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Este episódio contém descrições de violência que podem impressionar algumas pessoas. É o fim de semana do 4 de julho de 1988, o Dia da Independência dos Estados Unidos. A cidade portuária de New Bedford, uma espécie de Little Portugal, no estado de Massachusetts, está em festa, como todo o país. Há piqueniques, paradas, fogo de artifício. Uma mulher segue de carro sozinha na estrada que sai da cidade, onde praticamente metade dos habitantes têm apelidos portugueses. Furtado, Carvalho, Medeiros, Paiva. Vai em direção ao norte do estado. Há pouco trânsito. Faz quilômetros sem se cruzar com ninguém. Precisa de ir à casa de banho, mas a Route 140 é uma espécie de deserto. Não encontra um posto de combustível ou um restaurante onde parar. Encosta numa zona onde a berma é mais larga. Deixa o carro e começa a descer em direção à mata, em busca de um lugar mais abrigado. Não anda muito, 10, 15 metros, no máximo. É nessa altura que a vê. Ali, numa zona de clareira, está o corpo de uma mulher seminu. Tem um pedaço de tecido enrolado à volta do pescoço. Um sutiã, há de perceber-se mais tarde. Está em estado muito avançado de decomposição. Entre março e setembro de 1988, 11 mulheres desapareceram de New Bedford. Debra Medeiros, morta por estrangulamento, foi a primeira a ser encontrada no fim de semana do 4 de julho. Até abril do ano seguinte, foram recuperados outros oito corpos, sempre junto a estradas nas imediações. Duas das vítimas nunca chegaram a ser encontradas e o responsável pelas mortes também não foi apanhado. Entrou para a galeria de serial killers americanos como o New Bedford Highway Killer, o assassino da autoestrada de New Bedford. Na altura, a polícia americana teve vários suspeitos, mas nunca conseguiu acusar nenhum deles. Talvez por isso, e porque os crimes de repente pararam, na comunidade começou a correr um rumor. O mais certo é que o assassino tivesse fugido para Portugal. Quando, quatro anos mais tarde, as notícias sobre as mortes das prostitutas em Lisboa chegaram a New Bedford, a dúvida foi instantânea. Poderiam o assassino da autoestrada e o Estripador de Lisboa ser a mesma pessoa? "A Caça ao Estripador de Lisboa" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Inês Castelo Branco, com banda sonora original de Mário Laginha. Episódio cinco: um roubo na sala de autópsias.
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Maureen Boyle chega a New Bedford em 1984. Tinha acabado a faculdade há pouco tempo, mas já escrevia em jornais desde o liceu. Na altura em que arranja trabalho no Standard Times, a cidade está em alvoroço.
A reported gang rape in New Bedford, Massachusetts, shocked that community and the rest of the country.
Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, um caso de violação está a ser julgado em direto na televisão. Todos os dias, três horas por dia, a TV por cabo transmite as audiências a partir do Tribunal de New Bedford e as manifestações à porta, de apoio à vítima, mas também a favor dos acusados.
Three thousand people gathered in front of New Bedford City Hall to protest the guilty verdicts in the Big Dan's rape case.
A comunidade portuguesa queixa-se de estar sob ataque, recorda a jornalista Maureen Boyle.
Eles achavam que os jovens estavam a ser alvo de discriminação por serem portugueses. No entanto, a vítima também era portuguesa. Os relatos iniciais diziam que os homens estavam a cantar e a aplaudir como se estivessem num jogo de futebol. Quando chegou a altura do julgamento, o cenário não era tão gráfico, mas era suficientemente gráfico. Nessa altura, a comunidade ficou realmente dividida. Houve manifestações de apoio aos homens que estavam a ser julgados, em parte porque os membros da comunidade sentiram que estavam a ser alvo de perseguição. Portanto, tinha menos a ver com o crime e mais com a forma como os membros da comunidade se sentiam em relação à sua própria herança cultural e à forma como estavam a ser vistos.
So it had less to do with the crime and more to do with how members of the community felt about their own heritage and how they were being viewed.
