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Vamos viajar pelos Cinco Continentes, sempre aqui na Rádio Observador, com os assuntos que marcam a geopolítica internacional. A análise é feita pelo Bruno Cardoso Reis. Eu sou o João Costa e Silva. Bruno, seja muito bem-vindo. Como é que estás?

Olá, obrigado. Está tudo bem. Cheio de vontade de começar férias, mas tudo bem.

Está quase. Já faltam mais.

Exato.

Bruno, esta semana aqui no nosso Cinco Continentes vamos começar pela NATO, uma cimeira bem quentinha, mas vamos começar pelo básico e talvez até para enquadrar os nossos ouvintes, olhando também para as origens da NATO e para a sua evolução. Quais são os dados e também as datas e marcos fundamentais que definem esta Aliança Atlântica e como ela se transformou estruturalmente desde a sua fundação até ao atual contexto que conhecemos de maior confrontação que tem existido nestes últimos tempos?

Sim, eu realmente acho que não há que ter uma visão idealizada da NATO e do seu passado, que é uma história que já tem sete décadas, portanto, é muito tempo. Ao longo desse tempo, houve momentos de tensão, houve momentos de crise, inclusive com Portugal, diga-se, durante alguns anos, entre 1961 e 1976, pelo menos, Portugal foi um aliado problemático na NATO, primeiro com a questão colonial, a questão da resistência de Portugal à descolonização e as guerras que daí resultaram, que era um problema para a imagem do Ocidente, de acordo com muitos países. A própria natureza também autoritária do regime até 1974 foi um problema para alguns países. Países como o Canadá, por exemplo, opuseram-se a que Portugal fizesse parte dos membros fundadores da aliança em abril de 1949, porque era um regime autoritário. E depois a questão da transição do PREC, portanto, um período de grande instabilidade, grande incerteza, o risco de haver, no fundo, comunistas num governo muito alinhados com a União Soviética num país membro, etc. Portanto, de facto, houve muitas tensões, mas do meu ponto de vista, estes anos são aqueles de uma crise mais séria, mais existencial, se quisermos, desta aliança que tem tido grande sucesso. Mas sendo um pouquinho mais sistemático na história e depois então aos dados: 4 de abril de 1949, a criação da NATO, a assinatura do Tratado de Washington, o tal tratado que tem o famoso Artigo Quinto, um por todos e todos por um. Portanto, um ataque a um dos países membros será considerado como uma agressão a todos e há uma obrigação de providenciar ajuda, inclusive militar, mas há aqui alguma margem. O artigo tende a ser lido como obrigando a ajudar militarmente um país agredido, mas não é exatamente assim, há aqui um pouquinho mais de margem para manobra, mas em todo o caso, é esta cláusula que é central, a questão da cláusula de defesa coletiva. E o tratado obviamente faz parte deste esforço por parte dos Estados Unidos de conter a União Soviética, de conter a Rússia comunista, que tinha sido um aliado durante a Segunda Guerra Mundial, mas rapidamente se revela um grande perigo, uma grande ameaça, nomeadamente para aquilo que resta da Europa livre, da Europa Ocidental, bastante arruinada pela Segunda Guerra Mundial, e portanto, esse esforço de contenção da União Soviética na Europa, em conjunto com os países europeus que voluntariamente tentam que, o mais possível, os Estados Unidos se mantenham na Europa militarmente para contrabalançar a enorme vantagem em termos de meios militares da União Soviética em relação aos países europeus muito enfraquecidos pela guerra. Portanto, a criação da NATO, abril de 1949, a missão da NATO, que se mantém durante muitas décadas, é bem sintetizada pelo seu primeiro secretário-geral. A aliança depois rapidamente se vai tornar mais do que uma aliança, vai-se tornar uma organização político-militar a partir de 1952, com a criação de um secretariado de representantes permanentes, portanto, embaixadores que estão sempre em Bruxelas para consultar, coordenar a ação entre os aliados, e um secretário-geral, escolhido obviamente pelos Estados membros, que é suposto ser um pouco a voz da aliança e também promover ativamente o entendimento entre os aliados. Esse primeiro secretário-geral é o Lord Ismay, o antigo adjunto militar do Churchill durante a Segunda Guerra Mundial, e o Lord Ismay sintetiza muito bem os objetivos da aliança: "Keep the Americans in, the Russians out, and the Germans down." Portanto, a ideia de manter os americanos na Europa, envolvidos como aliados, como garante de segurança, manter os russos, ou seja, os soviéticos, a União Soviética, fora da Europa livre, e manter os alemães em baixo, ou seja, essa questão depois perdeu importância, mas havia um grande receio de que uma Alemanha reconstituída pudesse voltar a ser novamente uma ameaça militar para os seus vizinhos e, portanto, mantê-la dentro da aliança, sob controle da aliança. A Alemanha vai poder rearmar E vai formalmente integrar a Aliança Atlântica em 1955, esse é outro marco muito importante, mas sob controle dos aliados. Os exércitos estavam sempre sob comando conjunto. 