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A violência do estrondo atira Vera Lagoa ao chão. A porta da rua está desfeita. Ela ainda demora alguns segundos até perceber o que realmente aconteceu. Que explosão foi aquela que lançou pedaços de madeira por toda a redação? Uma bomba. Rebentou quando ela escrevia tranquilamente o editorial da próxima semana. Foi colada debaixo da secretária que fica junto à porta da entrada da redação. Por sorte, não estava ninguém sentado naquela mesa. Normalmente, àquela hora, é ali que está o pacote do jornal. Um miúdo de 14 anos que naquele dia, por acaso, tinha saído mais cedo pra almoçar. Estamos a 9 de março de 1976. De manhã, tinha ido para as bancas a primeira edição do Sol, um jornal que estava fechado desde o final dos anos 40. A nova diretora é Vera Lagoa. O título foi-lhe oferecido por um amigo depois de o Conselho da Revolução ter ordenado a suspensão do jornal o Diabo, por abuso de liberdade de imprensa. A redação fica no número seis da Rua Rodrigues Sampaio, em Lisboa, precisamente na porta ao lado do Diabo. As cores dos jornais são as mesmas. Até o tipo de letra é igual. Cento e trinta mil exemplares são vendidos antes de amanhã chegar ao fim. O segundo número do Sol só devia ir para as bancas na semana seguinte. Mas depois de a bomba rebentar, Vera Lagoa decide fazer uma segunda edição no próprio dia. Com uma parte da redação feita em pedaços, a diretora começa a escrever. Na primeira página, deixa um aviso: o Sol não se apaga com petardos. Do rés do chão ao sétimo andar, os patamares do prédio da Rodrigues Sampaio estão cobertos de vidros, mas não houve mortos nem feridos no ataque. A pergunta agora é: quem? Quem mandou fazer rebentar a redação do jornal Sol? Vera Lagoa pede ao Conselho da Revolução que abra um inquérito, mas a investigação nunca vai avançar. Começa ela própria a levantar suspeitas. Meses depois do ataque, nas páginas do jornal, aponta culpas ao inimigo número um: Álvaro Cunhal. Não tenho dúvidas. Foi o líder do PCP quem mandou pôr a bomba. Mas não é esse o boato que corre nos bastidores do poder e dos jornais. Dizem que toda a gente sabe que quem anda a matar com ataques à bomba é a extrema-direita. E que não haveria disfarce mais eficaz do que fazer rebentar o jornal da Vera Lagoa. Um dos jornalistas até acha que pode ter sido um golpe publicitário montado por José Rebordão Esteves Pinto, subdiretor do jornal e marido de Vera Lagoa, sem que esta soubesse. Só que ninguém lhe tira a convicção, a certeza de que eles continuam aí. Aqueles a quem ela chama de oportunistas, neodemocratas, revolucionários do 26 de abril, pra ela são a cambada e é contra eles que Vera Lagoa decide tomar medidas mais drásticas. Chegou a hora de ir pra rua lutar. Esta é a Grande Provocadora. Uma série pra ouvir em cinco episódios, que faz parte dos podcast plus d'O Observador. É narrada por mim, José Mata, com banda sonora original de Moulinex. Episódio cinco: a agitadora que escapou a quatro bombas.
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Não foi só um susto. No quarto do hospital, Vera Lagoa percebe que corre perigo. Foi internada de urgência no Hospital de Santa Maria. A bomba não deixou feridas à mostra, mas três semanas depois do ataque ao Sol, começa a ter problemas de coração. Já perdeu a conta aos dias. Sabe que foi internada a 30 de março. Desde então, o médico proibiu-a de escrever e de ler jornais. São poucas as visitas que recebe. A ordem é: repouso absoluto. Passam-se semanas até poder voltar a sair. Anos mais tarde, em entrevista à RTP, iria recordar como a ausência dela levou ao fim do jornal.
Ficaram umas pessoas a tomar conta do jornal, que estavam a puxar o jornal, de facto, para um campo que não era o meu. Mais à direita do que aquilo que estavam a colocar-me. E eu mandei fechar o jornal, pura e simplesmente.
