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Está na hora de traduzir a guerra. Vamos analisar a imprensa ucraniana de hoje e pra isso contamos com o jornalista Miguel Cordeiro. Olá, Miguel. Este é, como sempre, um programa feito em colaboração com a Tânia Olinyk, natural da Ucrânia. Miguel, a Ucrânia planeia realizar uma cimeira da paz na ONU.
Sim, uma cimeira que está a ser preparada para os próximos meses, deve acontecer até fevereiro. Pelo menos é isso que está na imprensa ucraniana. Nos próximos meses, pelo menos até o final de fevereiro, a Ucrânia pretende realizar uma cimeira para a paz, e pretende realizar esta cimeira nas Nações Unidas com o objetivo de pôr fim à guerra. O Ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, diz isto em entrevista à Associated Press. O secretário-geral da ONU, António Guterres, vai presidir a esta cimeira. Comentando aqui sobre o papel do secretário-geral, Kuleba diz: "António Guterres mostrou-se um mediador eficaz e um negociador eficaz. O mais importante é que é uma pessoa de princípios e decente, portanto, ficaremos felizes com a participação ativa de António Guterres". Diz também Kuleba: "As Nações Unidas podem ser a melhor plataforma para a realização desta cimeira, porque não se trata de fazer um favor a nenhum país, trata-se de envolver todos os países", é o que acrescenta aqui o ministro dos Negócios Exteriores da Ucrânia. Questionado sobre se a Rússia seria convidada para esta cimeira, Kuleba diz que Moscou tem que primeiro enfrentar um tribunal internacional de crimes de guerra. Kuleba explica que as declarações dos russos sobre a prontidão para as negociações são falsas, porque as ações no campo de batalha indicam o contrário. Ele garante que a Ucrânia vai fazer tudo o que é possível para vencer esta guerra em 2023. Diz também Kuleba: "Qualquer guerra termina diplomaticamente, qualquer guerra termina como resultado de ações no campo de batalha e na mesa de negociações", é o que diz o ministro dos Negócios Exteriores da Ucrânia.
Qualquer guerra, Miguel, tem vários efeitos colaterais, podemos dizer assim, e um deles tá relacionado com a taxa de natalidade na Ucrânia, que deve ter uma queda acentuada.
Sim, vai ter uma queda acentuada em 2023 e isto é uma previsão do Instituto Mykhailo Ptukha, um instituto de demografia. O próximo ano vai ser um ano de declínio catastrófico na taxa de natalidade. Há riscos de que até 2030 a população da Ucrânia diminua para cerca de 35 milhões. Quando começou a guerra, a população da Ucrânia estava entre os 40 e os 43 milhões de pessoas, e prevê aqui este instituto que até 2030 a população possa ficar nos 35 milhões. Nesta altura, na Ucrânia estão menos pessoas do que essas, porque de fato houve uma grande movimentação de pessoas para fora da Ucrânia, que saíram com o início do conflito. Ora, o diretor deste instituto de demografia diz: "Estimamos que até 2030 sejamos 35 milhões. Infelizmente, isso pode não acontecer. Como a guerra continua, estamos a perder gente por excesso de mortalidade. Não são só os mortos no conflito, há também pessoas a morrer por estresse, por sobrecarga, por alimentação de má qualidade, por assistência médica insuficiente, por falta de saneamento. Além disso", diz ele, "há também esta baixa na taxa de natalidade. Ainda não sentimos isto em toda a extensão, mas 2023 vai ser um ano de queda catastrófica neste indicador". Ele dá aqui alguns exemplos. Ele diz para ter uma restauração simples de gerações, uma mulher deve dar à luz 2,15 filhos durante a vida, isto é uma média, claro. E que em 2021 esse indicador estava em 1,1 por cada mulher. Em 2022 a taxa baixou com o início do conflito e ele estima que em 2023 essa taxa possa parar no 0,8, ou seja, há aqui a impossibilidade de aumentar a população da Ucrânia e a tendência é que diminua de acordo com essa taxa de natalidade. Considera também este diretor do Instituto de Demografia que a migração é outro problema numericamente doloroso, é a palavra que ele utiliza, mas que não é terrível neste aspecto e que é normal por causa da situação de guerra. Ele explica que as pessoas que fugiram da guerra para o exterior estão vivas e que há a esperança que regressem e que possam ter filhos também no exterior. A perspectiva de regresso vai depender, sobretudo, da duração destas hostilidades e das condições que se vão desenvolver depois da guerra. Ele explica que quanto mais tempo a guerra durar, as pessoas podem se habituar a viver no exterior e com isso não voltar à Ucrânia. De acordo com este Instituto de Demografia, desde 1994 a população da Ucrânia tem diminuído anualmente e que nesta altura o número está inferior a 35 milhões de pessoas a viver no país por causa do conflito, mas que antes do conflito seriam aproximadamente 40 milhões.
