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Se é bom, por que não fazer-se duas vezes? Temos dose dupla de "A Força da Técnica e a Técnica da Força" com o Gabriel Alves, que já está aqui conosco. Gabriel, boa noite.

Boa noite.

Podia ter corrido melhor o jogo que deu origem ao nosso primeiro episódio do dia de hoje, 10 de dezembro, mas vamos ao nosso segundo episódio, lançar este jogo histórico, a vitória da França nas semifinais frente à Inglaterra, e deixe-me lançá-lo da seguinte forma, Gabriel. Fui ao "L'Équipe" e não resisto. Em manchete, o jornal de referência do desporto francês coloca uma foto dos festejos de Giroud, que marcou o segundo gol que ditou a eliminação da Inglaterra e a passagem de França às semifinais, e a legenda, em bom inglês: "Sorry, good game".

Fantástico. Era o jogo de cartaz, o jogo glamour. E agora que ele terminou, que já descansámos um bocadinho depois de ele ter terminado, foi uma homenagem ao futebol. Uma partida que foi uma homenagem ao futebol, uma verdadeira homenagem ao grande futebol, a um campeonato do mundo.

Não desiludiu. Estávamos à espera deste jogo.

Não, foi um grande jogo de futebol. Foi um jogo de futebol com toda a sua dimensão de ataque, de procura do gol, de nuances, de defesa, de guarda-redes, de remates e que, de facto, Giroud, e muito bem o "L'Équipe" decide. Giroud decide, mas não se esquece que a bandeja que ajudou Giroud a decidir teve o pezinho de Antoine Griezmann. Portanto, Antoine Griezmann está ligado. Ele, que é o príncipe desta francesa, foi ele que serviu esta semifinal à equipe da França, com esse grande gol de Giroud, esse ponta de lança fantástico. Ele remata pouco, mas quando remata é com muito perigo. Sabe estar. É um jogador que sabe ser suplente quando é preciso ser suplente, não há problema. Quando está lá dentro, dá tudo. É recordista, neste momento, de gols para o seu país e naturalmente que a França está toda com ele. Griezmann, eu vou contar a dizer, é o homem que melhor entende o jogo, digamos, porque é ele que não quer ser vedeta, mas é a vedeta. Porque é ele que coordena, é ele que distribui, é ele que marca o ritmo de contenção, é ele que marca o ritmo de construção, é ele que marca o ritmo de ataque. É um jogador que está por todo lado, passa despercebido, mas é de uma intensidade enorme, de uma capacidade enorme e mexe nas dinâmicas da França. Tivemos tudo um pouco. Tivemos a emoção das grandes defesas, principalmente do guarda-redes francês, de pênaltis. O primeiro pênalti muito bem marcado, que a Inglaterra desfruta, muito bem marcado por Kane. Não sei se foi boa ideia por Kane a marcar o segundo na noite, até porque são colegas de equipe.

Pois, eles conhecem-se.

São colegas de equipe.

Se o Luís Henrique quis que os espanhóis marcassem mil pênaltis, imagine que o Kane treinasse mil pênaltis com o Lloris a defender. Ia dar um jeito.

Portanto, não sei se foi boa ideia, até porque a Inglaterra tem outros bons batedores e estariam naturalmente em campo para o poder fazer. Mas tudo isto é a emoção do futebol. Falhou, ponto. Não há nada a dizer. A Inglaterra poderá ter tido mais oportunidades, a França foi mais efetiva. Conta Mbappé. Mbappé que iria ganhar à equipe da Inglaterra, Mbappé hoje foi completamente anulado. Têm lá duas ou três situações, tem uma que me estou a recordar, um autêntico sprint que parecia mais uma prova de atletismo, de velocidade, do que propriamente um jogo de futebol.

Sabe que eu estava muito entusiasmado por esse duelo, porque o Kyle Walker prometeu-nos um bom duelo e eu não quis ser desiludido, obviamente.

Foi um bom duelo, mas também há um grande duelo do Theo Hernández, que de facto custou muito bem o lateral esquerdo da equipe da França.

Havia muito encaixe neste jogo, não é?

