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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Como é que uma mãe abandona os filhos?

Quando viro para o monte, vejo duas crianças na minha direção, de braços no ar, a chorar, muito agitadas. Voltei para trás. O miúdo disse-me logo que se tinha perdido na floresta e que o pai e a mãe tinham ido embora e tinham os deixado em terra.

Este é Alexandre Quintas, o homem que encontrou as duas crianças francesas de três e cinco anos, abandonadas na estrada nacional que liga a Comporta a Alcácer do Sal.

Fui vendar-lhes os olhos e pusero-me na floresta a jogar um jogo. Igual vão à procura de um brinquedo. E depois...

A voz embargada de Alexandre é, de certa forma, a voz de todos nós que não compreendemos como é que isto é possível. Como é que uma mãe abandona os filhos que trouxe de França, aparentemente à revelia do pai, que as procurava há duas semanas? Como é que a mãe os traz para Portugal e depois lhes põe mochilas às costas com muda de roupa e água e fruta e os abandona no meio da estrada, de olhos vendados, e segue viagem com os dois filhos perdidos e sozinhos, no meio de lado nenhum. A mãe e o padrasto foram detidos ontem em Fátima, vão ser hoje presentes a tribunal e talvez hoje se comece a saber mais desta história que nos choca e nos deixa confusos. E é precisamente por estarmos chocados e confusos, que eu hoje vou falar com o médico psiquiatra Gustavo Jesus para perguntar o que pode explicar isto, como pode uma mãe abandonar os filhos, como pode trazê-los às escondidas para outro país e depois largá-los à sorte numa estrada. E para tentar perceber que impacto tem um episódio destes na vida de crianças tão pequenas. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de sexta-feira, 22 de maio. Gustavo Jesus, bem-vindo.

Obrigado, bom dia.

Vamos estabelecer já aqui alguns esclarecimentos a quem nos está a ouvir. Nós não sabemos muita coisa sobre este caso, não sabemos as motivações, não sabemos o que terá levado alguém a fazer isto, que nos deixa todos chocados, que é uma mãe abandonar literalmente os filhos, abrir o carro e deixá-los sair. Mas vamos tentar perceber genericamente, mesmo não sendo este caso concreto, o que pode levar um ser humano a fazer isto com os seus próprios filhos. Vamos tentar encontrar algum sentido, se é que é possível encontrar algum sentido, na tomada de decisão que pode levar pessoas a fazer este tipo de coisas. Há aqui uma primeira dúvida, desde logo, que é: nós sabemos que, neste caso, estamos a falar de crianças francesas, que tinham um pai e uma mãe, e a mãe, digamos, subtraiu-as. Levou-as de França e trouxe-as para Portugal. Isto é uma coisa que acontece com muita frequência em casais desavindos ou em casais que estão em processos de divórcio. Enfim, não será todos os dias, mas é uma coisa que acontece com alguma regularidade, não é?

Uhum.

Por que que acontece isto? Por que que muitas vezes um dos progenitores tira as crianças até do espaço geográfico onde está o outro progenitor?

Bom, aqui eu, para já, agradeço o convite aqui para falar sobre este tópico e agradecer a sua introdução, porque de facto é muito importante perceber que eu não posso comentar casos individuais, por razões deontológicas, evidentemente. Mas de facto, aquilo que o Pedro descreveu inicialmente na sua introdução foi o choque que todos nós sentimos quando avaliamos esta situação. E é muito importante perceber, antes de mais, porque é que nós sentimos esse choque. Porque, na verdade, nós percebemos, quer dizer, o vínculo entre uma mãe e os seus filhos é provavelmente o vínculo afetivo mais forte que existe na natureza, e não é só na natureza humana, é na natureza até dos mamíferos, mas entre os humanos é o vínculo mais forte que existe, é um vínculo que é biologicamente determinado.

Já agora, falou da mãe com os seus filhos e há uma diferença entre o vínculo da mãe com os filhos e o vínculo do pai com os filhos?

