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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Que surpresa é esta chamada DeepSeek, vinda da China? "Let's talk about DeepSeek, because it is mind-blowing and it is shaking this entire industry to its core." Foi lançado sem grande anúncio, mas chegou com um estrondo. Em poucos dias, o R1, uma nova ferramenta de inteligência artificial da pequena empresa chinesa DeepSeek, tornou-se a aplicação mais descarregada nos telemóveis da Apple e fez cair as ações, por exemplo, da gigantesca Nvidia. Que ferramenta é esta que parece precisar de muito menos para funcionar tão bem quanto outras, como o ChatGPT? Como foi construída, apesar das sanções que limitam a expansão tecnológica da China? E o que explica esta espécie de estado de choque em que deixou o mercado da inteligência artificial? Já agora, como é que o DeepSeek R1 responde a perguntas sobre Taiwan ou sobre a própria China? Vou conversar com a Inês Capucho, jornalista de tecnologia do Observador. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta é a história do dia, terça-feira, 28 de janeiro. Bem-vinda, Inês.

Olá, Sara.

Inês, o que é exatamente o DeepSeek R1?

O DeepSeek R1 é um modelo de inteligência artificial que foi construído pela startup chinesa DeepSeek e tem capacidades de raciocínio, ou seja, é bom na resolução de problemas matemáticos, por exemplo, e é capaz de competir com os modelos de gigantes tecnológicas que nós mais conhecemos, por exemplo, o ChatGPT da OpenAI. Ou seja, ao longo da última semana, desde que foi lançado, tem impressionado os analistas e os investidores desta área da inteligência artificial. Por exemplo, o Mark Anderson, que é um investidor norte-americano que é aliado de Donald Trump, o novo presidente norte-americano, disse que o R1 é um dos mais impressionantes avanços que já viu na indústria de inteligência artificial. E chamou inclusive o lançamento deste novo modelo, um momento Sputnik, referindo-se ao lançamento por parte da antiga União Soviética de um satélite que começa a corrida espacial no final dos anos 1950.

Mas afinal, por que ele é diferente dos outros?

Existem várias razões. Primeiro, é uma startup, ou seja, é uma empresa pequena que está na China e não é uma gigante tecnológica que está nos Estados Unidos. Depois, é construída com semicondutores, que são os chips, o que designamos de chips, menos avançados, ou seja, não são de última geração, não têm tecnologia de ponta. E, por outro lado, são mais baratos. Ou seja, construir o R1, a DeepSeek ainda não disse quanto é que custou, mas outros modelos desta empresa foram construídos com menos dinheiro do que o que é utilizado pelas gigantes tecnológicas.

Aparentemente, muito menos dinheiro. As gigantes tecnológicas falam na ordem dos $ 1000 milhões para construir este tipo de tecnologia e aqui terão sido uns $ 5 milhões, $ 6 milhões?

Certo. O dinheiro que foi alocado para o R1 não é conhecido, mas em dezembro a DeepSeek lançou um outro modelo, chamado V3, que custou $ 5,6 milhões. A título de exemplo, é 10 vezes menos do que o que a Meta gastou para construir a sua tecnologia de inteligência artificial mais recente.

Mas isso significa que, pelo valor que custou a fazer, a inventar, a montar, pelo fato de usar chips menos avançados, que não são tecnologia de ponta. Isto significa que este modelo de inteligência artificial da DeepSeek faz mais com menos?

Certo, faz mais com menos e põe em causa a necessidade de serem alocadas grandes quantidades de dinheiro para construir uma inteligência artificial poderosa, chamemos lhe assim, que era o que as gigantes tecnológicas diziam até agora, que para construir uma boa inteligência artificial ou uma inteligência artificial mais desenvolvida, era necessário muito dinheiro. E também a necessidade de serem utilizados chips mais avançados, nomeadamente inteligência artificial, um segmento da indústria que tem a norte-americana NVIDIA na vanguarda.

Os criadores do R1 quiseram fazê-lo assim, mais barato, menos, enfim, isto estará errado o que eu vou dizer, mas menos tecnológico, no sentido de menos avançado tecnologicamente ou usando ferramentas menos avançadas, ou foram forçados a isso?

