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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Paulo, um dia a casa vem abaixo?
Ora bem, isso é dos livros e da história. Quando os poderes públicos não resolvem problemas que são estruturais e que têm elevado impacto social e económico, é provável que mais tarde ou mais cedo esses próprios problemas se virem contra os mesmos poderes públicos. E a crise da habitação é talvez o maior problema económico e social que temos há décadas no país, pelo impacto devastador que tem nas vidas de muitas pessoas. Daqui até protestos cada vez mais ruidosos, será sempre um passo. E de ruidosos, já agora, os protestos também podem ultrapassar a linha da legalidade e da ordem pública. É isso que vamos vendo em vários países europeus. O que se passou no Porto é apenas um reflexo disso. Agora vamos andar a discutir se o problema está na ação policial ou nas provocações dos manifestantes, é o costume. Apenas é preciso um bom pretexto para estas coisas acontecerem. E a falta de casas é precisamente um ótimo pretexto. Um dia a casa vem abaixo, para já foram as tendas que vieram abaixo.
Está bem, foram mesmo as tendas. E Paulo, até quando é que vai haver resistências à privatização total da TAP?
Essa dúvida já devia ter sido afastada pelo passado, pelo passado da gestão da empresa. Ter o Estado a mandar na empresa e por vezes a geri-la por WhatsApp a partir dos gabinetes ministeriais não é mesmo boa ideia. Andar a comprar e a vender consecutivamente a empresa também não resolve nada, já percebemos. E nesta matéria, é sobretudo o PS que anda ao sabor do vento e das suas lideranças. Nos anos 90, por exemplo, um governo socialista quis vender a TAP a uma companhia estrangeira, na altura a Swissair, depois quis nacionalizar, depois quis privatizar parcialmente, depois admitiu vender totalmente e agora parece que volta a querer que o Estado mantenha uma posição muito relevante. Isto ainda pode andar mal, quando podia acabar bem até para o PS. Os socialistas deviam aproveitar esta boia de ter uma ótima proposta em cima da mesa e até podiam depois dizer que fizeram bem quando decidiram meter 3,2 mil milhões dos contribuintes na empresa. Pelo menos que vão aprendendo com os erros do passado.
Paulo, e não há maneira de o SIRESP ser funcional e ser transparente?
É verdade, já passou tanto tempo. O homem, por exemplo, já foi à Lua há quase 60 anos. Portanto, um grande feito da humanidade.
Lembra-me tão bem.
Eu lembro-me também, eu estava lá. Já passaram 60 anos e nós continuamos hoje sem conseguir ter uma rede de comunicações de proteção civil que funcione bem. Não precisa de falar com a Lua, basta falar aqui neste retângulo quadrado que é pequeno, que é o país mais as ilhas, já agora. E uma rede que funcione bem e que não seja basicamente um sorvedouro de dinheiro público e que não levante constantes suspeitas e trapalhadas ao virar de cada esquina. Ontem o Luís Montenegro disse: "O governo está a resolver os problemas que se foram avolumando no SIRESP". O problema é que é apenas mais um primeiro-ministro a dizer isso. Antes, já muitos governantes estavam a resolver os problemas do SIRESP, mas a realidade é que mais parece que o SIRESP acaba com a carreira de governantes, do que os governantes acabam com os problemas do SIRESP.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.