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Nós sabemos que os salazaristas todos, os nostálgicos do antigo regime e os jornais que apoiam, citaremos o diabo só simbolicamente, mas sabemos o que é o diabo e tudo aquilo que lá está, o que eles dizem, como é que eles falam, e é evidente que o diabo é hoje um órgão ao serviço do senhor professor Freitas do Amaral.

Freitas do Amaral está incrédulo. Nunca pensou que Mário Soares fosse capaz de descer tão baixo. Conhecem-se há mais de uma década. Trabalharam juntos no mesmo governo. As famílias são próximas e ele tem a coragem de insinuar aquilo, de falar em ligações ao antigo regime, de sugerir que foi cúmplice de Marcelo Caetano só por ter sido assistente dele na faculdade de Direito? De recuperar a história do processo disciplinar que instruiu contra o filho João Soares? Ali, naquele estúdio da RTP, onde está a acontecer o grande debate da segunda volta, Freitas não para de pensar no conselho que a mulher lhe deu, contra a intuição de todos os elementos do núcleo duro da campanha. "Tens de atacar", avisou uma, duas e três vezes Maria José. É o que lhe apetece fazer, mas não pode. Não foi isso que ficou combinado. Disseram-lhe que tinha de mostrar pose de Estado, de manter a serenidade, de provar que não era um extremista. Mas Sá Carneiro tinha razão. Freitas não consegue esquecer o que o antigo primeiro-ministro e amigo lhe disse uma vez. Soares é mesmo um temível adversário de debate. Sente-se cada vez mais encurralado e mal consegue responder aos golpes do socialista. Está prestes a cometer o erro que lhe tinham dito que precisava de evitar a todo o custo. A campanha está finalmente reduzida a dois homens, Diogo Freitas do Amaral e Mário Soares. Um deles será o próximo presidente da República, o primeiro civil a ocupar o cargo em democracia. Para trás ficou uma primeira volta em que os dois mantiveram uma espécie de trégua não escrita. Freitas poupou Soares por entender que Zenha representava o maior perigo, por ter o apoio dos comunistas e por achar que o país precisava de dois verdadeiros democratas na segunda volta. Soares poupou Freitas porque esteve sempre mais preocupado com a concorrência à esquerda. Mas agora a luta é entre os dois. Freitas julga estar confortavelmente à frente, mas a agressividade de Soares vai surpreendê-lo. Pior, o socialista vai fazer algo que o adversário nunca julgou possível. Soares vai fazer um pacto com o inimigo. Esta é a eleição mais louca de sempre. Uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Uriane. Episódio cinco: Uma armadilha em direto.

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27 de janeiro de 1986. Soares está reunido com o núcleo mais próximo na sede da Avenida Valbom. Na manhã seguinte à primeira volta das eleições, aqueles homens ainda se estão a refazer da tensão da noite anterior. Mal foram à cama e já preparam a batalha seguinte: derrotar Freitas do Amaral. Soares passou à segunda volta por pouco. A corrida à esquerda poderia ter caído para o lado de Salgado Zenha. E a distância para Freitas é enorme. Mais de um milhão de votos. Precisam desesperadamente de um novo plano. Um a um, com maior ou menor entusiasmo, todos dizem o óbvio, recorda António Barreto, conselheiro de Mário Soares. Sem os eleitores do PCP, não é possível derrotar o candidato da direita.

Isso, por exemplo, eu lembro-me do Soares ter dito: "Sem os comunistas não ganhamos, mas cuidado, nós não somos comunistas. Alguns de nós, ou bastantes de nós, tentaram contactos e fizeram contactos com pessoas ligadas ao PC, ou mesmo do PC, conversas privadas, para que se saiba, porque você fala com A, sabe que vai falar com B, que vai falar com C, que vai acabar por falar com o Pato ou com o Abrantes ou com o Cunhal, ou seja com quem for. Isto era preciso andar muito depressa."

