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Esta é a história do dia, da Rádio Observador. O que se passa em Pokrovsk, na Ucrânia? Volodymyr Zelensky visitou esta semana um posto de comando em Dobropillia, a cerca de 20 km de Pokrovsk. Atualmente, em Pokrovsk está um dos epicentros do conflito entre a Ucrânia e a Rússia. Uma batalha em terreno urbano, numa cidade com importância estratégica para os dois lados. Nesta visita ao posto de comando de Dobropillia, o presidente ucraniano agradeceu o esforço dos militares e deixou palavras de motivação para os combatentes. Sobre Pokrovsk, falou numa batalha importante, bem para lá da luta por território. Zelensky falou da importância da pressão psicológica da Rússia sobre o Estado ucraniano e sobre todos os aliados. O presidente ucraniano aproveitou para condecorar alguns soldados e ouviu preocupações quanto à estabilização da linha de defesa e sobre a capacidade de interação com as unidades vizinhas de Pokrovsk. A Rússia continua a avançar por esta cidade, que já lida com uma batalha há mais de um ano. Mas o que muda nesta guerra com esta batalha em Pokrovsk? E por que razão os russos têm divulgado tanto os avanços nesta cidade? Vou conversar com o coronel José do Carmo. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia de sexta-feira, 7 de novembro. Bem-vindo, coronel.

Olá, Miguel.

Pokrovsk. Vamos primeiro perceber do que estamos aqui a falar. Que cidade é esta?

Pokrovsk é uma cidade ucraniana que teria cerca de 60 mil habitantes antes da guerra e que fica a cerca de 60 km a oeste de Donetsk, a cidade de Donetsk. É uma cidade que já não é tanto, mas era um importante eixo de comunicações, um hub logístico, nomeadamente quando as tropas russas progrediam de Donetsk para Avdiivka. Neste momento já não é assim tanto em termos logísticos, porque a principal linha de defesa ucraniana que passa por ali e depois mais para norte, para Kramatorsk e por aí acima, já não é por ali que segue a logística. Há logísticas transversais que vão diretamente a Kramatorsk, não são estradas tão importantes, mas já não tem a importância logística que tinha quando estava em causa o avanço de Donetsk para oeste.

Muito bem. Pode não ter essa importância logística, portanto, rodoviária, ferroviária, de muitas ligações que fazia, mas continua a ser uma cidade importante geograficamente, tem a sua importância estratégica. Que importância é esta e a nível estratégico, por que razão é importante ora para a Rússia, ora para a Ucrânia?

É importante porque faz parte da última linha de defesa da região de Donetsk. Neste momento, a Rússia supostamente já a declarou como sendo uma província russa, o Donbass de Donetsk. E neste momento há uma linha de defesa que está na parte noroeste de Donetsk, que passa por Pokrovsk, que é a parte mais sul, digamos assim, e depois segue para Kramatorsk e Slavyansk lá acima. No fundo, o que está a deter o avanço russo é esta linha muito bem preparada, porque tem sido preparada ao longo dos anos, está muito bem instalada e vê-se pela maneira como os russos têm tido dificuldade em progredir. Lembramos que foi em julho do ano passado que as tropas russas chegaram a 10 km de Pokrovsk. Na altura, já havia analistas a dizer que Pokrovsk cairia na próxima semana. E estamos aqui passados 16, 17 meses, e estamos aqui nesta situação. Está muito bem preparada. Os russos estão a perder muita gente. Aliás, eles queriam que qualquer cessar-fogo passasse pela cedência destas terras antes de haver mesmo um cessar-fogo, e isso não tem acontecido, estão a ter muita atrição ali.

Temos uma cidade muito importante para a Rússia para poder progredir pelo Donbass, importante para a Ucrânia para conter esses avanços da Rússia. Este conflito, como referia, começou nesta cidade em meados de 2024, dura até os dias de hoje. O que aconteceu nestes meses anteriores para se chegar agora a este ponto de luta praticamente rua a rua?

