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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como Ronaldo se transformou no ponta de lança do regime saudita.
And one of the guys that I want to meet. I wish one day if you have the opportunity- Donald Trump. I can make that happen ...make that happen or tell him that one of the guys that I want to sit to have a nice talk was one of the guys. Donald Trump? Donald Trump.
Cristiano Ronaldo joga na Arábia Saudita, mas desde sempre se soube que essa aposta saudita iria além do plano desportivo. Há quem o veja também como uma espécie de embaixador daquele país no mundo. Tanto que esta terça-feira se encontrou com Donald Trump em Washington, no mesmo dia em que o príncipe regente Mohammed bin Salman visitou a Casa Branca. Foi a primeira visita do príncipe saudita aos Estados Unidos depois do assassinato bárbaro do jornalista Jamal Khashoggi, em Istambul, por agentes sauditas, em outubro de 2018. Khashoggi era um feroz opositor do regime saudita. Os próprios serviços secretos norte-americanos chegaram à conclusão de que Mohammed bin Salman aprovou a operação. Isso nunca impediu os Estados Unidos de terem nos sauditas um parceiro estratégico no Médio Oriente, muito menos impediu Trump de reforçar essa parceria. E Ronaldo, como é que entra no meio disto tudo? Vou falar com André Pereira Matos, especialista em Relações Internacionais, investigador do Centro de Investigação em Ciência Política da Universidade do Minho e coordenador de Estudos Europeus da Universidade Aberta. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quarta-feira, 19 de novembro. Bem-vindo, André Pereira Matos.
Bom dia, muito obrigado.
A Arábia Saudita, já o sabemos, é um aliado histórico dos Estados Unidos na região do Médio Oriente. Para darmos aqui só algum contexto inicial. É uma aliança já antiga e estratégica para Washington, não é?
Sim, em absoluto. As duas características que traçou parecem-me fundamentais. Em primeiro lugar, esta relação remonta já ao final da Segunda Guerra Mundial. Houve um encontro do presidente Roosevelt com o rei saudita e há aqui uma transação, há um entendimento que está suportado numa transação muito clara e muito estratégica. Os Estados Unidos garantem segurança e apoio militar à Arábia Saudita e, em contrapartida, a Arábia Saudita garante o acesso privilegiado ao petróleo e acaba por contribuir também assim para a estabilidade dos preços no mercado global, que é muito importante para todos os atores das relações internacionais económicas, mas para os Estados Unidos, em particular, por motivos que nós compreendemos. E portanto, é uma lógica de petróleo em troca de proteção que se mantém até aos dias de hoje, portanto, foi ultrapassando até momentos de alguma tensão entre os dois países, como o caso do embargo petrolífero em 1973, depois da Guerra do Yom Kippur, por exemplo. A Arábia Saudita participou no embargo, isso criou uma certa tensão nas relações e houve ali uma certa consciência da vulnerabilidade do Ocidente em relação ao petróleo do Golfo, mas a relação entre os dois Estados manteve-se. Depois do 11 de setembro de 2001, também vários dos sequestradores eram sauditas, houve alguma tensão novamente, mas não houve ruptura diplomática, houve até inclusivamente o reforço da cooperação ao nível da segurança, do contraterrorismo e do controle dos fluxos financeiros e portanto, é uma relação que é já de longa data e é fundamental para os Estados Unidos. Já para não falar num momento muito específico na história mundial, no contexto da Guerra Fria, a Arábia Saudita acabou por ser um pilar muito importante, um pilar antissoviético e antinacionalista, uma espécie de contrapeso ideológico e estratégico e portanto, era um aliado para os Estados Unidos numa região vital para o abastecimento energético do Ocidente e portanto foi um Estado muito importante nesta relação que os Estados Unidos têm mantido de forma conturbada, muitas vezes criticada com o Golfo. E portanto, do ponto de vista da energia, é uma relação muito importante, porque a Arábia Saudita é um dos maiores produtores exportadores mundial de petróleo e, portanto, continua a ser o principal produtor da reserva da OPEP e também consegue um equilíbrio de forças muito importante de segurança no Golfo, nomeadamente em relação ao Irão, que é, como nós sabemos, um competidor muito tenso e muito importante do ponto de vista estratégico para os Estados Unidos. E, portanto, a Arábia Saudita, como maior país da Península Arábica, funciona aqui como um guarda-chuva político do Conselho de Cooperação do Golfo e rival regional do Irão. E, portanto, Washington vê em Riade esta peça central na contenção do Irão, tão importante para a sua política externa e para a sua influência no Médio Oriente.