Estão bem conscientes de que uma viragem à esquerda representa uma inflexão total de tudo o que tinha sido feito até aí, mas é o preço a pagar se quiserem realmente vencer aquela eleição. Na verdade, o que lhe dizem os conselheiros não é exatamente uma novidade para Soares. Está, mais uma vez, um passo à frente de todos. Dias antes da primeira volta, Mário Soares tinha chamado à sede o empresário Amadeu Valente Rodrigues Um discreto militante comunista e genro de Fernando Martins, dono do Hotel Altis e presidente do Benfica. O mesmo lhe tinha emprestado um dos quartéis-generais da campanha. Para evitar microfones que Soares suspeita estarem espalhados por ali, pede-lhe para se encontrarem numa casa de banho. Tem um pedido a fazer: que prepare as pontes necessárias com o PCP para a eventualidade de ser ele, e não Zenha, a passar à segunda volta. É o que vai fazer Valente Rodrigues. No dia seguinte às eleições, pede um encontro ao amigo Octávio Pato, braço direito de Álvaro Cunhal, secretário-geral do PCP. O comunista percebe de imediato do que se trata. Os dois conhecem Mário Soares há muitos anos. Octávio Pato chama Valente Rodrigues à Rua Soeiro Pereira Gomes, sede do PCP, e encontram-se numa sala fechada e sem janelas. A única testemunha desse encontro é Carlos Brito, o líder parlamentar comunista. Valente Rodrigues tem um recado de Soares para Cunhal. Quer negociar os termos de um eventual apoio do PCP na segunda volta e já mandatou Jorge Sampaio e Gomes Motta para essa negociação. A mensagem é passada rapidamente a Cunhal. O líder comunista tinha apostado em Salgado Zenha na primeira volta e foi, por isso, um dos grandes derrotados da noite. Está numa posição de enorme fragilidade. Agora, não tolera a ideia de entregar o Palácio de Belém a um homem como Freitas do Amaral. Vê-se obrigado a dar instruções para que as conversas prossigam. Quer ver até onde Soares é capaz de ir. Nessa mesma tarde, Octávio Pato e Carlos Brito chegam juntos ao Altis, um hotel de cinco estrelas bem no centro da cidade de Lisboa. Estacionam o discreto Renault na garagem e sobem diretamente pelo elevador até ao terceiro andar. Fazem tudo para manter o encontro absolutamente secreto. Entre aqueles quatro homens, Sampaio, Gomes Motta, Pato e Brito, há anos e anos de desconfiança e rivalidade mútuas. Mas têm um grande objetivo em comum e isso basta. Antes de se despedirem, os comunistas deixam um último recado. Estarão atentos aos discursos que o candidato vai fazer na segunda volta da campanha. Quando Soares ouve o relato da reunião, fica satisfeito. Percebe que Cunhal, entre a espada e a parede, preferiu o pragmatismo. Falta só um passo. O líder comunista terá de fazer aprovar o apoio num congresso extraordinário. Três anos depois de ter dito à frente de Mikhail Gorbatchov e de centenas de militantes comunistas que estava completamente excluído qualquer apoio à candidatura presidencial de Mário Soares.

Nós estávamos convencidos que o PC ia conceder. Era tão perigoso para o PC ter um presidente da direita, um governo da direita, o Cavaco Silva, o Freitas do Amaral. E o PC, nestas coisas, conta as espingardas e conta os regimentos. E se o PC sente que tem tudo contra ele, é capaz de fazer isto, de tapar os olhos e votar.

