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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Alguns portugueses ainda vão à bruxa. Por quê?
A mãe de Jéssica tinha problemas na relação com o companheiro, procurou ajuda junto da mulher que foi detida suspeita do rapto e morte da criança. A mulher terá vendido à mãe da menina umas mezinhas, umas rezas, para lhe resolver a questão amorosa. Junto à casa desta falsa ama, onde as pessoas nos confirmam que sempre que esta mulher, conhecida aqui como Tita, tinha dificuldades financeiras, recorria a esses serviços, falava com as pessoas, dizia que podia tentar ajudar a resolver os seus problemas pessoais, por exemplo, através da bruxaria.
Segundo a Polícia Judiciária, a criança de três anos, de Setúbal, poderá ter sido sequestrada como represália por uma dívida. De acordo com as autoridades, a mulher que se encontra em prisão preventiva, terá sido contactada pela mãe da vítima para realizar trabalhos de bruxaria. O caso da morte de uma criança de três anos, alegadamente usada como arma num caso de dívidas, chocou o país pela violência do crime e levanta muitas perguntas. Hoje não queremos entrar na questão central da suspeita de sequestro e homicídio de uma menina com apenas três anos de vida. O que leva adultos a matar uma criança e que sociedade permite que isto aconteça? Vamos antes olhar para um ponto desta história, o da crendice no oculto. Vou conversar com a socióloga, professora universitária e especialista em religiões, Helena Vilaça. Bem-vinda, professora Helena Vilaça.
Olá, Ricardo.
Podemos fazer esta afirmação: o fenômeno das bruxarias e do oculto é transversal à sociedade portuguesa, em todas as classes, em todos os níveis de escolaridade?
É transversal à sociedade portuguesa, embora tenha um peso maior em níveis de escolaridade mais baixos. Isto é, é impossível termos uma ideia concreta. Eu fiquei já surpresa por algumas observações que fiz há uns anos, em que vi pessoas com aspecto de quem é de classe média e classe até média-alta em determinados espaços.
Ou seja, sente-se em meios socioeconômicos mais baixos, no entanto, não é um exclusivo desses meios.
Sim.
E os praticantes, os alegados profissionais, quem são estas pessoas?
Eu tive uma mestranda que fez uma tese sobre este fenômeno em 2010, aqui no Vale do Sousa, exatamente sobre a religiosidade popular, os novos contornos da religiosidade popular. E ela identificou que maioritariamente são mulheres, são mães de classe baixa. Algumas, quando se dedicaram, perceberam que tinham o dom, segundo as suas declarações, e abandonaram o seu trabalho profissional e apenas são domésticas e, ao mesmo tempo, têm o trabalho como bruxa ou como médium, o que quer que lhes chamem. Grande parte delas é casada com operários ou com aposentados. E em termos de idades, vai dos 35 aos 70. Mas eu estou falando um estudo realizado nos conselhos do Vale do Sousa. Não podemos generalizar isto a todo o país. É uma pena a Paula Costa não ter continuado a trabalhar isto e alargado. Mas é um campo muito difícil, porque é oculto.
E algumas dessas pessoas apresentam-se como professores ou mestres. Isto é uma tentativa de dar algum cunho de ciência a tudo isto? Há até quem fale nas ciências do oculto, não é?
As pessoas evitam que lhes chamem bruxa, no sentido que há um certo preconceito, mas claro que do lado da procura é ir à bruxa, que as pessoas dizem. Mas elas geralmente dizem que são médiuns, e daí podemos encontrar médiuns, videntes, cartomantes, parapsicólogos, terapeutas.
Assumem várias designações.
É, assumem várias designações.
E há estudos, falou nesse estudo que citou do Vale do Sousa, há então estudos sobre este fenômeno em Portugal, há dados, há números?
Não. Em termos gerais, não há. O que nós podemos saber, quem vai mesmo à bruxa, não. Se quiser eu falo de crenças dos portugueses. Isso tenho alguns dados sobre isso. E até numa perspectiva comparativa ao resto da Europa Ocidental.
Vamos a eles.
Portugal é o país mais religioso da Europa, com 83%, e depois a seguir vêm em ex aequo Espanha, Irlanda e Itália, tudo países católicos e mais do Sul da Europa. Mas, ao mesmo tempo, depois de passar essas variáveis todas, das quais eu não vou estar aqui a desenvolver, quando nós perguntamos: "Acredita no destino?" Ou "Acredita na astrologia?", Portugal continua no top. 60% dos portugueses acreditam no destino, seguidos dos espanhóis Que é uma sociedade muito secularizada. E na astrologia está ex aequo com 30 e tal por cento com Espanha.
