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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Rui Costa foi eleito para mais quatro anos como presidente do Sport Lisboa e Benfica. Como se explica a dimensão desta vitória?
Para a direção, a lista F teve 655.566 votos, 34,11% e a direção, 1.266.105 votos, o que corresponde a 65,89%. A mesa queria agradecer a todos aqueles que colaboraram neste ato eleitoral, sem esquecer nenhum dos candidatos, nenhum dos mandatários, nenhum dos delegados. Agradecer aos órgãos sociais que agora acessam funções e a todos aqueles que prestaram trabalho e que ajudaram, e colaborando para que nós tivéssemos dois atos eleitorais que bateram sucessivamente o recorde de votação no Sport Lisboa e Benfica.
Rui Costa é o vencedor das eleições no Sport Lisboa e Benfica. O anúncio foi feito por José Pereira da Costa, presidente da Mesa da Assembleia Geral do clube encarnado. Com uma larga diferença para João Noronha Lopes, Rui Costa foi escolhido pela maioria dos sócios numa votação que bateu todos os recordes. Foram mais de 93 mil sócios a votar numa eleição que já pode entrar no recorde do Guinness. Na contagem final, Rui Costa consegue 65,89%. João Noronha Lopes fica com 34,11%. Rui Costa ganha, revalida o mandato e segue para mais quatro anos como 34° presidente do Sport Lisboa e Benfica. Como se explica esta vitória? O que correu mal a João Noronha Lopes e o que esperar do próximo mandato no Sport Lisboa e Benfica? São perguntas que vamos tentar responder nos próximos minutos. Vou conversar com o Bruno Roseiro, editor de esporte do Observador. Eu sou Miguel Cordeiro e esta é a história do dia extra de domingo, 9 de novembro. Bem-vindo, Bruno.
Olá, Miguel.
Vamos aos números. A lista do Rui Costa vence em todos os órgãos: direção, conselho fiscal, comissão de remunerações e mesa da Assembleia Geral. As diferenças foram diferentes em cada um destes órgãos, mas é uma vitória de grande dimensão, com Rui Costa a vencer em quase todas as secções de voto.
Eu diria as secções que interessam, as secções com mais peso, que são as secções em Portugal, venceu em toda a linha, até mesmo no Pavilhão número 2 da Luz e em Paço de Arcos, onde não tinha ganho na primeira volta, desta vez ficou na frente, mais votos e mais votantes. As únicas exceções e os únicos locais onde Noronha Lopes conseguiu vencer foi na Europa e pelo resto do mundo. Confirmou-se aquilo que tinha acontecido na primeira volta. Houve um prolongamento daquilo que houve na primeira volta e, sobretudo, aquilo que se percebeu é, ao contrário do que se pensava, que havia quase um empate técnico a partir do momento em que João Diogo Mantegas decidiu dizer publicamente que iria votar em João Noronha Lopes, mesmo não se revendo 100% naquilo que ele defendia para o Benfica. Esta eleição foi tudo, menos um empate técnico. Por quê? Porque a transição de votos que houve de Luís Filipe Vieira, de Martin Meyer e do próprio João Diogo Mantegas, beneficiou e muito Rui Costa, que acabou por ver confirmado aquilo que já tinha saído da primeira volta. O Benfica é muito mais do que uma bolha de Lisboa, o Benfica é um clube com representação nacional, é um clube a uma escala mundial. E foi exatamente por perceber isso que Rui Costa conseguiu uma vitória tão expressiva como esta que conseguiu esta noite.
Rui Costa discursou. Vamos ouvir algumas palavras que foram ditas precisamente nesse discurso de vitória de Rui Costa.
Saímos ainda mais determinados e com a ambição renovada para engrandecer o Benfica. Estaremos sempre presentes, seremos exigentes e próximos das nossas equipas, dos sócios, das casas do Benfica, de todos os que fazem deste clube o maior do mundo, todos os dias. Obrigado a todos. Somos todos Benfica. Viva o Sport Lisboa e Benfica.
