pensadas para alguma coisa, é para este tipo de táticas que Donald Trump utiliza constantemente.

Têm de ser postas em prática, no fundo.

Obviamente, numa guerra comercial toda a gente perde e portanto isto eu percebo que provoque hesitações nos europeus, mas a verdade é que não vejo outras alternativas.

Bruno, estamos mesmo a chegar aos minutos finais. Vamos avançar já para a tua recomendação desta semana.

A recomendação desta semana é um livro-

Trazes contigo e tudo.

Exatamente. Um livro do Luke Camp, "A Maldição de Golias: a História, o Colapso das Sociedades e o Futuro". É uma obra muito interessante, existe em tradução portuguesa, obviamente, saiu recentemente. É uma obra muito interessante deste Luke Camp, que é diretor, é um investigador do Centro para o Estudo do Risco Existencial na Universidade de Cambridge. Há cada vez mais, de facto, investigação focada nesta ideia de como é que se gera ou se evita o colapso civilizacional, o colapso de uma economia, de uma sociedade, de um Estado, como é que se previne isso, como é que se antecipa esses problemas e se procura reforçar a resiliência, que é agora também uma palavra que está muito na moda. Aquilo que é interessante também nesta abordagem, é que é uma abordagem histórica de muito longo prazo, começa com a antiguidade, utiliza várias bases de dados com múltiplos casos, com centenas de casos. Há alguns livros que já tentaram fazer este tipo de estudo, por exemplo, o Jared Diamond tem também um livro interessante chamado "Colapso", mas com três ou quatro estudos de casos, por exemplo, a Ilha da Páscoa, etc. Aqui é uma coisa muito mais ambiciosa, de muito mais longo prazo. Realmente uma história global, se quisermos, do colapso civilizacional. Apesar de tudo, com um elemento um pouco positivo, não sei porquê, desde livros académicos a séries de ficção, agora há uma enorme tendência para este tema do colapso civilizacional.

Sim.

Mas a verdade é que o Luke Camp insiste num ponto que é, de facto, os seres humanos têm uma dimensão muito competitiva e conflituosa, mas também têm uma dimensão muito cooperativa, desde os tempos mais remotos, desde as tribos com orientações mais básicas que é possível verificar isso. O colapso civilizacional não é inevitável. Esta ideia de que há um apagão e de repente toda a gente começa a matar toda a gente, realmente não parece ser assim. As pessoas percebem que é inteligente cooperarem umas com as outras, desde que essa cooperação seja recíproca.

Recorda-me só o título.

Luke Camp, "A Maldição de Golias: a História, o Colapso das Sociedades e o Futuro", da Bertrand.

É desta forma que fechamos esta edição do "Cinco Continentes" com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, um abraço e boa semana.

Obrigado. Boa semana.