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Junta-se a nós, como é habitual neste dia da semana, a editora de tecnologia e startups do Observador, Ana Pimentel. Olá, Ana.

Boa tarde, Ana.

Olá, Ana. Olá, Ricardo.

Ana, na semana passada, os brasileiros fizeram algum alarido nas redes sociais porque deixaram de ver os likes nas fotos do Instagram. O que se passou? É verdade que os likes vão desaparecer?

Não é verdade que os likes vão desaparecer, atenção, mas é verdade que houve algum alarido nas redes sociais. Mas não, podemos todos respirar fundo, com muita calma, porque os likes não vão desaparecer. E atenção que isso que aconteceu no Brasil é um teste, nós nem sequer sabemos se vai continuar ou não vai continuar. Por enquanto, estão a testar para ver se esta medida funciona. O que vai acontecer? Os likes não vão desaparecer, vão ficar escondidos. Vou dar um exemplo muito prático. Eu agora posso ir ao Instagram e no meu feed aparece uma fotografia tua, Ana Filipa. E eu vejo que, por exemplo, o Ricardo Conceição, que pode ser também meu amigo, gostou e aparece "Ricardo Conceição".

Não somos amigos.

Não é muito comum.

Não sou amigo de ninguém, estou a brincar.

Vamos ver. Aquilo aparece, "Ricardo Conceição", e vamos imaginar mais 53 pessoas que gostaram da tua foto. Eu clico nessa publicação, vejo o número de likes e fico com essa informação pra mim. Tu sabes quantas pessoas gostaram, eu também fiquei. O que vai acontecer agora, o que está a acontecer no Brasil, é que quando as pessoas entraram no Instagram, deixaram de ver quantas pessoas estavam a gostar das fotos dos seus amigos, das pessoas que seguem.

Desaparece o número, mas também vamos deixar de ver quem é que pôs o tal like em determinadas fotografias.

Exatamente. Se eu neste momento, quando carregar na informação da foto da Ana Filipa, aparece-me o Ricardo Conceição e depois todas as outras pessoas que meteram like, que eu posso nem sequer as conhecer. Agora, neste teste, isso não acontece. Aparece Ricardo Conceição e outras pessoas que gostaram. Essas outras pessoas podem ser 50, 500, mil, cinco. Ninguém sabe se só uma pessoa.

Mas em Portugal isso ainda não está a ser testado?

Não, não está a ser testado, não se sabe se vai ser testado. Isto começou no Canadá e entretanto está em mais seis países. Além do Brasil, está também na Austrália, Irlanda, Itália, Japão e Nova Zelândia. E por enquanto é a informação que temos.

Ana, mas por que esta mudança agora? O Instagram já tem oito anos, sempre existiu assim, por que mudar?

Porque a rede social tem sido alvo de imensas críticas, muito pela pressão social que está associada ao Instagram. Hoje em dia é quase como se tivéssemos todos uma vida, que é a vida oficial, a vida offline, e depois tivéssemos uma vida muito bonita e muito cor-de-rosa no Instagram. O que a rede social quer com isto? O que Mark Zuckerberg quer com isto? Quer mudar comportamentos, por isso é que o mote deles para este teste é: queremos que os teus amigos foquem nas tuas fotos e vídeos e não no número de likes que tens em cada publicação. Querem que as pessoas passem a pôr like ou não, ou gostar, de determinada foto ou vídeo, porque efetivamente gostam e não porque se sentem obrigados socialmente a fazê-lo ou não. Que as pessoas deixem de se comparar entre si, porque há muito essa tendência. Por que eu tenho tantos likes? Ou o contrário. Exatamente. Por que eu tenho tão poucos likes e aquela pessoa está no mesmo sítio que eu e que tem uma foto tão parecida e tem mais?

E há até estudos sobre isso, não é?

Exatamente.

Que pessoas que estão realmente a ficar deprimidas por terem poucos likes, por exemplo.

Exatamente. Há estudos, há muitas opiniões públicas de psicólogos sobre esse assunto.

Eu fico sempre deprimido quando a Ana Filipa tem mais likes do que eu. Não, estou a brincar.

Pronto, é isto.

Não, mas a verdade é que-

É impossível competir com ela.

Eu sei, eu vou ter que concordar, Ricardo, o Instagram da Ana Filipa é muito mais atrativo.