Podemos dizer que foram forçados a isso, uma vez que tinham limitações, tinham sanções relacionadas com a indústria dos semicondutores, porque os Estados Unidos, ainda sob a liderança de Joe Biden, impuseram restrições à exportação de semicondutores avançados para a China, ou seja, limitaram o acesso da China a chips da NVIDIA. Portanto, os engenheiros chineses da DeepSeek conseguiram contornar as limitações que revelaram não ser eficazes para travar o progresso chinês, porque os Estados Unidos queriam impedir a China de criar uma indústria de semicondutores mais avançada, porque acreditava que podiam ser utilizados chips de inteligência artificial na indústria militar. E agora isso não revela ter sido possível, ou seja, as sanções não estão a ser eficazes.

Foi uma espécie de: a necessidade aguçou o engenho e, portanto, construíram uma ferramenta mais simples com o que tinham.

Certo, construíram uma ferramenta mais simples com o que tinham e, ao mesmo tempo, ao estar agora a fazer sucesso, é mais um capítulo na guerra comercial China-Estados Unidos e até pode ser expectável que os Estados Unidos anunciem novas limitações, mais uma vez para tentar que a China não desenvolva uma indústria de inteligência artificial.

Isso significa também, Inês, que com o R1 a DeepSeek mostrou Que tecnologia de ponta, como os chips da Nvidia, por exemplo, a que a China não tem acesso, ou tem acesso a uma versão mais limitada, menos avançada. Esse tipo de tecnologia não é assim tão insubstituível e indispensável?

É isso mesmo, Sara. Ou seja, foram utilizados chips da Nvidia, mas os menos avançados, uns que a startup chinesa já tinha comprado em 2021 e que tinha armazenado. Portanto, agora a China mostrou aos Estados Unidos que consegue, sim, ter um papel na indústria de inteligência artificial e que para isso não precisa nem de muito dinheiro, nem dos chips mais avançados.

Nós não estamos propriamente a falar de uma grande tecnológica chinesa. No início, explicavas isso mesmo, é uma pequena startup. Quem é que está por trás da DeepSeek e como é que tudo isto foi possível?

É uma startup chinesa que foi criada em 2023 por um empresário chamado Liang Wenfeng. Não sei se é assim que se diz, mas vamos assumir.

Há de ser, Inês.

Que atualmente tem 40 anos e que é também um líder de um fundo de capital chamado High Flyer, que foi criado em 2015. A startup é financiada em exclusivo por este fundo, de cerca de $8 milhões, e não depende de financiamento externo para conseguir operar. Quando começou a comprar os processadores da Nvidia para começar a DeepSeek, como estávamos agora a falar, a indústria duvidou do empresário. Um parceiro de negócios até disse ao Financial Times que não o levaram a sério, não acreditava que fosse possível. E agora na China começa a destacar-se. Recentemente, foi o único líder da indústria de inteligência artificial que esteve numa reunião de empresários com o primeiro-ministro chinês, Li Qiang. E a equipa da DeepSeek, no geral, é muito jovem, porque é composta principalmente por jovens licenciados das melhores universidades da China. Ou seja, a DeepSeek emprega, sobretudo, talento local.

Já voltamos à conversa com a jornalista do Observador, Inês Capucho. Vamos tentar perceber se a concorrência tem mesmo razões para ficar preocupada. Estamos de regresso à conversa com a jornalista do Observador, Inês Capucho. Inês, este modelo da DeepSeek tem outra particularidade: foi lançado em open source, com código aberto. Ajuda-nos lá aqui, Inês, a perceber o que isto quer dizer.

Quer isto dizer que pode ser escrutinado por especialistas, colocando ainda de uma forma mais simples, a comunidade de programadores pode inspecionar e até melhorar este software.

Isso significa que pode ser continuamente melhorado de forma colaborativa, até por pessoas que não sejam da DeepSeek?

É isso mesmo, o código do modelo pode ser melhorado ao longo do tempo pela comunidade.

Por que outros modelos, como o mais conhecido de todos, o ChatGPT, não fazem o mesmo?