Donald Trump visitou o país já este ano, em maio, e agora recebeu na Casa Branca o príncipe regente saudita. Tanto tendo em conta aquilo que aconteceu no primeiro mandato como agora no segundo, Trump parece apostado em reforçar ainda mais essa parceria estratégica.
Exatamente. Concordo com essa leitura porque há, factualmente, uma linha de continuidade muito clara entre o primeiro e o segundo mandatos de Donald Trump nesta aposta na Arábia Saudita. Recordemos até que a primeira viagem que Donald Trump fez ao estrangeiro em 2017, no seu primeiro mandato, foi à Arábia Saudita. Foi o primeiro destino internacional para participar na Cimeira de Riad com acordos de armamento multimilionários e que já indiciava que a Arábia Saudita estaria no topo da lista das prioridades em matéria de alianças fora da NATO para Donald Trump no seu primeiro mandato. E agora temos também, em maio de 2025, creio, Donald Trump voltou a escolher o Golfo como primeira grande deslocação internacional com uma paragem central em Riad e, portanto, há esta linha de continuidade. E também nessa visita, acordos de defesa na ordem dos 140 mil milhões de dólares, pacotes mais amplos ainda de investimentos sauditas nos Estados Unidos e uma mensagem que nós interpretamos já em maio de 2025 e que podemos agora, de facto, consolidar, que é esta mensagem política de Donald Trump, que é de que os negócios voltaram ao centro da política externa norte-americana, menos foco em condicionalidades políticas, menos preocupações com direitos humanos, menos preocupações com dimensões normativas, mais foco em contratos, em investimentos, em empregos para a economia norte-americana, muito alinhado com esta política da MAGA, de tornar os Estados Unidos grandes novamente.
Mohammed bin Salman, o príncipe regente da Arábia Saudita, é de facto quem governa o país e é um homem que nos últimos anos tem vindo a concentrar cada vez mais poder.
Sim, príncipe herdeiro e primeiro-ministro desde 2022, portanto ele acumula os principais centros formais de decisão do Estado. O seu pai já está com uma saúde frágil, portanto a política externa, os grandes dossiês económicos passam necessariamente pelas suas mãos e ele é aquele que governa de facto. Se até 2015 ele era uma figura relativamente secundária, acaba por se tornar muito rapidamente ministro da Defesa, chefe da Casa Real, depois vice-primeiro-ministro, sucessivamente e de forma bastante rápida, o que significa também um papel preponderante a este nível das tomadas de decisão. Ele acabou também por liderar uma campanha que foi muito comentada na altura, nos anos 2018, 2019, de campanha anticorrupção, que levou à detenção de vários príncipes, grandes ministros, grandes empresários, muitos deles concentrados no hotel Ritz-Carlton, em Riad, portanto houve assim uma purga política, como foi interpretado na altura. Agora ele tem tentado passar uma imagem de modernizador. Ele apresenta-se como arquiteto do plano Vision 2030, que é basicamente um modelo ou uma tentativa de diversificar a economia, preparar o país para um futuro pós-petróleo, com uma forte aposta na tecnologia, no turismo, em megaprojetos urbanos, no entretenimento, e daí também a relevância acrescida desta relação com os Estados Unidos, precisamente por causa da questão tecnológica, da inteligência artificial, etc. E portanto, aqui fechamos um pouco este circuito e percebemos por que esta parceria é também para a Arábia Saudita tão fundamental.
É a primeira vez que Mohammed bin Salman viaja para os Estados Unidos depois do assassinato em outubro de 2018 do jornalista saudita Jamal Khashoggi, que de resto trabalhava para um jornal norte-americano, o "The Washington Post". Khashoggi foi morto por elementos dos serviços secretos sauditas no consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia, e os próprios serviços secretos norte-americanos chegaram à conclusão de que muito provavelmente o príncipe regente terá ordenado a morte brutal de Khashoggi. Sete anos depois, Trump estende-lhe agora a passadeira vermelha na Casa Branca. Como é que podemos ler isto?
