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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Devemos preocupar-nos com o protesto dos agricultores alemães? "Es darf keine Sonderopfer geben, da stimmen wir überein. Aber alle müssen ihren Beitrag leisten." Uns não podem sofrer mais do que outros, mas todos têm de contribuir. De todo o discurso do ministro alemão das Finanças, junto às portas de Brandemburgo, em Berlim, esta talvez tenha sido uma das declarações que mais desagrado provocaram nos 10 mil agricultores que se juntaram à manifestação. Há semanas que são milhares, que saem de várias localidades da Alemanha em caminhões e em tratores rumo à capital. Mas o protesto, que começou por causa dos cortes nos apoios ao gasóleo, já está muito para além disso. Nas manifestações começaram a aparecer grupos de extrema-direita e movimentos neonazis que capitalizam o descontentamento. E enquanto a popularidade do chanceler Olaf Scholz cai para mínimos, as sondagens põem a AFD quase no topo. Um partido que estará a trabalhar numa proposta para expulsar do país todos os residentes não brancos ou não culturalmente alemães, mesmo que nascidos na Alemanha. O que isso significa para a maior economia europeia? E que impacto poderá ter em toda a Europa? Hoje vou conversar com a Cátia Bruno, editora de internacional do Observador. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta é a história do dia, quinta-feira, 18 de janeiro. Bem-vinda, Cátia.

Olá, Sara.

Cátia, como é que tudo isto começou?

Isto começou com um chumbo do Tribunal Constitucional Alemão, porque quando o governo alemão apresentou a sua primeira proposta para o orçamento de Estado deste ano, 2024, uma das propostas foi chumbada pelo Tribunal Constitucional e de repente o governo de Olaf Scholz percebeu que tinha um buraco de 17 mil milhões de euros que precisava de tapar de outra maneira e decidiu cortar nos subsídios estatais que são dados aos agricultores para os combustíveis agrícolas. E começou de imediato um movimento de contestação dos agricultores. Perante isso, o governo decidiu recuar em certa parte, faseando esses cortes até 2026 e não os aplicando tão a fundo como tinha previsto inicialmente. Mas os protestos continuam, os agricultores acham que estão a ser prejudicados face aos outros alemães e não há ainda um fim à vista para esta crise.

O governo diz que não há maneira de travar os cortes e que todos têm de contribuir. Isto é uma inevitabilidade?

Não há dúvidas de que a Alemanha está numa situação económica complicada. Muito provavelmente vai ter novamente um ano em recessão e seria o segundo consecutivo da economia alemã sem crescer. Ao mesmo tempo, há uma inflação elevada, como há em toda a Europa, e as pessoas sentem isso no aumento dos preços no dia a dia. E toda essa situação é particularmente agravada na Alemanha pela transição energética, que não tem só a ver com a mudança para fontes de energia mais verdes, tem também a ver com o facto de que a Alemanha dependia em grande parte da energia que vinha da Rússia e desde o início da guerra na Ucrânia, tem tentado afastar-se dessas fontes de energia e tudo isso acaba por ter custos que se refletem para os consumidores.

Protestos contra medidas de governos acontecem em todos os países, dificilmente seriam história do dia. A verdade é que este protesto ganhou, entretanto, uma outra dimensão. Por que de repente, no meio de debates sobre preços de gasóleo e subsídios para a agricultura, se começou a falar, por exemplo, de imigração?

Porque no fundo, estes protestos acabaram por ganhar uma dimensão semelhante àquela que aconteceu em França com os coletes amarelos, em que temos uma faixa da população que está revoltada com medidas relacionadas com impostos, mas os protestos acabam por ter uma dimensão muito para lá disso e acabam por ganhar um certo discurso contra a globalização, contra aquilo que muitos manifestantes consideram ser as elites das cidades. E isto teve, obviamente, um aproveitamento da extrema-direita, que se tem infiltrado em muitos protestos e que tem tentado cavalgar este assunto online, em muitos canais de Telegram. E isso mesmo já foi confirmado pelo responsável das secretas do estado da Turíngia, que é um estado no leste da Alemanha, que disse que era claro que a extrema-direita se estava a apropriar destes protestos legítimos de alguns cidadãos para trazer os seus temas para cima da mesa. E a imigração é um dos principais temas da extrema-direita.

Sobretudo porque, entretanto, houve notícias de um encontro com o maior partido da extrema-direita alemã, ou que mais representa, com outros movimentos, nomeadamente neonazis, com proposta, não sei que palavra hei de usar, mas muito musculada em relação à imigração, vamos dizer assim.