1955 também é um marco importante. Na verdade, esse é o segundo, o primeiro alargamento da NATO é logo em 1952, com a entrada da Grécia e da Turquia, um alargamento mediterrânico. Inicialmente 12 membros fundadores, inclusive Portugal, a Itália, os países do Benelux, o Canadá, os Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, e depois vamos ter esse primeiro alargamento em 52, 55 à Alemanha Ocidental. Um outro marco muito importante, 1966, a França sai desta estrutura militar conjunta, destes comandos conjuntos, só vai regressar em 2009, mas mantém-se na aliança. É uma forma de afirmar a sua autonomia estratégica em relação aos Estados Unidos. Em 1982, a Espanha vai entrar na aliança. A Espanha de Franco nunca tinha entrado. Isso também nos recorda que na Espanha sempre houve um setor também muito anti-americano, mesmo na própria direita. Depois, obviamente, a grande viragem é o final da Guerra Fria, a partir de 1991, o colapso da União Soviética. E aí põe-se a questão de saber se a NATO faz sentido ou não, se deve continuar a existir ou não. A conclusão dos aliados é: faz sentido, porque o mundo continua a ser muito perigoso, muito imprevisível, há novos tipos de ameaças e faz sentido continuar a ter aqui esta garantia de segurança coletiva, inclusive, eventualmente, contra a própria Rússia, uma Rússia reconstituída. Isso vai ser muito importante para os países do leste, que vão conseguir, com sucesso, defender que devia haver um alargamento a leste. Isso concretiza-se em 1999. Entra a Polônia, a República Checa, a Hungria, mas com a garantia de que não haveria tropas dos países da NATO, não haveria base dos países da NATO nesses países, para tentar, no fundo, passar a mensagem à Rússia que era só uma questão de garantia de segurança, não era de alterar a relação de poder ou ter tropas ou meios que pudessem ameaçar a Rússia. Isso só vai ser alterado a partir de 2014, com a primeira fase da agressão russa contra a Ucrânia e com a anexação da Crimeia. Eu diria, essa é uma segunda viragem importante, ou seja, a Rússia volta a ser a grande prioridade. Em 2001, temos a primeira vez que é evocado o artigo quinto, também ao contrário do que diz Donald Trump, que é para defender os Estados Unidos. Eu diria que estas são algumas das marcas mais importantes, a par da eleição em 2016 de Donald Trump e a sua reeleição em 2024. Em termos de números, e para terminar, a NATO realmente é de longe a aliança de defesa mais importante, mais robusta, mais bem-sucedida da história. Nunca nenhuma aliança com tantos Estados membros, a NATO começou com 12, já está nos 32, com a adesão da Suécia e da Finlândia em 2023, 2024. Nunca nenhuma aliança com tantos Estados membros durou durante tanto tempo. Já vamos nas mais de sete décadas. Depois, é de facto a aliança militar mais poderosa do mundo. Estamos a falar de quase 1,6 bilhões, ou na linguagem americana, digamos, anglo-saxônica, trilhões de dólares. Obviamente, os Estados Unidos são a maior parte, 950 mil milhões, mas a NATO europeia mais o Canadá, o ano passado já chegou aos 560 mil milhões, ou seja, quase 600 mil milhões de dólares de investimento em defesa, uma subida de 14% só no último ano. Isso significa que é oito vezes mais do que a Rússia, que está a gastar quase 200 mil milhões, é cinco vezes mais do que a China, que está a gastar around 340 mil milhões. E é realmente, de longe, a aliança militar mais poderosa, mais bem financiada a nível global e historicamente aquela que tem sido mais coesa, que tem uma organização e não apenas uma aliança, que lhe dá uma grande coesão e também uma grande eficácia militar, porque isto de combater com aliados muitas vezes é bastante perigoso, há o chamado fogo amigo. Se não houver doutrina partilhada, se não houver treino frequente em conjunto, se não houver sistemas de armamento também semelhantes, é tudo isso que a NATO procura desenvolver há muitas décadas.

Muito bem, o Bruno Cardoso Reis, que nos trouxe aqui dados, datas e também marcos fundamentais importantes sobre esta organização, a NATO. Precisamente, Bruno, nesta cimeira, Donald Trump voltou a insistir fortemente no burden sharing, empurrando os aliados para metas ainda mais ambiciosas, se é que lhe podemos chamar assim. Fala-se agora, por exemplo, a tentar alcançar os 5% do PIB em defesa até ao ano de 2035. Olhando para a história também destas alianças militares, esta exigência financeira que é pedida e a discussão sobre quem paga o quê, que tantas vezes também falamos aqui no "Cinco Continentes", é obrigatoriamente também este um motivo de fricção entre os países que fazem parte da NATO?

