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Começa agora a Guerra Traduzida, edição especial Irão, hoje com a edição do jornalista João Gama. João, vamos olhar pra guerra no Médio Oriente e começamos a olhar pra uma notícia que está em destaque nos meios de comunicação social de apenas um dos lados do conflito.

Que falam de um conselho militar no Irão que terá assumido o controle do país. Este conselho será composto por oficiais superiores da Guarda Revolucionária do Irão e estará, por exemplo, a vetar nomeações do presidente do país, Masoud Pezeshkian, e a isolar o aiatolá Mostaba Khamenei. O caricato, ou não, é o fato desta ser uma notícia partilhada em destaque em sites como o Times of Israel, imprensa israelita, e desaparecer quando se procura na imprensa estatal iraniana. Ainda assim, as fontes que contam esta versão da história falam com um meio de comunicação social independente e afastado do regime iraniano, o Iran International. O jornal conta que o líder da Guarda Revolucionária rejeitou todos os candidatos propostos pelo presidente, que é considerado pertencer a uma ala mais moderada, para o cargo de ministro que tem a pasta dos serviços de informação, uma vez que o antecessor foi assassinado por Israel. O presidente encontra-se agora num total impasse político, é o que contam as fontes deste jornal. Além do presidente, também as vozes que se opuseram à escolha de Mostaba Khamenei como líder supremo estão a ser lentamente afastadas do círculo do poder iraniano.

Outro suspeito do costume na imprensa israelita é Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos está a considerar seriamente abandonar a NATO.

Porque alega falta de apoio dos aliados na guerra contra o Irão. Numa entrevista ao jornal britânico The Telegraph, Donald Trump classificou a aliança atlântica como um tigre de papel, não é a primeira vez que o faz, e disse que a continuidade dos Estados Unidos na organização está agora a ser reconsiderada por Washington. As declarações do líder norte-americano surgem depois de vários aliados da NATO terem recusado juntar-se aos esforços dos Estados Unidos para reabrir o estreito de Ormuz, por onde passa uma parte significativa do petróleo mundial. Trump criticou a posição dos parceiros europeus, afirmando que os Estados Unidos têm estado sempre disponíveis pra apoiar os aliados em vários conflitos, como é caso na guerra da Ucrânia, mas que desta feita não receberam o mesmo apoio.

Israel acredita que entrou na fase final da guerra com o Irão, mas precisamente o Irão diz que está preparado para uma guerra que dure pelo menos seis meses.

Uma notícia é do Times of Israel, a outra é da agência estatal Tasnim, uma agência estatal iraniana. O jornal israelita diz: passado um mês do início da guerra, as Forças Armadas de Israel concluíram praticamente o bombardeamento de todos os alvos que tinham sido pré-definidos e agora receberam uma ordem da liderança política do país para passar a atacar alvos econômicos do regime iraniano. Há já um balanço deste primeiro mês de guerra. A Força Aérea israelita lançou mais de 13 mil bombas contra alvos do regime iraniano. O Times of Israel escreve que essa mesma liderança política acredita que a guerra está numa fase de conclusão dos objetivos que estabeleceu inicialmente, nomeadamente degradar as capacidades militares de Teerão e criar condições para a queda do regime dos aiatolás.

E claro, a imprensa iraniana tem uma leitura completamente oposta.

E aqui recorremos à manchete da Tasnim, com declarações do ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros à Al Jazeera. Abbas Araqchi garante que Teerão está preparado para sustentar a atual guerra de agressão por um período prolongado de pelo menos seis meses, tempo pelo qual vai também continuar a sua resposta militar contra alvos norte-americanos e contra Israel. Disse ainda Abbas Araqchi que existiram trocas de mensagens entre o Irão e os Estados Unidos, mas em nenhuma ocasião houve uma negociação para colocar um fim à guerra. Diz que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Importa também olhar pro impacto econômico da guerra. Os houthis ameaçam fechar um novo estreito, tal como o Irão está a fazer em Ormuz.

É o estreito de Bab al-Mandab. A reportagem é da Al Jazeera, que escreve que os houthis estão neste momento a concentrar os ataques contra o sul de Israel. Os houthis, importa recordar, são um grupo armado xiita do Iêmen, tal como o Hezbollah é no Líbano. Um dos principais responsáveis do grupo garantiu hoje que tem mais opções em cima da mesa, prevê novas fases de uma escalada militar. Uma delas, Nadine, pode passar pelo fecho do estreito de Bab al-Mandab, uma rota marítima considerada estratégica, tal como o estreito de Ormuz, para o comércio internacional, principalmente para o transporte de petróleo.

E a Al Jazeera ouviu especialistas que alertam que o encerramento do estreito de Ormuz vai continuar a ter efeitos na economia, mesmo quando for reaberto.

E efeitos substanciais, mesmo que seja parcialmente reaberto amanhã, a interrupção das cadeias de abastecimento globais será sentida muito depois do tempo em que os navios forem libertados para poder voltar a passar livremente no estreito de Ormuz. É o que acreditam os especialistas em transporte marítimo e comércio ouvidos pela Al Jazeera. Dizem que quando a guerra termina oficialmente e os bombardeios cessam, isso não significa que a guerra acabou, e também no que toca à logística, porque é aí que o verdadeiro trabalho de recuperação começa.

No mesmo sentido, os Emirados Árabes Unidos descrevem este bloqueio como uma extorsão da economia global.

Falamos aqui do presidente da Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi, precisamente nos Emirados Árabes Unidos. À medida que os impactos do encerramento efetivo do estreito de Ormuz se deslocam para o Oeste e os preços dos alimentos e dos combustíveis sobem em toda a Europa, este responsável pela Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi diz que o mundo deve agir em conjunto para proteger o livre fluxo de energia.

A imprensa árabe destaca também uma alteração da lei em Israel, a pena de morte para palestinianos condenados por homicídio.

Uma pena de morte apenas para palestinianos que sejam acusados com esse crime. Não é, por exemplo, aplicada a mesma pena a quem cometa o mesmo crime se for judeu e israelita. A Al Jazeera escreve que esta lei foi recebida com júbilo entre manifestantes de extrema-direita. Um deles, o próprio ministro de Segurança de Israel, Ben-Gvir, foi visto a brindar com um copo de champanhe assim que o projeto foi aprovado no Parlamento, no Knesset, e também foi recebida esta novidade com muita preocupação no Ocidente. Escreve o jornal que França, Alemanha, Itália e Reino Unido manifestaram preocupação com o que muitos descrevem como a natureza abertamente racista deste projeto-lei, cuja essência e redação parecem visar exclusivamente os cidadãos palestinianos. Importa recordar, por exemplo, Nadine, que 99,74% dos palestinianos que são acusados de cometer qualquer crime na Cisjordânia ocupada são considerados culpados. E aqui falamos da Cisjordânia ocupada, porque é nestes territórios onde os palestinianos são julgados em tribunais militares, enquanto os colonos israelitas, os cidadãos israelitas, são julgados em tribunais civis, e esta é uma legislação limitada aos tribunais militares.

E fica por aqui mais um episódio da Guerra Traduzida da Rádio Observador. Esta que é uma edição especial dedicada à guerra no Irão, hoje com edição do jornalista João Gama.