Sim, seria uma proposta nunca vista. Quer dizer, nunca vista, não posso dizer, mas que não é aplicada neste momento em lugar nenhum da Europa, até porque iria contra as regras europeias É uma proposta que o partido chama de remigração, que na verdade se trata de deportação, não só de todos os imigrantes do país, mesmo que legais, não só de todos os requerentes de asilo, mas também de todos os cidadãos que, segundo o partido, não estão aculturados à Alemanha. Portanto, abriríamos aqui a porta à deportação de até, possivelmente, cidadãos alemães, mas que o partido considera que não estão aculturados, integrados, seja lá o que isso for.

Nós já vamos falar sobre o crescimento da extrema-direita na Alemanha e os últimos dados, mas qual tem sido o impacto, tudo isto, desta contestação para Olaf Scholz?

Tem sido muito determinante para o sucesso, ou deveria dizer insucesso, do seu governo. Scholz lidera uma coligação de três partidos muito diferentes entre si e tem, neste momento, apenas 14% nas intenções de voto das sondagens para eleições nacionais. As próximas serão em 2025. E não só o seu partido está com este resultado previsto muito baixo, como o próprio Olaf Scholz é muito impopular. Ele tem, neste momento, apenas um quinto dos alemães com uma visão positiva dele, o que é o número mais baixo para um chanceler alemão desde 1997.

E tudo isto acontece no momento que internamente, para o governo de Olaf Scholz, está também a ser muito difícil.

Sim, os três partidos que falávamos compõem a coligação, que é a chamada Coligação Semáforo, por causa das cores dos partidos que a integram, são muito diferentes entre si. Temos o SPD, os sociais-democratas do Olaf Scholz, temos os Verdes e temos os liberais do FDP. Ora, estes partidos têm muitos temas em que não concordam, sobretudo no que diz respeito à forma de lidar com a economia e com o Estado social. O FDP, por exemplo, no início já deste ano, teve um debate interno em que foi votada uma moção sobre se devia ou não continuar na coligação, tal é a insatisfação que os liberais têm com algumas das medidas que foram adotadas. O partido decidiu continuar, mas esse debate está muito aceso. No fundo, é como se o SDP estivesse ali no centro, os Verdes puxam para a esquerda, os Liberais puxam para a direita, em termos económicos, e é muito difícil chegar a consensos entre estes três partidos.

Já voltamos à conversa com Cátia Bruno, editora de Internacional do Observador. Vamos tentar perceber como é que a extrema-direita alemã está a aproveitar as dificuldades de Olaf Scholz e o impacto que as próximas vitórias eleitorais podem ter. Estamos de regresso à conversa com a editora de Internacional do Observador. Cátia Bruno, ao mesmo tempo que a popularidade de Olaf Scholz cai para mínimos históricos, outros disparam e até nas intenções de voto.

Não há dúvida. As sondagens têm sido muito claras. A Alternativa para a Alemanha, a AFD, neste momento, está em segundo lugar nas intenções de voto, apenas atrás da CDU, que é o maior partido da oposição, e já tem mais de 20% na maior parte dos estudos de opinião.

E há aqui um detalhe irônico, porque parte das razões do descontentamento com Olaf Scholz também está no programa eleitoral da AFD.

Sim, os cortes nos subsídios agrícolas fazem parte do programa da AFD, tema que neste momento o partido tenta não discutir em público, dizendo apenas que está contra este governo no geral.

Ironias à parte, esta subida da popularidade da AFD e a subida nas intenções de voto não começou agora, não é?

Não, é verdade. A AFD até já teve um momento em que estava muito bem colocada. Chegou a ser o terceiro maior partido no Parlamento alemão, neste momento é o quinto, e parecia estar numa tendência de queda, mas desde o verão que voltou a ganhar ímpeto nas sondagens, coincidentemente, com uma certa radicalização do discurso, ao contrário daquilo que se passa na maior parte dos países europeus, em que estes partidos têm tentado, pelo menos, apresentar uma versão mais moderada para poder chegar ao poder. A AFD está com um discurso cada vez mais duro, mas isso não a impede de crescer. Em outubro, por exemplo, houve duas eleições locais em que a AFD conseguiu ficar em segundo e terceiro lugar, nos estados de Hesse e da Baviera, e não estamos a falar dos locais onde a AFD sempre teve algum sucesso, que são, sobretudo, nas regiões do leste da Alemanha. Estamos a falar da zona ocidental da Alemanha, onde o partido agora teve grandes resultados face ao que tinha. Outro sinal claro, há menos de um mês, elegeram o seu primeiro autarca. A cidade de Pirna, na Saxônia, é um independente, mas que foi apoiado pela AFD. E tudo isto ilustra como o partido está numa fase claramente de crescimento.

Uma fase de crescimento que acontece às portas de um ano e de uma fase com vários períodos eleitorais.