Sim, há. Claro que há. E eu sou pai, portanto, também tenho um vínculo muito forte com os meus filhos, mas nós temos que reconhecer as diferenças biológicas que existem nesses vínculos, nomeadamente até por várias razões. Uma mãe biológica, nomeadamente, tem o seu filho no ventre durante uma série de meses. Durante esse período, há já a construção de uma relação, seja ela afetiva, seja ela biológica. Depois, no período do parto e no pós-parto, existem uma série de alterações hormonais, nomeadamente, como sabe e como é muito falado, a secreção de oxitocina, que tem picos muito grandes no cérebro da mãe, na relação com o bebê, e que vai tornar aquela relação muito forte. E ela é bidirecional, porque o bebê, como sabemos, quando é pequenino, depende extremamente da mãe, seja para alimentação, para os cuidados, e, portanto, é bidirecional a necessidade que ambos sentem de estar juntos. E isso é reforçado biologicamente pelo nosso cérebro, até porque evolutivamente foi útil para a espécie humana que a mãe fosse muito agarrada aos seus filhos, porque assim os filhos sobreviviam com mais probabilidade. Portanto, esse vínculo é biologicamente determinado, ainda que depois, e há vários estudos sobre isso, sobretudo em fases um pouco mais tardias, não tão bebés, mas mais tardias, o pai também apresenta vínculos muito fortes, sobretudo se passar bastante tempo com os filhos. O vínculo aí no pai depende mais da presença e do envolvimento nos cuidados, enquanto que o vínculo da mãe, em princípio, é pré-contacto, até, porque é uma coisa determinada no próprio nascimento e é biologicamente assim determinado. E, portanto, por ser um vínculo tão forte e tão importante, é particularmente chocante que isto aconteça. E o Pedro também disse isso. Foge um bocado à nossa compreensibilidade e, portanto, nós temos quePerceber porque isso acontece. Vou só fazer aqui um parêntesis, porque entretanto o Pedro fez uma outra pergunta que é: nos casais desavindos, há frequentemente isto a que se chamou retirar os miúdos do outro membro do casal e até nomeadamente geograficamente, aquilo que se chama alienação parental, que pode acontecer em diferentes graus. E é importante não confundir as situações, porque uma coisa é um pai ou uma mãe levar os filhos para longe do outro e isso não quer dizer que esse elemento do casal não tenha um forte vínculo parental com os bebês. Faço-me entender? Ou seja, uma mãe pode levar os seus filhos, obviamente não estou a justificar o comportamento, o comportamento é errado, porque não respeita também a relação do pai com as crianças, mas na cabeça daquela pessoa, eventualmente está a fazer o melhor para os filhos, etc. E em alguns momentos sente: "Eles estão bem é comigo, porque eu trato bem deles e, portanto, não precisam nada do pai" ou outra coisa deste estilo. O que se passou aqui é bastante diferente. Ou seja, aqui temos um comportamento de abandono e de um abandono que se revestiu, do pouco que eu li, de características que roçam alguma crueldade, nomeadamente vendar as crianças, dizer que elas vão à procura de um brinquedo, portanto, fingir que se tratava de um jogo e depois desaparecer e deixar as crianças abandonadas. Isto é de uma tal gravidade e de um tal choque para nós, porque repare, todos nós já convivemos com crianças, outros de nós, como é o meu caso, e penso que o seu também, temos filhos e para nós isto é inconcebível. Imaginarmos os nossos filhos com três e cinco anos de idade a serem deixados desprotegidos aos perigos da natureza e aos perigos de qualquer outra situação, sem que nós pudéssemos ajudá-los. Isso para nós é incompreensível. É tão incompreensível, que aqui sim entro eu com esta minha análise psiquiátrica, podemos colocar esta questão, tentar arranjar aqui uma justificação psiquiátrica para isso. De facto, nós podemos conceptualizar em casos assim, em que uma mãe abandona os filhos desta forma e aparentemente com estes contornos particularmente preocupantes ou bizarros, como uma doença mental. Podemos fazer essa conceptualização, porque de facto, nós sabemos que algumas doenças mentais, como sendo algumas psicoses ou a depressão com sintomas psicóticos, depressões muito graves com sintomas psicóticos, em que as mães podem ter comportamentos em relação às crianças, que aos olhos de quem vê de fora, pareçam agressões e pareçam inconcebíveis, mas que no contexto de uma doença psicótica possam passar a ser compreensíveis. Por exemplo, vamos supor que uma mãe considera que o pai, eu agora estou aqui a pôr um exemplo clínico, completamente abstrato. Que o pai está possuído pelo demônio, literalmente. Que há mesmo forças malignas que possuem o pai e que, portanto, ela deve afastar os filhos do pai. E que, eventualmente, essas forças demoníacas são tão potentes que conseguem vigiar as crianças através dela. E portanto, as crianças só estarão salvas se estiverem longe de todos. Neste sentido, deixar as crianças sozinhas fora daquele ambiente pode ser, à luz de um quadro psicótico, explicável. Aliás, há alguns quadros psicóticos que surgem no contexto de pessoas psicóticas, como sabe, em que inclusivamente as mães tentam matar ou matam mesmo os filhos. Do ponto de vista psicopatológico, chama-se homicídio altruísta. Claro que isto é incompreensível também para as pessoas, mas é altruísta no contexto da doença, ou seja, como as pessoas acham que as crianças estarão melhor mortas do que a penar em vida, do que a sofrer. E nesse sentido, quase que matar as crianças seria salvá-las de um mal maior. Claro que para nós, que estamos saudáveis da cabeça, achamos isso tudo absurdo, mas estou só aqui a tentar explicar que por vezes a doença mental grave faz com que as pessoas, nomeadamente as mães, possam ter atitudes relativamente aos filhos, que são absolutamente incompreensíveis para nós, mas que no contexto de uma doença mental grave, possam ser compreensíveis.

