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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a guerra de poder que pode dividir a Igreja Católica. Ainda na semana passada, o Vaticano enfrentava um desafio vindo da ala mais conservadora da Igreja e agora, mal refeito dessa cisão, já enfrenta preocupações noutra frente. O que estamos a ouvir é um cântico alemão, um cântico católico alemão, e se a música é tradicional, aqui a Igreja Católica está numa velocidade completamente diferente. Quer dar um papel maior aos leigos numa missa, quer outro lugar para as mulheres, quer discutir o celibato ou a moral sexual. No fundo, a Igreja na Alemanha quer saber até onde pode mudar e quer ter uma voz nessa mudança. Hoje eu vou conversar com o João Francisco Gomes, jornalista do Observador, especialista em assuntos religiosos. Vamos perceber como é que a crise dos abusos sexuais levou a este movimento reformista e por que há quem tema que o próximo grande cisma da Igreja possa vir não dos católicos mais conservadores, mas dos mais progressistas. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de sexta-feira, 10 de julho. Olá, João Francisco.

Olá, Pedro. Viva.

Então, nós vínhamos de uma sucessão de notícias que davam conta de que havia ali uma espécie de ruptura a renascer na Igreja Católica, porque era um caso que já vinha de trás, com os chamados tradicionalistas.

Exatamente.

Tu corrige-me se eu estou enganado, que tinham um ponto de vista sobre a Igreja Católica de Roma como sendo uma entidade que era um bocadinho liberal demais pra aquilo que eles gostariam.

Exatamente. Na verdade, o que acontece é que esse grupo tradicionalista que consumou esse cisma há uns dias-

Ordenou quatro bispos

...ordenando quatro bispos sem autorização do papa. É justamente isso que dizias. Olha pra Roma como uma instituição, ou seja, como uma igreja contaminada pelo mundo moderno, que está a ceder aos demônios da modernidade, sobretudo, na sequência do Concílio Vaticano II, portanto, daquelas grandes reformas da Igreja dos anos 60. Na verdade, trata-se de um grupo formado pouquinhos anos depois do Concílio Vaticano II, justamente com a intenção de rejeitar essas reformas e continuar a viver, a formar padres e a oferecer aos seus fiéis uma experiência da Igreja, que era aquela que existia antes do Concílio Vaticano II. Portanto, era aquela até que os meus avós ainda se lembram.

Exatamente. Esse era o caso que nós tínhamos em mãos até há uns dias. Entretanto, tu escreveste sobre outro caso, outra hipótese de ruptura, que também não é propriamente nova, porque é uma questão que se vem colocando já há uns anos, sobretudo depois do caso dos abusos sexuais ganhar dimensão pública notória, de forma universal, quase. E agora a perspectiva é um pouquinho diferente: a Igreja Católica não é progressista o suficiente. Queres nos contar um pouquinho do que estamos a falar?

Exatamente. A ideia que está na base deste artigo é a seguinte: o cisma, ou a ruptura, ou a cisão, enfim, se quiseres podemos falar um pouquinho sobre o que significam essas palavras.

Sim, porque estamos a usá-las agora com mais frequência, isso que é exageradamente.

Exatamente. Temos estado a usar a palavra cisma muitas vezes nas últimas semanas, por causa daquilo que aconteceu com esse grupo tradicionalista, que foi verdadeiramente um cisma, no sentido jurídico do termo dentro da Igreja Católica. Mas o que acontece é o seguinte: o risco de divisão na Igreja não vem apenas de um dos extremos, embora nós, talvez nos últimos anos, nos tenhamos habituado a pensar nessa ideia de ruptura ou de divisão, olhando pra aquelas franjas que estão à margem da Igreja, e que são ultratradicionalistas. Associamos muito à ideia da missa em latim, por exemplo, embora esse não seja o grande ponto neste grupo que falava, a Fraternidade de São Pio X. O grande ponto do seu fundador era a rejeição eliminar, por exemplo, do diálogo com outras religiões. A ideia de que a Igreja não pode agora conversar com outras religiões, pondo-se em pé de igualdade com religiões que considera falsas. Essa ideia está muito presente nesses grupos tradicionalistas. O que acontece é que, obviamente, dentro da Igreja, nós usamos muito aquela dicotomia entre progressistas e conservadores. É verdade que essa dicotomia tem um alcance limitado, mas também é verdade que ela ajuda a perceber do que estamos a falar. E a verdade é que há grupos ultratradicionalistas como esses, que consumaram o cisma, mas também há grupos, fações, muito progressistas, mais progressistas, por exemplo, do que o Papa Francisco, que olham pra um conjunto de temas, que nós chamamos de temas fraturantes, como a moral sexual e a moral familiar, a questão do lugar das mulheres na Igreja, a questão da inclusão, por exemplo, da comunidade LGBT, e a relação, por exemplo, com o casamento E olha para esses temas com uma perspectiva que nós poderíamos dizer ultraprogressista em relação à Igreja, ou seja, que nem o Papa Francisco foi tão longe.

Isto, só para esclarecer quem nos está a ouvir, acontece dentro da Igreja Católica, embora naturalmente sejamos de alguns casos muito particulares e por causa disso é que nós estamos hoje aqui a ter esta conversa.

Exatamente. E ao longo da última década, mais ou menos, há um caso muito específico que tem vindo a aparecer como a ponta de lança do ultraprogressismo dentro da Igreja Católica. Estamos a falar do caso da Alemanha, genericamente da Igreja Católica alemã. A Igreja Católica alemã tem algumas características particulares. O cristianismo na Alemanha, sendo a religião maioritária, está praticamente dividido ao meio entre o norte e o sul do país, o norte do país protestante e o sul do país católico.