O semanário O Sol fecha ao fim de sete números, mas Vera Lagoa não desiste Recebe um convite de José Vá con Deus, diretor do jornal O País. Um jornalista que, tal como ela, acumula processos em tribunal por abuso de liberdade de imprensa. Na primavera de 1976, o país passa a ter dois diretores. Mas Vera Lagoa tem andado a trabalhar noutro projeto. Começou por escrever umas histórias sobre algumas pessoas que conheceu bem no passado. Pessoas que antes do 25 de abril serviram o antigo regime, mas que hoje são os maiores adeptos do processo revolucionário em curso e que andam agora a chamar-lhe fascista. Já tinha decidido juntar essas histórias num livro, mas escrever um livro leva tempo e Vera Lagoa quer denunciá-los agora. O livro pode esperar. As denúncias com provas vão começar a sair no jornal, numa série de crónicas que já tem nome: Revolucionários que eu conheci. Nas páginas do jornal O País, Vera Lagoa começa a compor aquilo a que chama galeria triste da história da Revolução. Estão lá nomes que toda a gente conhece, como José Carlos Ary dos Santos, o poeta do povo, como lhe chamavam, autor da Desfolhada Portuguesa e de As Portas que Abril Abriu, antifascista e militante do PCP. A Ary dos Santos, Vera Lagoa dedica a crônica: um oportunista com talento. Conta sobre a peça de teatro que escreveu para a propaganda do Estado Novo nos anos 60. Conta como ouviu o poeta confessar, depois da Revolução, que estava a ganhar mais dinheiro do que nunca. Conta sobre a casa forrada a damasco vermelho e peles de raposa e sobre as festas de champanhe e caviar, com a presença de célebres capitalistas e gente ligada ao antigo regime. Ary dos Santos reage chamando a Vera Lagoa o enfarte do miocárdio da Revolução. O advogado Daniel Proença de Carvalho acompanhou Vera Lagoa nesse tempo.
A Vera Lagoa nunca apontou factos falsos a quem quer que seja. Ela denunciou realmente alguns casos. Ela mostrou os oportunistas daquela época, porque também foi uma época de grandes oportunistas. Eu conheci muitos. São aquelas pessoas que antes do 25 de abril lambiam as botas aos patrões, ao poder político, etc. E que depois se tornaram grandes revolucionários e passaram a denunciar outras pessoas. Falámos muito no sentido de que ela considerava que essas pessoas estavam a desmerecer a consideração que ela tinha tido por elas, porque, na verdade, estavam a ir contra os seus princípios, nalguns casos por oportunismo, noutros casos, porque no fundo eles tinham sido falsos democratas.
As crónicas são, mais uma vez, um êxito junto dos leitores. Até ao fim do ano de 1976, Vera Lagoa denuncia mais de uma dezena de revolucionários. João de Freitas Branco, Mário Castrim, Batista Bastos e, lembra José Miguel Judice, até Luís de Sttau Monteiro, o homem que lhe deu o nome pelo qual ficou conhecida.
E, portanto, Sttau Monteiro, quando eu o conheci, já era uma pessoa que já fazia grandes críticas ao que se tinha passado a seguir ao 25 de abril. Quando ela o criticou, estava ainda a tentar, de alguma forma, esconder. E o que ela, em relação a ele, ia dizer: "Vocês que defendiam isto com coragem antes, agora parece que têm menos coragem de defender o mesmo".
