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Esta é a história do dia da "Rádio Observador". A inteligência artificial vai ficar com os nossos empregos?

"Hello and welcome to the podcast Story of the Day. Ciao e benvenuto al podcast Storia del Giorno. こ ん に ち は 、 今 日 の 歴 史 ポ ッ ド キ ャ ス ト へ よ う こ そ 。"

Esta voz que está a ouvir agora já é mesmo a minha. Até poderia ser artificial, mas não, esta é minha. Nesta altura, já há tecnologia que permite fazer este episódio da história do dia com vozes falsas e com conteúdo escrito por máquinas. Isto leva-me a fazer uma pergunta: será que ainda sou necessário para fazer a história do dia ou tudo isto poderia ser feito por um computador? Dados do FMI revelam que 60% dos empregos nas economias mais desenvolvidas vão sofrer impactos da inteligência artificial. A percentagem baixa para 40% no resto do mundo. A inteligência artificial consegue realizar tarefas das mais simples às mais complexas e, com isso, diminuir o volume de trabalho e até acabar com algumas profissões. É sobre o futuro do emprego numa era da inteligência artificial que vou conversar com o professor Arlindo Oliveira, presidente do INESC, a quem habitualmente recorremos quando olhamos para esta realidade. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de terça-feira, 16 de janeiro. Bem-vindo, professor Arlindo Oliveira.

Olá, como está? Sempre um prazer ouvi-lo.

Obrigado. A presidente do FMI, a senhora Kristalina Georgieva, publicou um artigo na véspera da viagem para Davos, na Suíça, onde decorre o Fórum Económico Mundial, sobre o impacto da inteligência artificial no mundo do emprego. Avança alguns dados, por exemplo, diz que 60% dos empregos nas economias mais desenvolvidas, como os Estados Unidos, vão ser afetados pela inteligência artificial. Outras economias no resto do mundo, estima que o impacto será de cerca de 40%. Professor Arlindo Oliveira, concorda que estas percentagens são realistas ou é apenas uma hipótese, um estudo?

Há muitos estudos e há muitos pressupostos. E também há a questão do tempo, de quanto tempo é que estamos aqui a falar. O que é importante saber é que cada um dos estudos parte de pressupostos razoavelmente diferentes e chegam a conclusões, obviamente, também não tão alinhadas. Os números não me parecem impossíveis de serem afetados, mas dependem de muitas coisas. Depende da velocidade com que as empresas, as instituições conseguirem adotar a tecnologia, dependendo do investimento que for feito na tecnologia, dependendo da existência de recursos humanos qualificados. São números que estão dentro das gamas que têm sido avançadas, se considerarmos um período relativamente dilatado. Eu acho que há um entendimento relativamente global que embora o potencial esteja lá, a velocidade de adoção não vai ser instantânea. É preciso tempo de adaptar.

Isto também quer dizer que quanto mais desenvolvida a economia, mais impacto terá a inteligência artificial no mercado de trabalho, até porque pressupõe-se que tem um mercado de trabalho ou um emprego mais qualificado?

Neste momento, a tecnologia é mais eficaz no processamento de informação, e portanto, tem mais impacto nos serviços do que propriamente nos empregos que envolvem a manipulação do mundo real. Construção, etc. E como as economias mais avançadas tendem a estar mais dependentes de serviços ou de componentes mais automatizados, é natural que o impacto seja maior. A robótica, no entanto, também se vai desenvolver e portanto, também vai ter alguns impactos noutras áreas. Mas sim, acho que há um alinhamento, há uma correlação entre o avanço de uma economia, a sua peça dos serviços e a consequente automatização parcial por força das tecnologias que agora já estão mais ou menos disponíveis. As que vierem para as ruas daqui a cinco a 10 anos, provavelmente poderão ter outros impactos. Se você olhar para a agricultura, trabalhavam na agricultura para aí 20% das pessoas, agora trabalham 2%.

Exatamente, esse é um ótimo exemplo.

Desapareceram ao longo de 100 anos, 90% dos empregos na agricultura, se calhar mais, porque se considerarmos que a agricultura produz muito mais do que produzia há 100 anos. E portanto, não é anormal este tipo de transformação. O que aconteceu é que até agora ele aconteceu em algumas profissões, como estivadores, ascensoristas. Os ascensoristas desapareceram 100%, já não há ascensoristas.

Exatamente.

