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Começa agora a Guerra Traduzida, edição especial Irão. Em plena guerra, vamos olhar para o que contam não só os jornais do Médio Oriente, como a imprensa norte-americana. Eu sou o Carlos Pedro hoje, a edição é do jornalista João Gama. Boa tarde, João.
Boa tarde, Carlos.
E tic tac, está por horas o início do bloqueio do estreito de Ormuz. O Irão queixa-se de pirataria norte-americana.
O bloqueio que começará esta segunda-feira por volta das 15h, hora de Lisboa. Este é um bloqueio que vai afetar todos os portos iranianos no Golfo Pérsico e no Golfo do Omã e vai aplicar-se a todos os navios, independentemente da bandeira, que entram ou saiam dos portos e das zonas costeiras do Irão. Teerão promete responder com um mecanismo permanente para controlar o estreito por onde, como sabemos, circula um quinto do petróleo mundial. O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Irão defendeu esta manhã que o bloqueio anunciado pelos Estados Unidos é ilegal e assim tratar-se-á de um ato de pirataria. Uma posição transmitida pelos canais estatais de televisão.
Ainda assim, João, a imprensa iraniana não parece estar preocupada. Mostra vários responsáveis de alto nível a ridicularizar as ameaças do presidente norte-americano.
Duas declarações aqui na Agência Tasnim estão em destaque e no dia em que começa o bloqueio. Não é coincidência, por exemplo, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammed Khalibaf, diz que as ameaças de Donald Trump mostram saudades da Casa Branca de fazer os norte-americanos pagar quatro ou cinco dólares por galão de gasolina e espera, por isso, um novo aumento a pique, diz aos norte-americanos para aproveitarem os atuais preços. É uma publicação, Carlos, que inclui uma fotografia de um mapa com os preços das bombas de gasolina mais próximos da Casa Branca. Também o líder da Marinha iraniana garantiu hoje que os bravos homens do exército de Teerão estão a monitorizar e a observar todos os movimentos do exército invasor dos Estados Unidos. Descreve, também ele, as ameaças de Donald Trump como risíveis e ridículas.
E em pleno bloqueio, a Al Jazeera conta que os países do Golfo estão a fazer planos para o encerramento do estreito de Ormuz e a longo prazo.
Horas depois de os Estados Unidos revelarem que dois destroyers da Marinha norte-americana já atravessaram o estreito, estarão neste preciso momento a remover minas terrestres colocadas pelo Irão. Informação e contrainformação, uma vez que Teerão já veio negar esta alegação, afirmando que obrigou todos os navios norte-americanos a regressar. A Al Jazeera ressalva que é impossível verificar de forma independente qualquer uma destas alegações. O bloqueio de Trump estará por horas e por isso escreve o jornal sediado no Qatar que os países do Golfo já começaram a elaborar os seus próprios planos. A Arábia Saudita, por exemplo, já restaurou algumas infraestruturas que foram atacadas pelo Irão, pode agora exportar sete milhões de barris de petróleo por dia através do oleoduto leste-oeste e mais de 300 mil por dia através do complexo petrolífero de Manifa. Está ainda assim em contraciclo, a Arábia Saudita e os outros países do Golfo estão sim, Carlos, a preparar-se para um cenário em que o estreito de Ormuz não será reaberto.
E há uma ameaça do Irão se os Estados Unidos avançarem com o bloqueio no estreito de Ormuz, podem perder o acesso a outro ponto importante no comércio internacional.
Falamos do estreito de Bab al-Mandab, que fica na outra ponta da península do Golfo. Não é controlada pelo Irão, mas é fortemente vigiada pelos Houthi, o grupo islâmico com fortes laços ao regime de Teerão, que tem inclusive já participado nesta guerra com Israel. Uma fonte bem informada, como é descrita, conta à Agência Tasnim que as ameaças de Trump não vão melhorar o processo de resolução desta guerra e que o presidente norte-americano deve estar mais preocupado em perder o acesso a outro estreito, o de Bab al-Mandab. Por este estreito passa 12% do petróleo mundial, já pelo estreito de Ormuz, já aqui o dissemos, é cerca de 20% do petróleo que passa para o comércio internacional.