Havia. E este Theo Hernández vai sair deste Campeonato do Mundo muito valorizado. O irmão dele lesionou-se, o Lucas. O Lucas é um jogador mais efetivo, até porque é um jogador que tem a especificidade de poder ser lateral e poder ser central. E Theo Hernández foi sempre considerado um jogador não lento, não agressivo, não intenso. Já passou por diversos clubes, Real Madrid, Real Sociedad, formado no Atlético de Madrid. A verdade é esta: é que Theo Hernández vai sair deste mundial altamente valorizado. Valorizado por ele, que tem trabalhado e que, obviamente, tem tido o rendimento capaz dentro das quatro linhas. Portanto, tivemos aqui um jogo, de facto, de grande qualidade, de muita emoção, de bom espetáculo, de futebol em velocidade, futebol de conjunto, futebol coletivo, futebol com capacidade para as equipes fazerem a contenção e fazerem a saída em termos de ataque. Uma palavra para os guarda-redes. Lloris esteve melhor que Pickford. Acho que Pickford, no primeiro gol do desafio e da França, aquele remate de Tchouaméni. Que acho que Tchouaméni muito bem, viu uma hipótese e atirou.

Arriscou.

Arriscou e Pickford foi lento no arrancar para ir buscar a bola, de qualquer das maneiras. Não vamos, de maneira nenhuma, tirar mérito ao Tchouaméni, que de facto tem aquele repentismo. A verdade é esta: é que também as equipes normalmente quando põem um jogador naquela posição, as equipes que defendem, e a Inglaterra facilitou, porque não foi lá fazer-lhe a pressão. E ele estava solto, saiu e fez bem, marcou e deu a vantagem à equipe francesa. Portanto, um belo jogo com toda uma série de jogadores em grande plano, onde Harry Kane jogou muito bem, tem a questão da grande penalidade O Antoine Griezmann eu já fiz aquilo que tinha, já disse. Giroud como o ponta de lança. Eu não posso esquecer Saka, que teve uma verticalidade no jogo muito importante na banda da Inglaterra e Bellingham, que eu continuo a ser um admirador deste futebolista, porque acho que vai ser um jogador para os próximos 10 anos, que vai naturalmente encantar quem gosta de futebol. Que é isso. Eu não me vou meter no trabalho do meu companheiro Pedro Henriques, de forma nenhuma, mas, por amor de Deus, FIFA, não ponha árbitros destes genios. E isto é para ser de facto elegante, porque senão para classificar este árbitro brasileiro, eu se calhar teria que ser deselegante.

Senhor Wilton Pereira Sampaio.

É. Eu já tinha visto outro jogo dele e que tinha sido muito ao género e não há árbitro com categoria para estar no Mundial.

Parecia meio perdido ali na segunda parte.

Completamente. Tu por acaso deu com duas formações que têm uma dimensão e algum nível e que não se deixam envolver. Mas num joguinho mais pequeno, outro tipo emocional de jogadores, a situação não teria sido certamente muito agradável, porque é assim, um árbitro pode estragar um desafio. Felizmente, os jogadores não deixaram que este mau árbitro estragasse esta grande meia-final.

Vamos para as nossas rubricas, a força da técnica e a técnica da força. Começamos pela primeira: onde esteve a força da técnica, Gabriel Alves?

O Giroud, aquele cabeceamento é fantástico. Começa por ser a assistência do Antoine Griezmann, que mete a bola exatamente para a posição, porque ele adianta-se aos defesas. Há ali uma dessincronização defensiva por banda da Inglaterra, que o Giroud ocupa muito bem e que fez um cabeceamento portentoso. Já tinha tido um na primeira parte em que ele vai ao chão, completamente deitado no chão, fazer um cabeceamento com uma jogada extremamente perigosa, mostrando toda a qualidade de um ponta de lança que quer morder, que quer marcar. O primeiro penalti apontado por Kane é efetivamente uma força da técnica pura. O segundo é a técnica da força pura, foi por fora.

E a técnica da força é esse segundo penalti do Kane?

Eu não sou contra a técnica da força, desde que ela seja bem desempenhada, mas aquele foi um mau momento para Kane e Kane quando continuou o jogo, ficou no relvado, naturalmente reflexivo e percebendo que ele que tem um belo campeonato, fez grandes partidas, ele que é um nove, que é um 10 e um 10 que é um nove, um jogador extremamente importante no desenrolar do jogo da formação britânica, acaba por ser o verdugo da sua própria equipa.