Realmente, Donald Trump insistiu muito em que houvesse um aumento no investimento em defesa e realmente conseguiu, a partir do ano passado, que se passasse dos 2%, pelo menos, como base, para os 3,5% de investimento em defesa propriamente dita e depois mais 1,5% para chegar aos 5% em investimento em áreas conexas à defesa, por exemplo, redes, infraestruturas críticas mais resilientes Redes elétricas mais seguras, etc. A questão de quem gasta, quem paga, quem faz o que numa aliança, realmente é uma questão que sempre se colocou e que sempre suscitou algumas tensões. Mas, tipicamente, essa não é a questão crucial. E sobretudo, tende a ser uma questão ainda menos importante quando estamos a falar de alianças assimétricas, ou seja, em que há um país que é claramente muito mais rico, muito mais poderoso do que os outros. Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos tinham tratados de aliança com os países da América Latina. A maior parte desses países declararam guerra à Alemanha Nazi durante a Segunda Guerra Mundial e ao Japão, depois dos Estados Unidos entrarem na guerra em dezembro de 1941, mas apenas o Brasil enviou algumas tropas para combater na Segunda Guerra Mundial na Europa, concretamente na Itália, o Corpo Expedicionário Brasileiro, mas foi o único. E isso não foi propriamente um grande problema para os Estados Unidos, porque por muito que o Brasil gastasse, apesar de tudo, o Brasil tinha uma escala um pouco diferente, um pouco maior, mas por muito que a Costa Rica, que as Honduras, que a Colômbia gastassem, não ia fazer assim tanta diferença a mais. Para os Estados Unidos, o que era sobretudo importante era acesso a localizações estratégicas para bases, por exemplo, o nordeste brasileiro, e acesso a recursos estratégicos, a negação de acesso a esses recursos, a essas bases por parte de potências inimigas. Isso muitas vezes é que é o mais importante em alianças mais assimétricas. A mim parece-me bastante evidente que, sendo verdade que isto tem sido um irritante e é discutido há bastantes anos, para os líderes americanos era evidente que a Europa era uma prioridade, é de longe o maior mercado para os Estados Unidos, é a relação econômica mais integrada a nível global. Estrategicamente é muito importante, no fundo, é uma zona de defesa avançada de tudo o que é costa atlântica dos Estados Unidos. Tem sido muito importante também para a projeção de poder dos Estados Unidos, as bases na Europa para outras regiões, como vimos ainda agora no caso do Irã. Isso tudo era muito mais importante, obviamente, a contenção da União Soviética, que era um rival estratégico dos Estados Unidos, como a própria Rússia de Putin também é ou pretende ser. Tudo isso era muito mais importante do que exatamente estas contas de mercearia. No fundo, a pressão era sempre no sentido, apesar de tudo, não se gastar tão pouco que os exércitos europeus se tornassem incapazes de ajudar minimamente os Estados Unidos. E a verdade é que apesar de tudo, apesar da Europa dever gastar mais em defesa já há mais tempo, sempre foram os aliados mais capazes militarmente e mais capazes e disponíveis de ajudar militarmente os Estados Unidos em múltiplos conflitos. Parece-me que isto é, sobretudo, um pretexto, no caso do Donald Trump, um pretexto para tentar vender mais armamento americano e também um pretexto para justificar junto dos americanos dar menos prioridade aos aliados europeus, dar menos prioridade à NATO, que apesar de tudo, tende a ser relativamente popular entre os norte-americanos.

Bruno, em dois minutos, perguntar também se a NATO saiu efetivamente reforçada desta cimeira e se os receios que falavas em torno também do presidente norte-americano foram manifestamente exagerados. Em dois minutos.