O livro sobre os revolucionários há de mesmo ser publicado, mas só no final de 1977. E depois de Vera Lagoa sofrer mais um ataque à bomba. Desta vez deixaram um bilhete. Está escrito à máquina, mas a hora e a data do ataque foram acrescentadas à mão. 20 horas e 40 minutos, 14 de dezembro de 1976. A redação do país ficou destruída. Depois da explosão, o número sete da Rua Dom Pedro IV começou a arder. Àquela hora, só sobrava uma pessoa na redação: Jorge Ferro, o vendedor de publicidade. Diz que foi manietado e ameaçado com uma arma por um homem e uma mulher jovens e que foi interrogado sobre a ideologia do jornal. Os atacantes disseram-lhe que fugisse para o terraço porque ia haver uma explosão. O bilhete é claro. Quem pôs a bomba escreve que quer fazer rebentar um órgão de desinformação vinculado ao setor mais reacionário da classe dominante e acabar com a imprensa fascista. Está assinado por um grupo autónomo. Vera Lagoa acredita que o ataque foi uma retaliação. Dias antes, tinha publicado um artigo violento contra Otelo Saraiva de Carvalho e outros conselheiros da Revolução. Mas os jornais mais encostados à esquerda interpretam a bomba de outra maneira. O ataque é considerado uma provocação da direita, um disfarce para que os leitores pensem que são as forças da esquerda que andam a fazer atentados. Para Vera Lagoa, é mais um jornal desfeito Mas ainda não é desta que vai parar de escrever. O tribunal deu-lhe razão. No início de 1977, o jornal O Diabo pode voltar a ser publicado, quase um ano depois de ter sido suspenso por supostas injúrias ao então presidente da República, Francisco da Costa Gomes. Vera Lagoa tem o jornal de volta, mas também tem medo. Foram duas bombas em menos de um ano. O Diabo vai voltar, sim, mas numa cidade onde Vera Lagoa acha que será mais difícil colocar bombas. Começa a fazer contactos. Em janeiro, muda-se para o Porto. Acredita que há no Norte mais liberdade, mais independência. A nova sede do jornal fica na Rua Mouzinho da Silveira, em frente ao Palácio da Bolsa, e é-lhe concedida de graça por um homem que foi atingido pela caça às bruxas no tempo do PREC. Rui Moreira, um industrial do Porto, dono de um negócio de transporte marítimo e de uma empresa de colchões e pai do futuro presidente da Câmara. Tinha sido preso em 1975, sem nenhuma acusação, quando era crime ser milionário. Rui Moreira não foi o único a contribuir para a sobrevivência do Diabo. Os empresários, do Norte e não só, vão ser durante muitos anos a salvação do jornal, diz Carlos Piçarra, sobrinho-neto de Vera Lagoa.
E também houve muita gente que a financiou. Financiou o jornal e tudo. Houve várias pessoas, eu não vou dizer quem são, que eu sei. Mas houve pessoas, entidades e houve pessoas que ajudaram financeiramente o jornal, com certeza, de vários setores. Da banca, empresários. Por admiração que tinham por ela e pelo que ela veiculava, pelas opiniões dela, por aquilo que ela dizia e por aquilo que ela defendia. Aqueles editoriais dela eram um manifesto. E as pessoas gostavam muito disso. E os empresários tinham pouca oportunidade para se rever nisso. Portanto, sim, foi ajudada n vezes.
O Porto mantém-se como a sede do Diabo, que também tem uma delegação em Lisboa. Vera Lagoa desdobra-se em viagens entre o Norte e o Sul, porque na cidade que considera o baluarte da liberdade, não consegue imprimir o jornal. Estava tudo combinado para o primeiro número, mas na véspera da assinatura do contrato, um grupo de trabalhadores da gráfica recusa avançar. Têm medo de sofrer um atentado à bomba. Ou não fosse o jornal da Vera Lagoa. A única solução é imprimir na capital. No Porto, Vera Lagoa vive para o Diabo. Tem 60 anos, problemas de coração e desde o 25 de Abril, que não foi sequer há três anos, passou por cinco jornais pra conseguir escrever o que quer. Continua a ser a mulher de quem os homens do poder têm medo. Mas está cada vez mais sozinha. E é sozinha que vai enfrentar mais uma traição. Vai tudo pela janela fora. As calças, as camisas e a roupa interior. Em frente ao número oito da Praça das Águas Livres, os vizinhos correm pra assistir ao espetáculo. Os protagonistas: uma mulher que na varanda do segundo andar faz voar pela janela o que parece ser todo o guarda-roupa do marido. E um homem, prostrado no passeio, a implorar-lhe para que pare. Vera Lagoa e José Rebordão Esteves Pinto, ou como são conhecidos pelos amigos mais chegados, o casal ventoso.
