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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Estamos viciados em redes sociais?
Ou seja, se vocês não tiverem doentes e não comerem a porcaria que eles produzem, não vão ao médico e não precisam dos medicamentos. E depois isto é um ciclo, ou seja, os medicamentos também são feitos de modo que não te curem completamente para que tu estejas sempre a comprar. E a maior parte dos médicos, coitados, nem sabem porque foi isso que eles estudaram e se calhar nem estão a fazer isto por mal, mas de qualquer das maneiras, eu não confio neles.
Alice Santos é um caso de sucesso no TikTok, onde tem mais de 100 mil seguidores. Tem vários vídeos que chegaram a mais de meio milhão de visualizações e, nalguns casos, mais de 800 mil. Tem um discurso polémico e com informações falsas. Alice Santos, aos 23 anos, é apenas uma entre milhões de criadores de conteúdos que chegam a milhões de adolescentes. Um estudo agora publicado revela que 86% dos jovens portugueses consideram-se viciados em redes sociais. Devemos estar preocupados? E se sim, o que podemos fazer? Vou conversar com a psicóloga Rosário Carmona e Costa, que trabalha há muito com jovens. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, doutora Rosário Carmona e Costa.
Obrigada, Ricardo.
Há umas semanas publicámos na secção mental do Observador um vídeo com um depoimento seu sobre um caso com o qual se deparou. Consegue resumir-nos aqui que caso era esse?
Olhe, é verdade, e esse momento foi também muito marcante, porque foi um orgulho ver o Observador a dar destaque a um tema que às vezes não tem esse olhar. Falei e partilhei convosco este caso de um jovem que acompanhei, que jogava muitas horas por dia de computador e tinha toda a sua vida comprometida, todas as esferas da sua vida comprometidas, e tivemos a oportunidade nessa entrevista, aliás, convido todos que possam recuperá-la, de ver as diferentes etapas desse processo psicoterapêutico e a forma como ele teve impacto. E na verdade, é uma história que tem um final feliz. Portanto, também nos ajuda a desviar o foco de todas estas componentes negativas que estão cá, que são reais, que nos obrigam a refletir, mas ao mesmo tempo também a dar esperança de que se trabalharmos as coisas certas, também podemos ter finais felizes.
E eu reforço esse apelo, o vídeo está disponível no YouTube, que é uma rede social, mas o que nos traz hoje aqui é o outro aspecto desta relação, eu atrevo-me a dizer, quase que obstinada dos mais jovens com a tecnologia. Neste caso, que estava a descrever, é o caso de um jovem que jogava durante mais de 17 horas todos os dias, mas que felizmente, como disse, acabou em bem. Vale mesmo a pena ver essa conversa. Ora, nesta história do dia, hoje estamos a falar da relação com as redes sociais e os dados deste estudo agora revelado, um estudo que foi organizado pela Mental Health Europe com a colaboração de uma marca internacional de produtos de higiene e beleza. Estes dados indicam que 86% dos jovens portugueses, estamos aqui a falar acima dos 13 anos, admitem estar viciados em redes sociais. Viciados é uma palavra muito forte. Será ajustada para aquela que é a realidade que conhece?
É verdade, é uma palavra muito forte e muito provavelmente desadequada aqui. Ou seja, é muito importante quando nós avaliamos ou analisamos a utilização que alguém faz de qualquer nova tecnologia, onde as redes sociais aqui também estão incluídas, nós temos vários tipos de utilização. Podemos ter uma utilização adequada, podemos ter uma utilização desadequada, podemos ter uma utilização excessiva, mas não desadequada. Podemos ter uma utilização desadequada, mas não excessiva. E podemos ter também já a cumprir critérios para uma dependência. Só que as questões das dependências, a dependência da internet e das novas tecnologias incluída nas dependências comportamentais, ela tem critérios bem definidos, está bastante estudada.
Pode dar-nos aí dois a três exemplos?
Não querendo complicar, vou se calhar só dar dois critérios que para mim seriam fundamentais e que ajudam as pessoas a perceber se estamos perante uma dependência ou perante uma utilização desajustada ou excessiva. E os dois critérios são o da tolerância e o da abstinência. O que isto significa? A tolerância é nós precisarmos cada vez mais do estímulo para obter o mesmo nível de prazer. E quando nós pensamos nas dependências de substância, isto é muito fácil. Nós começamos a consumir mais para obter o mesmo nível de recompensa que buscamos naquele consumo. E o outro critério seria o critério da abstinência, que é o que me acontece do ponto de vista emocional e fisiológico, na ausência do estímulo ao qual eu estou adicto. E se pudéssemos pensar, se alguém estiver a ouvir e fizer uma utilização excessiva das novas tecnologias ou tiver filhos em casa com quem é difícil gerir esta área de vida, para pensarmos numa dependência, seriam estas duas ideias.