E em profissões mais relacionadas com o serviço e com o conhecimento, até agora era menos comum, era mais raro. Mas parece que coisas da ordem dos 10, 20, 30, 40% parecem valores razoáveis, dependendo de muitos fatores e do tempo de adoção.

E por tudo isso também que estava a explicar, também é errado o raciocínio contrário, que é aquele de que nações menos evoluídas vão ter menos problemas, porque essas nações menos evoluídas são necessariamente mais pobres e vão continuar mais pobres.

Exatamente. Os problemas, neste caso, vêm com as boas notícias. Repare que se as empresas vão adotar estas coisas é porque vão ter aumentos de produtividade, a economia vai se tornar mais competitiva. Portanto, dizer que uma nação não vai ter problemas porque não vai adotar a inteligência artificial, acho que é razoavelmente errado. Vai ter outro tipo de problemas.

É parar o vento com as mãos, quase.

Vai ter problemas de falta de competitividade da economia.

Ainda olhando para o artigo da presidente do FMI, a senhora Kristalina Georgieva, defende aqui uma intervenção política, uma intervenção dos Estados para criar o que chama de redes de segurança para os trabalhadores que podem vir a ser afetados pela inteligência artificial. Concorda com a necessidade de criar mecanismos de proteção, antecipar esta proteção? O professor concorda com esta ideia?

Eu, de uma maneira geral, concordo com mecanismos de proteção em geral. Acho que a sociedade europeia, nesse aspecto, é uma sociedade equilibrada, com mecanismos de proteção significativos. Esses mecanismos de proteção, em princípio, tal como funcionam agora para o desemprego causado por todos os fatores, irão também funcionar, melhor ou pior, para o desemprego causado por tecnologia. Devo dizer que até agora temos relativamente pouca evidência de desemprego causado por tecnologia. Praticamente as pessoas adaptam-se e vão para outras funções e os números neste momento, em Portugal, por exemplo, o desemprego está baixíssimo e a tecnologia está aí. No resto da Europa é perfeitamente verdade. Ainda por cima estamos considerados muito envelhecidos, onde há pouca mão de obra disponível e portanto anteciparmos riscos via desemprego parece uma perspectiva, não diria que está errada, mas parece-me que estamos a olhar para o menor dos desafios. Acho que há outros desafios mais importantes: a formação das pessoas, os riscos da desinformação, os riscos das notícias falsas, etc. Parece-me que o desemprego causado pela IA não está na lista das minhas 10 maiores preocupações.

Já voltamos à conversa com o professor Arlindo Oliveira. Afinal, o que a inteligência artificial pode e não pode fazer por nós enquanto trabalhadores? Regressamos à conversa com o presidente do INESC, que tem obra publicada sobre inteligência artificial. Professor Arlindo Oliveira, quando entrei pela primeira vez numa redação, em 1998, havia dois computadores com ligação à internet e alguns dos meus colegas jornalistas, alguns com mais 10 anos do que eu, não sabiam sequer enviar um e-mail, mas fica aqui a nota que a maioria da redação sabia como enviar um e-mail. Já nessa altura, em 98. Referimos sempre, quando falamos de tecnologia, o fosso geracional. O que lhe pergunto agora, e já há pouco o professor aludia a isso, é se este fosso geracional que se avizinha agora com a inteligência artificial é mais fundo do que aqueles que temos experimentado até agora.

Essa é uma pergunta difícil de responder. Eu penso que não é mais fundo. Eu lembro que os meus pais custaram muito e nunca se adaptaram verdadeiramente ao uso de computadores e os meus avós não se adaptaram aos automóveis, esse adiantamento da mobilidade, etc. Estes fossos geracionais sempre existiram. E não me parece que este seja particularmente mais sério. O que acontece neste e que pode ser um pouquinho mais complicado, é que é mais rápido. Essas tecnologias demoraram muitas dezenas de anos a implantar-se e provavelmente agora estamos a assistir a coisas que numa dezena de anos, se calhar, vão ter uma alteração profunda. As coisas agora parecem acontecer mais rápido e estou convencido que acontecem, de facto, mais rápido. Portanto, eu acho que a dificuldade em si não é maior em escala, até porque eu acho que estas tecnologias também são mais fáceis de usar. É mais fácil falar com o ChatGPT do que aprender o Windows.

Porque ela própria interage, não é?