Na véspera do congresso do PCP, chega o primeiro sinal. Numa entrevista, Octávio Pato diz que, apesar do partido continuar a achar Mário Soares um político com uma prática de direita, era óbvio que existiam diferenças entre a candidatura dele e a de Freitas do Amaral. A 2 de fevereiro de 1986, quando faltam duas semanas para a segunda volta, o PCP reúne-se no Pavilhão da Académica da Amadora para o 11º Congresso do partido. O ambiente é tenso. Há quem jure que prefere sair do partido a votar em Soares. Dizem que não se trata de engolir um sapo, é mesmo engolir um jardim zoológico inteiro. Até o todo-poderoso Cunhal tem dificuldade em explicar aquela mudança drástica e acalmar as queixas dos camaradas. Para todos os efeitos, Soares é o inimigo número um do partido há mais de uma década. O líder comunista assume finalmente que tinha sido um erro estratégico excluir de forma tão definitiva a possibilidade de apoiar Soares. Pede ao partido que valide a estratégia do Comité Central com um único argumento: entre Freitas e Soares, é preciso saber escolher o menor dos males. "Se for caso disso, não leiam o nome de Soares", diz Cunhal, numa frase que se tornará um clássico da política nacional. "Não olhem para o retrato, marquem a cruz no quadrado que está à frente do nome e desse retrato." Completada a pirueta, Jorge Araújo, membro da mesa do Congresso, pergunta quem vota contra e quem se abstém. De forma automática, passa o microfone a Cunhal para uma última intervenção. Nem se dá ao trabalho de olhar para a sala. Mas alguém lhe chama a atenção para algo de anormal. Parece que nem toda a gente tinha votado da mesma maneira. Com algum embaraço, volta atrás e repete a pergunta: "Quem vota contra?" No fundo da sala, inamovíveis, duas cartolinas vermelhas seguradas por dois jovens comunistas transmontanos erguem-se sobre o silêncio geral dos outros 992 delegados É a primeira vez que a unanimidade no PCP é quebrada à vista de todos. O objetivo de Soares foi alcançado. O maior adversário dele era agora o mais poderoso aliado. Resolvido o problema à esquerda, Mário Soares pode concentrar-se totalmente em Freitas do Amaral. Fica decidido que a estratégia tem que ser implacável. É preciso que os eleitores passem a olhar para o candidato da direita como um cúmplice da ditadura. António Pedro Vasconcelos, um dos homens mais acutilantes da campanha de Soares, quem vai ter o golpe criativo mais cruel. A partir de uma declaração antiga, em que Freitas aparecia a dizer que tinha nascido para a política aos 31 anos, a campanha de Soares faz um tempo de antena com imagens dos assassinatos de Robert Kennedy e Humberto Delgado, do Vietname, da guerra colonial, da PIDE, de Caetano e Salazar. Sugerem que Freitas assistiu a tudo em silêncio e no conforto próprio dos privilegiados do Estado Novo.

Houve, sobretudo, um dos mais acutilantes, chamava-se mesmo o 31 de Freitas, e nós enumerávamos em tempo de antena tudo o que tinha existido antes, já com ele vivo e adulto, e que não se tinha apercebido. E quando isso foi para o ar, recebemos, até de gente ligada a nós, que achavam que era demais, que era excessivo, que era insultuoso, adversarial, que era pugilato, que não tinha o nível. Aquilo foi uma reação muito forte.

Não será o único golpe violento de Soares contra Freitas. No último tempo de antena dedicado ao adversário, trabalhadores do 31 de Janeiro, um jornal que tinha sido oferecido a Freitas do Amaral, acusam o antigo líder do CDS de não lhes pagar os salários em atraso.

Eles estão em direito ao que lhes é devido, devem ser pagos e não devem estar sujeitos à tirania do reacionário Freitas do Amaral, que tem pretensões a presidente da República.

A história não é bem assim, claro. Sim, Freitas tinha recebido um jornal endividado e com salários em atraso. Mas além de ter transferido a gestão da empresa para dirigentes do CDS, tinha tentado tudo para salvar a publicação. Recorreu a amigos do norte que lhe fecharam a porta na cara, a empresários da região que se mostraram indisponíveis, a um empréstimo pessoal que a banca nacionalizada recusou. Para a campanha do socialista, nada disso importa. Soares já não é o mesmo candidato da primeira volta. O slogan mudou. Graças à visão de Vasco Pulido Valente, Soares é agora o candidato do voto do povo, dos pobres e desfavorecidos, contra a direita do dinheiro e dos privilégios. Nos cartazes, até a gravata desaparece. Nem toda a gente na equipa do socialista gosta do que vê. Demasiado próximo da linguagem mais radical, demasiado hostil para com a parte do país que Freitas representa, demasiado afastado do centro. Mas ninguém ousa questionar abertamente a estratégia do líder, recorda António Barreto.

Ele sabia o que queria já da segunda volta. Reunia toda a gente, com certeza, mas ele sabia o que queria. E eu estou convencido que na segunda volta, houve pessoas na sala, não quero estar agora a dizer 50 anos depois, mas houve pessoas que se sentiam um pouco à vontade, que achavam que se ia à esquerda demais, que ia buscar os votos dos comunistas. O voto de um comunista queima. Mas não abriam discussão ali em público. Admitia se se fizesse, mas ninguém fazia. Havia uma espécie de consenso artificial, mas que se fazia, que era ordenado pela sensibilidade dele.