Eu acho que é bastante revelador que toda gente tenha ficado extremamente satisfeito simplesmente com o facto do Donald Trump não ter feito insultos, ameaças novas, só fez antigas, ou seja, voltou a falar na Groenlândia, voltou a ameaçar uma guerra comercial com Espanha, voltou a dizer que a retirada de tropas norte-americanas da Europa era uma coisa que estava em cima da mesa. Ou seja, é verdade que não houve ameaças novas. É verdade que, apesar dessas ameaças, na cimeira em si, as coisas parecem ter sido relativamente cordiais e houve um comunicado final que reafirma o artigo quinto, que apresenta a Rússia como uma ameaça, que elogia a Ucrânia como importante na contenção dessa ameaça russa. Agora, a minha questão é: alguém acredita que o Donald Trump se vai deixar limitar por um comunicado? Que se lhe disserem: "Você assinou o comunicado de Ancara e já não pode dizer mal dos aliados ou tem que considerar a Rússia uma ameaça." Isso é evidente que não é assim. Ou seja, nós estamos basicamente satisfeitos porque não foi ainda desta vez que o Donald Trump causou mais danos públicos, causou mais problemas à aliança. Portanto, acho que sim, é verdade que podia ter sido pior, mas nós estamos aqui claramente num contexto sempre com o Donald Trump do mal menor em relação à sobrevivência da Aliança Atlântica, em relação a um presidente que é visceralmente avesso a alianças, porque ele vê tudo o que são alianças como, por um lado, um esquema para explorar o poder, a riqueza, o poder militar dos Estados Unidos por potências mais fracas e, por outro, uma limitação do seu poder discricionário como presidente de fazer o que entender quando entender.

Bruno, ficamos por aqui nesta nossa primeira parte. Ainda vamos voltar à Cimeira da NATO para falar também da perspectiva portuguesa na nossa segunda parte, logo depois das notícias. Até já. De regresso para a segunda parte dos Cinco Continentes, sempre com o historiador Bruno Cardoso Reis. Eu sou o João Costa e Silva. E Bruno, vamos voltar ainda a um tema da nossa primeira parte, esta cimeira da NATO. Entretanto, o primeiro-ministro Luís Montenegro surpreendeu ao anunciar na cimeira que Portugal prevê elevar o investimento em defesa e também infraestruturas de segurança para cerca de 3,1% do PIB até ao final deste ano. Recebeu, desde logo, elogios diretos do secretário-geral Mark Rutte. Bruno, Portugal confirma-se agora como um aluno exemplar? Nós na primeira parte, e tu foste falando disso também, de uma altura em que Portugal não era bem visto na NATO, agora confirma-se como um país de confiança?

Sim, embora ironicamente, nesse período, Portugal era o país da aliança que mais gastava em termos de PIB em defesa. Porque obviamente estava a fazer um enorme esforço de guerra em três teatros, em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Portanto, Portugal chegou a ser acima dos 7,5% do PIB em defesa, gastava mais em termos relativos do que os próprios Estados Unidos. Mas obviamente, isso também mostra que esta questão do nível de investimento em defesa não é só a única coisa que importa. E realmente, aqui olhar para os números e olhar para onde é que se gasta, também vale a pena. Em todo caso, eu acho que é de saudar este esforço do atual governo para reforçar o investimento em defesa. Acho que isso foi muito importante para credibilizar Portugal entre os aliados. Há tensões não só com os Estados Unidos, mas também com os países mais do norte e do leste, que estão um pouco na linha da frente em relação à Rússia ou em relação à Ucrânia, que têm reforçado muito o investimento em defesa, que inclusive já ultrapassam os 5% do PIB, em alguns casos, por exemplo, os países bálticos. Mas é verdade que obviamente, uma coisa é gastar por solidariedade, por prevenção, porque o mundo está, em geral, a tornar mais perigoso, porque a tecnologia militar está a mudar muito, que é muito o caso dos países do Sul. Outra coisa é gastar, porque temos um sentimento de ameaça militar direta, que é o caso, por exemplo, dos países bálticos ou da Polônia, onde gastar muito mais em defesa não é polêmico, porque as pessoas realmente sentem que, sobretudo se a Rússia deixar de ter de se preocupar com a Ucrânia, de repente pode passar a ter outros alvos. Mas isso é muito importante e é de saudar. Agora, há que sublinhar um aspecto, que é, pelo que eu percebi, este aumento para os 3,1%, isso também é útil, o elogio de Mark Rutte, sem dúvida, será sincero, mas também é útil para esta gestão de Mark Rutte de Donald Trump, ou seja, ele está sempre a insistir que por causa do Donald Trump, os europeus estão a gastar muito mais. Na verdade, não é só por Donald Trump e não é necessariamente por boas razões, é realmente porque os Estados Unidos são um aliado menos fiável, mas obviamente também é por causa da questão da Rússia. Mas isso ajuda Mark Rutte e portanto, Portugal, desse ponto de vista, também ganha ponto junto da aliança, junto do quartel-general da NATO em Bruxelas. Mas há aqui que sublinhar um aspecto, que pelo que eu percebi, este investimento, este reforço, é essencialmente nos tais 1,5% de outras despesas, despesas correlacionadas, ou seja, despesas, por exemplo, na infraestrutura elétrica, para a tornar mais resiliente, mais segura contra todo o tipo de riscos e ameaças, sejam ambientais, seja, por exemplo, de ações de sabotagem, ciberataques, etc. Isso é muito importante, faz sentido. Agora, não substitui, portanto não são 5%, como se quiser, é 5%, mas 3,5 deve ser nesta despesa em áreas mesmo militares, ou seja, basicamente investir em tropas, investir em rearmamento. E sobretudo, há um segundo objetivo, que é esse reforço de investimento deve corresponder 20%, pelo menos, em novo equipamento, em novo armamento, para simplificarmos. Não é só armamento, mas basicamente. Ora, aí Portugal já está quase na linha vermelha, ou seja, atrás de Portugal só está a Bélgica, que é o único país que não cumpre esse objetivo dos 20%. Ora, se Portugal basicamente vai reforçar o investimento, mas só nessas outras áreas que não as do investimento propriamente em defesa, em armamento, e não reforçar o investimento também nesta dimensão, isso vai significar que vamos ficar abaixo dos 20%. Ou seja, ficamos com as calças curtas, ainda que eventualmente mais bem decoradas ou mais enfeitadas. Portanto, acho que é muito importante ter isso em conta e estes objetivos, este outro número também faz sentido. Ou seja, é importante que não se esteja só a gastar mais em defesa, com mais salários, mais subsídios, por muito que toda a gente em Portugal ganhe mal, inclusive a tropa, ou em outras áreas. Portanto, é fundamental que realmente haja aqui também um reforço do equipamento, do armamento, até porque há uma evolução tecnológica muito acelerada que tem de ser acompanhada para Portugal continuar a ser eficaz na sua defesa e também ser eficaz como aliado, ou seja, poder continuar a trabalhar em conjunto com as Forças Armadas dos outros países da NATO, que estão todos eles também a modernizar o seu equipamento.