Discurso de vitória de Rui Costa, discurso de tomada de posse, neste caso, em que convidou também e anunciou que convida todos os candidatos a estarem ao seu lado na tribuna, no jogo frente ao Casa Pia neste domingo, diz que sai ainda mais determinado e com ambição renovada. É essencialmente isto que consegue Rui Costa, um reforçar da votação, da confiança dos sócios, depois de uma eleição há quatro anos, em que concorreu apenas com um adversário, mas que não foi uma eleição tão disputada como esta, consegue aqui um novo fôlego para os quatro anos que tem pela frente?
Eu diria, sobretudo, que consegue margem nos pontos onde não tinha, nomeadamente nas assembleias gerais. Ou seja, nesta altura, Rui Costa, numa assembleia geral que possa ter as mesmas convulsões que as últimas tiveram, pode voltar a dizer: "Atenção Vocês montam um cenário na Assembleia Geral que, quando nós depois ouvimos todos os benfiquistas, não é o cenário que existe e não é nisso que eles se reveem. E por aí eu diria que é um reforço da posição do Rui Costa. Aliás, os três pontos do discurso dele visam essencialmente, por um lado, agradecer a todos os benfiquistas por esta participação. Recordo que conseguiu bater os números da primeira volta, por outro, tentar criar um clima de pacificação e união depois de longas semanas de campanha, que criam sempre cisões e fazem sempre mossa em qualquer clube ou em qualquer estrutura. E depois, um terceiro ponto, que é tentar projetar o futuro. Para projetar esse futuro, Rui Costa ganhou aqui um balão de oxigênio enorme para conseguir algo que é inevitável que consiga neste mandato. O Rui Costa tem que ganhar, o futebol do Benfica tem que ganhar, porque se o futebol do Benfica não conseguir ganhar, tudo voltará muito rapidamente ao ponto em que estava quando chegamos a estas eleições. Essa é a grande questão de Rui Costa. Há aqui vários projetos do programa de Rui Costa que tentará aplicar ao longo deste mandato. O Benfica District é inevitável falar-se, porque é um projeto de grande dimensão, um investimento muito avultado e que iria transformar por completo não só o Estádio da Luz, mas também toda aquela zona adjacente e toda aquela zona também de Lisboa. Há também a questão dos direitos televisivos, da venda dos direitos televisivos entre 2026 e 2028, e depois perceber onde é que o Benfica pode entrar na questão da centralização dos direitos televisivos, numa altura em que está fora da mesa das negociações. Agora, mais do que nunca, o futuro do Rui Costa e o mandato do Rui Costa vai andar muito à volta dos resultados do futebol. E se os mesmos não aparecerem e se fizer mais um mandato com apenas um campeonato ganho em quatro anos e com três títulos em quatro anos, vai ser curto e em 2029, se for em 2029, voltaremos a uma espécie de ponto zero, que é exatamente o ponto onde estamos agora.
E o cenário de união que tem sido escrito pelos candidatos como importante para as próximas semanas e para os próximos tempos no Benfica, está também dependente, claro, desse cenário de vitórias. Se a bola entra ou não, principalmente nessa modalidade, no futebol. Falar de João Noronha Lopes. Falou cedo o candidato, eram cerca de duas da manhã quando falou, ainda havia muito por contar. Como é que se explica que o candidato tenha percebido rapidamente que iria perder estas eleições já por uma larga margem?