Doutora Rosário Carmona e Costa, mas há aqui um dado interessantíssimo sobre isso que acaba de dizer, é que oito em cada 10 admitem que ficam zangados se não conseguem ter acesso às redes sociais. Este zangado, poderemos falar aqui em sintoma da abstinência ou também será um pouco exagerado?
A zanga, certamente iria estar presente no pacotinho dos sintomas de um quadro de abstinência, mas a zanga por si, nós não poderemos considerar um quadro de abstinência. Só em exclusivo. A zanga pode ser simplesmente, por exemplo, uma dificuldade de regulação emocional. E vejamos Se o jovem utiliza desde muito cedo as novas tecnologias, à partida, e isto obviamente generalizando o que não é generalizável, porque cada um é diferente e original, uma utilização excessiva das novas tecnologias já impediu, lá atrás, uma correta e saudável capacidade de regular os seus estados emocionais. E, portanto, aquilo que o Ricardo precisa de fazer quando está triste ou frustrado, se hoje na rádio alguma coisa não correu tão bem, aprendeu já como é que faz a regulação desta emoção.
Não vou revelar qual é.
Não, eu vou assumir que já aprendeu.
Ainda estou a aprender.
Não preciso de estar distraído para não sentir esta emoção, que é muitas vezes aquilo que inicialmente pode levar, outra vez não generalizando, porque não é generalizável, mas que muitas vezes é muito confortável através das novas tecnologias, das redes sociais. Nós estamos a usá-las muitas vezes como escape das nossas emoções, das nossas preocupações, dos nossos problemas, e acaba por fazer aqui um papel de regulador externo, tanto do nosso comportamento como das nossas emoções. E portanto, quando esse dado que refere a zanga, não me espanta, porque de facto nós estamos cada vez menos habituados, e não só as crianças e os jovens, os adultos também, a lidar com os nossos próprios estados emocionais e a precisar de fazer alguma coisa com eles. E portanto, na ausência de um estímulo que é superatrativo, desenhado para nossos interesses, fácil de utilizar, intuitivo, que não implica a utilização de grandes recursos cognitivos. Portanto, tudo isto é um lugar de muito conforto, ou prefiro eu dizer enquanto psicóloga, aparente conforto. Porque depois, perante a necessidade de levarmos a cabo estas competências todas e não conseguimos na vida real, vem um desconforto mais difícil de lidar.
E há aqui um outro dado, que também diria inquietante. Em Portugal, 79% destes inquiridos assumem que os jovens preferem relacionar-se ou comunicar através das redes sociais, preferem isto a comunicar em pessoa, em carne e osso. Ora, nós somos animais sociais e temos de nos relacionar. O meio aqui é pouco relevante para o nosso desenvolvimento enquanto pessoas?
Não, o meio é fundamental para o nosso desenvolvimento. Acho que aqui há vários fatores. Um deles eu queria deixar já bem claro, que tem a ver com as exceções. Há, de facto, alguns quadros do desenvolvimento e algumas perturbações cujas as redes sociais são lugares muito confortáveis. Pensemos numa perturbação do espectro do autismo com algumas dificuldades de interação social. Pensemos numa perturbação de ansiedade social. Alguém que tem uma ansiedade de desempenho ou que algumas distorções relativamente à sua imagem ou à forma como se apresenta. E portanto, nesse caso, as redes sociais são de facto um contexto em que a interação está bastante protegida e é compreensível que a tentação-
É confortável.
Isso. E é compreensível até nós pensarmos que aquele jovem ou aquele adulto utilize este meio de comunicação como uma forma de chegar aos outros. E muitas vezes, enquanto psicóloga, até aconselho a não retirada. Ou seja, se eu ainda estou a trabalhar com o meu paciente estas competências que ele tem em déficit, eu prefiro que ele continue a utilizar as novas tecnologias para conseguir chegar aos outros e depois, quando eu já conseguir trabalhar todas as suas competências, posso fazer essa retirada, porque ele já vai conseguir ser competente no contexto em que se move.