A vítima é a Cheryl Araújo, luso-americana, tal como os homens que a violaram. Tem 22 anos e duas filhas pequenas. As câmeras estão proibidas de lhe filmar o rosto, mas por esta altura, todo o país a conhece. Há cerca de um ano foi vítima de uma brutal violação em grupo. Quatro homens forçaram-na a ter relações sexuais em pleno Big Dance, o bar da cidade onde Cheryl tinha entrado minutos antes para comprar cigarros. Ao todo, foram duas horas de um tormento que há de valer penas entre seis e 12 anos de prisão aos quatro violadores. Vai marcar o resto da curta vida de Cheryl Araújo e deixar marcas profundas na comunidade. Quatro anos depois do julgamento, a cidade parece estar finalmente recuperada. Isto apesar de estar prestes a estrear o filme que há de tornar a história de Cheryl Araújo conhecida em todo o mundo e valer o primeiro Oscar a Jodie Foster. É justamente nesta altura, na primavera de 1988, que começam a desaparecer mulheres, explica a jornalista Maureen Boyle.
O interessante sobre os homicídios da autoestrada de New Bedford é que as mulheres não desapareceram todas de uma vez. Eram todas adultas e eram todas toxicodependentes. Essa era a linha comum. Algumas pessoas diziam que a prostituição era um fio condutor. Não necessariamente, porque nem todas as mulheres tinham registro criminal por prostituição, mas todas tinham problemas com drogas.
A história não é muito diferente da que anos mais tarde há de acontecer em Portugal. Mas aqui algumas das vítimas não chegam a ser dadas como desaparecidas. Por isso mesmo, os alarmes só disparam quando os corpos começam a ser encontrados. Só nessa altura é que as autoridades se apercebem que têm um problema. Há um serial killer à solta. Entre julho de 1988 e abril de 1989, são recuperados nove corpos. Todos em estado muito avançado de decomposição e todos com sinais de estrangulamento. Mas desde o início de setembro de 1989 que não há desaparecimentos. Por algum motivo, os crimes pararam. E é aí que se começa a falar em Portugal. Suspeito número oito: o serial killer americano.
Houve muita especulação. Disse-se que o assassino tinha sido preso, que o assassino estava num sítio qualquer algures no sul, como a Flórida. E houve alguma especulação de que o assassino se teria mudado para Portugal.
Para além de à época ter acompanhado o caso, em 2017, Maureen Boyle publicou em livro toda a história dos crimes e da investigação ao assassino da autoestrada de New Bedford. A jornalista conta que quando, três anos depois dos crimes, as notícias sobre o Estripador de Lisboa chegaram à cidade, a investigação voltou a olhar para Portugal.
Sei que vários investigadores estavam a analisar isso, a tentar perceber se poderia ser uma possibilidade.
Muitas das mulheres assassinadas em New Bedford eram prostitutas e todas eram toxicodependentes. Estas são as semelhanças entre os dois casos. A forma de matar é diferente. O assassino da autoestrada estrangula as vítimas. O Estripador de Lisboa também, mas só para depois as poder esventrar.
Se fosse a mesma pessoa, teria realmente havido uma enorme escalada na forma de matar. O assassino de New Bedford não parecia ser alguém com tanta capacidade de planeamento e não era tão perverso.
A polícia de New Bedford investiga, mas não há uma única prova que coloque o assassino da autoestrada em Portugal ou em qualquer outro lugar. A teoria do assassino único vai ter de cair. O serial killer de New Bedford parou de matar. E ao que tudo indica, o Estripador de Lisboa também. Um homicida em série só para por um de três motivos, explica José Ferreira Leite, à data subdiretor da PJ de Lisboa.
Ou tinha falecido, ou tinha sido preso, ou tinha emigrado, voluntariamente não parava.
Por esta altura, a psicóloga Cristina Soeiro continua a trabalhar no perfil do Estripador e a desconstruir uma série de mitos que a investigação tem dado como certos. Primeiro, determina que a motivação dos crimes não é sexual e que a tese do homossexual reprimido não encontra sustentação noutros casos, nacionais ou estrangeiros. Depois, conclui que o homicida pode ter parado de matar por outros motivos.