Sim, não só as eleições europeias já em junho, onde a AFD já tem um cabeça de lista escolhido, que diz claramente que é a favor de cortar 80% da burocracia europeia, o que quer que isso se traduza na prática, não está ainda concretizado, que é completamente contra a política de asilo atual na União Europeia, etc. E para além das eleições europeias, em setembro deste ano, há eleições para outros governos locais, e é importante dizer que os governos locais na Alemanha têm bastante influência nas políticas executivas, porque a Alemanha tem o regime dos Länder, que é que funciona de uma forma federal, e vai haver eleições nos estados da Turíngia, da Saxônia e de Brandemburgo, e as sondagens mostram que a AFD está com possibilidades de vencer.

Qual é que tem sido a estratégia dos outros partidos para lidar com a AfD? Dizias há pouco que estão em quinto lugar, já foram a terceira maior força do Parlamento, as sondagens colocam-na em segundo. Como é que as outras forças políticas têm lidado com este partido?

Têm tido uma postura muito unida. Todos os restantes partidos com assento parlamentar defendem que deve haver uma cerca sanitária à AfD, ou seja, que não deve haver qualquer tipo de acordo, coligação, entendimento com a extrema-direita. Até agora, isso aparentemente estava a resultar, no sentido em que a AfD até tinha perdido apoio face ao que já teve no passado. Mas isso pode estar a acabar. É interessante que a CDU, neste momento o maior partido da oposição, o partido a que pertence Angela Merkel, durante muito tempo, e isto começou quando Merkel era chanceler, inscreveu nas regras do partido que é proibido o partido fazer qualquer tipo de aliança com a AfD e também com o Die Linke, de extrema-esquerda. Veremos se isto se manterá no futuro com uma AfD que está em franco crescimento.

Será possível, de facto, manter-se com estes números que a colocam em segundo lugar? Como é que depois fica a gestão de um governo, a capacidade de formar coligações, continuando a ignorar uma força política em segundo lugar?

É precisamente esse o problema, é uma questão aritmética. Se se confirmam estes números, por exemplo, o estado da Turíngia, com a AfD a vencer as eleições, a única maneira de garantir que a AfD não está no poder nesse estado, é fazer uma maioria alternativa. Ora, para haver uma maioria alternativa que tenha números suficientes para derrotar o projeto da AfD, seria preciso aliarem-se partidos que até aqui consideravam impensável juntarem-se, como, por exemplo, o CDU e o Die Linke, que é o outro partido que a CDU rejeita fazer alianças. E precisamente por se estar a antever uma crise política grande, que pode voltar a acontecer, não só a nível local, mas a nível nacional, nas eleições de 2025, é que na Alemanha muitos atores políticos têm falado na ideia de ilegalizar a AfD. Sobretudo porque a retórica do partido se tem extremado e, portanto, como na Alemanha, o Tribunal Constitucional deixa claro que não pode haver nenhum tipo de declaração de ideologia nazi, há já quem diga que estamos a ver uma repetição dessa retórica e, portanto, que o partido deveria ser ilegalizado. Claro que em termos práticos é muito difícil aplicar uma medida destas. É preciso haver declarações que sejam ipsis verbis, declarações de nacional-socialismo, e por isso também há uma petição, por exemplo, a circular neste momento, para que, em vez disso, se use outro instrumento que está previsto na lei, que é o de banir determinados candidatos que têm ideologias ou pelo menos declarações extremistas. Agora, claro que nada disto funciona se os eleitores considerarem que essa é uma medida de secretaria, digamos, usada por partidos que não conseguem derrotar a AfD nas urnas.

Cátia, no início desta História do Dia perguntávamos se devíamos preocupar-nos com o protesto dos agricultores alemães, porque esse protesto aparentemente está a dar força a movimentos de extrema-direita e a contribuir para o crescimento da AfD. Que impacto é que esse crescimento pode ter para a Europa?

É evidente que algum impacto terá, no sentido em que temos um partido que é claramente eurocético. A AfD surgiu há anos precisamente com uma mensagem eurocética, era essa a sua principal preocupação, era a saída da Alemanha do euro, e que está a evoluir para uma mensagem anti-imigração e por vezes racista. Se isso terá impacto na política europeia, é difícil antever. Também muito se falou, por exemplo, quando Giorgia Meloni ganhou as eleições em Itália, que poderia haver um reflexo dessas ideias na governação europeia, e até agora não temos visto isso com essa intensidade. Mas de qualquer das formas, estamos perante um cenário de possível paralisação do poder, se não houver uma maioria de governação na Alemanha, seja porque a AfD não tem maioria absoluta, seja porque os outros partidos não conseguem uma maioria absoluta alternativa, aí entraríamos num processo de paralisação político naquela que é a maior economia da Europa e, portanto, isso deve preocupar-nos a todos.

Isso já nas legislativas que hão de acontecer em 2025.

Exato.

Obrigada, Cátia.

Obrigada eu.

Cátia Bruno é editora de internacional do Jornal e da Rádio Observador. Esta foi a História do Dia. Neste episódio ouvimos sons retirados da Sky News. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Até amanhã.