Agora, quando isso substitui numa relação normal, sei que os psicólogos detestam este termo, mas quando isso substitui o cara a cara, é preocupante.
Sim, ou seja, eu já deixei falar que era pra não estar aqui a ocupar ou a dominar quase em monólogo. É verdade, e portanto, por isso eu quis começar pela ressalva de que existem quadros em que nós não podemos ser tão fundamentalistas assim. Ou seja, se és pessoa, tens que comunicar assim. E portanto, existem contextos em que esta utilização pode até ser protetora e promotora, mas depois a verdade é que são nos contextos analógicos, são nos contextos cara a cara de vida real, que a grande maioria das interações se vai passar. Mas mais do que a maioria das interações, porque nós até podemos pensar que na realidade os nossos jovens, a maioria até pode ser nas redes sociais, a maior parte das conquistas de desenvolvimento vão acontecer em contextos não virtuais. E portanto, os jovens vão precisar de ir à escola, de aprender, de fazer exames, de passar na carta de condução, de, correndo tudo bem, desenvolver relações de intimidade significativas. E portanto, há aqui um conjunto de tarefas do desenvolvimento a que todos estamos expostos e sujeitos, para as quais e para podermos estar aptos, precisarmos desenvolver competências que lá atrás não poderiam ser e não são substituídas pela interação virtual. Dito isto, e esta era a minha urgência, não precisamos de eliminá-las. Precisamos, e esta é a grande preocupação, de complementá-las.
Eu vou pegar nessa deixa, porque em Portugal, e ainda segundo este estudo, 44%, que é um valor abaixo dos outros países estudados, e estou a falar dos Estados Unidos, Brasil, Reino Unido, Itália, enfim, uma série de países, 44% considera que há uma ligação entre a vida real, pessoal, e a vida nas redes sociais. Isto é viver numa ilusão, num mundo que não existe, apesar da maioria em Portugal conseguir separar as duas coisas?
Não sei, não acho que seja a mesma ilusão e nem acho que tenham de as separar. Elas podem ser complementares. Até lhe vou dizer, e estou a pensar aqui consigo em direto pela primeira vez e ainda não tinha refletido sobre isto, mas até lhe vou dizer que, se calhar, enquanto clínica, prefiro uma afirmação dessas do que o oposto, ou seja, haver uma clivagem significativa entre aquilo que eu sou na vida real versus aquilo que eu sou na vida virtual ou nas redes sociais. Haver esta percepção de continuidade de que quando eu saio da escola e nas redes sociais falo mais ou menos com os mesmos amigos, que me apresento mais ou menos da mesma maneira, que as coisas que combinamos por aqui continuamos na escola ou naquilo que combinamos, parece-me até bastante saudável. Mais uma vez, desde que nenhum exclua o outro. Se as redes sociais vieram trazer aqui algumas vantagens de proximidade, de autorrevelação, de diminuir aqui alguns gaps que os pais vieram introduzir, como dar menos liberdade, promover menos autonomia e as redes sociais permitem um contacto até de maior proximidade com os amigos, ótimo, maravilhoso, desde que a outra componente não fique comprometida. E aqui conseguimos assegurar um desenvolvimento saudável. Até porque, Ricardo, e deixe-me só fazer-lhe esta reflexão: todos nós, ainda que num momento de maior solidão aparente ou de maior tristeza, recorramos às redes sociais e isto seja minimamente reconfortante, quando aumentamos as nossas interações sociais e nelas somos competentes, tendemos a preferi-las face às relações virtuais. Se eu, em vez de me preocupar excessivamente em tirar rapidamente o meu filho das redes sociais só porque sim e em diminuir a sua interação, se eu procurar mais depressa promover as interações de vida real, interesses variados, hobbies, que eles se sintam competentes noutras áreas, vai partir deles a vontade de estar mais envolvidos na vida real, nestas relações significativas, porque é na maioria das vezes e nos casos mais saudáveis, daí que nós obtemos a maior gratificação. É nesta capacidade do Ricardo me estar a ver entusiasmada a falar do assunto, desta minha capacidade e gratificação de o ver interessado no que eu estou a dizer, de no final darmos um abraço e dizer: "Olhe, que bom, espero que isto ajude alguém." Isto é mais gratificante do que as interações através das redes sociais.
