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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Há uma cultura de censura no mundo da publicação de livros?

O escritor Afonso Reis Cabral diz-se alvo de censura, porque uma editora norte-americana se recusou a traduzir os livros do autor. O escritor de 33 anos usou as redes sociais para partilhar o caso. Em causa estão os livros "Pão de Açúcar" e "O Meu Irmão". Ao Observador, Afonso Reis Cabral considera absurdo que cada vez mais as editoras se preocupem com o perfil de quem escreve.

O caso tem dois anos, mas foi agora reavivado pelo escritor Afonso Reis Cabral. Isto numa altura em que se discute a reescrita de diversos autores, como Agatha Christie ou Ian Fleming. O escritor, vencedor dos Prémios LeYa e Saramago, revelou os motivos de uma editora norte-americana para recusar a publicação dos seus livros. No caso de "Pão de Açúcar", o problema foi o facto de ele ser um homem cis, que se identifica com o seu género, e estar a escrever sobre uma personagem transexual. Existe atualmente uma cultura de censura no mundo da publicação de livros? Quais os critérios seguidos por um editor? São questões para a conversa com Francisco José Viegas, escritor, editor e antigo secretário de Estado da Cultura. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia. Bem-vindo, Francisco José Viegas.

Olá, vamos à conversa, portanto.

Vamos. E eu gostava de começar pela sua visão e experiência de editor. Francisco, como é que se escolhe um livro? Ou como funciona todo este processo de seleção daquilo que é publicado ou não? Nós temos sempre aquela imagem do editor enterrado entre manuscritos. Já não é bem assim, se calhar.

Neste momento, estou um bocadinho rodeado de papéis e de manuscritos, mas não é propriamente a visão hoje mais tradicional. Vou só recordar-lhes o que me aconteceu quando comecei a trabalhar como editor e tinha o meu mentor, e no fundo, o responsável pela editora, o CEO da editora. Na primeira reunião, eu apareci com uma série de livros, cadernos, etc. E ele pergunta-me: "E a tua calculadora?" E eu disse: "Não trouxe". "Mas é o instrumento fundamental do editor". E na verdade é, nós vivemos rodeados de papéis, de livros, de manuscritos, mas se não vendermos livros, deixamos de ser editores. E, portanto, há essa outra perspectiva, que aliás convinha termos sempre presente neste caso, neste assunto que hoje nos traz à conversa, porque acaba por ser decidido.

De facto, a escolha dos temas e dos livros que vão depois para publicação, e esse critério é muito importante, obedece a quê? A tendências, à avaliação do mercado?

Obedece a várias coisas. Obviamente, ao interesse do editor, àquilo que o editor insiste em ser a força do seu catálogo. Isto num mundo ideal. E no nosso trabalho tentamos que esse mundo ideal seja o nosso, seja o mundo de todos os dias, obedeça a uma série de linhas de força, de temas, de áreas, de influências, de modos de funcionar. Quer dizer, interessa-me mais este autor do que aquele, provavelmente porque eu gosto mais, mas também porque eu acho que posso com ele ajudar a construir uma certa identidade. Por exemplo, há autores que eu sei que provavelmente venderia, mas que, eu não vou ser hipócrita ao ponto de dizer: "Não, mas não me interessa". Não, obviamente que me interessaria, mas provavelmente eu estou interessado mais em fazer um determinado catálogo. E, portanto, há várias linhas com que uma pessoa faz um catálogo. É o nosso gosto, a capacidade, a possibilidade de vendermos esse livro e a possibilidade de sermos mais influentes. Quer dizer que também é uma outra coisa importante no trabalho de editar livros. Editar livros é influenciar. Influenciar leitores, influenciar aquilo que também é o mercado, que é o conjunto dos leitores.

E nesse processo de decisão e de avaliação, se pusermos de parte a questão da qualidade da escrita, por que razões se pode recusar ou não a publicação de um livro? Em Portugal, há temas tabu ou há abordagens tabu?

