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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Jesus nasceu a 25 de dezembro do ano zero? Na véspera de Natal de 1914, no centro da Europa, milhares de homens estavam confinados em trincheiras cheias de lama, com frio e com pouco que comer. Lutavam por uns metros de terra e morriam aos milhares. Nessa noite de Natal de 1914, em vários pontos da frente de combate, a guerra parou, de forma espontânea. Os soldados conseguiam ouvir-se de uma trincheira pra outra e, de repente, começaram a cantar. A medo, foram saindo do buraco em que viviam. Trocaram apertos de mão, sorrisos, chocolates, cigarros. Há relatos de um soldado inglês que cortou o cabelo aos inimigos alemães. E outra história fala de um violinista alemão que largou a arma e tocou Händel no seu violino para as tropas francesas. E há quem conte que até se jogou futebol em plena terra de ninguém, ao lado dos corpos dos soldados tombados. As notícias espalharam-se pelos jornais europeus no início de janeiro de 1915. Não há registro que esta trégua se tenha repetido até o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918. Estas tréguas espontâneas na frente de combate não ficaram isentas de críticas. Um cabo alemão, de 25 anos, que não estava na frente, terá dito, e citamos: "Este tipo de coisas não deve acontecer em tempo de guerra. Não resta qualquer sentido germânico de honra?" Este cabo alemão, de 25 anos, chamava-se Adolf Hitler. A 25 de dezembro do ano zero, nascia Jesus num estábulo em Belém. É o que nos conta a Bíblia e a tradição cristã. Mas será que Jesus nasceu mesmo a 25 de dezembro? E de onde vêm as tradições mais profanas, como o Pai Natal, ou a árvore, ou mesmo o bacalhau? Vou conversar com o jornalista João Francisco Gomes, que acompanha os temas ligados à religião no Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é uma história do dia especial, de Natal. Bem-vindo, João Francisco.

Olá, Ricardo.

A brincar, a brincar, já estamos no Natal, João.

Estamos, sim, senhor. E vamos fazer o único programa de rádio desta quadra sem falar da Mariah Carey.

É isso mesmo. Não entra neste especial de Natal, Mariah Carey. João, vamos já diretos à pergunta que dá título a este episódio. Jesus nasceu a 25 de dezembro do ano zero, em Belém?

A resposta mais simples é muito curta: não sabemos. Mas o mais provável é que não tenha nascido nesse dia.

Então, quando é que nasceu? Como é que se chegou a esta data que está no calendário católico?

A Bíblia, na verdade, dá-nos muito poucos dados temporais sobre o nascimento de Jesus. Pela leitura dos Evangelhos, sabemos que aconteceu no ano em que o imperador César Augusto ordenou um recenseamento da população. Sabemos quem era, na altura, o governador da Palestina, mas pouco mais que isso. Portanto, chegar ao dia exato é impossível pelos dados que conhecemos da Bíblia.

Mas sabemos que Maria e José foram para Belém porque houve um recenseamento.

Exatamente. Esses são os dados da Bíblia que não dependem propriamente da fé ou da convicção cristã de quem lê, mas que até depois puderam ser cruzados com outras fontes históricas, e que são preciosos para este esforço, bastante difícil, de tentar situar os acontecimentos da Bíblia, que muitas vezes são vagos no que toca a indicadores temporais, numa cronologia histórica. Ou seja, o que sabemos é que houve, nessa altura, um período em que o então imperador romano, César Augusto, ordenou um recenseamento geral da população da Palestina e, na altura, o que acontece é que cada família, cada homem, tinha de ser recenseado na terra de onde era natural a sua linhagem. Neste caso, José, como descendia daquela linha de David, de Belém, na Galileia, teve de ir pra lá, e é por esse motivo que José e Maria, estando na altura Maria grávida, vão até Belém pro recenseamento e depois Jesus acaba por nascer lá Não em casa, porque eles não estavam, de facto, em casa, mas lá no estábulo, como nos conta a tradição, no sítio que arranjaram para o bebé nascer.

E esse é o momento fundador do cristianismo? É a Natividade esse momento, o nascimento de Jesus, ou é a Páscoa, a morte de Jesus? Qual é o momento fundador?

É claramente a Páscoa. E quando falamos da Páscoa, falamos daqueles três dias que incluem a última ceia, a morte de Jesus e depois a ressurreição de Jesus Cristo ao terceiro dia, para quem acredita nesse facto.