Às vezes estes indivíduos iniciam a agressão por descontrole, por perdas. Imagine, perda de alguém que era estruturante na vida dele. A mãe, por exemplo, muitos deles têm uma relação disfuncional com um elemento da família, que pode ser a mãe. Isto também é um mito. É que o modelo familiar é que é importante. Geralmente é algo externo que desequilibra o indivíduo, uma perda de uma pessoa importante, e que leva ao início. Mas também algo reestruturante, de novo, pode levar o indivíduo a parar.
14 de dezembro de 1993. O dia entra pra história do caso do Estripador de Lisboa e também pra história da própria Polícia Judiciária. Pela primeira vez, um psicólogo contribui pra uma investigação em curso com um relatório oficial. A ocasião é de tal forma solene que Cristina Soeiro ainda hoje guarda as 15 páginas do documento original datilografado, em que traçou o perfil psicológico do Estripador de Lisboa, apoiada nos critérios do FBI.
O FBI divide os homicidas em série em organizados e desorganizados. E depois, os indivíduos podem ser hedonistas ou de poder. Geralmente, os indivíduos de poder são mais organizados. O que é mais organizados? São indivíduos que cometem crime num determinado local, movimentam o corpo pra dificultar a sua identificação, até a identificação do próprio corpo, para dificultar a ação das autoridades. Depois temos os indivíduos que são hedonistas e desorganizados, que era o nosso caso. O que é um desorganizado? Faz o crime no sítio onde deixa o corpo. Não se preocupa com determinado tipo de precauções. Por que hedonista? Hedonista porque retira prazer. O contacto que ele tinha com as vítimas era de manuseamento do corpo. É muito comum nestes crimes haver uma evolução, uma progressão da maneira como o corpo é tratado.
Passam nove meses desde a última morte. O perfil psicológico traçado por Cristina Soeiro não encaixa apenas o Estripador de Lisboa nas categorias criadas pelo FBI para estudar este tipo de criminosos. Também dá pistas para o apanhar. Eis o homem que a PJ tem de encontrar. Tem entre 25 e 34 anos. É caucasiano e quem o conhece acha que ele é inteligente, amistoso, sossegado e organizado. Sofre de problemas psicológicos e pode até já ter estado internado mais do que uma vez. No trabalho, tem um desempenho fraco e muito provavelmente executa funções indiferenciadas. E vive sozinho ou então com um familiar mais velho, uma mãe, um pai, uma avó ou um avô, com quem tem uma relação de dependência muito forte. Quando leem o relatório da psicóloga, os investigadores nem querem acreditar. As peças assentam na perfeição no novo suspeito que a PJ começou a investigar há pouco tempo. Estamos em novembro de 1993. O último homicídio aconteceu há oito meses. O telefone das denúncias está novamente a tocar. Suspeito número nove: o médico. Alguém que prefere não se identificar conta que, há uns anos, trabalhou um homem muito estranho na sala de autópsias do Instituto de Medicina Legal em Lisboa. O homem era estudante de medicina. Foi demitido depois de ser apanhado a roubar órgãos dos cadáveres e a dissecá-los na cave. Quem sabe não poderá estar relacionado com as mortes das prostitutas? O perfil bate certo. Medicina legal é justamente uma das ocupações a que o FBI tinha aconselhado a PJ a estar atenta. E há mais. No verão, o homem saiu de Portugal de repente. Foi para a Austrália não muito tempo depois do terceiro homicídio. Os agentes levam a pista muito a sério e agora, com o relatório da psicóloga, têm a certeza de que devem avançar. Decidem escutar as conversas telefônicas da mãe do médico, na esperança de o ouvir também a ele. Por esta altura, a polícia portuguesa já pediu ajuda à Interpol. Já sabe que o homem chegou a Sydney no dia 12 de julho e que neste momento está no país ilegalmente. Já sabe que o visto de três meses caducou. E já sabe que quando preencheu o formulário, o homem assinalou primeiro a opção estudos e depois trocou para férias. Mas não