É curioso, porque a OpenAI nasce primeiro com uma abordagem de que ia produzir uma tecnologia sempre em código aberto, para que os especialistas pudessem trabalhar sobre ela. Aliás, o open, do nome OpenAI, vem mesmo daí, de abertura, de ser aberto. E ainda chegou a divulgar o código de um dos seus modelos, o GPT-2, que foi lançado em 2019. Mas depois, com o passar dos anos e, sobretudo, por preocupações de segurança, afastou-se desse modelo e então deixou de divulgar o código dos seus GPT, chamemos assim. Portanto, a OpenAI, segundo o CEO, Sam Altman, afastou-se porque quis oferecer uma forma mais fácil de atingir o limiar de segurança, mas admitiu que podem voltar ao código aberto no futuro. No fundo, estavam preocupados com aplicações maliciosas da tecnologia, que ao ser utilizada por todos, não sabemos bem o que cada um pode fazer ao código.

Mas em código aberto significa que também sabemos todos o que lá está, é uma espécie de tecnologia sem segredos, mas imagino eu, onde nem tudo é permitido, porque a censura existe na China, existe também no DeepSeek.

Sim, o DeepSeek tem segredos e não responde a determinadas perguntas. Por exemplo, questões sobre a possibilidade de a China invadir Taiwan ou acerca dos protestos de 1989 na Praça da Paz Celestial, quando o governo reprimiu manifestações pacíficas através da força, são quase tabu, portanto, o modelo não responde.

Simplesmente não responde, foge.

Foge. Diz que continuemos a nossa conversa ou então diz que não tem capacidade para responder àquelas questões. E o mesmo se aplica a líderes mundiais. Por exemplo, se perguntarmos ao modelo sobre o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, vai responder. Mas se for sobre o presidente chinês, Xi Jinping, já não responde, quase como se não quisesse divulgar nenhuma resposta que pudesse ir contra os interesses do regime chinês.

Inês, já nos explicaste nesta história do dia o que é este R1, por que é diferente, como nasceu de uma limitação de acesso à tecnologia de ponta. Mas por que esta espécie de estado de choque em que parece ter deixado o mercado? Eu hoje, para preparar esta história do dia, estive a ver aberturas de jornais de economia, dos mercados e das bolsas, e parece que entrou toda a gente em estado de choque com este acontecimento. Por que isto?

Minutos antes de entrarmos para gravar a nossa conversa, recebi aqui uma notificação da Forbes a dizer que a Nvidia tem hoje a maior queda da história em bolsa por causa da DeepSeek. Acho que existem vários fatores que justificam, tanto o R1 como outros modelos que foram lançados ao longo do último ano e meio pela DeepSeek, desconstroem mitos que estavam a ser construídos em redor da inteligência artificial. Que era preciso muito dinheiro para desenvolver inteligência artificial, que eram precisos semicondutores mais avançados e também que os Estados Unidos eram os líderes incontestáveis. Ou seja, que só as gigantes tecnológicas sediadas nos Estados Unidos é que conseguiam liderar neste setor porque tinham o dinheiro e os recursos para o fazer. E agora a DeepSeek vem desconstruir tudo isso. Vem mostrar que não são só os norte-americanos que conseguem desenvolver inteligência artificial de ponta e modelos avançados, e também que os esforços dos Estados Unidos para impedir o desenvolvimento por parte da China de uma indústria de inteligência artificial podem não estar a resultar, uma vez que se nota aqui que as sanções não estão a ser eficazes.

E também não deve ter deixado propriamente muito felizes as pessoas que investiram muito dinheiro para a inteligência artificial que está a ser desenvolvida e que hão de estar a questionar hoje se era preciso pôr tanto dinheiro para esses projetos que estão a ocorrer.

Incluindo Donald Trump, que ainda na semana passada anunciou um projeto de inteligência artificial que alocava milhares de milhões de dólares e agora vem perceber que afinal, se calhar, não é preciso tanto dinheiro para desenvolver inteligência artificial.

Obrigada, Inês.

Obrigada, Sara.

Inês Capucho é jornalista de tecnologia do Observador. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Até amanhã.