E isso quer dizer que os católicos primitivos não celebravam o Natal ou, pelo menos, não lhe davam esta importância de uma grande festa? Como é que nasce este Natal, João Francisco?

É verdade, os primeiros cristãos não celebravam o Natal. Na verdade, não celebravam nenhum aniversário. Aliás, celebrar aniversários não era uma prática estabelecida entre os cristãos. Era até associado a um certo paganismo, certa adoração do dia em que se nasceu. Na verdade, os cristãos o que celebravam era o dia da morte. Por exemplo, a maioria dos santos são comemorados não no dia em que nasceram, mas no dia em que morreram.

No dia do martírio, não é?

No dia do martírio, para os que são mártires, ou no dia em que morreram, porque se acredita que é esse o dia em que nasceram para o céu ou para a eternidade. Por exemplo, é daqui que ainda vem a prática atual das Testemunhas de Jeová, de não comemorar o Natal, nem comemorar os próprios aniversários. Porque de facto temos que lembrar aqui que apesar de nós vivermos num país de maioria católica, 80% da população é católica, temos várias confissões cristãs, todas elas radicam na figura de Jesus Cristo, mas têm doutrinas, teologias e práticas bastante diferentes, devido às profundas divisões que se foram registando ao longo destes 2000 anos. Por exemplo, o grande cisma, que deu origem aos ortodoxos, a reforma protestante, que deu origem exactamente à linha dos protestantes. Mas a prática de comemorar o aniversário de Jesus foi ganhando terreno ao longo do tempo. Por exemplo, acredita-se que a primeira vez em que o nascimento de Jesus foi atribuído a uma data concreta, ao 25 de dezembro, que hoje assinalamos, foi no século III, na altura pelo historiador Sexto Júlio Africano, um historiador grego, que na altura, no Império Romano, tentou fazer um esforço muito duro, muito difícil.

Como é que ele chegou a essa data?

Exatamente, é uma história interessante. A proposta dele era fazer uma cronologia dos acontecimentos do mundo, ou seja, pegar na Bíblia e tentar fazer uma cronologia de em que ano é que aconteceu tal. E o que ele acabou por concluir, uma das conclusões dele, foi que entre a criação da Terra, portanto, o que está descrito no Gênesis, e a vida de Jesus, teriam decorrido 5500 anos.

Estava enganado por muito.

Estava profundamente enganado, sim. E depois que Jesus teria sido concebido no primeiro dia do ano seguinte, do 5501. Se nós formos traduzir para o calendário atual, o calendário que nós usamos contemporaneamente, o que era esse dia de 5501 para dias de hoje, chegamos ao dia 25 de março. Se adicionarmos nove meses, vamos dar ao dia 25 de dezembro.

E é assim que terá sido?

Esta foi uma das primeiras lendas ou uma das primeiras histórias que explicam a possibilidade de falarmos do dia 25 de dezembro. Mas a explicação mais provável não é bem esta. A explicação mais provável, na verdade, está relacionada com o Império Romano. Nós sabemos que aquelas semanas do solstício de inverno eram bastante especiais para os romanos. Era celebrado o retorno do sol e dos dias longos e era também naquela semana que se celebrava a Saturnália, o antigo festival, que estava muito associado à ideia do novo ciclo agrícola. A agricultura estava parada durante o inverno e era aí que se celebrava ou que se, pelo menos, se esperavam bons auspícios para o novo ano agrícola que havia de vir. E tudo isto era celebrado com grandes banquetes, com folia nas ruas, um grande carnaval, trocas de presentes, etc.

Trocas de presentes.

Trocas de presentes já nessa altura entre as famílias. Ora, nós sabemos que no século IV, o imperador Constantino foi o primeiro imperador a converter-se ao cristianismo, transformou o cristianismo na religião oficial do Império Romano e na altura acabou com 300 anos de clandestinidade da religião cristã. Portanto, os cristãos, durante mais de 300 anos, viveram na clandestinidade.

E poderá ter adaptado os dois calendários, é isso?

Exatamente.

O romano e agora o católico?