Ela gostava muito dele, ele gostava muito dela também. Havia ali uma relação estranha. O Rebordão era de uma dedicação enorme, ajudava a fazer o jornal no dia a dia e, portanto, não estou a dizer que ele não tivesse influência nela, mas ela era uma pessoa muito forte. A relação entre ela e o José Rebordão, era ela é que estava, entre aspas, por cima. Porque em qualquer relação, ela era que estava por cima, era uma mulher muito segura de si e tinha sido uma mulher muito importante, com muito poder, muita influência, antes de 25 de Abril e depois. Era uma mulher muito interessante, muito seduzida e era uma mulher com uma enorme segurança dela própria.
O casamento acontece em meados dos anos 70, pela igreja, porque a família de Rebordão Esteves Pinto faz questão, mas com liberdade de culto, porque Vera Lagoa não acredita em Deus. Ele tem menos 15 anos do que ela e ela morre de ciúmes dele, sobretudo depois da traição que a levou a atirar a roupa dele pela janela.
Ele traiu-a no Porto, com uma senhora do Porto, é sociedade do Porto. Não vou dizer quem é, nem sei se é viva ainda, coitada, mas eu lembro-me da família. Quando o jornal estava no Porto, foram pra lá viver um tempo e o Zé meteu-se lá com uma senhora do Norte. E ela apanhou-os, soube e tudo. Mas ela continuou com ele. Casou três vezes e dois deles foi traída. Engraçado que essa mulher poderosa foi traída e descobre a traição nos dois últimos.
Nem amigos, nem família. Ninguém percebe a relação entre Vera Lagoa e Rebordão Esteves Pinto. Falam dele como um bicho do mato, ao contrário dela, que precisava de estar sempre rodeada de pessoas. Jaime Nogueira Pinto conheceu de perto a relação dos dois.
Era um personagem, aliás, curioso. Não era um tipo esperto, não era propriamente uma figura muito cultural, e até por isso foi interessante que eles tivessem tido essa ligação. E ele era mais novo que ela. Sim, era mais novo que ela. Portanto, tudo isso foi uma grande surpresa.
Isabel Fiuza, nora de Vera Lagoa, também não entende porque é que aquela mulher que enfrenta os homens mais poderosos do país, insiste em ficar com o marido que a traiu.
Tanto eu como o meu marido não gostávamos dele. E também já uma vez ou duas que nós lhe perguntámos: "Por que estás com ele?" E ela dizia: "Vocês sabem o que é solidão?" E nós percebemos que, no fundo, ela tinha uma necessidade de ter alguém. Era uma coisa que ela não gostava de estar sozinha. Não gostava, não conseguia estar sozinha, tinha sempre que arranjar alguém.
As cenas de ciúmes são constantes. O que acaba por uni-los sempre é o jornal. Rebordão Esteves Pinto é um jornalista dedicado. Vera Lagoa escreve os editoriais e dá a cara pelo Diabo, mas por dentro, é ele quem faz mexer a máquina. Ela trabalha sempre de manhã, ele fica na redação pela noite dentro. No final dos anos 70, o jornal, que ganha fama a denunciar os excessos do radicalismo de esquerda, chega a vender 100 mil exemplares. Nas ruas, as pessoas sabem quem ela é. E no final de 1977, milhares de descontentes vão para a rua gritar com Vera Lagoa. Está tudo pronto para a festa. São 15 dias de celebrações. Começam com uma exposição na Galeria Nacional de Arte Moderna. Vão atuar grupos folclóricos, poetas e cantores. Vai haver um ciclo de cinema e mais uma exposição de pintura no Palácio Foz. Lisboa, Braga, Covilhã, Porto, Grândola, o país inteiro vai participar. Tudo com o patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura. Até foi criada uma comissão nacional com quase 200 pessoas. A festa é para comemorar os 60 anos da Revolução Soviética. Vera Lagoa não quer acreditar. A primeira coisa que faz é enviar um telegrama ao secretário de Estado da Cultura, David Mourão-Ferreira. São amigos há muito tempo e por isso tem confiança para tratá-lo por tu. "David, demite-te, ainda vais a tempo." Faz um primeiro editorial inflamado. Em letras maiúsculas, escreve: "Eu não sou soviética. Não quero essa revolução no meu país." É então que nasce a ideia. Será a 5 de novembro, dia em que começam a sério os festejos da Revolução de Outubro. Se eles podem celebrar, ela pode fazer um protesto. Vai desfilar pelas ruas do Porto, vestida de preto, nem que vá sozinha. Às 17h, na Praça Humberto Delgado, a chuva cai torrencialmente. Vera Lagoa não está sozinha. Milhares de pessoas juntaram-se para fazer o caminho até ao quartel-general da Região Militar Norte, na Praça da República. De luto contra o que ela diz ser um governo à mercê da vontade dos escravocratas de Moscovo, recorda Jaime Nogueira Pinto.