Exatamente. Agora, a velocidade é que de facto pode causar aqui desafios, no sentido em que não temos uma geração para substituir a outra, é pessoas que ainda têm muita vida útil à frente poderão ter de se adaptar a uma nova tecnologia. Mas como a tecnologia também parece mais acessível e mais fácil de usar, é difícil. Mas eu diria que talvez pela velocidade, de facto traga desafios acrescidos, mas, por outro lado, não me parece que esta tecnologia seja particularmente difícil de usar, nem é esse o objetivo.

E aqui pode entrar a formação, não é? De que falava há pouco.

Exatamente.

Ainda nos dados do FMI, há um outro ponto muito curioso. É dito, a certa altura, que há várias profissões que vão conseguir incorporar de uma forma mais suave ou mais pacífica, se quisermos, a transferência para a inteligência artificial de certas tarefas que são mais rotineiras. E os exemplos que são dados são três profissões: advogados, juízes e médicos. Ora, estas três profissões precisamente são citadas noutros estudos como sendo as profissões que mais vão sofrer com a inteligência artificial, consequências nefastas, entenda-se. Aqui chegados, professor, já conseguimos antecipar que profissões podem ter mais ou menos impacto da inteligência artificial?

Eu acho que isso é um bom exemplo da razão pela qual há estudos para todos os gostos, como há dados para todos os gostos. Depende muito dos pressupostos. É claro que, por exemplo, uma profissão jurídica, analisar textos legais, fazer contratos, elaborar pareceres, é aquela que numa primeira análise pareceria relativamente fácil de ser disruptiva, porque estes sistemas conseguem fazer, obviamente não todas essas tarefas, mas uma fração significativa. Por outro lado, também pode ser uma profissão que decida evitar que estas tecnologias usem. Portanto, há muitas questões à volta. Não é só a tecnologia, até que ponto é que uma profissão, é que a legislação, a regulamentação vai aceitar. Por exemplo, será que vamos aceitar que diagnósticos passem a ser feitos por sistemas destes sem supervisão médica, ou que na justiça aceitamos que determinadas decisões sejam feitas por sistema? Não depende tanto da tecnologia, embora também dependa, mas sim da legislação enquadradora e da regulamentação. E eu acho que aí é essencialmente imprevisível. Quer dizer, nós não sabemos como é que a Europa vai regulamentar, não sabemos como é que cada país vai regulamentar, como é que cada país, que velocidade é que vai adotar. Portanto, variando um bocadinho esses critérios, chegamos a conclusões diferentes. Podemos chegar à conclusão que na justiça vai demorar 50 anos até haver alguma revolução significativa ou se adotarmos critérios mais agressivos de adoção, se calhar daqui a cinco anos já teríamos muitas tarefas a ser feitas por sistemas destes. Eu acho que os pressupostos valem muito. Francamente, acho muita piada a ler estes estudos, principalmente porque eles nunca concordam uns com os outros. Não sei se já reparou.

Exatamente.

Não sei se já reparou. É raríssimo haver uma concordância entre estudos, nem no número global, nem nas profissões afetadas, nem na velocidade com que serão afetadas. Eu acho que nós, acima de tudo, vivemos numa situação de grande incerteza relativamente à qual vai ser a evolução, tanto a evolução tecnológica como o enquadramento legislativo e regulamentar.

Eu já vou voltar a esse ponto, queria antes ouvir a sua opinião sobre uma outra questão que se liga a esta, a da produtividade, porque estes sistemas conseguem desempenhar um número infindável de tarefas e isso aumenta a produtividade e aumenta o nosso tempo disponível. Isso é inquestionável ou não?

Em princípio, sim. A grande vantagem destes sistemas é justamente aumentar a produtividade e conseguimos fazer mais com o mesmo tempo. Essa é a função de produtividade económica e é esse também o objetivo. Agora, nós também sabemos que coisas que muitas vezes nos iam aumentar a produtividade como o computador, às vezes também nos fazem perder tempo. Quanto tempo é que as pessoas não perdem de volta de coisas no computador, seja a jogar jogos.

Ou porque não há sistema, o sistema não funciona.