Eu penso que em Portugal não há. Penso que em Portugal, as editoras generalistas publicam um pouco de tudo, independentemente de os autores ou de os livros estarem mais alinhados à esquerda ou à direita, em cima ou embaixo. Um editor generalista procura valorizar o seu catálogo e valorizar as suas contas ao fim do ano. ao longo de toda a história. Quer dizer, editar é escolher. Portanto, nós não editamos tudo, nós escolhemos. Às vezes, essa escolha impõe que nós recusemos uma série de livros, e às vezes recusamo-lo por motivos claramente ideológicos, isso não tenho dúvidas. E não é só recusar publicar, imaginemos, "Mein Kampf" de Hitler. Mas recusamos porque o livro nos incomoda, porque achamos que não vai bem com o nosso catálogo, porque é um livro que não nos interessa. E porque nós não somos capazes, provavelmente, de defender aquelas ideias, embora nós não tenhamos que partilhar as ideias de um autor.

E depois dos livros de Roald Dahl e Ian Fleming, agora é a vez dos clássicos Agatha Christie serem reescritos. Sou contra. Dizem que para sensibilidades modernas, li no Telegraph. Portanto, alguns dos mistérios de Poirot e de Miss Marple passam agora a ter partes de histórias reeditadas ou até mesmo removidas destas novas edições publicadas pela Harper Collins.

Recentemente, tem-se discutido esta questão da reescrita de obras de diversos autores como Agatha Christie, Ian Fleming, Roald Dahl. Por exemplo, no caso de Agatha Christie, para excluir determinadas referências étnicas ou descrições físicas. Como é que o Francisco olha também para o que está a acontecer? Estamos a falar de censura?

Claramente, estamos a falar de censura, porque há um texto terminado, há um texto que o autor legou, e esse texto é alterado tendo em conta outros pressupostos, tendo em conta a atualidade do texto. A atualidade de um texto é ele participar na linha do tempo. Quer dizer, há pouco tempo foi publicado, há dois anos, creio eu, foi publicado nos Estados Unidos, há três anos. Há uma nova edição das obras completas do Kant por uma editora acadêmica. E no frontispício aparece uma nota a dizer: "Bom, é preciso um aviso ao leitor." Repare que não estamos a falar de Daniel Steel, estamos a falar de Immanuel Kant, filósofo, iluminismo, a construção de identidade europeia. E aparece esta nota: as opiniões de Kant sobre raça, gênero, relações interpessoais, são obra do seu tempo e nós não as partilhamos. Só isto já me parece um pouco absurdo. Agora, quando nós entramos no texto e em nome das nossas opções, da nossa leitura, do que são as relações interpessoais, do que é o nosso alinhamento com determinadas posições sobre raça, gênero, alterar o texto, a mim parece-me completamente absurdo, censório, parece-me abusivo, mesmo que os herdeiros dos autores tenham dado autorização. Eu, aliás, considero que além de censura, é uma violação do direito do autor e é uma violação da propriedade intelectual, muito embora estas decisões sejam geralmente bem escudadas.

Já voltamos à conversa com Francisco José Viegas, escritor, editor e ex-secretário de Estado da Cultura. Na segunda parte, vamos centrar-nos no caso levantado pelo escritor Afonso Reis Cabral, que acusa uma editora norte-americana de uma cultura de censura ao recusar traduzir os seus livros. Já estreou o quarto episódio de O Sargento na Cela 7. Chama-se Em Fuga pela Selva, e conta a tentativa de fuga de António Lobato e mais dois prisioneiros de uma prisão na Guiné Conakry. Esta série em podcast d'O Observador narra a história do português que esteve mais tempo em cativeiro na guerra em África. Pode seguir todas as semanas no site d'O Observador, nas plataformas de podcast e também no YouTube. Estamos de regresso à conversa com Francisco José Viegas, escritor e editor. Falemos então deste caso, que agora é notícia, e que envolve o escritor Afonso Reis Cabral.

A editora, tal como muitas outras, demonstra preocupação em que um homem, que se identifica como homem, escreva sobre uma mulher trans e que, portanto, não tem lugar de fala para o fazer. Isto é a negação total da ficção e da literatura tal como ela é.