As pessoas respeitavam-na e estavam de certo modo também gratas por essas posições que ela tomava. E sabe que as pessoas, no fundo, até porque como é uma qualidade rara em Portugal, a coragem é uma coisa admirada. E ela, de certo modo, nisso era corajosa, até pelos riscos. Não são riscos físicos, mas são os riscos de cortar com uma área onde tinha estado.
No meio da manifestação, Vera Lagoa conta por alto 20 ou 30 mil pessoas. É difícil saber, por causa dos chapéus de chuva. Não estão em silêncio. Quando a marcha ainda passa pela Rua de Camões, já se ouve o hino nacional na Praça da República. Também se ouvem os condutores de carros que vêm no sentido contrário e gritam contra os fascistas. No quartel-general, Vera Lagoa é recebida pelo brigadeiro Pires Veloso, que é quem comanda a Região Militar Norte. Foi um dos responsáveis pelo 25 de Novembro. Faz parte dos moderados. Vera Lagoa leva uma mensagem para ser entregue ao Presidente da República, o general Ramalho Eanes. Pede-lhe que vá à janela lê-la ao povo, mas Pires Veloso recusa. É um militar em serviço. Lá fora, debaixo do dilúvio, os manifestantes voltam a cantar o hino O brigadeiro olha para Vera Lagoa. Sabe que tem de responder. Em cima de uma mesa montada no meio da praça, Vera Lagoa segura uma bandeira de Portugal. Pires Veloso pega no megafone, lê a mensagem, junta-se ao hino e pede ao povo que não se deixe intimidar pelo medo. A chuva faz dispersar a manifestação mais cedo. Foi uma enorme sorte. Minutos depois, no exato lugar da manifestação, no preciso momento em que aquelas dezenas de milhares de pessoas deviam estar em frente ao quartel general, rebenta uma bomba. É a terceira vez que Vera Lagoa escapa por pouco. Depois da manifestação no Porto, o telefone toca. Do outro lado, o tom é de provocação. Por que a Vera Lagoa não organiza uma manifestação em Lisboa? É por medo?
Tens medo em Lisboa? Tens medo. Medo, é claro, essa é a palavra-chave para me levar para a rua, pedras na mão, se for preciso.
Começa imediatamente a fazer contactos. Consegue a ajuda de uma amiga, Fernanda Pires da Silva, a mulher que mandou fazer o Autódromo do Estoril e que perdeu todas as empresas para as nacionalizações. A manifestação de Lisboa vai mesmo avançar. Só é preciso decidir quando.
Eu tinha muito pouco tempo na frente. Eu disse: "Mas há uma data, por que nós não vamos celebrar o dia da nossa independência e mostrar que queremos ser independentes?" Não era uma manifestação contra a Espanha, não era contra isto, nem contra aquilo, nem contra aqueloutro, era uma manifestação contra as ameaças à nossa independência que vinham de toda a parte.
1 de dezembro, o dia da restauração da independência. E em 1977, é o dia em que Vera Lagoa enche a Avenida da Liberdade. Maria João Câmara, biógrafa de Vera Lagoa, ainda se lembra dessa imagem.
Eu lembro-me das primeiras manifestações do 1º de dezembro, da Avenida da Liberdade encher, mas encher sem bocados sem ninguém, era encher mesmo. Era muito impressionante e foi a sensação das pessoas democratas da época dizerem assim: "Afinal, nós existimos, estamos aqui e não queremos que Portugal se transforme num apêndice da União Soviética, no fundo".
150 mil pessoas descem a avenida até aos Restauradores. Vem gente de todo lado. Vera Lagoa convida os partidos, o governo, o exército e até o Presidente da República. Convida todos os que não querem viver num satélite de Moscovo. E apela para que a única bandeira presente na manifestação seja a bandeira de Portugal.