Já voltamos à conversa com a psicóloga Rosário Carmona e Costa. Que noção têm, afinal, os pais desta realidade e o que podem e devem fazer para proteger os filhos, os mais jovens? Voltamos à conversa com a psicóloga Rosário Carmona e Costa, muito habituada a trabalhar com jovens. Doutora, entre os perigos revelados por este estudo, há dados como este, e eu vou aqui dar três exemplos: 25% dos jovens dizem que assistiram a incentivos à automutilação, 90% fala em conteúdos de beleza tóxicos, 45% a incentivos a dietas que podem provocar distúrbios alimentares. São três exemplos de práticas perigosas. As redes sociais são mesmo locais perigosos, sobretudo para os mais jovens?
Podem ser. Esses três exemplos que escolheu são, de facto, aqueles que mais mexem.
São extremos, não é?
Na verdade, são extremos, mas são extremos que antigamente eram menos acessíveis e agora, se calhar, quando esticamos o braço, tocamos o extremo. Já estamos aqui com uma facilidade de acesso a alguns destes discursos e imagens que têm um efeito contágio importante. Eu gosto de ter algum cuidado nesta utilização dos adjetivos para uma coisa tão neutra. As redes sociais não são nem perigosas nem deixam de ser. A utilização que nós fazemos delas e a forma como nós depois contribuímos para elas, fazemos parte delas e alimentamos aquilo que elas nos dão, que vai fazer delas perigosas ou não.
É como o automóvel, mais ou menos.
Isso, claro. Sim, na verdade, se nós pudermos pensar que se estivéssemos todos, através do nosso livre-arbítrio, a contribuir para as redes sociais com conteúdo muito promotor do desenvolvimento, diríamos que as redes sociais são coisas maravilhosas. Mas sim, o que eu acho que contribui aqui, isto seria importante nós refletirmos, que estas preocupações, este estudo foi feito, sobretudo, numa faixa etária dos jovens. E aquilo que está a acontecer nesta faixa etária são tarefas de desenvolvimento super importantes que não podem ser negligenciadas. Nós estamos a falar de uma fase de desenvolvimento em que é suposto acontecer o início do desenvolvimento da identidade. Quem é que eu sou? O que é que eu gosto? Como é que eu me apresento? Que coisas valorizo? Que coisas me impressionam? Que coisas me agradam? A segunda grande tarefa do desenvolvimento nesta fase é o afastamento dos pais e esta ideia de os meus pais aqui não vão ter acesso, isto faz parte da minha intimidade, querer ganhar autonomia.
Os quartos são quase castelos. São fortes.
Com certeza, e é bom que sejam.
E o que é que os pais devem fazer? O que é que os pais podem fazer?
Deixe-me chegar a isso fazendo a ponte com esta questão anterior, que era: a partir do momento que estas são as tarefas do desenvolvimento, faz muito sentido que as redes sociais possam ser Um terreno pantanoso, porque nós estamos a precisar de desenvolver todas estas coisas em nós e temos no nosso bolso, com facilidade de acesso, uma plataforma que nos permite ensaiar uma série destas coisas numa fase em que ainda não temos capacidade para integrar tudo, para processar tudo, para dar sentido e para conseguir conter impulsos. Porque se a questão do impulso for se o Ricardo conseguiu conter ou não a última cerveja em Santos há 40 anos, e se não tivesse feito, vai se apresentar aos seus pais num mau estado, portanto, tudo isto é muito visível. Mas se quer ensaiar um comportamento de risco online, provavelmente ninguém viu, ninguém reparou, ninguém teve possibilidade de o defender. E na verdade, é o mesmo cérebro, com o mesmo nível de imaturidade que está perante um comportamento de risco. Respondendo à sua pergunta de como é que os pais podem fazer. A primeira coisa, e parecendo que não respondo a nada, é: os pais têm que fazer aquilo que sempre fizeram. E não é por haver novas tecnologias, que os pais se calhar não dominam tão bem, que os pais abandonam o seu papel de reguladores e de pessoa que estabelece limites. Se há 50 anos não era admissível para mim que tu com 13 anos fosses beber copos para a rua, não é por agora eu não perceber o que é que tu fazes dentro desse telemóvel, que eu te vou dizer que não é aceitável ficares no telemóvel até às 2 h da manhã. E que não é negociável, que eu não saiba qual é a tua password porque tu tens 12 anos. Eu prometo-te e digo-te, porque te respeito, que não vou lá sem o teu conhecimento, mas tu ficas a saber que esta é uma área onde eu ainda preciso de regular, de tomar conta e de guiar.
