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Esta é a história do dia da Rádio Observador: começou a Guerra Mundial do Pão?

"Em todo o mundo, o aumento do custo do grão e, consequentemente, do pão está ocorrendo da mesma forma, mas em algumas partes do mundo não podem permiti-lo. A Guerra Mundial do Pão já está em curso"

A Guerra Mundial do Pão já está em curso. A frase é do ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Luigi Di Maio, que pede medidas urgentes para escoar a produção de cereais da Ucrânia, onde estarão retidos cerca de 300 milhões de toneladas.

"O Kremlin está usando o suprimento de alimentos como um míssil stealth contra países em desenvolvimento"

Numa reunião do Conselho de Segurança da ONU, o embaixador russo abandonou a sala em Nova York depois da acusação lançada por um convidado. O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, acusa Moscovo de transformar alimentos em armas.

"Você pode sair da sala, talvez seja mais fácil não ouvir a verdade, embaixador"

O preço dos cereais não para de subir e vai ter consequências não só no que pagamos pelo pão, por exemplo, como poderá conduzir à escassez de produtos em países com menos capacidade para comprar mais caro e noutros mercados. Antes da guerra, uma tonelada de trigo custava cerca de €280. Hoje está nos €430 e em setembro deverá rondar os €390. A história dos povos é também moldada pelos alimentos, pela abundância e riqueza e pela fome e crises financeiras. O ministro italiano estará certo? Já começou a Guerra Mundial do Pão? Hoje vou conversar com o professor universitário e historiador José Eduardo Franco. Bem-vindo, senhor professor José Eduardo Franco.

Olá, Ricardo.

A alimentação ou a fome têm sido arma de guerra desde tempos imemoriais.

Sem dúvida. A guerra sempre se fez por território ou também por controle de fontes de riqueza e entre elas, fontes de alimentação, redes de comércio, campos agrícolas, etc. E basta recordar, olhando um pouco para a história, a própria expansão portuguesa, a conquista de Ceuta em 1415, depois a própria expansão, as viagens marítimas portuguesas até à Índia visavam precisamente controlar e ter acesso a rotas de comércio de alimentos, de produtos agrícolas, produtos alimentares em Ceuta, uma rota de cereais, no Oriente a rota dos produtos, a chamada Rota da Pimenta, etc. Portanto, muitas guerras se fizeram naturalmente também no contexto de necessidade de obtenção ou de chegar a fontes de alimento.

E na história mais recente, e temos recordado isso, temos um episódio negro da história da humanidade que envolve tanto a Rússia como a Ucrânia. O que foi, professor, o Holodomor?

Esse episódio terrível e por vezes pouco conhecido dos anos 30, foi entre 32 e 33, 34. Holodomor significa matar pela fome, a morte pela fome, que deu origem precisamente a um genocídio, a uma tentativa de genocídio do povo ucraniano, que matou certamente, de acordo com os vários estudos estatísticos, mais até que o próprio genocídio perpetrado pelos nazistas comandados por Hitler contra o povo judeu. E foi realmente uma forma de matar absolutamente cruel.

Foi um castigo de Stalin.

Exato, castigo ao povo ucraniano, sabendo que a Ucrânia era considerada um celeiro, o celeiro da Europa, que ainda hoje é fonte de produção agrícola extraordinária e de exportação pra muitos países.

E nesta altura podem estar cerca de 300 milhões de toneladas de cereais retidos nos portos ucranianos. Uma das primeiras consequências é o aumento de preços que estamos a assistir nos cereais, mas para outros países, sobretudo para aqueles em vias de desenvolvimento ou mais pobres, aqui além do problema do preço, há o problema da escassez de produto, professor.

Exatamente. E é fácil fazer o paralelo realmente com o que aconteceu nos anos 30, com o Holodomor, com a morte pela fome. Como é que é possível estar a usar-se precisamente esse impedimento da distribuição e do comércio das reservas alimentares, precisamente como arma de guerra. E portanto faz-me lembrar realmente, parece que não aprendemos com a história, a história repete-se e volta-se a usar o impedimento do acesso aos celeiros, aos armazéns e a sua circulação normal do ponto de vista também comercial, como arma de guerra, levando não só A situações de fome e de morte entre os próprios ucranianos, mas também a outros povos para onde esses cereais estariam destinados no quadro das redes comerciais normais. Portanto, realmente, esse é um dos aspetos mais cruéis, mais perversos da guerra, que é não só matar com as armas, mas matar pela fome através do uso da manipulação, da forma como se pode aceder ou não às fontes de alimentação.