As pessoas que iam à manifestação da Vera Lagoa eram pessoas das mais variadas orientações políticas, eram pessoas que achavam que era importante honrar o 1º de dezembro.
José Miguel Judice conta que na imprensa controlada pelo Estado, a manifestação do 1º de dezembro só tem uma designação: fascista.
Todas as causas nacionais eram consideradas fascistas. Defender o 1º de dezembro era ser considerado fascista. Ora bem, e a Vera Lagoa achou que devia fazer, então fez. Eram manifestações impressionantes, que enchiam a Avenida da Liberdade. E era uma manifestação, evidentemente, contra o PREC, que tinha acabado, mas continuava a ser muito importante, mas era uma manifestação de afirmação patriótica.
Vera Lagoa lidera o cortejo. De repente, a meio da avenida, a multidão para. A 200 metros ouve-se um estrondo. É mais uma bomba, a quarta. Agora posta debaixo de um banco de jardim. Ninguém viu quem a pôs lá. E ninguém foi a tempo de dizer ao homem que estava sentado naquele banco para fugir. Um morto, 14 feridos, um bombista preso no Parque Eduardo VII. A 2 de dezembro, nos jornais diários controlados pelo PCP, a marcha de Vera Lagoa só é notícia pela violência e pelas imagens de saudações nazis em plena Avenida da Liberdade, que fazem manchetes. Os títulos são demolidores. "Numa manifestação de ódio, os fascistas mostram a cara em Lisboa". Vera Lagoa justifica os braços esticados com os excessos da juventude, que julga que daquele gesto lhe virá a salvação. Diz que talvez houvesse fascistas na multidão, porque em democracia, cada um pode pensar como quer. Jayme Nogueira Pinto explica a mudança na forma como Vera Lagoa era vista.
As pessoas da esquerda, com certeza, passaram a vê-la como uma trânsfuga. Mas não. O que ela era, era uma pessoa naturalmente muito sanguínea. Era uma pessoa muito empenhada e tinha uma radicalidade de linguagem que podia não corresponder à substância de posições. Era uma pessoa que
Que defendia as suas convicções de uma forma sempre radical, sempre combativa, agressiva.
Segundo os jornais de esquerda e do Estado, a marcha era composta por pides, agrários alentejanos, alguns retornados, senhoras de casacos de peles e distintos cavalheiros do antigamente. Falam do rebentamento como se tivesse sido uma encenação. Para eles, eram bombas reacionárias que já não enganam ninguém. Um editorial do Diário de Lisboa dirigido a Vera Lagoa é ainda mais cruel. Descreve-a como: "Aquela mulher que não sabe envelhecer". Vera Lagoa é cada vez mais vista como uma agitadora e tem orgulho no movimento patriótico que criou. Vai mantê-lo nos anos seguintes, em nome da independência, que ainda considera estar ameaçada. Até 1983. É nesse ano que começa a sentir o desinteresse dos que desciam à avenida com ela. E é nesse ano que as forças começam a faltar-lhe. O Diabo está praticamente entregue a José Rebordão Esteves Pinto. É o marido de Vera Lagoa quem faz os telefonemas, quem procura as notícias, quem contrata os colaboradores. Alberto João Jardim escreve para o Diabo. José Miguel Judice, Nuno Rogeiro, Jaime Nogueira Pinto, todos colaboram durante anos com o jornal. Muito popular entre os leitores, é também um colunista anônimo. Assina como Agapito Pinto, mas Carlos Piçarra garante que toda a gente sabia que era Marcelo Rebelo de Sousa.
Como colaborador, o presidente da República. Claro que era ele. Pode não ter sido ele o tempo todo. O pseudônimo daquela coluna existiu muitos anos. Eu lembro-me muito bem do motorista ir à Rua de São Bernardo buscar a crônica. Motorista, Rua de São Bernardo, que era onde o Marcelo morava, que é a casa dos pais.
Naquela época, Rebordão Esteves Pinto puxa o jornal cada vez mais para a direita, afirma o advogado Daniel Proença de Carvalho.