Vou ficar aqui caladinha, não vou dizer nada.

Até porque o meu não mexe.

Não vou dizer nada.

Não, mas é verdade. Além desta pressão entre pares, também há a pressão individual que as pessoas têm sobre si próprias. Por que agora já não têm tantos likes? Ou seja, há muitas pressões e isto tem gerado uma série de consequências a nível do bem-estar das pessoas. Há um estudo britânico da Royal Society for Public Health, que chegou a definir o Instagram como a pior rede social ao nível da saúde mental e do bem-estar. Aumenta níveis de ansiedade, aumenta níveis de depressão, aumenta níveis de insatisfação e também um bocadinho aquela expressão millennial, que é o FOMO, fear of missing out, que é no fundo termos medo de não estarmos a viver todas as possibilidades que a nossa vida apresenta, até porque estamos a olhar pra aquilo que os outros estão a fazer e é tudo muito melhor do que aquilo que nós próprios estamos a fazer. E aqui é um bocadinho aquilo do: a foto da vizinha é sempre melhor do que a minha.

Portanto, nas aplicações não há problema, mas nas fotos, sim. Ana, mas esta é a pergunta que me surgiu imediatamente quando começamos a conversar, que é: há pessoas que ganham a vida com estes likes. Ganham dinheiro com isto, os influencers. O que vai acontecer?

E foram os primeiros a ficarem preocupados. Eis aí também algum pânico, porque de facto o like serve como uma métrica, como uma medida para analisar o engagement que as marcas têm com aquela publicação. Mas também não acho que tenha de haver motivos para alarmismos, pelo menos pra já, até porque nós podemos não ver os likes, mas as pessoas continuam a ver quantos likes têm. Eu sei, e os influencers também, quantos likes têm em cada publicação. Podem partilhar ou não essas métricas com as marcas, que as solicitam. E depois, há também uma série de questões mais de marketing, de estratégia das próprias empresas, tem a ver com o posicionamento da marca, com o posicionamento do influencer. Há aqui muito reino para desbravar. Até porque eu hoje por acaso li a informação sobre um estudo que se fez no Canadá a propósito deste teste, em que em mais de 100 influencers que entrevistaram, já no decorrer deste teste, a grande maioria, 102%, dizia que isto tinha sido positivo e que não tinha mudado em nada a sua atividade, nem a perceção pública sobre elas.

Não havia consequência.

Não, e depois também há outros especialistas que dizem que mesmo que o Instagram não tivesse investido nisto, o valor do like já está a desaparecer, porque os InstaStories, por exemplo, são-

O valor do like é uma coisa maravilhosa, Ana Pimentel.

Isto parece muito superficial e volúvel.

Incrível.

Mas a verdade é que isto é a nova depressão dos tempos modernos, depressão aqui não é no sentido patológico, no sentido mais corriqueiro, mas a verdade é que isto influencia o bem-estar das pessoas, estas comparações constantes.

Achas que vamos ter uma nova palavra para designar aldrabices com likes?

Isso é uma das coisas que esta medida pode ser vista como positiva, que é: isto vai evitar regimes fraudulentos de likes que os próprios influenciadores podem ter para pagar às marcas.

Que é possível pagar likes.

Exatamente.

As famosas quintas de likes.

Isto no fundo é sempre uma coisa que nos vai fazer bem, é assim um bocadinho estranho. E eu lembro-me de como é a vida perfeitamente offline, mas há uma geração que não sabe o que é estar offline.

Já não vive sem isso.

E que já nasceu quase com redes sociais, quase com esta noção de partilha, e a encarar o like como uma medida de quantificação de valor, que está errado, que faz mal. Há aqui todo um trabalho agora de tentar reeducar esta geração para não voltar a fazer isto, para não fazer isto.

E isto é algo que tu vais falar na tua newsletter, também?

Ana Filipa, vais ter de ler, como sempre, é sempre uma surpresa. À terça-feira há sempre esta surpresa, mas pronto, se decidires partilhar no teu Instagram de alguma forma, eu vou pôr um like grande.

Está bem, combinado. É a app da vizinha, Ana Pimentel, a editora de tecnologia e startups do Observador e está sempre conosco à segunda-feira. Até pra semana, Ana. Obrigada.

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