Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: como vai Israel combater nos túneis de Gaza?
"Ladies and gentlemen, the Bible says that there is a time for peace and a time for war. This is a time for war."
O primeiro-ministro israelita avisa que este é o tempo da guerra. Numa conferência de imprensa, Benjamin Netanyahu cita a Bíblia para avisar que a ofensiva ainda está para vir. Entre os muitos problemas que Israel enfrenta na Faixa de Gaza, está o chamado Metro de Gaza, uma rede de centenas de quilómetros de túneis onde estão reféns, civis e os operacionais do Hamas, a crer pelos relatos, fortemente armados. Que rede é esta e como poderá Israel vencer o labirinto armadilhado? É uma das perguntas para a conversa com o jornalista do Observador, André Filipe Antunes. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de terça-feira, 31 de outubro. Bem-vindo, André.
Olá, Ricardo.
O que é, afinal, o Metro de Gaza?
O Metro de Gaza é o grande reduto militar do Hamas. É uma rede interconectada que se estende durante quilómetros e quilómetros abaixo da região de Gaza e que é usada pelo Hamas para tudo o que tenha a ver com as operações que a organização desenvolve naquela região, que pode ir desde movimentação de tropas dentro de Gaza e até para lá de Gaza, para a fronteira com Israel. Estamos a falar de manter reféns, a questão agora dos reféns que foram feitos nos ataques recentes, armazenar armas, mantimentos, lançar operações contra Israel.
É uma espécie de cidade subterrânea, é isso?
É uma espécie de cidade subterrânea, é uma cidade debaixo da cidade de Gaza.
Mas isso não foi feito agora, nos últimos tempos, não é?
Não. Os túneis remontam aos anos 80. E inicialmente nem tinham este propósito expressamente militar. Numa fase inicial, eles foram criados no seguimento dos acordos de Camp David, que pôs fim à guerra entre Israel e o Egito, e que, como parte desses acordos, envolveram a divisão da cidade de Rafah, em Gaza. A cidade de Rafah ficou dividida e uma parte ficou com o Egito. Isto colocou alguns problemas, nomeadamente o facto de ter dividido muitas famílias que se encontravam um pouco por toda a cidade. E os túneis acabaram por ser uma solução criada para, por um lado, poder juntar as famílias que foram separadas como consequência destes acordos, e por outro, também, para atividades de contrabando, de tudo, de comida, de bens materiais, de tudo um pouco, do Egito para dentro de Gaza.
É nessa altura possível perceber, porque toda a gente sabe que existe esta rede de túneis em Gaza, é possível saber onde estão as entradas, as saídas? Qual o nível de conhecimento que Israel tem desta rede?
Israel, como tu disseste, sabe que existe. Tem ao longo dos anos desenvolvido várias operações no sentido de tentar de alguma forma minimizar, porque o problema não é novo. E de facto, o Hamas tem utilizado esta rede, sobretudo a partir de 2007, quando chegou ao poder, para atacar diretamente Israel, porque os túneis começam em Gaza, mas depois passam a fronteira com Israel. É uma rede de túneis que se estende durante quilómetros e quilómetros. Ninguém sabe bem exatamente a extensão, mas estamos a falar de centenas de quilómetros. O Hamas fala em mais ou menos 500 km.
500 km.
Sim, 500 km. É uma rede muito complexa, é impossível saber todas as entradas e saídas, até porque muitas delas estão escondidas, ou presume-se que estejam escondidas, em infraestruturas civis, em hospitais, em escolas, que são usados também para de alguma forma encobrir.
Ficam por baixo de hospitais e escolas, é isso, por exemplo?
É a informação que os serviços de informações israelitas e internacionais têm e que foram juntos ao longo dos anos. Porque nós estamos a falar de uma cidade debaixo da cidade. Não é um eufemismo, é mesmo uma estrutura muito complexa que envolve não só uma parte militar, mas também uma parte logística muito importante e que tem, além do armamento, roquetes, munições, armazena também mantimentos, comida, tem áreas médicas.
Tem que ter uma dimensão considerável, ou não, a largura dos túneis, como é que é isso?