faz ideia do paradeiro dele, nem do que tem andado a fazer. No visto, no campo da morada, está escrito apenas hotel. Não há um endereço, uma cidade, nem sequer um estado. Mas se puderem ouvir as conversas dele ao telefone, vão conseguir rastrear-lhe a localização. Outra informação que a PJ já tem: todos os dias, sem exceção, o homem telefona à mãe, divorciada, que vive sozinha em Lisboa. Essa dependência da figura materna, explicam os investigadores no pedido de escuta, bate certo com o perfil psicológico do Estripador de Lisboa. O homem tem 37 anos e vive sozinho. Chumbou no exame de internato médico, o que significa que tem um fraco desempenho profissional. E saiu de Portugal para a Austrália a seguir à terceira morte, sendo que os crimes também pararam. Há mais. É médico e por isso mesmo tem conhecimentos de anatomia para cortar e esventrar corpos. José Sobreireiro é o diretor do Instituto de Medicina Legal e o mais respeitado médico legista do país, autor das autópsias de figuras como Francisco Sá Carneiro, José Dias Coelho ou Joaquim Agostinho. Também é ouvido pela PJ. Descreve um indivíduo muito introvertido, pouco sociável e esquisito, que na altura ainda estava a fazer o curso de medicina. Recorda um conflito que ele teve com um colega, que acabou a ameaçar com uma faca. Revela que a certa altura mostrou uma certa apetência ao estudo de órgãos internos, tais como fígados e baços. E conta que foi quando soube que o tinham apanhado na cava a fazer estudos mais aturados desses órgãos em cadáveres de desconhecidos, que decidiu que era hora de o dispensar. Apesar de as pistas apontarem na direção do médico, a verdade é que não há uma única prova direta contra ele, recorda José Ferreira Leite.
Não tínhamos absolutamente nada contra a pessoa em concreto, mas encaixava no perfil que tinha sido definido. E o Ministério Público avançou com aquilo e o juiz concordou.
Nunca antes um juiz tinha autorizado uma escuta telefónica nestes termos. Mas a verdade é que a PJ continua a zeros e há um homicida em série à solta. Dois dias antes do Natal de 1993, às 16h, o telefone da mãe do médico está oficialmente sob escuta. E ele é oficialmente suspeito. É um tipo estranho, meio fechado, meio agressivo, que tem dificuldades em fazer amigos e manter relações. E que tem cadastro. Aos 24 anos, foi detido por suspeita de tráfico e consumo de estupefacientes. Por causa do aspeto físico, ganha rapidamente uma alcunha por parte dos agentes: Pipo. Aos 37 anos, é finalmente médico de clínica geral. Fez o internato geral no Hospital de Setúbal e reprovou no exame para o internato complementar já no fim de 1992. Meses mais tarde, entrou no avião para o outro lado do mundo. Ao telefone com a mãe, a quem liga todos os dias à 13h, hora de Lisboa, Pipo diz que passa o tempo todo a estudar e enfurece-se contra Portugal e os portugueses. Diz que a vida lhe corre melhor quando está longe deles. Irrita-se com os primos da mãe que moram na Austrália e que por algum motivo não querem ser visitados por ele. "Os seus primos que vão para a puta que os pariu, que eu não preciso deles. Eles se não querem que vão beber da merda!" A coisa que ela mais pede ao filho é que tenha calma e que não se envolva em conflitos. Nada de violência, repete praticamente todas as vezes que falam ao telefone. São conversas no mínimo estranhas entre um homem de quase 40 anos e a mãe. A mãe diz-lhe que tem sempre de fazer boa vizinhança, ser educado e correto, que sabe que ele é muito educado, mas que também é um bocadinho nervoso. Um dia pergunta-lhe se os nervos já se foram embora e ele responde que sim. As conversas da mãe do médico com o ex-marido, o pai dele, são ainda mais reveladoras. Está claramente aliviada por o filho ter decidido emigrar. "Qualquer homem da idade dele prefere ser independente, mas ele não", chega a dizer um dia. Logo a seguir desabafa: esta separação foi muito boa para ele e para ela. As escutas são