Uma coisa era o que ela pensava e outra coisa é que, por exemplo, escreviam o conjunto de pessoas sob o nome dela, mas, na verdade, ela podia ser diretora do jornal, mas se calhar toda a entourage já era bastante mais à direita do que ela.
Vera Lagoa vai fazer 70 anos. Mantém os editoriais acesos n'O Diabo, a aversão ao poder e as denúncias. Desde 4 de dezembro de 1980, que trava também uma batalha que vai levar até ao fim: a defesa acérrima da tese de atentado na morte de Francisco Sá Carneiro. Numa entrevista à RTP, em 1992, conta que mesmo com a marca Vera Lagoa, o Diabo sobrevive a muito custo.
É um jornal pobre, é um jornal onde eu ganho muito pouco, onde o meu marido, que é o diretor adjunto, ganha muito pouco, e é um jornal que sobrevive pelos seus leitores, pelos assinantes, e por muitos sacrifícios. Não estou a armar em vítima.
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Nos anos 90, a concorrência é mais feroz, os apoios não existem e a diretora tem cada vez menos forças. Vive assombrada por uma ideia. Todos os dias, há uma mulher a fazer 20 anos. Um último ato de combate político tomado por impulso. Vera Lagoa tem quase 80 anos. Em junho de 1995, torna-se militante do Partido Social-Democrata. O país vai escolher o próximo primeiro-ministro em outubro. Fernando Nogueira, pelo PSD, contra António Guterres, do PS. E a fundadora d'O Diabo, que nesta altura cede a direção a Nuno Rogeiro, quer combater aquilo que diz ser a esquerda socialista comunista. A decisão apanha de surpresa os outros jornalistas, incluindo o diretor do Independente. Na mesma tarde em que passa a ser filiada no PSD, Vera Lagoa recebe um telefonema. Paulo Portas quer confirmar a notícia e saber se é mesmo verdade que uma jornalista se tornou abertamente militante de um partido político, o que abriria a porta a que outros fizessem o mesmo. Em agosto, Portas abandonará a direção do Independente para ser candidato às legislativas pelo CDSPP. N'O Diabo, Vera Lagoa continua a ser conhecida como a Patruinha, mas a vida no jornal corre sem ela. Já não escreve todas as semanas, nem vai à redação todos os dias. A amiga Sara Ferro acompanhou-a nesse período.
Nos últimos anos de vida, eu acho que ela estava muito em baixo. Eu ia estar com ela, muitas vezes assim ao fim da tarde, ficava lá e tudo. Eu acho que ela estava
É tal coisa. A pessoa perder qualidades, perder energia. Estava muito em baixo.
19 de agosto de 1996. É segunda-feira, dia de fecho n'O Diabo. Vera Lagoa está em casa. É lá que escreve um editorial dedicado ao Marechal António de Spínola. O primeiro presidente da República depois do 25 de abril, tinha morrido uns dias antes. No artigo, volta ao tema que a tem obcecado desde sempre: a cambada. A cambada que foi agora à televisão exibir o desgosto, quando antes o tinha expulsado do país e das Forças Armadas. A cambada que o endeusou depois de o ter traído. A cambada que foi ao cemitério, mas passou a vida a troçar da derrota dele. Vera Lagoa para de escrever. Está sozinha em casa com a empregada, que lhe leva um copo de leite. Tem vestido um conjunto Calvin Klein que comprou na Steve Valley. A escrita deixou-a cansada. Aos 78 anos, já escreveu muitos artigos como aquele, de denúncia. Denunciou o salazarismo, quando Salazar mandava. Denunciou os revolucionários, quando os revolucionários dominavam. Denunciou todos os poderosos, quando eles tinham poder. Encosta-se no sofá da sala para fazer uma sesta. Não consegue ir já para o jornal. A grande provocadora fecha os olhos, adormece e morre. "A Grande Provocadora" é uma série para ouvir em cinco episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, José Mata, e tem banda sonora original de Moullinex. O guião e as entrevistas são de Ana Sanles. A sonoplastia é de Artur Costa. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons do arquivo da RTP. Se gostar desta série, pode seguir, dar cinco estrelas e comentar o episódio no Apple Podcasts ou no Spotify. Pode subscrever e gostar no YouTube. Assim, recebe uma notificação sempre que houver um novo episódio. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