Ou seja, nós já temos noticiado precisamente esse tipo de casos cada vez que eles acontecem, raramente, felizmente, acontece, mas efetivamente são casos chocantes, precisamente porque fogem completamente da norma e da nossa capacidade de compreender e muitas vezes a doença mental é uma explicação. Claro que não torna nada disto aceitável, mas é uma explicação de por que isto aconteceu. E às vezes, quando somos confrontados com este tipo de histórias tão chocantes, uma das coisas que queremos perceber é: como é que foi possível? Como é que uma mãe tem coragem de fazer isto? Mas há aqui um dado que eu gostava que pudesse enquadrar, se for possível, que é: nós falamos desta hipótese de tudo aquilo parecer ser uma crueldade, a história da venda, dizer "agora vão procurar um brinquedo". Ao mesmo tempo, estas crianças tinham mudas de roupa, tinham peças de fruta, tinham água. Ou seja, não havia ali um objetivo de matar e havia ali aquele cuidado que nós fazemos quando os nossos filhos vão para uma viagem da escola ou vão dormir à casa de um amigo. Há, ao mesmo tempo, isto pode parecer estranho, mas há ao mesmo tempo pequenos gestos de ternura no meio de uma coisa que é absolutamente incompreensível.

Um cuidado, pelo menos.

Sim, exatamente.

E precisamente por isso, esta ausência de compreensibilidade para a totalidade da situação é que nos faz colocar a hipótese de uma doença mental. Porque repare, um comportamento deste estilo, ou a mãe das crianças abandona as crianças e faz este comportamento por estar gravemente doente, seja ela por depressão psicótica, por psicose de outro tipo, etc. Ou, se não for à luz de uma doença mental, então teremos que pensar em traços de personalidade. E os traços de personalidade que fariam alguém abandonar os seus próprios filhos nessas condições seriam traços de psicopatia. A psicopatia é um tipo de personalidade, uma perturbação da personalidade em que as pessoas não têm empatia relativamente aos terceiros, em relação a ninguém, e neste caso seria um caso extremo, porque nem em relação aos próprios filhos existiria essa empatia, colocar-se no lugar do outro, perceber que pode causar sofrimento e tentar proteger do sofrimento e evitar o sofrimento.E um psicopata também tem sempre a tendência para exercer os seus comportamentos no sentido dos benefícios próprios, independentemente do mal que vai causar. Mas, de facto, como dizia o Pedro, também aqui fica um pouco difícil de integrar estes cuidados com a comida, com a roupa, porque, em abstrato, uma mãe rouba os filhos do seu pai para depois os abandonar? Se não tivesse, por ser uma psicopata, qualquer vínculo com a criança, por que os retiraria ao pai?

Exatamente.

Pura e simplesmente não os deixaria com o pai no sentido de dizer: essas crianças não me interessam, eu não tenho vínculo afetivo a elas, portanto ficam com o pai e eu quero lá saber, vou seguir a minha vida. De facto, como eu digo, nem me interessa comentar o caso particular de forma concreta, mas interessa-me perceber que há aqui muita informação que não nos permite concluir sobre se se trata de uma doença mental, se se trata de um caso de psicopatia. Em qualquer das situações, há dados que não se conseguem explicar.

E os próximos dias, desse ponto de vista, serão decisivos para percebermos uma realidade que, para já, é ainda muito difusa e muito difícil de compreender à luz daquilo que dizia, que é a nossa relação normal de seres humanos com os nossos filhos.

Com os nossos filhos.

Deixe-me perguntar-lhe agora também de outro ângulo, que é o das crianças. Estas crianças são muito pequenas pelas fotografias que nós vimos, mas uma delas seguramente terá idade para se lembrar disto que viveu. Elas terão sido encontradas a chorar, portanto, perceberam que estavam ali numa situação aflitiva. Que impacto é que uma história destas pode ter na vida de crianças tão pequenas? De que forma que isto pode impactar o facto de desejarmos que sejam adultos saudáveis?