E como sempre, na força da técnica e a técnica da força, damos espaço à memória, porque ela conosco também entra em campo. E para nos ajudar hoje, Gabriel, vou pedir ao Vicente para passar uns Beatles, porque o Gabriel quer recuar até à década de 60, essa época gloriosa para o futebol inglês.

É do inglês, que foi o único campeonato do mundo que os ingleses venceram. Max Marquis, jornalista francês, comentarista da BBC ao tempo e também do "Sunday Times" e do "Observer", enviado especial, então na altura, a seis campeonatos mundiais. Max Marquis com grande bagagem jornalística e conhecimento, falava episódios à margem de um triunfo inglês. Vou ler aqui dois ou três. Poderá, porventura, pôr-se em causa a justiça do triunfo inglês no Mundial de 66? Existem doutores na Santa Madre FIFA e cada opinião tem uma biblioteca a apoiá-la. Pode dizer-se que ganhámos porque havia o ambiente e o público a nosso favor, que a Alemanha era melhor, que Portugal merecia levar a taça, que vencemos a Argentina com a ajuda do árbitro, que não conseguimos derrotar o Uruguai. Admito qualquer ponto de vista, mas não aceito discussão alguma em torno dos merecimentos ingleses, em função dos esforços e sacrifícios realizados. Em muitos anos de jornalismo desportivo, nunca assisti a uma preparação tão conscienciosa e com tantas exigências. A designação que a imprensa e o povo atribuíram ao local de concentração da equipa lembrava os campos nazis para prisioneiros de guerra. Stalag Lilical. Alf Ramsey, o futuro Sir Alf, foi categórico desde o primeiro dia de treino. Aguarda-nos um período interrupto de práticas e trabalhos, sem escapadas ao exterior. Se algum tiver a ideia de beber um copo, será excluído da equipa sem contemplações. Quem não se sentir em condições de suportar o regime, deve declará-lo já e retirar-se. Sem rancor. Nenhum dos jogadores se pronunciou em contrário e todos se conservaram firmes até à conquista do título. Esses meses longos e duros foram férteis em episódios que demonstram o espírito que animou os ingleses. Volto ao princípio, talvez os filhos da Albion não fossem os melhores do ponto de vista técnico, mas a sua vontade e abnegação apoiadas num entusiasmo incondicional, neutralizaram esse déficit. E quanto a mim, a vitória final não admite regras. Aqui só mais esta. O treinador da equipa de Inglaterra, a Roland Chapetson, declarou mais tarde: "Nunca vi um conjunto em melhor forma física, nem com mais espírito de luta nas minhas viagens pelo mundo. Observei muitas equipas literalmente arrastadas pelo entusiasmo da multidão que as incitava. Foi a primeira vez que vi a multidão arrastada pelos jogadores. Sentado a seu lado no banco da turma britânica, enquanto aguardavam o início do prolongamento da final, Alf Ramsey replicou: "Não te preocupes, vamos ganhar". E para finalizar. Para a imprensa, Ramsey era uma personagem difícil e muitas vezes distante. Tinha os seus seguidores incondicionais, embora também se pudesse revelar cáustico com eles. No dia após a final, numa festa realizada nos estúdios da televisão, de Boreham Wood, foi abordado por dois jornalistas que o tinham apoiado nos momentos maus. "Olá, Alf, como se sente após a vitória?" A resposta foi pronta e contundente: "Hoje? É o meu dia de folga". E voltou-lhes as costas.

Mundial de 66. O sol veio nessa altura para a Inglaterra, foi o melhor mundial dos ingleses e curiosamente, Gabriel, o melhor mundial dos nossos portugueses também. Ficámos impressionados.

A verdade é esta, o mundial de Eusébio, de Simões, de Bobby Charlton, que ganhou o campeonato. De grandes nomes que marcaram a época e marcam gerações de futebol. São exemplos, são ícones. Pelé nesse campeonato. Saiu magoado.

E o grande nome que é o de Gabriel Alves vai estar de volta nas meias-finais com dois grandes jogos. Gabriel, bom descanso e até lá. Um abraço.

Um abraço.