Podemos ler no seguimento daquilo que eu dizia, de transformar a política externa e os interesses políticos e económicos dos Estados Unidos fora dos Estados Unidos numa perspetiva comercial, economicista, pragmática. Ou seja, se é um parceiro que garante energia, que compra armamento de alto valor, que investe massivamente nos Estados Unidos e que alinha contra adversários estratégicos, e portanto se reparar, a Arábia Saudita cumpre todos estes critérios, o passado em matéria de direitos humanos, em matéria de posicionamento normativo, de respeito por aqueles que serão ou que seriam expectavelmente os princípios da ordem global liberal vigente fundada pelos Estados Unidos, consolidada muito pelos Estados Unidos, acaba por tornar-se absolutamente secundário. Trump está a sinalizar que na sua hierarquia de prioridades contam sobretudo três coisas: o negócio e os investimentos, portanto daí este pacote de investimento saudita na economia norte-americana de centenas de milhares de milhões de dólares, a defesa e o equilíbrio regional, com a questão da venda dos F-35 à Arábia Saudita, por exemplo, o reforço das garantias de segurança de Washington à Arábia Saudita também precisamente naquele contexto de rivalidade com o Irão e da instabilidade regional e, em terceiro lugar, a tecnologia de ponta e a questão da energia, porque esta agenda entre os dois Estados inclui também cooperação em matéria nuclear civil e o acesso saudita à tecnologia e chips avançados, que são muito importantes para esta era pós-petróleo que o príncipe está neste momento a tentar investir e pelo qual tem dado a cara do ponto de vista político na constituição desta nova arquitetura dos interesses sauditas.
Já regressamos à conversa com André Pereira Matos. Na segunda parte vamos continuar a falar desta relação de Washington com Riad e também de Cristiano Ronaldo e de como se transformou num trunfo para a Arábia Saudita promover a imagem do país em Washington e no mundo. Estamos de regresso à conversa com André Pereira Matos. Falando ainda desta visita do príncipe saudita a Washington, a defesa e o setor militar têm estado no centro das atenções desta administração Trump. O André já falou na questão dos caças F-35, considerado o avião de combate mais avançado do mundo, e da possibilidade de agora serem vendidos à Arábia Saudita. Considerando que Israel, neste momento, é o único país na região com esse tipo de avião, com os F-35, sendo provavelmente um bom negócio para os Estados Unidos, não arrisca também criar tensões na região?
Certamente que criará tensões na região, de resto há já reações por parte de Israel e já comentarei sobre isso, mas também trará aos Estados Unidos um papel muito importante de contrapeso ao domínio israelita. Repare-se que a legislação norte-americana consagra um compromisso de manter o avanço militar qualitativo de Israel em relação à sua vizinhança e, portanto, os Estados Unidos, na prática, só podem vender armamento avançado a estados árabes se garantirem que Israel continua a ter superioridade tecnológica e operacional. Este princípio fica sob grande pressão se efetivamente se concretizar este negócio da venda dos F-35 e de outro material militar aos sauditas. E se é verdade que a Força Aérea israelita já terá enviado uma carta a demonstrar o seu desagrado em relação a isto por colocar em causa este princípio das relações entre os dois Estados, a verdade é que isto também cria um certo leverage dos Estados Unidos em relação a Israel, porque demonstra a Israel que há outros parceiros na sua vizinhança com os quais os Estados Unidos podem fazer parcerias e alianças, nomeadamente como contraponto da ascensão ou dos interesses iranianos na região e no resto do mundo e, portanto, retira a Israel a influência que possa ter, ou parte da influência que possa ter junto dos Estados Unidos. Os israelitas têm, obviamente, o receio de um cenário de ruptura futura nas relações saudita-israelitas e, portanto, na perspectiva em que, caso essa ruptura aconteça, esses meios possam vir a ser usados contra Israel. Mas a administração Trump responde precisamente em três planos, e eu sublinharia aqui, em primeiro lugar, a questão do argumento central, que é o do reforço da capacidade aérea saudita para conter o Irão e os aliados iranianos, portanto, o Hezbollah, as milícias no Iémen, na Síria, no Iraque, por exemplo. E depois, também há aqui um detalhe técnico que, sendo detalhe, pode vir também a ser importante nas relações entre os dois Estados, que é que mesmo que o acordo avance, fala-se pelo menos sete anos até à entrega dos primeiros aparelhos, o que dará imagem para ajustes, inclusivamente para escrutínio pelo Congresso do cumprimento desta legislação e por futuras administrações. Temos aqui também essas questões que não são de desconsiderar. É efetivamente um negócio excelente para a indústria de defesa americana, encaixa na narrativa de Trump de que está a criar empregos com grandes contratos, mas vende à Arábia Saudita o símbolo da superioridade militar israelita na região e, portanto, há um risco real de erosão da vantagem de Israel e do aumento das tensões, tanto com Tel Aviv como com Teerão. Aqui jogando um bocadinho neste triângulo tão delicado, é um bom negócio ao nível dos dólares, passa a expressão, mas é um negócio muito arriscado em termos de equilíbrio estratégico na região.