A Rússia tentou sempre entrar com menos forças. Neste momento tem ali cerca de oito pra um em termos de forças de infantaria. A Rússia tentou sempre. Agora, instalou-se neste novo conceito de guerra que existe e que se instalou na Ucrânia, que é a guerra dos drones. As forças ucranianas, os russos também têm, as forças ucranianas têm forças instaladas em linhas de defesa e numa faixa de vários quilómetros pra frente, 10, 15, é uma terra de ninguém, é uma zona onde tudo o que se mexe pode ser visto e pode ser abatido. E, portanto, as infiltrações russas, as tentativas clássicas russas com forças mecanizadas já cessaram há muito tempo. A Rússia perdeu no combate anterior em Avdiivka, perdeu a sua ponta de lança. Qualquer veículo que se mexa naquela zona é atingido. A Rússia não conseguiu até agora concentrar forças para isso. Optou, entretanto, por uma tática que é infiltrar pequenos grupos. Mudou completamente o conceito e infiltra pequenos grupos de cinco, seis, sete homens, atira-os pra frente, sacrifica-os. Entre quatro e cinco, chegam ao fim um ou dois. E são esses homens que entraram em Pokrovsk Já nos fins de outubro, estamos a falar já há duas semanas, entraram alguns homens em Pokrovsk, cerca de 200. E entraram à civil. Ou seja, os russos não estão a respeitar as leis da guerra, como já sabíamos, e entraram à civil. Tiveram ali um aproveitamento, não foram abatidos quando se estavam a aproximar, eles caminharam cerca de 10 km por campos abertos e entraram. Entraram e instalaram-se. E neste momento estão lá dentro. Estão lá a interferir com a rotação, com a logística e estão a tentar fazer-se fortes para que se juntem outras forças. Neste momento estão a meio de Pokrovsk, ali é uma estrada, que é a estrada 50, essa estrada, na parte sul, já está praticamente controlada pelas forças russas. A norte da cidade, não. Há uma outra infiltração, mas ainda está um bocado longe de estar.

Nós vamos continuar esta conversa com o coronel José do Carmo. Fazemos agora uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com o coronel José do Carmo. Coronel, já falámos desta estratégia russa, da forma como tem avançado. Vamos falar um bocadinho do que têm feito os ucranianos. O que é que têm feito para resistir a esta ofensiva e há, de facto, condições para resistir esse poderio russo?

Estamos a falar em Pokrovsk.

Sim, Pokrovsk.

Sim, Pokrovsk. Neste momento, os ucranianos estão com uma desvantagem em termos de homens de oito por um. Temos ali uma grande força, mas estão bem instalados, têm boas defesas, têm boas posições e continuam a ter a sua capacidade de drones. Também estão em desvantagem nesta zona. A Rússia resolveu fazer o esforço todo nesta zona. Está a empinhar ali, estão ali elementos de três exércitos diferentes nesta zona. Há uma obsessão da liderança política em Moscovo de conquistar Pokrovsk e o mais rapidamente possível. No fundo, é para ele ter uma grande vitória, que já não tem há muito tempo, uma grande cidade. Ou uma grande cidade, uma cidade média, mas Pokrovsk neste momento tornou-se uma espécie de Bakhmut. Para os russos é simbólico, querem conquistar aquilo. Os ucranianos têm uma defesa elástica dentro da malha urbana, claro. E no fundo o que eles estão a fazer é a reduzir equipas infiltradas que lá estão, reduzem-nas com drones e com bombas planadoras, e depois corpo a corpo, se chegar a esse ponto. E tentar abater as concentrações russas quando tropas começam a concentrar para reforçar o ataque, se forem vistas, são abatidas. Tem sido isto assim. E há um risco que fez do cerco, o cerco não está fechado, como diz a propaganda russa, não está fechado. Há 9 km entre Pokrovsk e Myrnohrad. 9 km ainda é uma grande distância. Será o momento de retirar quando, e se, essa distância se reduzir uns 3 ou 2 km, aí sim, aí será o tempo de retirar. Enfim, e até lá à Ucrânia também lhe interessa degradar, porque a Rússia está a perder muitos homens nisto, está a tirá-los pra frente, está a perder muitos homens, está a perder muito material e há aqui uma guerra de atrição na qual a Rússia pretende a todo o custo ganhar aquilo. Está a trocar metros de terreno por mortos, basicamente é isto. Enquanto a Ucrânia está a trocar terreno por homens. A Ucrânia irá retirar, obviamente, se for chegar a esse ponto, irá retirar para linhas mais atrás. É o que irá fazer, mas com tempo.

Coronel, falemos dessa comunicação em torno desta batalha. Já estava um pouco a detalhar sobre isto. A Rússia tem promovido imenso estas incursões em Pokrovsk, tem apontado para uma conquista importante, já falava disso também. Zelensky tem apontado para uma capacidade de resistência e de demonstração dessa capacidade da Ucrânia resistir a qualquer que seja a ofensiva russa. Qual é que é a estratégia de propaganda de cada um dos lados? Por que razão é que é importante, tanto para a Ucrânia como para a Rússia, ter esta conquista em Pokrovsk?

Para a Rússia, Pokrovsk é importante porque é simbólico e Putin quer conquistar.

Da parte da estratégia já falámos, eu estou a falar aqui da parte de comunicação.