Exatamente. Aquilo que Constantino terá feito, na altura, como modo de promover a religião cristã e como modo de promover a conversão dos romanos, do paganismo para o cristianismo, foi fazer coincidir a celebração do Natal, a celebração do nascimento de Jesus Cristo, com essa altura das festas pagãs, como forma de dar um novo significado àquele momento, que já era de festa para a sociedade romana, mas tornando a sociedade cristã, digamos assim, celebrando aquela data. E acredita-se que tenha sido no ano 336, que se celebrou pela primeira vez o nascimento de Jesus no dia 25 de dezembro.

E por falar em presentes, os Reis Magos fazem ou não fazem parte desta história, João Francisco?

Fazem parte. O evangelho de São Mateus fala de três magos do Oriente, que vieram guiados por uma estrela para visitar Jesus, que tinha nascido, e trouxeram presentes a Jesus: o ouro, o incenso e a mirra. Três elementos que tinham essencialmente um caráter simbólico. O ouro, porque representava a realeza de Cristo, era rei. O incenso, porque representava a divindade. E a mirra, que era o material usado para embalsamar os corpos, que representava a humanidade de Jesus. Portanto, era rei, era Deus e era homem, tudo ao mesmo tempo.

E é por causa dessa parte da lenda, da história Que nós hoje trocamos presentes ou é por causa daquelas festas dos romanos?

Associar os presentes aos Reis Magos é uma das explicações mais populares para hoje trocarmos presentes. Mas essa explicação viria depois a cruzar-se com as lendas em torno de São Nicolau, um bispo do século IV, que pode ter inspirado o Pai Natal, mas já falamos disso mais à frente.

Já voltamos à conversa com João Francisco Gomes, jornalista do Observador. Vamos tentar perceber como é que este lado sagrado do nascimento de Jesus convive também com o profano. Por exemplo, como é que surge no Natal este senhor idoso, barbudo e com excesso de peso? E ainda vamos contar uma história horrorosa que mete crianças e um talho.

Isto vai ser uma espécie de feed semanal em doses homeopáticas de música clássica que as pessoas não sabiam que precisavam.

Martim Sousa Tavares na Rádio Observador.

Ou uma viagem por baixo d'água num submarino super-rápido também funcionava.

Mas há ali um momento em que parece que o carro vai cair por uma ribanceira.

Sim, essa é a parte que o-

Sim, mas depois é salvo por um zeppelin.

As melhores notas da música clássica explicadas pelo jovem maestro.

Pode chamar-lhe canção.

E cantiga.

Cantiga, não.

Cantiga, não.

Se for de amigo, talvez. Se for de carne e mal dizer, diria que não.

Encontro com a beleza. Todas as segundas, na tarde em directo, depois das notícias das 17h30. Rádio Observador.

Basicamente, precisamos só de curiosidade e um par de ouvidos.

Aconteça o que acontecer. Estamos de regresso à conversa com o jornalista João Francisco Gomes sobre o Natal, sobre como celebramos Natividade. E João Francisco, é agora que nos contas a tal história horrível de umas crianças e de um talho?

Pode ser. É uma história que se centra numa figura chamada Nicolau. Era um bispo cristão daquela região que se chamava antigamente a Ásia Menor, que hoje situamos ali na Turquia, mais ou menos. E ele era um bispo conhecido por ser muito bondoso, muito amigo das pessoas, etc. Ora, há uma lenda que se conta, e estas lendas vêm já de tempos imemoriais, que nessa altura, nessa cidade onde ele era bispo, houve um período de muita fome. E um talhante, que já não tinha nada o que vender aos seus clientes, terá enganado três crianças para elas entrarem lá no talho dele e matou-as, colocou-as em salmoura e queria fazer fiambres com a carne das crianças.

Tu riste no meio desta história toda.

Rio-me porque a história tem um final feliz.

Pronto, estava com esperança.

O São Nicolau-

São Nicolau salva isto, não salva?

Sabendo disto, vai ao lugar onde estavam as crianças em salmoura, tira-as de lá, faz um milagre para as ressuscitar e salva-lhes a vida. E é por isso que São Nicolau é hoje pra Igreja Católica e pras confissões cristãs no geral, é considerado um dos santos padroeiros das crianças.

E se o bispo se chamava Nicolau, estamos aqui a chegar à figura do tal senhor idoso de barba farta e com barriga que indicia um excesso de gordura abdominal pouco aconselhável.