Não há sistema, já nem estou a falar nisso, quem é que vai bater nos informáticos. Em princípio, toda esta adoção de novas tecnologias, como dizia o senhor, tem a vantagem de trazer aumentos de produtividade e é daí que vem o aumento de riqueza. Produzimos mais com o mesmo tempo. Agora, até que ponto é que esse aumento de produtividade é real e se traduz em mais tempo livre ou que, pelo contrário, também exige esforço adicional e se calhar vai ocupar algum do tempo livre que ainda temos, é uma coisa mais difícil. Quer dizer, reconhecemos que os computadores não nos trouxeram assim particularmente muito tempo livre ou de qualidade em geral, muitas vezes por decisão nossa.

Mas isso poderá levar a ter mais tempo livre, em teoria, e menos salário, ou não? Que é outro dos perigos.

Não, eu isso por acaso não acredito muito. Eu acho que o menos salário não vejo que seja uma tendência. Eu acho que o aumento da produtividade vai permitir que todas as pessoas ganhem mais ou que ganhem menos trabalhando menos. Não estou a ver reduções do salário, não é uma tendência que faça sentido. Quando muito o salário não aumentaria à mesma velocidade que a produtividade, porque as pessoas trabalhariam menos horas. Isso faz algum sentido. Outros continuam a trabalhar o mesmo número de horas e vão ganhar mais. Mas essa tem sido a tendência económica até agora e não vejo nenhuma razão para se inverter essa tendência.

E pegando naquilo que o professor estava a dizer há pouco, e também já falámos disso aqui na "História do Dia" consigo, professor Arlindo Oliveira, também já fomos aqui. Para si, professor, a inteligência artificial vai até onde deixamos que ela vá. A opção será sempre nossa. Daí a pergunta que serve também de título a este episódio: a inteligência artificial pode ficar com os nossos empregos?

Eu, pessoalmente, entendo que a inteligência artificial vai ser, pelo menos no futuro previsível, nas próximas décadas, vai potenciar as competências humanas, portanto não nos vai, em geral, substituir. Vai permitir que cada um de nós faça mais com o seu tempo, que seja mais produtivo, que escreva mais rápido, que analise mais dados, que faça mais diagnósticos, etc. Essa visão, "vai ficar com os nossos empregos", pessoalmente não acredito ser uma visão muito alinhada com a realidade. O que não quer dizer que, por exemplo, empregos que precisavam de 100 pessoas para ser feitos, agora precisam só de 50. O que é que farão as outras 50? Há duas hipóteses. Ou essas 50 vão para outros empregos, onde há mais valor acrescentado, isso tem acontecido muito ao longo da história da tecnologia, ou o serviço que essas 100 pessoas trabalham pode baixar de preço e torna-se acessível a mais pessoas. Imagine 100 juristas que fazem um certo trabalho. Estes sistemas vão permitir que eles façam o dobro do trabalho. Porreiro, porque a senhora agora consegue ter pareceres e análises, etc., muito mais baratos. Os 100 juristas continuam empregos, mas agora podem trabalhar para o dobro das pessoas. Há muitas coisas neste domínio. As pessoas não contratam um advogado para muitas coisas porque é caro. Se baixar o preço, se calhar contrata. Eu acho que há uma combinação dos dois fatores. Nós vamos ser mais produtivos, vamos poder servir mais pessoas e algumas das pessoas, se não houver procura, vão ter de ir para outras áreas. Agora, desemprego maciço, francamente, essa ideia da IA é uma coisa que nunca aconteceu. Nos 250 anos da tecnologia em geral.

Desde o vapor.

Nunca tivemos desemprego maciço causado pela tecnologia. Mas tivemos cidades que foram afetadas e as pessoas tiveram de ir para outras cidades, tivemos setores que foram afetados. Localmente isso poderá acontecer e há pessoas que provavelmente poderão ter de mudar de atividade, mas eu acho que é uma coisa que vai ser relativamente menor face ao geral. Não se esqueça que neste momento o grande problema do país são dois fatores: a baixa produtividade comparada com os nossos cidadãos europeus e a falta de mão de obra. Quer dizer, nós não temos pessoas para fazer muitas das coisas que temos de fazer.

Para fazer tudo, exatamente.

São dois problemas que em princípio conseguimos resolver ou pelo menos colmatar com a utilização destas tecnologias de IA.

Obrigado, professor Arlindo Oliveira.

Muito bem, muito obrigado pelo convite. É um prazer.

Arlindo Oliveira é professor universitário, é presidente do INESC, o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores. Esta foi a "História do Dia". O som que ouvimos no início foi produzido no site Eleven Labs. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição, em carne e osso. Até amanhã.