Mas isso não é paradoxal?
É sim, isto é paradoxal para a pessoa comum, no sentido de para quem tem crenças e quem tem convicções ou não as tem. Agora, para um sociólogo ou antropólogo, isso a nós não nos interessa. Quer dizer, o que é fascinante nós percebermos é como as pessoas conciliam as várias coisas. Por exemplo, há declarações nesse estudo que eu referi, em que as pessoas dizem: "Deus é bom e sabe que eu estou em sofrimento. Ele não se importa que eu vá procurar outras coisas."
Que procure uma solução mais rápida com outro método.
Sim. E depois há outra coisa. Nas entrevistas que ela fez, ela não entrevistou do lado da procura. Não entrevistou propriamente ninguém que vai aos consultórios, porque isso não se consegue. Agora, o que ela fez foi aplicar inquéritos a católicos à porta da missa. Tinha entrevistado os padres e os padres pediram aos fiéis para responderem ao inquérito. Sabiam que era um trabalho sério e, portanto, colaboraram com o investigador. No conjunto de respostas que as pessoas deram, muitos deles tiveram coragem de assumir que iam. E conciliam as duas coisas, porque isso é algo que está muito enraizado na religiosidade popular.
E como é que as religiões, as mais antigas e talvez as mais recentes, se quisermos separar aqui ou dar exemplos, por exemplo, a religião católica em Portugal e as evangélicas, lidam com tudo isto?
Falando mais no cristianismo, a religião cristã, em termos gerais, e depois no ramo do catolicismo e depois no protestantismo.
São todas cristãs, não é?
São todas cristãs e os ortodoxos leste também, estes três grandes conjuntos, mas, por exemplo, em parte a reforma protestante veio para acabar com as superstições. Por isso é que encontra no protestantismo as igrejas despojadas de santos, para não provocar a idolatria, o ser contra as relíquias, porque atribuem quase um poder mágico às relíquias. Portanto, o protestantismo é um ramo do cristianismo muito mais racional. O catolicismo, que sempre fechou os olhos a determinado tipo de práticas. Numa das entrevistas, ou até mais do que uma, os padres dizem: "A culpa também é da Igreja", de ter permitido esse sincretismo. No fundo, estamos a falar de sincretismo religioso, mas o sincretismo religioso para quem? Um católico com todas as convicções e dentro da ortodoxia católica nunca iria à bruxa. E o que é muito interessante, é que do ponto de vista da oferta, em qualquer espaço onde a Paula Rocha esteve e onde eu também estive, há toda uma simbologia católica que está presente. A Nossa Senhora, o crucifixo, um conjunto de santos, imagens.
Esse é o tal paradoxo que eu falava há pouco, não é?
Mas isso liberta a má consciência do católico que lá vai.
E para quem olha de fora para estas práticas, e já todos tivemos no para-brisas do carro um anúncio a isto ou àquilo, os profissionais destas áreas também se adaptam e atualizam práticas. Professora, é normal nós vermos o apregoar do domínio de práticas ancestrais e depois a utilização de videochamadas? Eu peço desculpa de insistir aqui na questão do paradoxo, mas tudo isto não nos devia fazer suar campainhas de que se calhar há ali alguma coisa que não bate certo?
Eu acho que não, nomeadamente se há instituições que se adaptaram bem às novas tecnologias e às videochamadas, etc, foram as religiões, mesmo nesta fase de Covid. Mas repare numa coisa, vou falar numa coisa completamente diferente. Para um ateu, e um ateu militante, um Dawkins, por exemplo, acha um disparate as pessoas rezarem. Isso é muito comum nos Estados Unidos, pessoas que são altamente secularizadas e há uma doença grave, há um câncer, vão ao melhor hospital e ao mesmo tempo mobilizam toda a sua igreja para estar em oração. Para um ateu, isso não faz sentido absolutamente nenhum. É completamente paradoxal. O mesmo se aplica relativamente a estas coisas, cada um faz o seu bricolage. É uma espécie de bricolage. E repare, hoje nós encontramos, de facto, a bruxaria tradicional, com a talhadura, talhar determinadas doenças, a mediunidade, que isso é algo que a bruxa vai buscar, essa expressão, vai buscar onde? Ao kardecismo, ao espiritismo. Ao mesmo tempo, a cartomancia, a cura, o exorcismo, mas simultaneamente a parapsicologia, portanto, que trata o paranormal. A Paula entrevistou um médium formado em psicologia, mas agora vamos entrar noutras coisas e que já são aceitáveis: a naturopatia Por exemplo, eu uma vez entrevistei um astrólogo, que também era sociólogo, com alto capital escolar, que misturava a astrologia com a psicanálise, dominando completamente o Freud ou a etnopsicanálise do Jung. Ele tinha um discurso que para ele era coerente. Para mim, como pessoa, pode não fazer sentido nenhum.