O Francisco já admitiu aqui que enquanto editor, pode também recusar livros por razões ideológicas ou que não vão de encontro ao catálogo que pretende. Ora, Afonso Reis Cabral revelou agora que uma editora norte-americana recusou, há quase dois anos, a tradução dos seus livros. Um dos motivos é o facto de, por exemplo, no livro "Pão de Açúcar", um homem cis, um homem que se identifica com o seu próprio gênero, escrever sobre uma pessoa transexual. Afonso Reis Cabral diz que este tipo de raciocínio é, desde logo, estar a negar o próprio conceito de literatura. Na sua opinião, neste caso, estamos a falar de uma questão de censura ou não?

São duas coisas completamente diferentes. Uma: Afonso Reis Cabral tem toda a razão quando diz que esse princípio que está relacionado com o outro, que é o do lugar de fala, que é uma coisa que é muito valorizada No Brasil, por exemplo, e que está na base de vários obscurantismos. E que isso contraria o próprio espírito da literatura, o Afonso tem toda a razão. Há aqui uma outra questão, que é a questão da censura. O que acontece é que o editor, de uma forma muito honesta, honestidade que é reconhecida pelo próprio Afonso, diz: "Olhe, eu isto não vou publicar, decidi não publicar, vou passar". A expressão é mesmo essa. Porque isto levanta uma série de problemas, e esses problemas têm a ver com, no caso do livro "Meu Irmão", que teve o Prêmio Laia, a síndrome de Down, que o editor diz que nos Estados Unidos é um assunto muito sério e pode chocar as pessoas. No caso do "Pão de Açúcar", que teve o Prêmio Saramago em Portugal, o editor diz que, de facto, esse livro levanta outro tipo de problemas, que é o facto de uma pessoa cisgênero escrever sobre uma pessoa trans. E que isso é muito sensível, digamos, nos Estados Unidos. Portanto, ele tomou uma decisão e comunicou ao autor. Não há aqui censura, não há aqui intervenção no texto. Agora, eu conheço casos, inclusive de autores portugueses, a quem os editores estrangeiros sugeriram cortes, mas alguns dramáticos no seu texto.

Para que os livros fossem publicados.

Para que os livros fossem publicados. Porque aquilo iria levantar problemas. Isso já ocorreu. Mas são duas coisas diferentes, quer dizer, nada impede que outra editora publique um livro do Afonso Reis Cabral, espero que isso aconteça. Não se pode acusar de censura. Porque se um editor decide que, olhe, neste momento eu não estou interessado neste tipo de temas, não estou interessado neste tipo de tratamento, tem toda a legitimidade para o fazer. Imaginemos, no meio das guerras literárias, que muitas vezes marcaram a edição na Inglaterra, em França, por aí fora, quantos autores não foram recusados por motivos muito mais mesquinhos. Por guerras pessoais, porque agora não me interessa estar a publicar surrealistas e não sei o quê. Portanto, é uma decisão. Não há aqui censura. Agora, o que revela é uma pobreza de espírito muito grande e aquilo que o Afonso também diz que é uma cultura de censura. Quer dizer, por que uma pessoa cisgênero não há de escrever sobre uma pessoa trans? Por que um homem não há de escrever sobre a vida das mulheres? Por que eu não posso escrever sobre um bairro negro? Eu tive uma autora que disse: "Eu não vou escrever este livro, porque isso levanta problemas de lugar de fala". Aconteceu.

Mas essa questão do lugar de fala, de certa forma, não é negar um pouco à partida aquilo que é a própria literatura e a liberdade do autor?

É negar tudo. E é muito curioso que o lugar de fala adquira um relevo muito especial, por exemplo, na cultura brasileira e na edição brasileira, quando é o país que, na verdade, se tornou moderno graças à antropofagia, quer dizer, à possibilidade de devorar as outras culturas. No princípio do século, o movimento antropofágico no Brasil mudou por completo o paradigma da cultura brasileira, precisamente defendendo esse princípio, o princípio de devorar tudo o que nos é estranho.

Só para as pessoas perceberem este conceito, o lugar de fala remete, no fundo, para uma espécie de tradução de uma experiência própria vivida de certa forma. Não é?