Podia ter falado mais cedo. Eu diria que João Noronha Lopes ao longo do dia foi percebendo que a derrota era inevitável, e sobretudo quando começaram a sair os primeiros resultados nacionais. E nós nunca nos podemos esquecer que existem delegados das listas em todos os locais de voto, onde os votos estão a ser contados e, portanto, existe uma percepção pra que lado é que as coisas estão a pender. Muito cedo se percebeu que a vantagem que estava a ser criada nas muitas dezenas secções de votos em Portugal nunca iria ser atenuada por aquilo que estava a passar no Pavilhão da Luz. E o Pavilhão da Luz é também aqui uma chave. Por quê? Porque estas eleições vieram mudar por completo aquilo que é o jogo, entre aspas, no Pavilhão da Luz. O candidato da mudança tem no Pavilhão da Luz o seu bastião para tentar almejar uma viragem de poder, digamos assim. Na contagem da secção de três votos, o Rui Costa conseguiu ganhar. A partir do momento em que isso acontece, percebe-se que tudo que venha daí nunca será bom, será sempre a piorar. E, portanto, muito rapidamente a candidatura de João Noronha Lopes percebeu que seria uma noite de derrota, que seria uma derrota até expressiva. E os números depois vieram confirmar aqui uma ou outra parte. Se nós olharmos com atenção para os votos e os votantes para os quatro órgãos que estavam a votos, portanto, a Assembleia Geral, Direção, Conselho Fiscal e Comissão de Remunerações, aquilo que nós vemos é, por um lado, novamente, Bagão Félix, muito destacado no Conselho Fiscal, em comparação com Noronha Lopes na direção, e Noronha Lopes a ter o resultado mais baixo dos quatro órgãos. E eu diria que isso é um sinal de que alguma coisa falhou na mensagem durante a campanha e que, nomeadamente, a segunda volta não correu nada bem a Noronha Lopes.
Noronha Lopes, como eu dizia, falou por volta das duas da manhã. Vamos ouvir o candidato da lista F, que se mostrou desiludido com o resultado.
É uma vitória expressiva. É uma vitória que, mais uma vez, foi clara e julgo que Rui Costa tem todas as condições pra exercer o seu mandato. Espero que consiga unir os benfiquistas. Eu, da minha parte, tudo farei pra que isso seja possível. Estou desiludido com este resultado e assumo pessoalmente a responsabilidade por esta derrota. Fui eu e apenas eu, que não consegui convencer os benfiquistas da necessidade de uma mudança.
João Noronha Lopes, que assumiu a derrota bem cedo, mas acabou por não assumir se esta é ou não a última vez que se candidata. Agradeceu à família, disse que agora é tempo de refletir, mas achas que há essa possibilidade de Noronha Lopes voltar umas eleições no Sporting Lisboa e Benfica? É já a segunda vez que perde, já perdeu para Luís Filipe Vieira e agora para Rui Costa.
Haver a possibilidade de voltar a recandidatar-se existe sempre. É um pouquinho como a teoria de Luís Filipe Vieira hoje quando foi votar: isso só Deus sabe. Portanto, se até Luís Filipe Vieira deixa aberta essa porta, Noronha Lopes, inevitavelmente, também poderá avançar para uma terceira candidatura. Aquilo que me parece é que, a partir do momento em que em 2025, no contexto que existia, tem um resultado mais baixo do que aquilo que conseguiu em 2020, e em 2020 havia idiossincrasias muito próprias das eleições, nomeadamente o facto de as casas terem 50 votos cada, o que tinha um peso grande quando começava a contagem dos votos, e mesmo assim Noronha Lopes teve quase 35%. Agora teve ligeiramente menos num contexto muito favorável, numa campanha que teve um grande investimento, foi de longe a campanha que mais dinheiro investiu. Parece-me que uma terceira tentativa de chegar à presidência do Benfica poderá estar automaticamente condenada ao insucesso perante aquilo que nós vimos nesta comparação 2020-2025. Aquilo que poderá haver é do movimento da candidatura do Noronha Lopes, sair uma figura que possa ir buscar esse eleitorado e a partir daí tentar ir ganhar outro eleitorado que possa fazer frente aos outros candidatos que se possam apresentar às eleições.
No fim do dia, fica uma votação com valores record. São mais de 93 mil votantes nesta eleição, num universo em que poderiam votar cerca de 160 mil sócios. Mostra uma grande vitalidade do clube encarnado, mas foi também uma campanha muito quente. Há receios de crispação durante os próximos tempos. Olhando aqui para a dimensão da votação, Rui Costa, ele consegue mais de 58 mil votos, ou seja, Rui Costa sozinho consegue bater o recorde de votação que era do Barcelona e que tinha uma votação de cerca de 57 mil votos. Rui Costa sozinho já teria um valor recorde do Guinness e o Benfica consegue esse valor na casa dos 93 mil votantes. O que esperar deste Benfica para os próximos tempos? Pode o clube encarnado ter paz?