E historicamente também se percebe porquê.

Exatamente. A Alemanha é o berço da reforma protestante, de Martinho Lutero. É também um país onde, dentro do cristianismo, as ideias progressistas, as ideias de alguma conflitualidade com Roma e com as ideias de Roma, também fez o seu caminho. E, sobretudo, e acho que é importante frisar este ponto, na sequência daquela crise que se viveu, marcada por dois aspetos fundamentais. Por um lado, as discussões em 2014, 2015, sobre os novos desafios da família. Os nossos ouvintes talvez se lembrem da polêmica quando o Papa Francisco disse que os divorciados que se voltaram a casar poderiam aceder à comunhão, por exemplo. Isso fez uma grande polêmica entre progressistas e conservadores. E o outro aspecto foi claramente a crise dos abusos sexuais de menores na Alemanha, quando houve um relatório em 2018 que apontou para milhares de casos ocorridos nas últimas décadas. Isso causou uma grande crise de confiança da população alemã na Igreja Católica, que já era muito vista como o cristianismo antiquado, por oposição ao cristianismo protestante, que era visto como a versão moderna do cristianismo. E essa crise ainda manchou mais a reputação da Igreja Católica na Alemanha. E o que é que aconteceu? Em 2019, os bispos alemães e um organismo alemão de católicos leigos, não existe propriamente um equivalente em Portugal, chama-se Comitê Central dos Católicos Alemães, é uma organização que representa os católicos. Tem um nome muito curioso.

Muito curioso.

Em conjunto, a Conferência Episcopal e este comitê lançaram uma coisa a que chamaram Caminho Sinodal. Esta palavra sinodal tem aqui, obviamente, umas reminiscências de uma palavra complicada, se calhar para a maioria das pessoas que não estão muito por dentro deste glossário específico da Igreja, mas é uma palavra que a Igreja tem usado há séculos para descrever um processo de tomada de decisão coletivo, em que todos participam. Não é exatamente uma democracia, é mais uma ideia de todos participam num processo de tomada de decisão que vai, no fim, ser tomado por uma espécie de unanimidade espiritual. Não é a maioria.

Vou relembrar aos nossos ouvintes que estamos a falar da Igreja Católica e não do Partido Comunista Português, porque já falamos de comitê central. Decisões tomadas em coletivo que são depois anunciadas em unanimidade. Não vamos desviar. Progressismo, mas não tanto.

Exato. Evocando este termo do sínodo, da sinodalidade que a Igreja Católica tem vivido a nível global, os bispos alemães lançaram este projeto, que era de renovação da Igreja. Eles sabiam, a confiança da sociedade alemã na Igreja Católica está muito prejudicada, é preciso fazer qualquer coisa. As pessoas estão claramente a identificar um conjunto de temas-chave: a questão da exclusão das mulheres, a questão do casamento, a questão da família, a questão do celibato dos padres, a questão da autoridade. Este ponto é muito importante, a questão da autoridade, porque a Igreja Católica continua a ter um aspecto fundamental da sua orgânica, que é a autoridade centrada na figura dos bispos. Ou seja, como é que funciona a autoridade na Igreja? O Papa é a autoridade suprema e exerce-a na Igreja de todo o mundo em comunhão com os bispos. O Papa é o sucessor do Pedro, do apóstolo Pedro, os bispos são os sucessores dos outros apóstolos, para simplificar. Não há nenhuma autoridade acima da autoridade de um bispo, senão a do próprio Papa. Isto pode ser visto de forma normal, dizendo: "Ok, a Igreja Católica não é uma democracia, nem tem de ser, nem nunca se propôs ser. A Igreja Católica tem uma espécie de genealogia espiritual que vai dar a Jesus e aos seus apóstolos e, nesse sentido, é o que é." Mas, por outro lado, também pode ser visto como uma espécie de distorção das lógicas de poder e autoridade dentro de uma instituição em que a esmagadora maioria das pessoas que fazem parte dela, na verdade, não são membros do clero, são leigos que vão à missa todos os domingos. Aliás, só a título de exemplo, esta questão da distorção da autoridade do clero e do poder do clero, a que muitas vezes se dava o nome de clericalismo, o Papa Francisco chegou a dizer que essa doença do clericalismo era o grande fator que estava por trás, por exemplo, da crise dos abusos. Ou seja, durante séculos, os católicos olhavam para os padres e para os bispos como uma espécie de casta à parte, que tinha o poder todo, estava mais perto do céu e tinha um poder inquestionável. A questão da lógica da autoridade é um aspecto fundamental também deste caminho sinodal, que eu estava a dizer que os bispos alemães lançaram. E como é que isto se organizou? Foi um conjunto de assembleias, reuniões magnas, com delegados vindos das dioceses, das organizações, dos movimentos, enfim, todo o universo católico alemão, que entre 2019 e 2023 tiveram várias assembleias, votaram, escreveram resoluções e chegaram a 2023 e aprovaram uma série de documentos que eram o resultado ou produto desse processo de reforma da Igreja.

João, obrigado.

Obrigado.

Eu conversei com o João Francisco Gomes, jornalista do Observador, sobre o equilíbrio que historicamente a Igreja Católica conseguiu garantir entre mudança e continuidade. Equilíbrio esse que volta agora a ser posto à prova. A Alemanha diz que a Igreja precisa de mudar para continuar a falar ao mundo de hoje. Roma responde que há mudanças que podem pôr em causa a unidade da Igreja. E é entre estas duas ideias que Leão XIV enfrenta mais um grande desafio. Esta foi a história do dia. A sonoplastia do Tomás Ferreira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Bom fim de semana.