Eu, por exemplo, não poderia escrever um romance em que a voz fosse feminina. Uma mulher não poderia escrever um romance em que a voz fosse de uma pessoa trans, porque não tem a experiência. Isso é negar, como o Afonso Reis Cabral diz, a própria capacidade de o escritor escrever sobre o que lhe apetecer. Tudo o que lhe apetecer. Eu acho que o uso e o abuso do conceito de lugar de fala é completamente fascistóide, porque não só limita o autor, mas submete-o a uma espécie de maoísmo de jardim de infância, em que há alguém que diz: "Bom, nós agora queremos romances escritos por autores desta origem". Isto que eu estou a dizer aconteceu mesmo. Eu li há muito pouco tempo uma entrevista de um editor inglês, em que disse: "Nós, neste momento, só estamos interessados em autores da working class ou que abordem questões de gênero, raça e herança colonial." É escusado dizer que este editor está ligado à reescrita das obras do Roald Dahl. É para vermos como as coisas acabam por estar ligadas. E há aqui um papel determinante, neste momento, que deve ser julgado, deve ser interpretado pelos autores, que é o de denunciarem este tipo de pressões e de escreverem sobre o que lhes apetece, completamente. Quer dizer, seguir o exemplo de Salman Rushdie, que foi das primeiras pessoas a denunciar a censura ao Roald Dahl, foi das primeiras pessoas a denunciar a censura à Agatha Christie, porque ele sabe do que fala. Experimentou. Se há pessoa que tem lugar de fala para tratar destes assuntos, é Salman Rushdie.

No caso do Afonso Reis Cabral, no texto de recusa que ele agora partilhou, aquele editor escreve que tentou encontrar uma pessoa LGBTQ falante de português, para tentar fazer o que se chama de uma espécie de relatório de sensibilidade, mas não encontrou ninguém que falasse português e também por isso decidiu não pegar no livro. Ora, o que é isso de um leitor de sensibilidade?

Um leitor de sensibilidade é uma pessoa que trabalha numa empresa, porque há várias empresas, quer no mercado inglês, quer no mercado americano, e que tratam de vigiar a correção política de um texto. Correção política e a adequação de um texto ao cenário, ao ambiente, à origem da história do texto. Eu visitei, há muito pouco tempo, o site de uma dessas empresas e eles têm sensitive readers, esses leitores de sensibilidade, para relações entre asiáticos e europeus, entre africanos e europeus, entre working class e investidores da bolsa, etc., com problemas de síndrome de Down, eles têm especialistas sobre cada área e eles tratam de fazer com que o texto respeite uma certa adequação, não só uma adequação política, mas que um autor asiático não esteja a cometer excessos quando está a escrever sobre uma personagem negra. Isso é um serviço profissional que é prestado e que menoriza, na verdade, a própria ideia de literatura, menoriza a própria ideia de edição e a liberdade, ou pelo menos o leque de liberdades que um autor tem à sua disposição. Mas esse é só um dos aspetos da questão, porque mais acima está outra que é: por que um escritor cisgênero e heterossexual não pode escrever sobre uma pessoa transgênero? Por que uma pessoa negra não pode escrever sobre a vida de uma pessoa branca? Esta censura permanente, esta imposição de uma autocensura, que é disso que se trata, eu penso que é ameaçadora e que ameaça, sobretudo, em Inglaterra e nos Estados Unidos, a liberdade criativa. É óbvio que há autores que dispensam completamente qualquer conversa sobre isto. Eu não estou a ver Martin Amis ou Salman Rushdie, ou qualquer outro, obedecer este tipo de jargão ou de princípios ideológicos. Mas, isto faz escola e é muito empobrecedor da própria literatura, que pode deixar de ser material criativo para se transformar numa espécie de sacerdócio. Ou seja, para muitos destes agentes da correção política e da justiça, porque há aqui um ideal de justiça associado a tudo isto, tudo isto depende da célebre Bíblia Crítica, que é preferível um mau livro a um livro que seja injusto. É preferível um mau livro a uma personagem que cometa um erro. Como se o nosso mundo fosse absolutamente mecânico e fosse preto e branco, ou pior ainda, monocolor.