Os túneis são, na verdade, bastante estreitos. Estamos a falar de uma área mais ou menos de 2 m, 3 m de altura por 1 m de largura.
Não é muito largo.
Não é muito largo. Depois, segundo se sabe, dão para áreas um pouco mais amplas onde estarão os tais centros de comando operacionais e tudo isso. E a profundidade desta estrutura é também bastante considerável. Estamos a falar de 40, 50 metros abaixo do nível do solo.
Isso é muito.
É bastante. Só para se ter uma noção, adaptada à nossa realidade, a estação do metro de Baixa-Chiado tem cerca de 40 metros de profundidade.
E quem entra no Chiado e desce para a plataforma do metro, é mesmo muito fundo. Não vamos falar das escadas rolantes que estão sempre avariadas.
Sim, é um trauma comum a muita gente.
Mas realmente é muito profundo.
Sim, é bastante profundo e essa profundidade também é uma parte considerável do problema que Israel enfrenta e que as forças de Israel enfrentam para lidar com esta questão dos túneis.
E obviamente terá dado muito jeito ao Hamas e em Gaza, porque a Faixa de Gaza está sob um bloqueio israelita desde 2007. Só para se imaginar que esses túneis tenham sido usados para contrabandear tudo o que há de contrabandeável.
Lá está, a infraestrutura de contrabando já é anterior ao próprio Hamas. Aliás, antes da organização ter tomado poder naquela região, era um pilar económico muito importante naquela zona e também por isso é que proliferou da maneira que o fez. E claro, obviamente que agora também é muito utilizada para a entrada de armas no território e muitas delas estão na própria estrutura dos túneis. Não só munições para espingardas.
Mitraadoras.
Mitraadoras, mas também estamos a falar de artilharia pesada, de rockets, que muitos deles são lançados até a partir dos próprios túneis.
Então tem zonas para lançamento desses rockets que temos visto cair em Israel.
Exatamente.
Já voltamos à conversa com o jornalista do Observador, André Filipe Antunes. Que armas e táticas têm, afinal, as Forças Armadas israelitas ao seu dispor para tentar entrar e destruir os túneis de Gaza? Estamos de regresso à conversa com o jornalista do Observador, André Filipe Antunes. André, as informações que estão disponíveis indicam que os reféns feitos nos ataques de 7 de outubro estão essencialmente nos túneis de Gaza. Que informações são essas e de quantas pessoas estamos afinal a falar?
Nós estamos a falar de cerca de 200 pessoas, 200 reféns que foram feitos nos ataques de 7 de outubro. Este domingo, o porta-voz da IDF, o almirante Daniel Hagari, falou em 239 raptados. Convém falar em raptados, porque nem todos eles estão nos túneis. Há uma distinção que tem que ser feita, porque pensa-se que muitos deles foram misturados na população de Gaza e estão, de alguma forma, escondidos entre a população, até para dificultar a tarefa das forças israelitas. De tal modo que, se nos lembrarmos, na última semana, o Hamas já veio dizer que desse número, desses 200, 230, cerca de 50 já terão morrido nos bombardeamentos. Isto não foi confirmado.
Por estarem no local que foi atingido, é isso?
Sim, por estarem presumivelmente à superfície e terem sido apanhados no meio dos bombardeamentos de Israel.
Israel é um país famoso pelos serviços secretos, que aqui terão falhado redondamente ao permitir os ataques de 7 de outubro. Essa ainda vai ser outra história. Israel também é famoso pela forma como se defende, até como ataca. E na sexta-feira, quando as Forças Armadas israelitas anunciaram que estavam a expandir as ações em Gaza, e aqui expandir é a palavra que foi usada por Israel, pelo porta-voz das Forças Armadas israelitas, as tais IDF, que indicava que um dos alvos dessa noite eram precisamente os túneis. Ora, como é que se atacam estes túneis, André, que já explicaste que estão alguns a 40 metros de profundidade ou mais.
É bastante complicado.
São unidades especiais. Em túneis com um metro de largura, não cabem dois soldados lado a lado, não é?
Não.
Como é que isto se faz?