E deve exercer essa autoridade, não é?
Deve exercer esta autoridade por uma questão de organização interna de um jovem. É esperado que os pais sejam uma figura que cuida, que se preocupa e que diz: "Nesta fase em que tu estás ainda em desenvolvimento, não te preocupes que eu estou aqui a dizer-te quais são as balizas entre as quais te moves." Isto é muito organizador.
Deixe-me fazer aqui uma pergunta, se calhar, ingénua, porque num mundo em que os miúdos não se sujam, não trepam às árvores, não namoram às escondidas, em que parecem todos viver numa redoma protegidos pelos pais, onde é que encontramos um equilíbrio? Os pais também, muitas vezes, ficamos com a sensação que não querem privar os filhos de socializar através das redes ou de usar o telemóvel mais uma ou duas horas, ou jogar mais duas ou três. Para os pais a tarefa também não é fácil, não é? Onde é que está o equilíbrio?
Na verdade, marcamos amanhã à mesma hora e eu venho para o seu próximo episódio, porque isto dava pano pra mangas. Deixe-me dizer, correndo o risco de parecer pouco empática com os pais, que não sou, estão todos convidados à minha consulta. Mas eu não acho nada que os pais estejam a querer privá-los dessa socialização. Parece-me é que estão a fazê-lo de uma forma que lhes é muito confortável. Ou seja, é mais confortável ter o meu filho ali no quarto e eu saber onde é que ele está, do que a angústia de saber se ele vai mesmo chegar à meia-noite, como ele disse. No entanto, para o seu bom desenvolvimento, é preferível a segunda parte. É preferível que ele vá ensaiar se vem ou não vem à hora que combinamos. É preferível que ele vá ensaiar se tem a chave de casa ou se não tem a chave de casa. É preferível ele expor-se ao risco para saber ensaiar os seus comportamentos de segurança. Caso contrário, quando nós crescemos sem limites e sem estrutura, nós ficamos sem saber onde é que começamos e acabamos. E quando, de repente, estamos expostos a desafios, porque vamos estar, quando estivermos expostos a ameaças, porque vamos estar, não vamos ter no nosso repertório um conjunto de competências para fazer face a isso de forma ajustada e adaptativa. Se pensarmos nestes pais, é isto: é lembrar-se que é nossa função nesta fase, ser esse farol desta fase de vida. Eu estive a ler esse estudo com muita atenção. Toda essa porcentagem de pais que estão realmente preocupados, precisam de ser exatamente os pais que dizem: "Chega". Mas numa perspectiva promotora, que é: "Que outras coisas te posso eu apresentar? Que outras coisas vou eu empurrar-te para fazer? O que é que cá em casa não é negociável? Não é negociável que não faças desporto, não é negociável que não chames amigos, não é negociável que não vás sair, nem que seja uma vez por semana, combinar e vais ao cinema. Isto não é negociável, porque eu preciso, enquanto aqui estás e eu estou por perto, que tu ensaies todas estas coisas, para poderes saber como te posicionas perante elas."
E aqui chegados, porque os pais também estão nas redes sociais, embora noutras redes sociais, o filho numa, os pais noutra, podemos dizer que estamos todos um bocadinho viciados nas redes sociais ou não?
Nós podemos dizer que estamos todos a usá-las demais. Viciados já é um termo clínico e que requeria uma avaliação.
É uma preocupação.
E que depois requeria tratamento. Mas sim, estamos todos a utilizar demais, estamos todos a utilizar inadequadamente, muitas vezes para substituir interações que podíamos fazer de outra forma, para atenuar desconfortos com os quais íamos lidar de outra forma, para lidar com insônias com as quais íamos lidar de outra forma. Estamos todos a usar as novas tecnologias demais e nós, enquanto pais, também a ser muito maus exemplos.
Obrigado, doutora Rosário Carmona e Costa.
Obrigada eu.
Rosário Carmona e Costa é psicóloga e tem muita experiência a lidar com jovens. E para quem nos ouve na aplicação do Spotify, e atenção, só funciona na app do Spotify, deixamos novamente aqui uma pergunta: considera que faz um uso excessivo das redes sociais? Sim ou não? Esta foi a história do dia. Este episódio contou com a colaboração da jornalista Nadine Soares, sonoplastia de Diogo Casinha e a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.