Mas, cá em Portugal, essa figura do leitor de sensibilidade não existe nas editoras?

Não existe nas editoras. Não há, que eu saiba, penso que não existe mesmo, recurso a qualquer relatório de sensibilidade. Quer dizer, a leitor de sensibilidade, porque o papel dos editores ainda tem algum peso. O editor não é apenas alguém que publica um livro, não é apenas aquele que trabalha um texto do seu autor. É também uma voz da própria cultura, molda a cultura em que vive, pelos títulos que escolhe, pela maneira como aconselha os seus autores, pela maneira como desenha os Os seus livros e, portanto, não está disponível para abdicar desse trabalho. Para se transformar numa espécie de burocrata e num agente do capitalismo woke, porque na verdade, todos esses grandes gestores das grandes companhias, como a Harper Collins, que decidiu destruir parte do texto da Agatha Christie, ou da Penguin inglesa, que decidiu alterar os textos do Roald Dahl, são basicamente os agentes do capitalismo woke. Não deixam de ser grandes companhias de edição, mas muito alinhadas com esta mentalidade woke, justamente porque existe um mercado ideológico para isso. Quer dizer, neste momento, é uma garantia, inclusive, de uma boa campanha de marketing.

Precisamente, ou seja, este tipo de coisas estão a acontecer, de certa forma, também porque os editores têm a perceção que seguem aquilo que é a vontade do público ou de uma certa fatia do público?

Sim, porque há um público muito ativista, que não é propriamente um público que lê muito, mas é um público muito ativista, é um público muito ativo, muito influente nas mídias sociais, nas redes sociais, na universidade, e que resolveu transformar o nosso mundo numa coisa melhor, mas à pedrada. Quer dizer, desta forma, com censura, com o descrédito lançado sobre tudo que vem do passado e tudo que atravessou o tempo para chegar até nós. Toda a gente se lembra, aliás, houve um debate justamente organizado aqui na antena do Observador, sobre um trabalho acadêmico americano, na Universidade de Massachusetts, sobre o racismo na obra de Eça de Queiroz. Eu tive o prazer de participar nesse debate, e era uma conversa, sobre as marcas de racismo nos maias, por exemplo. E a certa altura percebia-se que havia ali um grande rastro de ignorância, e a ignorância está sempre ligada à maldade. Está sempre ligada a um certo exercício da maldade, da falta de sensibilidade. Por exemplo, uma das provas de que existiria racismo nos maias, seria o célebre diálogo entre João da Ega e o senhor Sousa Neto. João da Ega defende a civilização de New Orleans, porque permitia castigar com a morte escravos, e a pessoa não se tinha apercebido que aquilo era justamente um exercício de humor, de sarcasmo. Justamente para evidenciar aquilo que Eça sempre foi, foi um grande combatente do racismo. Ele tinha posições claramente antirracistas contra a escravatura, ele escreveu bastante sobre isso ao longo de toda a sua vida, preocupou-se com o destino dos imigrantes, com o destino dos africanos, por exemplo, na guerra entre o Egito e a Inglaterra, ele esteve do lado do Egito. Ele esteve em Cuba e preocupava-se com as condições de vida da comunidade imigrante, dos chineses, e portanto, de repente nasceu esta ideia de que Eça de Queiroz era um racista, porque usava expressões como "sonhos negros" ou "ideias negras sobre o destino." Quer dizer, há aqui coisas que me parece que são obra de ignorância. Nós temos que encontrar, mais tarde ou mais cedo, uma espécie de ponto de encontro, uma plataforma onde seja mais ou menos confortável, não tem que ser confortável, mas mais ou menos confortável e falável, em que a literatura seja falável. Porque de outro modo, estaremos a dirigirnos só para o território do confronto. Porque neste momento estamos num diálogo de surdos, que nos pode prejudicar a todos. Há de prejudicar-nos a todos, certamente.

Obrigado, Francisco José Viegas.

Muito obrigado também.

Francisco José Viegas é escritor, editor e já ocupou o cargo de Secretário de Estado da Cultura. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Este episódio contou ainda com a colaboração do jornalista Vasco Maldonado Correia. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.