Soares só não abdica de uma coisa: não podem existir provas materiais da existência dos novos aliados. Os dirigentes do PCP que vão à sede no Saldanha perguntar se a campanha precisa de alguma ajuda, são corridos em três tempos. E quando António Barreto informa que vai encontrar-se com elementos da direção da campanha de Maria de Lourdes Pintasilgo, Soares avisa: "Não me encha isto de comunistas". Freitas do Amaral não consegue reagir nos mesmos termos à campanha negra que Soares monta contra ele. Ou melhor, não quer. As pressões são enormes para que o faça, claro. Os setores da direita mais radical exigem que Freitas ataque o passado do socialista. Até gente da própria campanha lhe pede que faça isso. Que fale sobre como Soares terá dito que a única solução para os retornados era atirá-los aos tubarões. Ou de uma entrevista à revista alemã Der Spiegel, em que teria sugerido que o exército português devia abrir fogo sobre os colonos brancos que não aceitassem o processo de independência. Ou ainda da célebre manifestação em Londres, em julho de 1973, em que, dependendo das versões, Soares teria pisado, cuspido ou mesmo incendiado uma bandeira nacional. Só que Freitas sabe que essas histórias são falsas ou, no mínimo, exageradas. Recusa-se a explorar mentiras ou meias-verdades, mesmo que isso lhe possa custar a eleição. E dá ordens para que nada disso seja usado contra Soares, recorda Nunes Cintra Torres, responsável por pensar a imagem de Freitas.

Mas a partir de um certo momento, eu senti que não havia mais nada a dizer. E havia ali um problema, era um problema de consciência, tanto de Daniel Proença Carvalho, como meu, como de Freitas do Amaral, em que a campanha negra desenvolvida pela campanha Mário Soares contra Freitas do Amaral, não poderia ser contraposta a essa campanha, uma outra campanha negra sobre Mário Soares, até porque era muito difícil fazê-lo. Do ponto de vista político, prático, etc., era muito difícil contrapor, fazer uma campanha do estilo que estava a ser feita, em que essa campanha negra contra o Freitas do Amaral, resumia-se em colá-lo à direita ou à extrema-direita.

Mas há outro motivo, mais profundo e mais íntimo, que condiciona verdadeiramente Freitas. É que ele respeita e admira muito o adversário que tem pela frente. Recorda o filho, Domingues Amaral.

E depois, porque eles tinham uma boa relação pessoal também. E eu acho que isso também foi algo que conteve o meu pai, ou seja, o meu pai tinha muito respeito por ele. E no momento do debate da segunda volta, nunca lhe perdeu o respeito. Enquanto que o Soares era um animal de boxe, portanto, para ter boxe é para dar pancada.

Freitas do Amaral acredita genuinamente que apesar dos ataques que o staff do socialista lhe tem feito, Soares não será capaz de ultrapassar determinadas linhas vermelhas. Está enganado. Freitas nunca viu nada assim. Em cima do palco, montado junto à Praça dos Restauradores, em Lisboa, consegue ver dezenas de milhares de pessoas eufóricas que preenchem a Avenida da Liberdade até à estátua do Marquês de Pombal. Nunca, nem mesmo com Sá Carneiro ou Cavaco Silva, a direita tinha feito uma demonstração de força daquela dimensão na capital. Ao ver a multidão compacta que tem pela frente, fica com uma certeza: aquele sábado, dia 1 de fevereiro de 1986, ficará na história das campanhas eleitorais.

A manifestação, a marcha, manif, comício, como queiram chamar, do Marquês até à história, foi uma coisa absolutamente extraordinária. Nunca se tinha visto uma coisa assim em Portugal. À hora marcada, as laterais da Avenida da Liberdade descarregavam desde a Alexandre Herculano, a Barata Salgueiro, a Rosa Araújo, descarregavam gente para a avenida, das bocas de metro saía gente. Uma coisa extraordinária. O eleitorado mantinha um grau de mobilização elevadíssimo.