Sim, e eu acho é que é muito importante nós contarmos uma outra lenda em torno de São Nicolau pra percebermos como é que chegamos à figura do Pai Natal. Ainda na cidade onde ele era bispo, lá na moderna Turquia, conta-se que havia uma família muito pobre, um homem com três filhas. E o homem não tinha dinheiro para pagar o dote que as filhas precisavam para se casar e tinha muito medo que elas tivessem de recorrer à prostituição para poderem sustentar a sua vida. E o São Nicolau, sabendo disto, decide oferecer à família o dinheiro que as mulheres precisavam para o dote do casamento.

O presente.

O presente. Mas como é que o faz? Pela calada da noite, três noites seguidas, passa pela casa da família, abre a janela e deita lá pra dentro.

Não é pela chaminé.

Não pela chaminé, mas pela janela e deita lá pra dentro sacos com moedas de ouro. O pai, muito desconfiado, põe-se à janela na terceira noite a tentar perceber quem é que aparece pra lhe deitar moedas de ouro, vê o bispo e quer agradecer-lhe, mas o bispo faz-lhe logo prometer segredo quanto àquilo. E, portanto, acredita-se que esta generosidade humilde, pouco expressiva, pela calada da noite, esteja na origem depois das lendas que hoje conhecemos como o Pai Natal.

E como é que ele atravessa o Atlântico e depois nos aparece na publicidade norte-americana?

Essa é uma história muito interessante, porque nós sabemos, em primeiro lugar, que São Nicolau era bastante venerado pelos cristãos do primeiro milênio, um pouco por toda a Europa, e sabemos que a sua influência foi se desvanecendo na Europa Ocidental. Portanto, ele hoje tem uma grande importância nos ortodoxos, mas menos nos católicos, e desvaneceu-se ainda mais no mundo protestante, naturalmente, onde houve uma certa rejeição da ideia dos santos depois da reforma protestante, com uma exceção na Holanda O São Nicolau, que dava pelo nome de Sinterklaas.

Sinterklaas.

Talvez eu esteja a dizer de forma errada.

Estás a dizer bem.

Manteve-se com uma grande importância, era bastante venerado nos Países Baixos. E sabemos que os holandeses foram uns dos primeiros colonizadores dos Estados Unidos.

De uma chamada Nova Amsterdã.

Nova Amsterdã, o sítio onde hoje se situa Nova Iorque. E portanto, terão sido eles a levar essa devoção do Sinterklaas, que era essa figura generosa que dava presentes para os Estados Unidos. Isso foi muito útil dois séculos mais tarde, já durante o século XVIII e século XIX, quando os Estados Unidos começaram a industrializar-se bastante, começaram a enriquecer, as cidades começaram a depender menos do trabalho agrícola e mais do trabalho operário, e as elites norte-americanas precisavam de acabar, de certa maneira, com aqueles ritos de inverno, muito associados ainda aos ciclos agrícolas e que envolviam grandes festividades nas ruas, grande folia, grandes carnavais em dezembro, e que tinham medo que dessem origem a manifestações, protestos laborais, etc. E então acabou por se forjar um pouco, ao invés de uma festa popular nas ruas, uma festa mais caseira, centrada na família e nas crianças. E é aí que se vai recuperar essa figura antiga trazida pelos holandeses, esse Santa Claus, que entretanto tinha ganho o nome americano, que ficou conhecido como a figura lendária que daria os presentes às crianças, mas que os pais naturalmente tinham de comprar numa sociedade que estava a alimentar-se.

E que vive na Lapónia.

Exatamente, e que vive na Lapónia. Acho que é importante acrescentar este detalhe. Na década de 30, a publicidade da Coca-Cola acabou por capitalizar a imagem do São Nicolau e aquelas ilustrações que surgiram nesses pôsters publicitários dos anos 30 acabaram por fixar a imagem. A imagem que nós temos hoje do Pai Natal é dessas publicidades.

Ho ho ho, merry Christmas! João Francisco, também temos de falar da árvore, e esta árvore não é de plástico.

Não, a árvore de Natal, a que eu tenho em casa é de plástico.

A minha também.