promissoras, mas até agora não revelaram uma única palavra sobre os crimes do Estripador de Lisboa. A PJ pede à Interpol na Austrália que averigue se foram registados crimes idênticos no país desde que o médico lá chegou. Em cinco dos seis estados, a resposta é negativa. Só o governo da Tasmânia não deu ainda resposta, mas é improvável que o homem tenha passado por lá. Pelas escutas, conseguem perceber que está em Perth, na Austrália Ocidental. Precisam de provas e para as conseguirem, vão ter de continuar a ouvir. Apesar da insistência da mãe, que lhe implora que não regresse, se disponibiliza para lhe mandar dinheiro e até se compromete a ir visitá-lo, o médico volta a Portugal. O fax, enviado pela Interpol com selo de urgência, chega a Lisboa no sábado, 29 de janeiro de 1994. O homem saiu de Sydney às 17h, com destino a Londres. No dia seguinte, segue para Portugal. A PJ está convencida de que mais cedo ou mais tarde, o Estripador de Lisboa vai voltar a atacar. Mas as semanas passam e nada. O homem está decidido a arranjar um emprego. E consegue. Apesar de ter praticamente a certeza de que o médico é o homicida das prostitutas, a polícia não interfere. Continua sem provas concretas contra o homem. A única coisa que pode fazer para já é esperar que ele cometa um erro Em março, o suspeito começa a fazer mudanças. Vai sair da casa da mãe para se instalar num apartamento da família em Campolide. Mais uma vez, os agentes acreditam que chegou a hora. O Estripador vai voltar a matar ou vai tentar matar, porque agora a PJ está a vigiá-lo. Mas mais uma vez não acontece nada. Há 56 cassetes gravadas e um total de zero provas que liguem o médico aos crimes do Estripador de Lisboa. As escutas têm de acabar. No dia 26 de abril de 1994, o agente responsável pelo caso escreve que as conversas gravadas não assumem qualquer relevância jurídico-processual, nem tampouco possuem relevância fáctica para a investigação. Aquele que foi o maior suspeito da PJ até o momento é riscado do processo. Vigiado e escutado durante quatro meses, Pipo nunca chegou sequer a ser interrogado. Morreu em janeiro de 2013, muito provavelmente sem saber que durante aquele tempo a polícia lhe ouviu todas as conversas e se convenceu de que ele era o Estripador de Lisboa. No dia 7 de outubro de 1994, o Instituto de Medicina Legal pergunta se pode incinerar as roupas de Fernanda, que foi assassinada há praticamente dois anos junto à estação de Entrecampos. A PJ responde que não, porque a investigação continua em aberto, mas apenas três dias depois, o Ministério Público manda queimar tudo. Por causa do estado de deterioração e do mau cheiro, as roupas não podem continuar a ser mantidas ali. De resto, há poucas expectativas de que algum dia venham a ser úteis para o processo. A PJ já seguiu todas as pistas, mas não consegue resolver o caso. Não há nenhum suspeito. O grupo especial de apoio à investigação já foi desmantelado. Não há mais por onde ir. As impressões digitais que o perito Alexandre Simas recolheu depois da morte de Maria João nunca tiveram correspondência.
Aquele era o primórdio do CSI. Só que comparado ao que tem hoje a Polícia Judiciária de meios, não tem comparação. Hoje em dia, nós, por exemplo, metemos no computador, vai para ali o vestígio e ele sai, seja metido ao contrário, à esquerda, à direita, ele diz. No nosso tempo não era assim. Nós tínhamos gavetas e gavetas de impressões digitais. Consultar uma a uma. Não havia computador. Então estava eu naquele vestígio que eu tinha dos cinco pontos e fui ver aquilo tudo. Andei sempre a ver se apanhava aqueles cinco pontos.
Todo o processo de investigação era arcaico e o facto da PJ ainda não ter capacidade para processar amostras de ADN também não ajudou, diz o inspetor Carlos Ademar Fonseca.
O ADN não estava a ser usado em Portugal para fins de investigação criminal, quando já estava a ser usado em vários países da Europa, há quatro, cinco anos.