José Ribeiro e Castro, na altura deputado do CDS, era o porta-voz da campanha de Freitas do Amaral. As primeiras pessoas tinham começado a chegar às 14h, ainda que a marcha só estivesse marcada para as 15h30. Apesar da chuva, ninguém desmobilizou. Pelo contrário, foi chegando mais e mais gente à avenida principal da cidade para se juntar à multidão que dançava e cantava ao som de marchinhas de carnaval brasileiro. Quando Freitas chegou ao cortejo e saiu do carro, foi imediatamente cercado, ao ponto de ser obrigado a subir para a carrinho de caixa aberta que estava destinada aos fotógrafos e à televisão. A multidão cantava: "O maroca já perdeu e o Freipinha já venceu". Agora, quando está prestes a dirigir-se aos apoiantes, sente que aquela onda de entusiasmo só pode ter um resultado: a vitória. Promete continuar a não responder às provocações do adversário. "Não precisamos de atacar ninguém." Dentro de três dias, a 4 de fevereiro, vai enfrentar Mário Soares no debate mais decisivo da campanha. Os telefonemas podiam acontecer a qualquer hora, até mesmo às 02h. Quando está a preparar o frente a frente com Freitas, Mário Soares liga de madrugada amigos próximos e pede-lhes para virem à casa dele. Essas conversas podem durar apenas 15 minutos, mas são essenciais para ouvir conselhos. Durante o dia, marca reuniões com os conselheiros, lembra António Barreto.

Depois havia também a parte mais formal, em que ele nos pedia. Nós juntávamos três, quatro, cinco, seis, à volta dele, e nós próprios fazíamos as perguntas. E dizíamos: "Vai lhe dizer isto, vai dizer aquilo, cuidado com isso". E eram, às vezes, duas, três horas, como se costuma dizer, a picar pedra. Uma boa parte dos melhores argumentos que lhe eram dados, ele não seguia.

Soares cancela a agenda de campanha durante dois dias. Passa esse tempo a montar uma armadilha, levar o adversário para uma guerra de nervos, obrigá-lo a reagir mal e a perder a compostura. Freitas do Amaral tinha sido avisado Durante o debate, não devia nunca responder aos ataques que Soares trazia preparados, recorda o então diretor de campanha, Daniel Proença de Carvalho.

Nós tínhamos as mensagens que o candidato tinha que transmitir. Eram coisas simples e fortes. E a ideia era sempre que o candidato não estivesse a responder ao adversário, a forma como se devia comportar. E claro, havia gente muito experiente nisso, a olhar para a câmera, a maneira como olhava, o tom que devia empregar.

Nas reuniões com a equipa de conselheiros, Freitas ensaia as melhores respostas e treina a dicção. Antes do debate, cancela a agenda para se fechar em casa sem receber qualquer telefonema. Não precisa de fazer mais nada. A estratégia está definida. Vai acusar Soares de ser um catavento político sem qualquer tipo de credibilidade, ao ponto de se ter vendido aos comunistas e a Álvaro Cunhal, depois de tudo o que tinha dito sobre Salgado Zenha na primeira volta. No dia do grande debate, antes de seguir para os estúdios da RTP, Soares dorme uma sesta e vai ao barbeiro. É um hábito que tem há muito. Sempre gostou de dar uns pequenos retoques no cabelo antes de enfrentar as câmaras. Às 17h, Freitas ainda está em casa, na Quinta da Marinha. Tinha acabado de dormir a sesta, sente-se repousado. Está agora de volta aos papéis e apontamentos para uma última vista de olhos. Ao início da noite, nos estúdios da RTP, os cafés são distribuídos às dezenas. Há cinzeiros improvisados a abarrotar por todos os cantos. O ar é quente e irrespirável. Depois da maquiagem, é tempo de escolher quem começa. Moeda ao ar. Soares, tal como no debate contra Zenha, volta a escolher a caravela. Desta vez ganha e decide que é o adversário a começar. "Os últimos são os primeiros", diz Soares. Freitas está a poucos minutos de cair na armadilha preparada pelo adversário.

A gente já sabia que o Mário Soares ia atacá-lo por aí. E o que nós dissemos ao candidato? Eu lembro-me até, eu pessoalmente: "Ele vai atacá-lo no passado. E eu acho que você não responde de maneira nenhuma. Jamais responda a isto. Não responda nada. Vira-se pra câmera e diz assim: 'Os portugueses conhecem-nos bem, ao Mário Soares, a mim, a si. O senhor quer falar do passado, vamos falar no futuro. Tenho a visão do futuro'. E nunca dê nenhuma resposta". Nunca.