A árvore original não era de todo de plástico. E tal como o Pai Natal, há uma série de lendas em torno de como apareceu a árvore de Natal que usamos hoje. Uma delas, a mais antiga, diz respeito, por exemplo, a São Bonifácio. São Bonifácio, creio que no século VIII, não tenho a certeza agora, teria salvo uma pessoa que ia ser sacrificada debaixo de uma árvore. E como é que ele salvou a pessoa? Cortou a árvore. E por ter salvado uma vida nesse lugar, no sítio em que estava essa árvore, nasceu um pinheiro com aquela forma cônica e que representaria, portanto, a ação de Jesus Cristo no mundo. Essa é uma das lendas associada. Outra lenda, por exemplo, fala de Martinho Lutero, grande reformador do século XVI, alemão, que teria sido ele a criar a primeira árvore decorada, depois de ter dado um passeio pela floresta durante o inverno, ter olhado para os pinheiros, com as estrelas a brilhar lá no fundo por entre os pinheiros, e achou aquilo tão maravilhoso que pensou: "A minha família também tem de ver este espetáculo maravilhoso". E então cortou um pinheiro, levou-o para casa e pôs-lhe umas velinhas acesas para dar a ideia que eram as estrelas. Enfim, há várias histórias, nós não sabemos a veracidade de nenhuma delas, mas a explicação mais provável está relacionada com algo que acontecia ainda durante a Idade Média, na Alemanha, no lugar onde hoje se situa a moderna Alemanha. Num lugar em que havia uma peça de teatro medieval muito conhecida sobre a história de Adão e Eva, a história da fundação da humanidade, segundo a Bíblia. E como imaginas, um dos adereços principais de uma peça de teatro sobre Adão e Eva era uma árvore carregada de maçãs. Ora, sabemos também que durante a Idade Média, em vários países da Europa, o dia 24 de dezembro era conhecido como o Dia de Adão e Eva. Era o dia em que imediatamente antes de se celebrar o nascimento de Jesus, que triunfou sobre o mal e que, no fundo, reverteu aquela negação inicial de Deus feita por Adão e Eva. Antes desse dia, celebrava-se esse momento em que Adão e Eva vieram à Terra, em que negaram Deus e em que no fundo abriram este caminho que terminaria na redenção.

É incrível esse simbolismo de um dia a seguir ao outro.

Exatamente. E era bastante importante que fosse no dia antes, porque era o dia em que se preparava, de facto, esse caminho da redenção. Ora, a popularidade dessa peça de teatro, associada a esta celebração, Dia de Adão e Eva, no dia 24 de dezembro, levou muitas pessoas, inicialmente ali na região sul da Alemanha, a levar uma árvore para casa no dia 24 de dezembro, porque associavam à tal peça de teatro que circulava e que era bastante comum. E portanto, terá sido aí que se começou a disseminar a ideia de usar uma árvore que depois era decorada com maçãs, aquelas bolas vermelhas que nós ainda hoje pomos nas árvores, mas também com velas, também muitas vezes com biscoitos e bolachas, que depois simbolizavam Jesus Cristo na hóstia, que os católicos consagram na missa. Portanto, começou a popularizar-se essa tradição, inicialmente na Alemanha, antes de disseminar por outros países.

E há um pormenor muito interessante sobre a forma como se espalhou a árvore de Natal um pouco por todo o mundo, pela Europa. Por cá, terá sido pela mão de Dom Fernando II, conta-se esta história, que nasceu em Viena, era o marido da rainha Dona Maria II e que terá trazido essa tradição da árvore nórdica para o Palácio da Pena, em Sintra, para mostrar aos filhos. Ora, Dom Fernando II era primo de Alberto, o marido da rainha Vitória de Inglaterra, que é um casal que tem particular culpa nesta coisa da árvore de Natal. Conta-nos lá essa parte da história.

Exatamente. Esse príncipe Alberto, que viajou para o Reino Unido para se casar com a rainha Vitória, acabou por levar a tradição, do mesmo modo que Dom Fernando, da árvore de Natal, que entretanto muito disseminada naquela região da Alemanha do Sul, Áustria, etc, levou-a para o Reino Unido. E em 1848, na revista Illustrated London News, saiu uma gravura que mostrava a rainha Vitória e o príncipe Alberto junto a um pinheiro decorado com presentes embaixo, com velas, com bolas, etc, no Castelo de Windsor. E essa imagem circulou de tal maneira, quer na imprensa no Reino Unido, mas também viajou para os Estados Unidos, e acabou por popularizar de tal modo a árvore de Natal, que a partir daí se tornou um dos símbolos mais reconhecidos do Natal.