Convém fazer aqui um parêntese histórico. Israel não é a primeira vez que invade Gaza. Há 10 anos, assistimos também a uma invasão de Gaza e no decurso dessa ação em Gaza, foi talvez a altura em que as forças israelitas, pela primeira vez, confrontaram a gravidade do problema, a dimensão do problema, mais do que a gravidade, a dimensão do problema dos túneis. De lá para cá, portanto, desde 2014, têm tentado desenvolver algumas estratégias para combater Esta ameaça. A principal iniciativa das forças israelitas passou pela criação da chamada Unidade Yahalom. O que é esta unidade? É uma unidade integrada no corpo de engenharia e que desde 2014 tem vindo a ser treinada e especialmente desenvolvida para combater os túneis. Ela está dividida em três companhias. Temos a companhia Yael, que é uma força de reconhecimento e de engenharia, propriamente. A companhia Sayfan, que é especializada em armamento não convencional.
Sim, ainda temos que falar de armas.
Certo. E a Samur, que é o ramo desta unidade de forças especiais que combate dentro dos túneis.
Portanto, esta Unidade Yahalom está subdividida em três, cada uma delas com a sua especialidade, e imagino que os treinos sejam intensos nesta altura para tentar entrar nos túneis.
Os treinos são bastante intensos, mas já o vêm sendo desde há muito tempo. Não é uma unidade que tenha sido criada especificamente agora, porque agora é que se reconheceu esta ameaça.
Portanto, já tem experiência.
Tem experiência no combate a túneis, porque a ameaça dos túneis não foi agora descoberta.
Tu explicaste que foram criados nos anos 80.
Os túneis foram criados nos anos 80 e há quase 20 anos que são utilizados para ataques dentro de Israel e não foi agora que se deu conta que uma unidade deste gênero era necessária.
Mas há pouco falaste nisto, André. Desde logo, há aqui um grande problema: os reféns. Como é que um militar israelita distingue aquilo que é um civil palestiniano, que esteja abrigado num destes túneis, um refém ou um operacional do Hamas?
É muito difícil, é muito complicado. E tanto assim é que, como temos tido essas indicações, há indícios de que possam já ter até morrido reféns em ataques israelitas. É um grande problema logístico que Israel enfrenta nesta incursão, nesta expansão, para usar os termos de Israel. Há a preocupação da parte de Israel de o Hamas usar os reféns como escudos humanos, porque é esta a questão. O próprio processo de localizar os reféns na rede de túneis é complicado, porque a tecnologia convencional de reconhecimento, sondas, esse tipo de meios, têm dificuldades em funcionar com um sistema subterrâneo que, como dissemos, está a 50 metros, pelo menos, abaixo do solo.
Ou seja, não é possível com uma maquineta qualquer, ao nível do solo, num cenário de conflito, andar à procura onde é que está o túnel.
Não estamos a falar de um detetor de metais. É muito complicado. Estas falhas de equipamento não acabam à superfície, continuam também dentro da própria rede de túneis. Portanto, desde sistemas de comunicação e de navegação do espaço que não funcionam tão bem, porque estão impedidos.
Claro, é muito fundo.
Exato.
Portanto, as comunicações não devem ser fáceis.
Exato. Os próprios sistemas de visão noturna, que nós temos aquela imagem.
Aquela imagem verde.
Exato, aquela coisa dos filmes de espionagem, precisam de alguma luz ambiente para funcionarem.
Portanto, não funcionam lá embaixo.
A sua eficácia é muito limitada, porque estamos a falar de um sítio onde não há luz ambiente.
Então, que tipo de armamento é que pode afinal ser usado? Imagino que num túnel que tenha uma parte comprida, com alguns metros, que não tenha curvas, por exemplo, e mesmo com curvas, eu não sei o suficiente sobre o assunto para estar aqui a atirar para fora de pé, mas se uma granada rebentar, rebenta para os dois lados.