Boa noite, bem-vindos a esta emissão do programa Atual. Em direto e frente a frente vão estar o professor Freitas do Amaral e o doutor Mário Soares, os dois sobreviventes de uma disputadíssima primeira volta destas presidenciais.

O senhor professor Freitas do Amaral afirmou que o doutor Mário Soares da primeira volta não é o mesmo da segunda, que os apoios que entretanto recebeu o modificaram e o radicalizaram.

A primeira pergunta é exatamente aquela que Freitas esperava. Vai poder falar sobre como Soares se tinha vendido a Álvaro Cunhal na segunda volta para ter uma hipótese de vencer. Clareia a voz. Parece estar confortável, mas há alguns sinais que mostram o contrário. Olha várias vezes para baixo, parece estar a ler os apontamentos. Fala num tom excessivamente professoral que não consegue perder, nem mesmo depois dos esforços do staff que o acompanha. Recorda, palavra por palavra, aquilo que Soares tinha dito sobre os riscos da aliança entre Francisco Salgado Zenha e Álvaro Cunhal e sobre a ameaça de levar a esquerda totalitária para o Palácio de Belém. Está a preparar o terreno para desferir o golpe que tinha preparado. Soares não é mais do que um catavento.

O doutor Mário Soares, se aceita o apoio do Partido Comunista, está não só a colocar-se numa situação diferente daquela em que estava na primeira volta, em que todo o seu discurso era contrário ao Partido Comunista, era a denúncia dos perigos do Partido Comunista e do seu apoio a um candidato, como inclusivamente está a fazer aquilo que ele disse que era muito grave, ou seja, aceitar o apoio da direção do Partido Comunista.

Enquanto ouve Freitas, Soares raramente tira os olhos do adversário. Só o faz para rabiscar umas notas. Tem um leve sorriso. Não é o Soares tenso que enfrentou Zenha, é outro homem. E está pronto para atacar. Diz que se Freitas do Amaral só tem a história do pseudoacordo com os comunistas para o atacar, então está pobre de argumentos. Acusa-o de falta de seriedade intelectual. Diz que não esperava tamanha deselegância por parte de um homem que até considera. Olha diretamente pra câmera e dirige-se aos portugueses. "Eu não mudei da primeira pra segunda volta". Ao contrário de Freitas, aumenta o tom de voz. Fala de dedo em riste. Acusa Freitas do Amaral de nunca ter feito a distinção entre a direita democrática e a direita não democrática. De ser complacente com todos os que, na candidatura dele, gritam "morte aos comunistas" e "comunistas pra Sibéria". Margarida Amarante tenta interrompê-lo para exigir provas das ligações de Freitas à extrema-direita Soares ignora-a e atira-se a Freitas violentamente, apontando-lhe o dedo e referindo-se ao adversário como o rosto do radicalismo de direita. Bate na mesa enquanto fala. Acusa a campanha de Freitas de o vigiar a ele e à equipa de conselheiros. Mostra-se indignado. O mesmo Soares que Zenha acusou de querer um apartheid para os comunistas, diz agora que não vai tolerar o macartismo de Freitas.

Isto lembra, senhor professor, e essa é uma das razões porque o povo português não pode votar em si, o macartismo na América, que deu as suas provas quando os cineastas, os homens de cultura, os intelectuais, toda a gente era acusado de ser comunista. E havia um senador, e isso é uma coisa que me indigna, digo-lhe sinceramente, que se instalou no Congresso a desconfiar de toda a gente. Nós vimos esse filme aqui, isto é uma coisa histórica, o senhor ainda não tinha nascido para a política, porque não tinha 31 anos, devia ter à altura 20 e poucos. Não, isso é muito importante, meu caro senhor, é muito importante, porque eu não posso consentir que depois de ter havido o que houve no ano de 1975 em Portugal, venha instalar-se aqui o macartismo. Isso eu não posso consentir, porque sou democrata.

O debate leva mais de 15 minutos. Soares conseguiu até agora não falar sobre o apoio de Cunhal. Miguel Sousa Tavares tenta repor alguma ordem e pede uma resposta ao socialista. Mas Mário Soares nega a existência de qualquer apoio do PCP e diz que toda a gente é livre de votar em quem quiser. Sousa Tavares insiste: mas como é que se sente a receber o voto daqueles que lhe bateram na Marinha Grande? Soares sorri.