Essa narrativa de que estamos a ganhar. Isto é como uma luta de rua. Nós queremos fazer ao adversário que não tem a capacidade de se defender, que já está derrotado e, portanto, é melhor não se defender, é melhor desistir. No caso da Rússia, isto tem sido seguido não só ali, mas em toda a frente, em toda a guerra, no fundo é dar a entender aos países que apoiam a Ucrânia e à própria liderança ucraniana e aos próprios militares ucranianos que são invencíveis e, portanto, é melhor nem sequer tentarem, é melhor desistirem. A guerra está perdida e faz parte da propaganda. Ou seja, é fazer crer o adversário que não tem hipótese. É como uma luta quando um indivíduo berra e mostra que é muito forte e o outro desiste de combater. Isto tem os efeitos que tem. A Ucrânia também tenta inverter essa pressão psicológica, digamos assim, porque também interessa manter a moral das suas pessoas, dos seus civis, dos seus militares. E esta guerra da propaganda faz parte de todas as guerras. É a ação psicológica, no fundo, é assustar o adversário e fazer-nos fortes para o adversário se assustar conosco. Basicamente é isso.

Se a Ucrânia perder esta cidade, fica mais perto de perder Donetsk e com isso o Donbass por completo?

Fica mais perto porque perde um dos últimos redutos que tem. Agora, o perder esta batalha não tem o valor estratégico. Eu diria perder. No momento em que a Ucrânia perceber que já não consegue manter-se na zona, aí o valor operacional é mais importante. E o que irá fazer é retirar de forma ordenada para linhas mais atrás, que já estão perfeitamente identificadas, são linhas já preparadas Portanto, o que irá fazer é retirar-se mais atrás e os homens irão viver para combater outro dia. Esse valor operacional de retirada, neste caso, quando ela se tornar necessária, é superior ao prestígio simbólico da praça, que neste momento é mais simbólico para a Rússia, que quer conquistar a todo o custo. É mais ou menos como Bakhmut. Bakhmut parecia que ia ser a chave para todo o Donbass. Na verdade, os ucranianos ainda estão ali a uns quilómetros, em Chasiv Yar, e lá se mantêm. A Rússia culminou ali o esforço naquele ano. Pokrovsk será para a Rússia o culminar do seu esforço em 2025. Portanto, faz todo sentido que eles queiram conquistar aquilo, mas estão a meses, ou provavelmente a anos, se tudo se mantiver como está, de conquistar depois o que falta. Não é uma coisa que está para amanhã. Mesmo dentro de Pokrovsk, não é já para amanhã, segundo as avaliações mais realistas, não será para amanhã, a não ser que haja um colapso. Não será para amanhã, nem para daqui a uma semana, nem para daqui a duas. Portanto, vai demorar mais tempo.

Obrigado, coronel.

Obrigado.

O coronel José do Carmo é colunista do Observador. Prestou serviço nos Comandos e também nos Paraquedistas. Antes de fechar esta história do dia, deixo algumas notas para esta sexta-feira, mas também para o fim de semana. No Parlamento, hoje, os partidos apresentam ao longo do dia propostas de alteração ao Orçamento do Estado para 2026. Terminou hoje o prazo para os partidos apresentarem essas propostas de alteração. Acontece em plena discussão do documento na especialidade e num dia em que Joaquim Miranda Sarmento regressa à Assembleia da República para uma audição, juntamente com os secretários de Estado do Ministério das Finanças. Também no Parlamento, na Sala do Senado, acontece hoje a reunião de trabalho entre diversos agentes do sistema de justiça e os partidos políticos representados no Parlamento. É uma reunião promovida pelo presidente da Assembleia da República, que conta com a presença da Ministra da Justiça e que serve como um abrir de caminho para uma reforma neste setor. No desporto, fim de semana decisivo para o Sport Lisboa e Benfica. Este sábado há nova votação. É a segunda volta das eleições para a direção e para os restantes órgãos sociais do clube encarnado e as urnas abrem às 08h30, encerram às 22h00. É possível votar em 108 locais entre o território continental, ilhas e também no estrangeiro. No Observador, no jornal e na rádio, vamos acompanhar ao detalhe o dia de eleições, a contagem dos votos e a divulgação do resultado final. A fechar, uma sugestão. No Porto, realiza-se esta sexta-feira, mas também no sábado, o espetáculo José Afonso ao Vivo nos Coliseus 1983. Trata-se de uma reinvenção contemporânea do concerto original de 29 de janeiro de 1983, no Coliseu dos Recreios. É uma nova criação do Teatro Experimental do Porto e trata-se de um espetáculo que presta uma homenagem que reúne música, teatro, performance e poesia. É às 19h30 no grande auditório do Rivoli. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do João Tição, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Bom fim de semana.