Eu diria que é inevitável ter paz. Até porque nos próximos tempos, garantidamente, não haverá candidatos a visarem Rui Costa, não haverá candidatos a ter o tipo de campanha que fomos assistir nas últimas semanas. Agora, mais uma vez, entroncamos sempre no mesmo. Se a bola não começar a entrar, é muito mais difícil gerir o Benfica. E depois, temos também de ter sempre presente uma premissa que para mim é fundamental. Uma coisa é o Benfica das assembleias-gerais, o Benfica do estádio, o Benfica de Lisboa. Outra coisa é o Benfica enquanto clube. E mais uma vez, aquilo que ficou demonstrado foi aquilo que se passa em assembleias-gerais, no estádio e por esta zona, pelo coração, digamos assim, da Luz, não tem nada a ver com aquilo que é o Benfica, que ficou hoje muito bem expresso nas urnas com mais de 93 mil votantes. E enquanto as pessoas não entenderem cada uma a sua parte e o que é que fazem no clube, será sempre complicado para qualquer líder poder ter a paz suficiente para ir fazendo o seu trabalho. Automaticamente, e voltamos sempre à mesma questão, se a bola começar a entrar mais vezes, garantidamente Rui Costa terá muito mais margem para cumprir o seu mandato, como começou a cumprir o mandato que começou em 2021 e que em 2025 já trouxe um Rui Costa a ser sufragado por ser a continuidade, por ser o maestro e por ser alguém que merece um misto entre o benefício da dúvida e a possibilidade de continuar o projeto que começou. E eu penso que é a isso que o Rui Costa também se vai agarrar muito, sobretudo nestes meses iniciais.
Só para terminar, Bruno, uma última questão sobre o futebol. Tem-se falado muito, ou falou-se nas últimas semanas, do impacto que esta eleição poderia ter no futebol. José Mourinho foi sempre afastando o tema, nem falou durante este sábado, na antevisão ao jogo com o Casa Pia. Falar se há também um clima de mais tranquilidade agora para o clube encarnado ou se a vida difícil que tem tido, pelo menos na Liga dos Campeões e também com a posição que tem nesta altura no campeonato, pode antever aqui também ainda algumas dificuldades para as semanas que se avizinham.
Eu acho que desportivamente as dificuldades vão ser as mesmas. Agora, o contexto em que a equipa vai começar a trabalhar, aí vai ser completamente diferente. Ou seja, há uma bolha mediática que rodeou todas estas eleições, que vai desaparecer e José Mourinho vai começar a trabalhar com uma equipa num contexto completamente normal, digamos assim, que não teve nas últimas semanas. Não foi pelas eleições que o Benfica não ganhou os jogos na Liga dos Campeões, ou não foi pelas eleições, até, que Bruno Lage perdeu o jogo com o Qarabag e antes tinha empatado com o Santa Clara. Se calhar foi por causa das eleições que saiu, mas isso é outro ponto. Agora, a questão é que havia aqui uma bolha mediática à volta das eleições do Benfica que vai esvaziar por completo, até pelo peso da vitória de Rui Costa, e José Mourinho poderá trabalhar num outro contexto muito mais favorável. Agora, pois todos os plantéis têm problemas. Durante as eleições do Benfica, percebemos que existe agora um novo problema com o Sheldon. E isso são as dinâmicas mesmo de grupo. E José Mourinho é muito bom a gerir grupos, sobretudo quando tem contextos favoráveis. E eu diria que nesta altura aquilo que ele quer é poder estar ainda na Liga dos Campeões em dezembro e que chegue o mercado de janeiro.
Obrigado, Bruno.
Obrigado, Miguel.
Bruno Roseiro é editor de desporto do Observador. Todos os resultados das eleições do Sport Lisboa e Benfica podem ser consultados em observador.pt. Esta foi a história do dia. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Bom fim de semana.