Eu sinto-me ao mesmo tempo divertido e ao mesmo tempo a falar da ironia do que é a vida política. Eu sinto que isso representa, para mim, a consagração da esquerda democrática.

Volta ao ataque. Carrega novamente sobre Freitas de forma violenta. Denuncia agressões e intimidações junto a escolas e liceus e diz que o adversário é incapaz de controlar a direita não democrática.

Pela mesma razão que os outros pensam que quando ouvem nos comícios, e com muita frequência, senhor doutor, quando ouvem nos comícios dizer: "Morte aos comunas" e às centenas de gritos nos seus comícios. "Comunas para a Sibéria", já me disseram a mim, com um, com a sua embriaguez: "O senhor é um comuna, tem é aqui para a Sibéria". Já me disseram a mim, calcule o que dirão aos outros. E quando dizem outros palavrões, que são desagradáveis e que chocam muita gente, têm chocado muita gente, quando se fazem intimidações ao nível dos colégios, dos liceus e das escolas, partidários da sua candidatura, com uma arrogância que é verdadeiramente desagradável e que o senhor deve conter. E se o senhor não é capaz de conter agora na campanha eleitoral, como é que a vai conter depois, se viesse a ser eleito? O que não vai conseguir fazer. As pessoas sentem-se efetivamente chocadas e não querem, pensam duas vezes.

Freitas do Amaral escorrega na armadilha do adversário. Lamenta que alguns dos apoiantes da candidatura tenham insultado os comunistas. Até diz que mandou calar um grupo de cinco pessoas no comício e assume desconhecer qualquer tipo de incidente entre os jovens apoiantes da candidatura e outras campanhas. Mas diz que não é nada daquilo que Soares insinua, que sempre se demarcou da direita mais radical. Os últimos anos assim o comprovam. Está a justificar-se e a jogar à defesa. Tudo aquilo que lhe tinham dito para não fazer, explica o diretor de campanha, Daniel Cruência de Carvalho.

Estávamos a ver o debate. A gente torcia-se todo quando ele começou a explicar o passado, a justificar-se. E aí, realmente, o Mário Soares, a gente percebe logo que a pessoa fica fragilizada.

Freitas ainda insiste na história da aliança com o PCP. Exige respostas ao adversário e que Soares rejeite o apoio de Cunhal. Mas Soares já não o larga. Despacha a questão do PCP e volta a dizer que Freitas do Amaral está rodeado de salazaristas e dos nostálgicos do antigo regime. Freitas defende-se. Afirma que só na imaginação de Soares é que está criado um radicalismo de direita e garante que nunca procurou alimentar qualquer clivagem ideológica.

O doutor Mário Soares inventa este radicalismo. O doutor Mário Soares quer fazer apelo ao medo. Já tinha feito apelo ao medo na primeira volta, ao medo do frentismo, da frente popular com o doutor Salgado Zenha, e agora numa pirueta de 180 graus, quer fazer o apelo ao medo do radicalismo do outro lado. Quando esse radicalismo não existe.

Soares assiste à prestação do adversário, ora recostado na cadeira, ora debruçado sobre a mesa. A primeira parte do debate aproxima-se do fim. Sente que chegou o momento. Vai tentar o nocaute.

O senhor doutor foi solidário pelo silêncio com o antigo regime até aos 31 anos de idade. Isso não pode negar. O senhor agora diz que é do 25 de Abril e ainda vem E tenho muita honra nisso. E é bom que fale do 25 de Abril e que defenda o 25 de Abril, e que diga que o 25 de Abril não está em causa. Isso é bom para os seus eleitores.

Quando o senhor me convidou para a comissão do 25 de Abril, tinha dúvidas sobre isso?

Não, não tinha. Ainda bem.

Por que as tem agora, senhor doutor?

Não tenho.

Por que as invoca agora?

Eu não tenho dúvidas quanto ao facto de o senhor doutor se ter convertido tardiamente à democracia.

Não foi uma conversão, porque eu não era adepto da ditadura, senhor doutor. Foi uma entrada na vida política.