E há também algo que nos parece saído da Idade Média ou de outros séculos, que é a questão dos saques. As zonas conquistadas são saqueadas, os cereais são incluídos nesses saques. Segundo algumas estimativas, a Rússia já terá saqueado 500 mil toneladas de cereais e entre 13 a 18 milhões de euros em maquinaria agrícola. Parece mesmo que estamos a falar de outro século.

Não é preciso ir à Idade Média, basta recordar tempos mais recentes. Sempre que houve guerras, houve situações de saques e de procura de tomada das reservas alimentares. Até recordo aqui uma história curiosa que agora me lembrei por causa dos saques, dessa procura de evitar o saque que é próprio da circulação de tropas em situação de guerra, que é o caso do Vinho dos Mortos de Boticas. Existe agora uma marca de vinho muito famosa que é o Vinho dos Mortos. Em que é que resultou esse Vinho dos Mortos? Na altura, quando em Boticas, lá no norte do país, as tropas napoleónicas estavam a chegar em setembro, depois da colheita e da produção do vinho, o povo de Boticas percebeu que os soldados de Napoleão iam também saquear o próprio vinho. Então decidiram, à pressa, esconder em garrafas o vinho debaixo da terra, enterraram debaixo da terra. E depois de passarem as tropas e passado esse tempo de invasão, quando voltou a paz, o povo de Boticas voltou a retirar o vinho debaixo da terra e percebeu que estava muito melhor do que como era armazenado antes. E daí ficou uma marca de vinho chamada O Vinho dos Mortos, precisamente devido à estratégia de esconder o vinho da tentativa de saque das tropas napoleónicas, e hoje é uma marca de vinho famosa no nosso país. Esta é uma história interessante para mostrar que sempre que houve guerra, houve realmente ações de saque dos alimentos, porque é fundamental para garantir todo o sustento das próprias tropas e também quando há muitos alimentos, no caso da Ucrânia, também para benefício depois do poder da potência invasora.

E Vladimir Putin disse há uns dias que não há qualquer problema em exportar cereais da Ucrânia. Moscovo acusa a Ucrânia de ter minado os portos, isto depois de Kiev ter dito exatamente o mesmo sobre Moscovo. Também nos últimos dias, o líder da União Africana, que é o presidente do Senegal, esteve em Moscovo para garantir alguns cereais. Os estados compradores, nomeadamente os africanos, são confrontados com um dilema: se não compram cereais que sabem que foram roubados à Ucrânia, como é que alimentam o povo?

As guerras colocam sempre dilemas éticos extraordinários, e este é um deles. Mas recordemos também que aqui sempre aconteceu com maior ou menor intensidade, frequência ou capacidade, a chamada guerra paralela que sempre fez, ao longo da história, especialmente nos últimos séculos, ao próprio exercício da guerra, que é a guerra da informação e da contrainformação.

A verdade é sempre uma das primeiras vítimas das guerras, não é?

A primeira vítima da guerra é a própria verdade. Estamos perante este cenário. De qualquer maneira, o mais importante é garantir que se mate a fome, porque mais do que o dilema ético, se entre a Ucrânia e a Rússia já está a acontecer uma mortandade incrível devido a esta guerra, agora sacrificar ainda outros povos que secundariamente vão ser objeto também das consequências da guerra, como os países mais pobres que tinham de ter acesso a estes cereais e assim não têm, acho que mais vale, apesar de tudo, garantir o menor efeito secundário da própria guerra e garantir que a fome seja satisfeita a quem a tem.

Um diretor-executivo da FAO diz que estamos já numa situação crítica, até diz que esta é a tempestade perfeita entre as tempestades perfeitas. Aquilo que nos ensina a história é que este tipo de crise alimentar também pode desencadear mudanças profundas nalguns países ou até mesmo em regiões. Poderemos estar aqui perante um momento desses?