E depois há o espiritismo também, não é?
Sim, e depois há o espiritismo. E agora aquilo que é comum é nós vermos uma grande mistura. Exatamente porque do lado da oferta, eles estão cada vez mais transversais. Eu estive num espaço, também nessa altura, em 2010, que tinha de tudo que possa imaginar. Um conselho que é aqui fronteiro no Porto, um apartamento, todo ele aberto, onde as pessoas entravam como quem vai para uma reunião clandestina. E aí eu encontrei pessoas de várias classes, como disse há pouco. O espaço tinha todos os ingredientes da religiosidade católica, as procissões, o santo de devoção, e tinha elementos do candomblé. E depois a sessão foi uma sessão espírita, mas antes de ser uma sessão espírita, houve uma lenga-lenga e houve também defumação do lugar, ao mesmo tempo em que se expulsava o demônio do lugar. Houve ali uma grande mistura de tudo e mais alguma coisa. E depois fizeram o passe à volta de uma mesa, como no espiritismo, só que o médium que dirigia a sessão ao mesmo tempo ia bebendo vinho e deitou abaixo duas garrafas de vinho. E depois foi chamando as pessoas, algumas que iam lá, e: "O que foi que o farmacêutico te deu? Deu Tobrofene? Isso não presta para nada. Tu vais é tomar isto." Há um que diz: "Claro que há coisas que são doença, mas se eu disser: 'Olhe, vai e tome isto', e não lhe disser, 'acenda estas velas', o que vai ter efeito é as velas e o objeto benzido que a pessoa leva para casa."
E na prática, cada um acredita naquilo que quer, não é?
Exatamente. A questão da bruxaria. Isto foi a reatualizada bruxaria e visto que é superstição, eu que trabalho no mundo acadêmico, de facto, hoje as pessoas não são religiosas, algumas, e dizem que são espirituais ou são ateias, mas são capazes de dizer: "Aquela pessoa transmite uma má energia." Não diz: "Lança-me um mau-olhado." Está a ver? São pessoas ateias, a trabalhar em ciência.
E há aquela frase: "Eu não acredito, mas respeito." Não é?
Sim, isso também há. Tem a ver com a interrogação, com um certo agnosticismo relativamente a isso. Há uma coisa também que estes profissionais, chamemos-lhe assim, fizeram, muitos deles, para abarcar exatamente classes sociais mais altas e mais escolarizadas, é: "Eu sou espiritual, não sou religioso." Nós temos duas coisas. Ou aquele que mistura os ingredientes, vai buscar ingredientes do catolicismo, que também lá estão presentes. Tanto está a Bíblia como está o livro de São Cipriano e tudo aquilo que eu referi há pouco. Mas também há os outros que dizem: "Eu sou espiritual, não quero nada com religião." E aí já vão para a naturopatia, se for preciso falam no yoga ou em chacras.
No fundo, adaptam o cenário e adaptam a oferta de soluções que têm às pessoas que recebem, para que essas pessoas possam ali encontrar respostas para os problemas que têm. É isso?
Sim, e também sentirem-se confortáveis com as suas convicções. Mas repare, se é uma pessoa de classe média e que já não vai à missa, que talvez tenha batizado os filhos, mas é classe média, é citadina, é urbana e acredita na reencarnação, etc. Há especialistas ou profissionais, os bruxos de agora, que jogam com essas crenças. Percebe? Também criam um ambiente onde a pessoa não se sinta culpabilizada por estar naquele lugar.
Professora, por tudo isso que está a dizer, podemos concluir que os portugueses não vão deixar de ir à bruxa, porque há essa adaptação.
Não é só em Portugal, é muito comum numa vertente mais popular no sul da Europa, mas existem em muitos outros lados do mundo. As crenças vão se reatualizando e a religião vai se transfigurando e adaptando a esta fase da modernidade.
Muito obrigado, professora Helena Vilaça.
Nada, foi um prazer.
Helena Vilaça é professora na Universidade do Porto e há muito que se dedica à investigação na área das religiões. Orientou uma tese de mestrado sobre as crenças populares. É socióloga e tem obra publicada sobre esta matéria. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.