Isso aí é que eu já não direi. Porque eu não direi? Porque o senhor pertence a uma família espiritual, o senhor tinha convivências, o senhor foi convidado, nunca ninguém se poderia lembrar de me convidar a mim para ministro da ditadura, ou para secretário de Estado da ditadura, de governos da ditadura. Convidaram-no a si. O senhor não fez nada pelo 25 de Abril, não fez. E reconhece que o não fez. Podia ter feito. Muitos da sua geração fizeram, o senhor não fez. O senhor esteve sempre silêncioso, sempre. Agora não me pode é dar lições de autoridade democrática ou de democracia a um homem como eu. Isso é que não pode.

A primeira parte do debate termina assim, com Freitas do Amaral à defesa e Soares triunfante. Freitas tentaria equilibrar o duelo na segunda parte. Ataca Mário Soares com a crise social e económica em que deixou o país depois de ser primeiro-ministro. Acusa Soares de se querer afirmar como dono do voto dos trabalhadores, ainda que os tenha atacado quando liderou o governo. Soares diverte-se e provoca. Só falta a Freitas dizer-se descamisado. As declarações finais de cada um dos candidatos não iriam mudar muito. A diferença foi feita nos ataques da primeira parte. E mais do que ninguém, Freitas do Amaral sabe que foi aí que perdeu o confronto. As luzes apagam-se. A emissão sai do ar. Soares deixa os estúdios da RTP com um enorme sorriso. "Bonne chance, senhor doutor." Atira ao adversário. Freitas prolonga o sorriso, mas não responde. Fica a bater os papéis na mesa do debate, cabisbaixo, até que o vão buscar dali para fora.

Nós estávamos na televisão, segundo creio. Estávamos lá no gabinete, onde acompanhamos o candidato. Viemos dizer agora ao Freitas do Amaral que aquilo tinha sido um bocado mauzinho. E, portanto, quer dizer: "Olha, o quê? Já estava feito".

Ninguém sabe que efeito terá o debate nas contas finais da corrida presidencial. Publicamente, os dois candidatos só admitem a vitória, mas começam também a preparar-se para uma derrota. Freitas do Amaral vê o enorme entusiasmo nas ruas à volta da campanha, mas tem noção de que está quase tudo contra ele. O país continua a ser sociologicamente de esquerda. A grande hipótese de vencer tinha sido a primeira volta. Agora, tudo seria mais difícil, recorda José Ribeiro e Castro, porta-voz da campanha.

Pelo menos para mim, era mais claro ganhar a primeira volta. Na segunda volta, dependia de uma série de variáveis que nós não tínhamos capacidade de antecipar, até porque nunca tinha havido uma segunda volta. Podíamos fazer desenhos, imaginar como é que podia ser, tínhamos a experiência de outros países, mas nunca tinha havido uma segunda volta em Portugal e nunca mais voltou a haver.

Por causa disso, a equipa de Freitas do Amaral tinha hesitado muito em participar no debate. Pressentiam que a versão dócil de Soares já não existia e que Freitas teria dificuldade em aguentar-se. Era demasiado arriscado. Mas com o conforto e incentivo de outros conselheiros, o candidato quis ir a debate em nome do respeito às regras democráticas. O resultado estava à vista de todos. Mário Soares também não se sente seguro. Sim, tinha saído por cima no debate e sabe que a aritmética eleitoral está do lado dele. Mas pergunta-se todos os dias: Álvaro Cunhal terá força suficiente para mobilizar os votos dos comunistas? E os fiéis de Eanes, como é que se comportarão desta vez? Ainda que tente mostrar confiança, as dúvidas atormentam-no. Um dia, chama António Barreto e faz-lhe um pedido. Quer que ele comece a preparar o discurso de derrota. Mas essa é uma história para o último episódio. No último episódio.

"Não, senhor professor, não pode. Olha os resultados, a tendência". Estávamos a almoçar e ele disse: "Vou vos ler, fiz dois discursos, preparei dois discursos, um para a derrota e outro para a vitória". Leu-nos os discursos.

Os intervalos de confiança das previsões não nos deixam dizer com segurança quem é o candidato mais votado.

"A Eleição Mais Louca de Sempre" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Gonçalo Waddington, e tem banda sonora original de Samuel Úria. O guião e as entrevistas são de Miguel Santos Carrapatoso. A sonoplastia e desenho de som são de Artur Costa. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube e da RTP. Podcast Plus do Observador: é mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.