A cimeira da NATO, que continua aqui como pano de fundo, agora para falar de uma surpresa desta cimeira, o anúncio de Donald Trump de que os Estados Unidos vão conceder uma licença para que a Ucrânia possa fabricar os seus próprios mísseis intercetores Patriot. Sabendo, Bruno, que esta produção destes sistemas é altamente complexa e demora anos a concretizar-se, é um verdadeiro ponto de viragem estratégica, até mesmo para a Ucrânia nesta guerra com a Rússia?

Bem, eu acho que é uma notícia positiva. Eu acho que mostra algo muito importante, que toda a gente na Europa devia perceber melhor, que é: claro que não vamos estar a comprar guerras com Donald Trump, com os Estados Unidos, seja quem for o presidente, mas é importante mostrar força, é importante, às vezes, fazerem um pouco frente. E de facto, acho que o que explica um pouco esta mudança é que Donald Trump, tendo deixado claro nas suas declarações mais recentes, que realmente acha que a Ucrânia está a conseguir ser eficaz militarmente, e há razões para pensarmos assim. Mas o ponto aqui dos Patriot é: os Estados Unidos sempre tiveram esta questão, que é insistir muito que os europeus sejam mais autónomos, sejam mais capazes por si próprios, mas depois, ao mesmo tempo, querem que eles comprem armamento americano e Em muitos casos não cedem a possibilidade, o conhecimento, a produção desse armamento, ou seja, querem ser eles a produzir nos Estados Unidos e vender a partir dos Estados Unidos pra Europa. Ora, isso cria problemas, cada vez mais, que é falta de capacidade de produção, de resposta às encomendas e, obviamente, em última análise, uma dependência sempre das decisões norte-americanas, do fato dessas empresas darem prioridade sempre às encomendas americanas também. É positivo que os Estados Unidos tenham aceitado. Aceitaram em relação à Alemanha, já em 2022, a produção de interceptores Patriot. O caso alemão vale a pena referir brevemente, por quê? Porque os alemães realmente conseguiram isso em 2022. A fábrica só agora é que está a ser construída, porque a empresa norte-americana exigiu uma encomenda mínima inicial de pelo menos 1500 mísseis. A Alemanha teve de ir buscar outros países europeus que concordaram em comprar também. Isto, obviamente, são mísseis que custam aos milhões cada um. E depois, a questão importante também é: o que foi aceito é a variante mais antiga dos Patriot, é o PAC-2, chamado PAC-2 e não o PAC-3, que é o sistema mais avançado e mais eficaz na interceção de mísseis balísticos. Os Estados Unidos continuam a reservar o sistema mais avançado pra eles. E como eu disse, só agora é que a fábrica está a ser construída e prevê-se que os primeiros mísseis só sejam entregues no próximo ano. Portanto, o que eu diria é: acho que é uma viragem positiva, acho que é moralizador pra Ucrânia. Agora, não vai ser uma coisa instantânea, vai demorar algum tempo. A minha esperança é que os ucranianos, como aliás disse o Donald Trump quando comunicou isto publicamente ao lado de Zelensky, são muito despachados, porque têm a urgência da guerra em cima, não têm tempo pra fazer as coisas como normalmente se faz, com muita calma na Europa. A minha esperança é que isto seja feito muito mais rapidamente, mas em todo caso, mesmo muito rapidamente, não é algo instantâneo. E sobretudo, a minha suspeita também é que seja o sistema mais antigo e portanto, sendo útil, não é tão útil como o PAC-3 e mostra que, em última análise, os Estados Unidos continuam sempre a querer preservar aqui uma vantagem tecnológica, uma vantagem econômica, mesmo em relação aos seus aliados.

