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Começa agora a Guerra Traduzida, edição especial Irão. Em plena guerra, vamos olhar para o que contam os jornais do Médio Oriente. Eu sou a Nadine Soares, hoje a edição é com o jornalista João Gama. Há muitas dúvidas sobre o cessar-fogo que foi acordado entre o Irão e os Estados Unidos. Horas depois, Israel lançou o ataque mais mortífero contra o Líbano desde o início da guerra.

Fez, Nadine, pelo menos 254 mortos, sendo que mais de mil pessoas ficaram feridas em poucas horas de bombardeamentos, naquela que é descrita como a onda de ataques israelita mais violenta desde o início da guerra. Os bombardeamentos aconteceram ontem à noite, um dia após o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irão. Estes ataques mereceram críticas de organizações humanitárias, como os Médicos Sem Fronteiras, a Cruz Vermelha Internacional e ainda vários países europeus. Em apenas 10 minutos, o exército israelita atingiu mais de uma centena de alvos. É a notícia que está em destaque a esta hora no site da Al Jazeera, que reúne algumas das principais declarações. O primeiro-ministro libanês assegura que está a mobilizar todos os recursos políticos para travar o que diz ser a máquina de matar israelita.

Mas, afinal, importa saber: este cessar-fogo incluía ou não o Líbano?

Depende a quem perguntares. Benjamin Netanyahu e J.D. Vance asseguram que o Líbano não fazia parte do cessar-fogo acordado entre os Estados Unidos e o Irão. O vice-presidente norte-americano disse mesmo que essa promessa nunca foi feita. Mas se perguntarmos ao Paquistão, o país que mediou o cessar-fogo, o primeiro-ministro responderia que o acordo previa uma pausa nos combates no Líbano. E do lado iraniano, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araqchi, citou a posição paquistanesa ao insistir que os termos são claros e ao alertar Washington que deve escolher entre um cessar-fogo ou uma guerra contínua pelo meio de Israel, mas que não pode ter as duas opções.

E dados os ataques no Líbano, vamos olhar pra imprensa do país. A imprensa libanesa que escreve que as horas de vitória de cessar-fogo antecederam o massacre.

Aqui com a ajuda da agência de notícias Al-Markaziyya. A guerra continua no Líbano, assumindo uma dimensão mais ampla e perigosa, como se não houvesse acordo e ninguém se importasse. É o que contam fontes políticas a esta agência de notícias, um cenário que já era previsto por aqueles que se opõem aos ataques do Hezbollah, e os israelitas vinham a insinuar isso há semanas, declarando que depois de ser fechada a frente de guerra com o Irão, voltariam a sua atenção para a frente libanesa. Esta agência de notícias escreve que o cenário de vitória do Hezbollah foi apenas uma ilusão e que, na prática, houve apenas massacres, derramamento de sangue e ocupação. Acrescenta que Israel declarou uma escuridão eterna sobre o Líbano e que centenas de inocentes pagaram o preço por viverem em áreas de influência do grupo xiita próximo do Irão, o Hezbollah. Escreve ainda que Beirute sofreu oito ataques aéreos em bairros densamente povoados, sem qualquer aviso prévio. Fala de um verdadeiro massacre e um desastre de proporções quase idênticas às que aconteceram dada a explosão no aeroporto de Beirute.

E esta onda de ataques aumenta o receio de uma nova ocupação israelita no sul do Líbano.

Sendo que a última durou quase 20 anos. E por isso a agência de notícias Naharnet coloca as seguintes perguntas: o que está a acontecer e até onde pode ir Israel? Uma fonte militar israelita diz à Agência de Notícias France Presse que quatro divisões do exército estão atualmente posicionadas ao longo da fronteira norte de Israel, fronteira sul do Líbano, e que têm avançado um eixo de cada vez por dentro do território libanês, destruindo as aldeias fronteiriças à medida que prosseguem. O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, já chegou a afirmar que os militares vão estabelecer uma zona de segurança dentro do Líbano e vão manter o controle de segurança sobre toda a área até ao rio Litani, cerca de 30 km da fronteira, já em território libanês. Foi precisamente a última tentativa de Israel de ocupar o sul do Líbano, que levou à criação do Hezbollah. Aconteceu, Nadine, em 1982.