A ligação aos crimes de New Bedford nunca foi estabelecida e também não foram encontradas provas contra o médico que viveu na Austrália. Só há uma certeza: as mortes, de facto, pararam. E isso pode abrir a porta a outra possibilidade. Se o Estripador de Lisboa não morreu nem mudou de país para continuar a matar, pode sempre ter sido preso por outro crime qualquer, em Portugal ou no estrangeiro. Em julho de 1996, chega a Lisboa uma carta vinda da Alemanha. Endereçada ao Procurador-Geral da República, a folha A4 está escrita dos dois lados, numa letra desenhada e elegante, que contrasta com inúmeros erros ortográficos grosseiros. "Eu sei quem é o estripador que andou aí a matar as raparigas da estrada". O remetente é um imigrante português no Luxemburgo, detido na Alemanha, a cumprir o segundo ano de uma pena de cinco. Explica que já é a segunda vez que está preso, mas que não é nenhum criminoso. Diz que tem 35 anos, um filho pequeno e uma mulher à espera e que quer ir para a liberdade o mais rapidamente possível. Garante que sabe tudo sobre o Estripador de Lisboa, mas também diz que só fala se o tirarem da cadeia. Suspeito número 10: o assassino alemão. Quando a dupla de agentes da PJ o visita, quase dois anos mais tarde, em março de 1998, o homem já está em liberdade. Conta-lhes que em outubro de 1995, durante uma viagem entre prisões, conheceu um recluso alemão Esse recluso confidenciou-lhe que tinha assassinado a própria mulher. Descreveu também como tinha matado a tiro e depois decapitado um casal de autocaravanistas em Espanha. E contou-lhe ainda como tinha assassinado três prostitutas em Portugal. Só há um pequeno problema: não sabe nada sobre ele, só o primeiro nome, Lothar. E esse é um dos nomes mais comuns na Alemanha. 11 de agosto de 1998. A primeira vítima do Estripador, Valentina, foi assassinada há seis anos e 11 dias. Ao primeiro andar da sede da PJ, chega uma carta da polícia alemã a pedir desculpa. Primeiro houve atrasos na tradução, depois um lapso. O documento já estava pronto para seguir há quase dois meses, mas os agentes responsáveis esqueceram-se de o enviar para Lisboa. Já conseguiram identificar o Lothar de que os portugueses andam à procura. Trata-se de um homem do estado de S, que em agosto de 1995 assassinou a mulher com duas machadadas na nuca, decapitou-a e depois lhe pegou fogo, antes de fugir com um cúmplice para a Espanha. Mas as datas não batem certo. Lothar Fella Antchell foi preso a 21 de julho de 1988 na Alemanha, acusado de roubo agravado. Quando Valentina foi assassinada, estava na cadeia. E quando Fernanda morreu, também. Só foi libertado a 3 de março de 1993, 12 dias antes de Maria João aparecer morta na Póvoa de Santo Adrião. O Estripador de Lisboa não pode ser ele. Os agentes ficam desiludidos, mas por pouco tempo. Três semanas depois, já vão estar a seguir outra pista internacional. Desta vez, enviada diretamente para Lisboa pela Interpol de Bruxelas. O suspeito é um violador e assassino em série e, num dos crimes, usou o gargalo partido de uma garrafa. A PJ está tão convencida de que o homem pode ser mesmo o Estripador de Lisboa que envia uma equipa de três agentes à Bélgica para o interrogar. Mas essa é uma história para o último episódio. No último episódio.
E às tantas recebo uma chamada da minha filha mais velha a dizer-me: "Prenderam o teu estripador".
Mas era tudo mentira. Tudo.
Não, não faltou fazer nada. Absolutamente nada. Já não perde nada em revelar-se e a estar vivo, dizer: "Fui eu".
"A Caça ao Estripador de Lisboa" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Inês Castelo Branco, e tem banda sonora original de Mário Laginha. O guião e as entrevistas são de Tânia Pereirinha. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Fraso Cabral. A voz da jornalista Maureen Boyle é dobrada por Inês André Figueiredo. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
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