Muito bem. Entretanto, do lado russo, os números de baixas continuam a crescer de uma forma expressiva. Há relatos também de problemas graves com combustíveis e também pressões na Crimeia. Em contrapartida, Kiev continua a debater-se com dificuldades também severas de recrutamento e algum desgaste de defesa aérea, Bruno. Perante estes prós e contras de cada um dos lados, qual é o balanço real das forças também no terreno neste momento?

Eu acho que, objetivamente, a Ucrânia recuperou a iniciativa e está a conseguir ter aqui um efeito estratégico muito importante com esta campanha, com mísseis e drones de longo alcance contra as infraestruturas energéticas russas. Isso é muito importante, por exemplo, no caso do Donald Trump, que é muito sensível a esta questão do sucesso militar, do poder. Está a ter um impacto desestabilizador na economia, no cotidiano dos russos, algo que não tinha acontecido até agora, na maior parte da Rússia. Está a ter um efeito dramático na Crimeia, que é uma península bastante vulnerável, no fundo, em termos de logística, de abastecimento, ao ponto de vermos imagens de milhares e milhares de pessoas a fugirem da Crimeia, a deixarem a região, que era apresentada como o grande trunfo e o grande triunfo também de Putin nestas guerras contra a Ucrânia. Agora, isso não quer dizer que o conflito esteja resolvido e que esteja resolvido a favor da Ucrânia, porque o conflito é dinâmico, os russos estão a tentar adaptar-se a estas ameaças, a estes problemas. E geralmente fazem com uma escalada dos ataques aéreos indiscriminados contra a Ucrânia. E do outro lado, temos este problema que é até por efeito também do conflito no Irã, porque os conflitos estão ligados, e até por essa razão, há um problema seríssimo de escassez de interceptores, destes interceptores mais sofisticados que estivemos a falar, nomeadamente os Patriot, PAC-1, PAC-2. Há a ideia de que os Estados Unidos poderão ter gasto metade do seu inventário, das suas reservas estratégicas, e estão a dar prioridade a fabricarem, a produzirem pra si, a reporem o seu inventário. A Ucrânia está com enormes dificuldades realmente em conseguir interceptar os mísseis russos mais avançados. Isso cria um problema do lado ucraniano. Ao mesmo tempo, temos esta questão do recrutamento, que é um problema dos dois lados. É um problema dramático cada vez mais também do lado russo, mas também é um problema do lado ucraniano. Isso significa que temos aqui, se quisermos, um impasse muito dinâmico, que exige enormes esforços, enormes baixas e enorme desgaste de ambas as partes nesta guerra de erosão prolongada entre a Rússia e a Ucrânia.

Vamos mudar tema e destaque agora para o Irã, que realizou finalmente as cerimônias fúnebres oficiais do seu líder supremo. Tinham sido sucessivamente adiadas desde o bombardeamento de março que iniciou a guerra. Bruno, o que é que segue esta paz, com muitas aspas, até falas em paz funerária. Corremos o risco de uma escalada de guerra total ou estas ameaças devem ser lidas apenas como retórica interna, até do próprio regime do Irã?