Sim, de facto é assim, independentemente daquilo que estivemos aqui a discutir sobre as causas que poderão ter levado uma mãe a fazer uma coisa dessas, o facto é que para as crianças a experiência já existiu e foi uma experiência grave de abandono, como é evidente. Claro que as experiências de abandono são vividas de forma diferente, dependendo da fase do neurodesenvolvimento. Crianças muito pequeninas, pelo que eu li, se tratava de uma criança de três e outra de cinco anos. Uma criança de três anos, apesar de tudo, aliás, ouvi alguns testemunhos que diziam que o miúdo mais pequeno estava um bocado alheio ao que se estava a passar, mas de qualquer forma, há sempre uma experiência de desamparo. De repente, as crianças sentirem que não estão a ser tratadas, que há uma incapacidade de perceber o que é que vai acontecer a seguir, uma falta de estrutura à nossa volta, como é que eu vou gerir esta situação, etc. Essa experiência de abandono é uma experiência altamente ansiogênica, porque crianças desta idade ainda precisam de muitos cuidados, evidentemente. Portanto, é uma experiência geradora de ansiedade e que depois, claro, os próximos passos vão ter também impacto. Uma coisa que se pode pensar é: qual era o grau do vínculo dessas crianças com esta mãe? Porque vamos supor, uma mãe que também fosse ausente da vida dos filhos e que se limitou agora a raptá-los do pai e a levá-los. Pronto, a experiência é extremamente negativa, aquela experiência pontual, mas não existiria eventualmente um vínculo tão grande que agora faça falta às crianças. Por outro lado, se houvesse um vínculo mais estabelecido, então as consequências serão bastante maiores, porque o vínculo, que é teoricamente um vínculo primordial com uma mãe, desapareceu. A mãe desaparece da vida das crianças, ainda por cima deixando-as numa situação de grande fragilidade e de grande perigo. E depois, claro, a compreensibilidade que cada uma das crianças, dependendo da fase etária, vai ser também relevante, porque enquanto se calhar a criança mais velha já tem alguma memória e eventualmente sofre mais neste momento com o que se está a passar, mas o que não quer dizer que a criança mais pequena não tenha também essa experiência de abandono vivenciada de uma forma mais emocional e com impactos na vida adulta, evidentemente. Claro que não podemos dizer que as crianças, por terem sido vítimas deste ato de abandono, vão ter uma vida adulta pouco saudável. Não sabemos se isso vai acontecer, porque obviamente vai agora depender de todas as outras variáveis. Como é que esta situação vai ser gerida agudamente, que tipo de apoio psicológico vão ter as crianças, quem é que vai tratar delas a partir daqui, vão voltar a um cuidador que já conhecem, a um familiar que realmente tem capacidade para tratar delas ou vão para uma instituição? Vão ou não ser separadas? Espero mesmo que não sejam, porque neste momento, provavelmente o vínculo mais saudável que essas crianças têm é uma com a outra. E portanto, separá-los também seria altamente nefasto. Como digo, a experiência é altamente nefasta, é grave, já tem um impacto no desenvolvimento psicológico, mas tudo o que vai acontecer a partir daqui vai moderar ou vai amplificar os efeitos deste evento.

Doutor, muito obrigado.

Eu é que agradeço o convite, Pedro. Obrigado.

Obrigado. Eu conversei hoje com o médico psiquiatra Gustavo Jesus sobre este caso, que hoje terá mais desenvolvimentos ao longo do dia. Para já, sabe-se que as autoridades francesas já pediram o retorno das crianças à França, onde o pai estará à procura delas. Uma história dura a terminar a semana, mas se procura uma coisa mais leve, deixe-me sugerir-lhe um novo podcast do Observador. Chama-se "Adivinha Quem Vem Jantar". É feito por mim e pelo meu amigo Tomás Toscano. Nós gostamos de cozinhar e de comer e gostamos de uma mesa cheia de amigos e boa conversa. E é isso que fazemos todas as sextas-feiras. Já convidámos o chef Kiko e a mulher, Maria Bravo, para nos contarem a incrível viagem que fizeram por 23 países a comer a barriga do mundo. Já recebemos o chef Vítor Sobral, que nos convenceu a pôr preconceitos de lado e a aproveitar todas as partes de um animal, mesmo as entranhas, que nos causam mais desconforto. E hoje recebemos a jornalista Clara de Sousa, que começou a contar histórias a partir dos aromas que a rodeavam em criança. Ela vai partilhar connosco fracassos e sucessos na cozinha e ainda a receita que levou leitores às lágrimas por causa das memórias que despertou. "Adivinha Quem Vem Jantar": há um novo episódio disponível todas as sextas-feiras em todas as plataformas de podcast. E esta foi a história do dia. A sonoplastia do Pedro Oliveira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Bom fim de semana.