Sem dúvida, quando há uma guerra em grande escala, esta, apesar de tudo, neste momento ainda está numa escala minimamente controlada, mas os efeitos secundários, os efeitos transversais, os efeitos paralelos já estão a ser sentidos e portanto isto pode levar a alterações Tanto a nível das rotas de mercados tradicionais, na forma de pensar e organizar economicamente o mundo, as formas de fornecimento de energia e de alimentos, e também o próprio equilíbrio geoestratégico das relações do poder. Dado que está envolvida aqui uma grande potência, uma potência histórica, que é a Rússia, e esta guerra pode suscitar alterações significativas no xadrez mundial. Veremos se a Rússia para por aqui, se não há o perigo da guerra escalar. Esperemos que não, porque se a guerra escalar para além da Ucrânia, todos poderemos ser afetados e portanto devemos estar preparados também para esse cenário.

No caso da Ucrânia, a NATO poderia dar proteção aos navios de cereais no Mar Negro, mas isso seria, em sua opinião, senhor professor, visto como uma entrada ativa da NATO na guerra?

Aí está, entramos aqui noutro campo, que é a guerra das interpretações. Também é uma forma de guerra do ponto de vista diplomático, a arte da guerra também passa por aí. E claro, a Rússia poderá interpretar isso como achar melhor, também de acordo com a sua capacidade, depois de querer entrar ou não numa guerra com a NATO. Se a Rússia entender interpretar que também há o envolvimento da NATO, se o quisesse já o podia ter feito com o fornecimento de armas que tem acontecido.

Tem lançado alguns alertas nesse sentido.

Exatamente. À Ucrânia, esse envolvimento já está. Proteger os navios é mais uma intervenção de proteção, sempre de defesa, ainda não de ataque, mas pode ser entendido como envolvimento. E portanto, mais uma vez, a guerra das interpretações já entrará no domínio diplomático e na avaliação, do lado da Rússia, do interesse que terá em escalar a guerra para além da Ucrânia. Agora tem todo o sentido, no meu entender, tentar garantir a proteção de navios comerciais que transportam alimentos. Também no contexto dessas guerras, houve essa preocupação na Primeira e na Segunda Guerra, quantos comboios de navios não foram protegidos por navios de guerra para evitar ataques, transportavam produtos de primeira necessidade no Atlântico e no Pacífico, no Índico, mas principalmente no Atlântico. Sabemos disso pela história. Agora, se isso for interpretado como um envolvimento maior na guerra, vai depender precisamente do interesse em que essa interpretação seja orientada numa linha, num sentido ou noutro.

No início deste episódio, ouvimos o ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Luigi Di Maio, dizer que a guerra do pão já está em curso, a guerra mundial do pão. O professor José Eduardo Franco entende que já começou esta guerra mundial do pão?

Houve várias guerras mundiais do pão ao longo da história, naturalmente com prejuízo maior, sendo uma guerra destas, com consequências maiores para os países pobres, que têm menos acesso a produtos agrícolas em grande dimensão. A guerra do pão, a guerra dos alimentos, sempre foi recorrente ao longo da história, sempre houve grandes guerras de dimensão, onde o acesso às armas tem que ser complementado também com a garantia do acesso à nutrição suficiente. E portanto, neste momento, isso também está em causa, precisamente devido a esta guerra pôr em causa e coartar o funcionamento normal das redes de produção e de circulação de alimentos fundamentais para muitos povos que tinham acesso via Ucrânia ou via os corredores, onde a Ucrânia era um produtor fundamental neste contexto.

Muito obrigado, senhor professor José Eduardo Franco.

De nada, com muito gosto.

José Eduardo Franco é historiador, é professor universitário, é um especialista na história da globalização. Tem obra publicada sobre o Holodomor e é coautor de um outro livro, "A História Global da Alimentação Portuguesa". Esta foi a História do Dia. Ajudaram ainda neste episódio os jornalistas João Santos Duarte e Ana Sanles. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.