Eu devo dizer que achei que nós iríamos ter uma paz funerária, ou seja, que iríamos ter durante estes sete dias uma autocontenção por parte do Irão e também por parte dos Estados Unidos, não iríamos ter, por exemplo, novos problemas no Estreito de Ormuz. Claramente enganei-me nisso, o Irão realmente não quis respeitar essa paz funerária. De facto, os funerais são também uma forma de diplomacia, os funerais de Estado temos representações do exterior. No caso do funeral de Ali Khamenei, do anterior guia supremo, inclusive o funeral foi para outro país, passou do Irão para o Iraque, para as cidades santas xiitas mais importantes no Iraque, onde estão os santuários do Imã Ali e do Imã Hussayn, que são os fundadores do xiismo. Mas a verdade é que, apesar de tudo isso, de facto, a ala dura do regime, provavelmente até motivada também pela temática do martírio, que é central no xiismo, nesta variante do Islão, e que foi muito acentuada nos funerais, todas aquelas bandeiras vermelhas que são as bandeiras do martírio, com frases alusivas à vingança do Hussayn, no fundo, a ideia de que uma das missões centrais do xiismo é realmente vingar os seus mártires. Tudo isso provavelmente até deu força a esta ala mais dura, a par de estar a haver algum sucesso, de facto, neste corredor sul do Estreito de Ormuz, ou seja, os navios irem não pelo corredor central, que era o normal em tempos de paz, não irem pelo corredor a norte, junto à costa iraniana controlada e cobrada pelo Irão, mas irem junto à costa do Omã, portanto, à parte sul do estreito, claramente também em coordenação com a Marinha norte-americana. Houve ataques a navios civis da parte do Irão e o que temos é uma escalada, uma escalada para já limitada, mas tivemos declarações do Donald Trump a dizer que o cessar-fogo estava acabado, ao mesmo tempo a dizer que as negociações iam continuar, portanto, as contradições do costume, mas realmente, eu acho que isto o que mostra é que realmente este cessar-fogo é talvez ainda mais frágil do que aquilo que nós pensávamos, e não há nenhuma razão para pensar que vai deixar de ser. Eu não consigo prever com segurança que vai haver aqui uma escalada, uma intensificação em grande escala.

Mas há uma linha muito ténue.

Isso provavelmente não é do interesse de nenhuma das partes, mas não quer dizer que as partes sejam muito racionais também nesses cálculos estratégicos. Mas o que é evidente é que não se consegue realmente ter aqui um real cessar-fogo. Temos um conflito mais intermitente, de mais baixa intensidade. A grande questão é perceber quais são as implicações disso em termos da navegação no Estreito de Ormuz. Claramente não são positivas, mas será que se conseguirá manter alguma navegação, algum escoamento do petróleo desta região, ou vamos voltar a ter aqui um bloqueio quase total com o impacto que isso terá no mercado dos combustíveis e na economia mundial muito negativo, claro.

Vamos terminar este episódio na África do Sul. Nas últimas semanas concretizaram-se as piores ameaças de violência xenófoba e também a expulsão de milhares de trabalhadores estrangeiros, alguns deles moçambicanos, que foram repatriados. Bruno, qual é o histórico socioeconômico e político por trás deste fenômeno, que é recorrente na África do Sul, e que implicações traz também a nível regional, a nível interno, este novo surto de violência?

É realmente importante dar alguma visibilidade a este caso. Nós falámos aqui já um bocadinho disso. A data que estava estabelecida era o final do mês de junho e realmente tivemos milhares de pessoas a fugir da África do Sul. Os números não são muito fiáveis, mas certamente milhares de imigrantes. Tivemos voos especiais a ser organizados por países como a Nigéria e Gana. Realmente, é algo profundamente lamentável. É algo que não tem, se calhar, a visibilidade que devia ter.

Era isso que eu te ia perguntar. Nós não ouvimos falar muito disto nas notícias, talvez também muito ofuscado por outros assuntos dos quais temos estado aqui também a falar, não é?

Sim, fala-se muito, por exemplo, de qualquer incidente com imigrantes na Europa, que estamos na Europa. Enfim, muitas vezes os europeus são muito criticados porque dão muita importância à guerra na Ucrânia, porque é na Europa. Mas depois, estes incidentes, que apesar de tudo, comparado com o nível de violência que temos assistido na África do Sul, com muita gente realmente morta, linchada, morta com pneus a arder, etc. Realmente, isso não tem o impacto, a visibilidade que teria se fosse em qualquer país europeu. Portanto, aí temos esse dado que é realmente, mesmo na informação, a geografia conta alguma coisa, a proximidade conta alguma coisa. Mas tem este efeito às vezes um bocado distorcedor. A verdade é que a crise migratória nos estados europeus é bastante menos séria ou menos violenta, se quisermos, do que na África do Sul. A África do Sul tem este paradoxo, que é um país africano muito rico, com uma economia muito dinâmica e é um grande polo de atração, sobretudo na África Austral. Temos quase 1 milhão de pessoas do Zimbábue, temos 400 mil de Moçambique, é o segundo país com mais migrantes. Portanto, também há este dado, que eu acho que é importante para o caso de Portugal, ou seja, há aqui um país lusófono que historicamente tem uma longa história, ainda no período colonial, de enviar, até por acordo estado a estado, entre a África do Sul e na altura o Estado colonial português, mas esse acordo depois mantém-se entre a África do Sul e o Estado independente moçambicano. Envio de trabalhadores moçambicanos, principalmente para as minas sul-africanas, um trabalho extremamente duro, mas que foi muito importante para a riqueza, para o enriquecimento da África do Sul Temos ao mesmo tempo enormes desigualdades, grande violência em geral, violência criminosa. Realmente a África do Sul tem esse lado, ser um país muito rico, mas muito desigual e muito violento. Essa violência muitas vezes atinge, de facto, estas comunidades migrantes, inclusive também a comunidade portuguesa, que é importante, porque tem muitos negócios em zonas às vezes de algum risco. Mas agora o foco tem sido realmente nos migrantes. Obviamente, isto tem um efeito muito negativo na imagem da África do Sul em África. Ou seja, na Europa não tem tido assim tanta visibilidade, mas em África, nos países mais afetados, tem tido alguma, tem suscitado críticas dos governos de vários países africanos e no fundo, o próprio governo sul-africano tem dito: "Isto é péssimo para a nossa imagem de uma espécie de líder também regional africano". Mas a verdade é que o governo tem tido grande dificuldade em controlar as coisas, em evitar estes incidentes e portanto, é realmente uma crise séria que vale a pena continuar a acompanhar e que tem afetado também muito especialmente muitos moçambicanos, que obviamente é um país em relação ao qual Portugal tem sempre alguma maior atenção e interesse.