E vamos espreitar os jornais israelitas. Israel diz que matou o sobrinho do líder do Hezbollah nos mais recentes ataques ao Líbano.

Um anúncio que foi feito esta manhã pelas Forças de Defesa de Israel, através de um comunicado partilhado na rede social X. O Hezbollah ainda não reagiu oficialmente a esta informação e com a ajuda do Times of Israel. Ficamos a saber que Harchi era sobrinho e secretário pessoal do líder Naim Kassem. Entretanto, as Forças de Defesa de Israel afirmam que durante a noite atacaram duas passagens centrais, precisamente do rio Litani, como falávamos há pouco, que eram utilizadas pelo Hezbollah para transferir milhares de armas, foguetes e lançadores de mísseis para o sul do Líbano.

E sendo que o Times of Israel destaca também as promessas vagas de Benjamin Netanyahu depois de mais uma guerra terminar sem uma vitória decisiva.

Escreve que Israel acompanhou o anúncio do cessar-fogo dos Estados Unidos, apesar de, por sua própria vontade, continuar a guerra com o Irão. Benjamin Netanyahu já afirmou que Israel tem mais objetivos militares a cumprir, numa declaração em vídeo divulgada após a entrada em vigor do cessar-fogo entre os Estados Unidos da América e o Irão. Mas esta cautela que Netanyahu está a demonstrar, pelo menos publicamente, para com os Estados Unidos, não é unânime. Aqui o Times of Israel destaca uma fonte senior do gabinete de segurança do Knesset a dizer que Trump acabou com tudo e não haverá retorno, regresso aos combates nas próximas duas semanas, como aquilo que pode acontecer quando o cessar-fogo chegar ao fim. E neste momento os iranianos estão livres para reconstruir as suas forças armadas. A guerra pode acabar sem um nocaute e isso preocupa as fontes e os analistas do Times of Israel. Relembra o jornal que com as eleições a seis meses de distância, Benjamin Netanyahu terá agora que se apresentar ao público depois de mais uma guerra que acaba de forma inconclusiva.

Ainda não é certo que hoje chega ao Paquistão uma delegação do Irão para negociar o cessar-fogo, mas a Al Jazeera conta que o confinamento de Islamabad é total.

Que descreve Islamabad, a capital do Paquistão, como uma cidade em estado de bloqueio. É uma reportagem da Al Jazeera, que está a esta hora em destaque no site, escreve que as ruas que atravessam o centro da cidade de Islamabad foram fechadas por completo como parte das medidas de segurança implementadas para estas negociações. Há polícias e militares nas ruas. A cidade está dividida em áreas e zonas onde as pessoas podem circular livremente e outras que estão com forte presença policial. Estas negociações entre o Irão e o Paquistão, escreve a Al Jazeera, vão acontecer no Hotel Serena, de onde os hóspedes receberam indicações para desocupar o local. Isto depois de no início da manhã, um embaixador iraniano no Paquistão ter afirmado que, apesar do ceticismo do povo de Teerão, tinha sido convidado pelo primeiro-ministro do Paquistão para participar nestas negociações. Esta será a primeira vez, lembra este embaixador, desde o início da guerra, que uma equipa iraniana viaja para o estrangeiro para negociar uma posição. O Paquistão que tem estado a mediar as negociações entre os Estados Unidos da América e o Irão. Ainda não há confirmação de que o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, irá a Islamabad, embora seja essa a expectativa que a Al Jazeera retrata neste artigo.

Fica por aqui mais um episódio da Guerra Traduzida da Rádio Observador. Esta que é uma edição especial dedicada à guerra no Irão, hoje com a edição do jornalista João Gama.