Esta visita do príncipe Mohammed bin Salman a Washington ficou também marcada pela visita, no mesmo dia, de Cristiano Ronaldo à Casa Branca. Ronaldo foi o primeiro jogador mediático a jogar na Liga Saudita, num investimento de muitos milhões por parte do governo saudita, que é visto por muitos como sports washing, ou seja, usar o desporto para lavar a imagem internacional do país. De resto, dizer que apesar de não jogar na Arábia Saudita, também Messi recebe milhões para promover o turismo do país. Mas falando de Ronaldo, não é só um dos futebolistas mais famosos do mundo, é também uma das pessoas mais conhecidas do mundo Foi de certa forma usado também na Casa Branca como uma espécie de trunfo saudita.
Sim. A palavra-chave em relação a este assunto é aquela que acabou de mencionar e que acho que é central, que é o sportswashing. A utilização do desporto como uma tentativa de branqueamento, de lavagem da imagem. Há várias organizações, inclusivamente a própria Human Rights Watch, que têm tentado denunciar a utilização do desporto para melhorar uma imagem marcada por violações de direitos humanos e essa é, na minha perspectiva, a linha central. O que nós temos aqui, tanto no caso do Ronaldo como no caso de Messi, são peças centrais de uma política de soft power, ou seja, transformar um regime controverso num cenário de estrelas, num cenário de golos, de selfies, de entretenimento, tentar mostrar uma face da Arábia Saudita que não corresponderá, na verdade, a uma grande parte da sua identidade e da sua perceção do mundo, mesmo do ponto de vista interno, relativamente à liberdade e aos direitos humanos. Também é importante nós não esquecermos que o Cristiano Ronaldo é hoje o rosto global do projeto desportivo da Arábia Saudita, aparece aqui na Casa Branca quase como uma extensão da comitiva de Bin Salman e do ponto de vista de Riad. É um cartão de visita. Em vez de se falar apenas de Khashoggi ou de execuções, fala-se também, não é que estas venham a ser evitadas, porque de resto nós já assistimos alguns repórteres a serem até afastados, as suas questões serem desconsideradas ou até serem insultados por Donald Trump, neste seu estilo agora já bastante assente e consolidado de alguma limitação desta liberdade de imprensa, de questões sobre o assassinato do Khashoggi, que foi efetivamente reconhecido pelos próprios serviços norte-americanos como da autoria da ideia e depois não da execução, naturalmente. Mas fala-se de Ronaldo e do futebol e de um país que quer ser moderno, que quer ser atraente e do ponto de vista do Trump, ter ao lado, no mesmo dia, o príncipe saudita e uma das figuras mais famosas do planeta, ajuda obviamente a transformar uma agenda que é pesada, a venda de armas, os F-35, os acordos nucleares, num grande espetáculo mediático. Este é um caso textbook. Este é um caso muito linear daquilo que nós apresentamos com o conceito do sportswashing, ou seja, usar o brilho do desporto para suavizar a imagem de um regime altamente contestado e altamente violador de princípios que sustentam esta ordem global, que agora está assim tão trémula como a liberdade, a democracia e os direitos humanos.
Obrigado, André Pereira Matos.
Só obrigado eu.
André Pereira Matos é especialista em Relações Internacionais, investigador do Centro de Investigação em Ciência Política da Universidade do Minho e coordenador de Estudos Europeus da Universidade Aberta. A terminar, três coisas a ter em conta esta quarta-feira: o ministro da Educação reúne-se hoje com os sindicatos dos professores. Em causa está o processo negocial para a revisão do Estatuto da Carreira Docente. O presidente ucraniano desloca-se esta quarta-feira à Turquia. Volodymyr Zelensky tem como objetivo tentar reavivar as conversações de paz e retomar as trocas de prisioneiros com a Rússia. E é anunciado hoje o vencedor da edição deste ano do Prémio Leia. É o maior prémio literário para romances inéditos em língua portuguesa, com prémio de €50 mil. Tem a particularidade de, no processo de leitura para a escolha do vencedor, a autoria dos romances ser desconhecida por parte de quem avalia. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.