Sim, armamento convencional não funciona de forma muito eficaz debaixo dos túneis. Deste o exemplo das granadas, mas mesmo, por exemplo, o próprio ato de disparar uma arma, num meio tão isolado, é muito arriscado, porque o som propaga-se e pode até afetar os próprios soldados e revelar a posição. Portanto, é um problema com o qual Israel se tem confrontado. É também por isto que, ao mesmo tempo que se vão desenvolvendo as tais unidades de forças especiais para combater dentro dos túneis, também tem havido um investimento muito forte em armamento, em novos sistemas de armamento, para poder neutralizar ou minimizar esta questão. Posso dar alguns exemplos. Um dos sistemas mais experimentais que Israel está neste momento a utilizar são as chamadas sponge bombs.
Bombas esponja?
Sim, bomba aqui é um bocado enganador, porque não é um explosivo, mas é uma espécie de arma química que quando é detonada cria uma espuma. É uma espuma que se expande muito rapidamente e endurece. E o efeito que isto tem, Israel tem usado isto sobretudo nas entradas para os túneis.
Cria uma parede?
Cria uma parede, exatamente. Cria uma parede que sela a entrada para a rede de túneis, o que terá o efeito de forçar os combatentes do Hamas a sair para não ficarem lá presos.
E há outro tipo de armamento que também seja usado?
Sim, estamos a falar de armas muito experimentais, não convencionais. Algumas até parecem saídas de um filme do James Bond. Israel tem recorrido muito à robótica e a armas-robôs para poder combater a rede subterrânea de túneis, o metrô. Alguns destes sistemas vão desde robôs de quatro pernas, robôs de pequena dimensão que se podem infiltrar nestes espaços mais curtos e tentar, de alguma forma, neutralizar.
Com câmeras?
Com câmeras, com armas automáticas, até com explosivos. E isto vai até a coisas que são verdadeiramente exóticas. Estamos a falar, por exemplo, há relatos de que o Pentágono financiou o desenvolvimento de cobras-robô e minhocas-robô.
Minhocas-robô?
Minhocas-robô, sim, que são coisas microscópicas cujo propósito é comer a terra, infiltrarem-se no subsolo e comer a terra para chegar à rede de túneis. As tais cobras-robô que têm sensores, que podem também entrar pelo subsolo e colocar sensores nos túneis. Portanto, é uma operação muito avançada do ponto de vista tecnológico.
E isso também explica, eventualmente, a demora na reação e na tal grande ofensiva israelita que ainda não aconteceu, porque, obviamente, se os reféns estão nos túneis e há todo este cuidado e há essa capacidade de defesa, torna tudo isto muito mais difícil. E por tudo isso que estiveste a descrever, André, e a explicar aqui nesta história do dia, uma batalha deste tipo, e não sei se podemos aqui traçar esse paralelo com os túneis criados pelos Vietcongue na Guerra do Vietname, isto poderá ser uma batalha terrível.
Sim, é uma operação muito delicada, muito complexa. Falaste nos Vietcongue e no tipo de túneis que foram usados durante a Guerra do Vietname. Importa referir que estamos a falar de uma infraestrutura muito mais avançada, muito mais complexa. Não é um buraco na terra, é importante que as pessoas percebam isso. É uma rede altamente bem apetrechada, bem fortificada e que dificulta muito a tarefa às forças de Israel. Basta pensarmos até naquilo que disseste há pouco. Estamos a falar de um sítio onde não podem estar dois militares ao mesmo tempo, por uma questão de falta de espaço. Num local destes, se se desencadeia uma ação de combate, é muito complicado garantir que isso acontece sem pôr em causa a segurança dos reféns que estão lá dentro e que muitos deles nem sabemos ainda exatamente onde é que estão.
Obrigado, André.
Obrigado eu, Ricardo.
André Filipe Antunes é jornalista do Observador e assina um texto, um especial sobre o chamado Metro de Gaza, onde podem estar cerca de 200 reféns israelitas. Esta foi a História do Dia. Os sons que ouvimos neste episódio foram recolhidos das agências internacionais. E se gostou deste episódio da História do Dia, por que não partilhá-lo com um amigo ou um familiar? Para nós, essa partilha é mesmo muito importante, porque nada bate o passa-palavra. E já agora, pode classificar este podcast, a História do Dia, entre uma a cinco estrelas. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até quinta. Esta quarta-feira é feriado e não há História do Dia.