E outro dado que temos na imprensa diz respeito ao salário mínimo, que não deve aumentar em 2023.
Sim, o orçamento do Estado para a Ucrânia não prevê o aumento do salário mínimo. Deve manter-se no patamar de 6.700 hryvnias. Isto, fazendo a conversão pra euros, são 170 € por mês, o salário mínimo na Ucrânia. A 1 de janeiro de 2023, entrou em vigor a lei do orçamento do Estado para 2023. Há de fato aqui, neste orçamento, não há qualquer previsão de aumento do salário mínimo, que a secção de Econômica do Pravda Ucraniano faz as contas e olha para o documento, diz que não há qualquer alteração prevista e que os trabalhadores neste salário mínimo vão continuar a receber 43 hryvnias por hora, e isto significa 1 € por hora. É o que é pago aos trabalhadores ucranianos. O mínimo de subsistência na Ucrânia também não vai sofrer alterações. Isto serve para definir apoios. Por exemplo, pessoas aptas para trabalho sem emprego vão receber 66 € por mês. Este é o apoio. E são cerca de 2.600 hryvnias, a moeda ucraniana. Para crianças menores de seis anos, 2.272. É um valor ainda inferior a 60 €. Para crianças de seis a 18 anos, também um valor aproximado a 70 €. E para pessoas que perderam a capacidade de trabalho, um valor na casa dos 55 € de prestação de apoio que o Estado dá a estas condições.
Seguimos pra outra notícia em destaque na imprensa ucraniana, que faz no fundo parte da guerra de palavras que acontece ao mesmo tempo que a guerra no terreno. E agora temos Lavrov a dizer que os Estados Unidos planeiam matar Putin.
Sim, o que acontece? O chefe do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, deu uma entrevista à Agência TASS. De fato, isto podia estar na guerra traduzida da Rússia, mas vamos olhar aqui pra forma também como a Ucrânia reage a esta notícia e como isto está na imprensa ucraniana. Ora, Lavrov dá uma entrevista à Agência TASS e diz que os Estados Unidos ameaçaram matar, desferir um golpe de decapitação A Vladimir Putin. Se olharmos aqui para o artigo da Pravda Ucraniana, podemos ler logo no topo: "O chefe do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, afirma que representantes do Ministério da Defesa dos Estados Unidos da América supostamente ameaçaram desferir um golpe de decapitação no Kremlin". Isto foi o que disse Lavrov e é assim que começa também o artigo da Pravda Ucraniana. Lavrov disse então: "Há alguns funcionários anônimos do Pentágono que chegaram a fazer ameaças para se levar a cabo um ataque para decapitar o chefe do Kremlin. Na verdade, trata-se de uma ameaça de assassínio contra o presidente russo." O ministro dos Negócios Estrangeiros refere também que, a propósito deste ataque, uma ameaça para remover fisicamente o chefe de Estado russo é algo muito preocupante e que os Estados Unidos devem estar cientes das consequências caso algum ataque deste tipo seja realizado. Lavrov não especifica nesta entrevista de quem é que poderia fazer este ataque, como é que isto poderia acontecer. A imprensa russa afirma que o chefe do Ministério das Relações Exteriores se referia a um artigo da "Newsweek". E de fato, se formos pesquisar por esse artigo, ele existe. É um artigo publicado no final de setembro na "Newsweek", em que alguns autores que citam fontes militares e alguns especialistas militares próximos do Pentágono, disseram que os Estados Unidos poderiam considerar um ataque de decapitação no Kremlin como uma das opções para responder à utilização de armas nucleares por parte da Rússia. Ou seja, se a Rússia utilizasse armas nucleares, explicava aqui um chefe militar próximo do Pentágono, que os Estados Unidos podiam tentar, de certa forma, arranjar uma maneira de matar Putin dentro do Kremlin. E com base nisso tudo, passado esses meses, Lavrov vem dizer que os Estados Unidos efetivamente tentaram fazer isto. É claro, como referi no lançamento, há uma grande parte de tudo isto, uma guerra de palavras e de acusações.
Fica por aqui a Guerra Traduzida, com a análise à imprensa ucraniana, como sempre, com o jornalista Miguel Cordeiro.