Bruno, antes de fecharmos, vamos ainda à tua recomendação. O que é que trazes esta semana?

Olha, trago um livro do Ricardo Borges Castro, que é um colega, um amigo, "Pensar o Futuro: Portugal e o Mundo em Perspetiva Estratégica". Aqui a referência à Europa é porque o Ricardo Borges Castro tem trabalhado nos últimos anos, geralmente em Bruxelas, em think tanks ou nas próprias instituições europeias, mas realmente aqui é Portugal e o mundo em perspetiva estratégica. É um livro extremamente interessante, é um tema que me preocupa muito, a falta de planeamento estratégico em Portugal. Eu próprio escrevi um pequeno ensaio para a Fundação Francisco Manuel dos Santos, para esta mesma coleção, uns anos atrás, com esse tema: "Pode Portugal ter uma estratégia?" O Ricardo, muito simpaticamente, de facto faz alguma referência também a essas reflexões, mas este é um livro que eu acho que é muito útil, independentemente da questão de Portugal, é realmente um bom manual, uma boa introdução à questão da prospetiva, ou seja, como é que se consegue pensar o futuro, como é que se elaboram cenários, o que se pode fazer, o que não se pode fazer. Acho que é realmente algo que no contexto atual, num mundo muito mais imprevisível, muito mais conflituoso, que está em mudanças muito aceleradas em múltiplas áreas, realmente este é um tema muito importante. Obviamente, é uma velhíssima ambição da humanidade, conseguir prever o futuro. Obviamente, o Ricardo é uma pessoa rigorosa com os estudos e, portanto, insiste muito neste aspecto, que é, no fundo, não se trata de adivinhar o futuro. Trata-se de desenhar cenários, de pensar probabilidades e agir em conformidade. Mas realmente acho que é um livro que vale muito a pena, nomeadamente agora para o período de férias, portanto, "Pensar o Futuro" do Ricardo Borges Castro. Tem a vantagem de, sendo uma publicação da Fundação, ser também bastante barato, eu penso que custa 4,5 €.

Estou aqui a ver no site da Fundação Francisco Manuel dos Santos, Bruno.

Exatamente. E também existe em e-book, portanto, quem preferir a versão em papel é bastante compacta, mas quem preferir em e-book também tem essa opção.

Bruno, muito obrigado pela tua sugestão e por teres estado aqui conosco mais uma vez no "Cinco Continentes". Já sabe, se tiver dúvidas-

Obrigado eu, João

...para os nossos ouvintes, nós recebemos muitas vezes dúvidas também através do Spotify, através do nosso e-mail, mas também nos podem enviar através do WhatsApp. Se calhar é mais fácil, no tempo em que estamos, enviar-nos através do WhatsApp, que é o 910024185. Até nos pode enviar, por exemplo, uma mensagem de voz. Pelo e-mail é ouvinte@observador.pt, no Spotify tem sempre a possibilidade, e já recebemos dúvidas também através daí, de escrever um comentário a cada episódio. E o Bruno Cardoso Reis depois responde aqui num dos próximos episódios dos "Cinco Continentes". Não é assim, Bruno?

Ou pelo menos tento responder.

Sempre com maestria.

Geralmente são perguntas muito interessantes e realmente às vezes são coisas que não nos ocorrem.

Sim, perspectivas novas para trazer para cima da mesa. Estou-me a lembrar aqui há pouco tempo que ainda falámos da questão de El Salvador há uns episódios e foi importante também para percebermos aqui outra perspetiva de um outro país. Bruno, um grande abraço.

Até para a semana.

Até para a semana. Obrigado.

Obrigado.