E curiosamente, João, o Papa Leão XIV está também em destaque na imprensa do Médio Oriente com o seguinte título: "Donald Trump insulta o Papa por causa das suas posições antiguerra".
O presidente norte-americano que recorreu às redes sociais para pedir ao líder da Igreja Católica para parar de tentar agradar à esquerda radical e de pedir que reveja algumas das suas posições sobre política externa, nomeadamente as críticas que o Papa tem feito aos Estados Unidos por causa dos ataques ao Irão e também à Venezuela. Depois de escrever isto nas redes sociais, Donald Trump insultou de viva-voz.
Nós não gostamos de um papa que diga que é ok ter uma arma nuclear. Não queremos um papa que diga que é ok haver um crime nas nossas cidades. Eu não gosto. Não sou um fã do Papa Leão XIV. É uma pessoa muito liberal e um homem que não pensa que devemos brincar com um país que quer uma arma nuclear para poder arrebentar o mundo. Não sou fã do Papa Leão.
É uma notícia em destaque na Tasnim, que acrescenta que vários especialistas notam que as mais recentes homilias e declarações de Leão XIV têm incluído referências diretas aos acontecimentos no Médio Oriente e críticas à administração norte-americana, sendo que o Papa já respondeu esta manhã a bordo do avião papal que o levou à Argélia, desde logo recusando entrar num certo tipo de bate-boca com o presidente norte-americano.
O que eu digo não é para ser interpretado como um ataque a ninguém. A mensagem do Evangelho é muito simples: abençoado é quem faz a paz. Não vou deixar de anunciar a mensagem do Evangelho, de convidar todos a encontrar maneiras de construir pontes para a paz e encontrar formas de evitar a guerra sempre que for possível. Para pôr a minha mensagem ao mesmo nível da do presidente, acho que é não perceber qual é a mensagem do Evangelho. Lamento ouvi-lo, mas vou continuar a desempenhar a missão da Igreja.
A mensagem da Igreja vai continuar pela voz de Leão XIV.
Entretanto, a guerra continua no Líbano. Os jornais israelitas destacam o avanço das tropas no terreno. Na mira das Forças de Defesa de Israel está o reduto do Hezbollah.
Bint Jbeil. O exército israelita está prestes a concluir esta conquista. O Times of Israel diz que já perto de uma centena de membros do grupo Hezbollah morreram. Esta cidade é considerada como um símbolo do poder do Hezbollah no sul do Líbano, uma cidade que tem estado cercada nas últimas semanas, que não é completamente estranha a confrontos. Em 2006, já tinha sido palco de combates violentos entre o Hezbollah e Israel. No ano 2000, o então líder do Hezbollah fez um discurso de vitória neste mesmo reduto, no qual descreveu Israel como uma fraca teia de aranha. É uma memória avivada pelo Times of Israel.
E ainda na imprensa israelita, o Haaretz diz que Benjamin Netanyahu prepara-se para lançar uma nova guerra, a guerra de restaurar a própria imagem.
Depois, claro, da guerra contra o Hamas na Faixa de Gaza e já por duas vezes de participar nesta guerra contra o Irão. O Haaretz escreve que Netanyahu está prestes a enfrentar uma queda de popularidade, embalado por sondagens cada vez mais negativas, que preveem uma derrota na próxima ida a votos. Vai acontecer ainda este ano. Netanyahu cai a pique nas sondagens, assim como o cessar-fogo com o Irão. São duas notícias em destaque no Haaretz, que partilha esta sondagem que mostra que 73% dos inquiridos acredita que Israel vai precisar regressar aos combates com o Irão dentro do próximo ano e uma maioria ainda mais expressiva, 76%, acredita que as negociações com Teerão não vai alcançar os objetivos da guerra. Uma minoria das pessoas inquiridas acredita que Israel está, de facto, a conseguir grandes conquistas com a última guerra. Apenas um terço confia que o programa nuclear do Irão foi fortemente atingido, isto tal como defende os Estados Unidos da América e também Israel.
É assim que encerramos mais um episódio da Guerra Traduzida da Rádio Observador. Esta uma edição especial dedicada à guerra no Irão, hoje com o jornalista João Gama.