A rainha Vitória e o príncipe Alberto foram uma espécie de influencers a disseminar esta ideia da árvore de Natal.

Exatamente. Foram os primeiros a mostrar ao mundo a sua própria árvore de Natal.

Eu estou encantado com esta conversa, João, e queria ir por milhares de pistas que estás a deixar aí, mas o tempo está a contar e eu queria também falar ainda de comida, porque já falámos dela, dos banquetes. E falávamos precisamente dessa evolução na celebração do Natal e do calendário católico estar muito ligado também àquilo que comemos e quando comemos. Como é que o bacalhau aparece aqui nesta história do Natal?

Novamente, é preciso voltar à Idade Média, um período em que a Europa estava sob uma influência muito grande da Igreja Católica e dos preceitos da Igreja Católica sobre a sociedade, sobre os reis dos vários territórios europeus. Portugal não era exceção. E de facto, aquilo que nós sabemos sobre a lei da Igreja Católica até, no fundo, 1983.

83?

83. Foi quando o Código de Direito Canônico atual entrou em vigor, substituindo o Código de Direito Canônico anterior, que datava de 1917. E esse código de 1917 é muito importante pra nós conhecermos a tradição da lei da Igreja durante 2000 anos. Por quê? Porque foi o primeiro a ser feito. E foi feito depois do Vaticano decidir que era preciso olhar pra toda a documentação que foi publicada ao longo de 2000 anos por papas, bispos, concílios, etc, coisas completamente dispersas.

E reuni-la num código.

Reuni-la e fazer um único corpo legal pra Igreja. E quando vamos ler esse código antigo, descobrimos uma coisa muito interessante: é que aquela prática do jejum e abstinência que hoje conhecemos e que associamos essencialmente à Quaresma e às sextas-feiras, antes desta nova versão do Código de Direito Canônico, era obrigatória para uma série de dias do ano, incluindo, que é o que nos interessa aqui, a véspera de Natal.

Faz sentido.

O dia 24 de dezembro, o dia em que era obrigatório o jejum e abstinência e era obrigatório, portanto, guardar o jejum e a abstinência até à meia-noite.

O jejum e abstinência é não comer carne e não comer mais nada?

Jejum e abstinência são dois conceitos diferentes que andam às vezes em paralelo, outras vezes não. Portanto, o jejum é uma prática da Igreja de não comer nada e que atualmente está aligeirada para comer uma única refeição no dia. A abstinência é não comer carne. Há dias em que é obrigatório apenas o jejum, há dias em que é obrigatório o jejum e a abstinência, há dias em que é obrigatório apenas a abstinência. No caso da véspera de Natal, era obrigatório jejum e abstinência até ao último direito canônico e, portanto, as pessoas, na verdade, não podiam comer aquilo que era a refeição mais nobre, mais festiva, que habitualmente era associada a um grande banquete, que era a carne, grandes animais assados, etc. E portanto, é nessa altura, na Idade Média, que em busca de uma alternativa que permitisse, por um lado, fazer uma refeição farta, grande, etc, com a família e amigos, mas, por outro lado, permitisse também cumprir o preceito do jejum e abstinência, que se começou a popularizar o bacalhau. Bacalhau por quê? Porque era um peixe seco, que era conservado em sal, que podia ser pescado noutras alturas do ano e conservado. E em dezembro é uma altura muito difícil pra pesca, portanto, era muito difícil arranjar peixe fresco e, portanto, o peixe seco conservado em sal permitia que toda a população portuguesa pudesse ter ali uma refeição digna, mas cumprindo o preceito do jejum e abstinência. É daí que ainda hoje comemos bacalhau, já completamente numa tradição secularizada.

Claro.

Até porque o bacalhau, na altura, foi uma prática gastronômica que entrou pela via dos cidadãos mais pobres, porque de fato era acessível, e hoje comprar o bacalhau na altura do Natal começa já a ser complicado, mas sabemos que começou Justamente para cumprir o jejum e a abstinência da Igreja.

João, já percebemos que há "n" histórias e factos também nesta história do Natal e que todas elas influenciam a forma como hoje vivemos e celebramos o Natal. Sabemos que há um lado de lenda em tudo isto que não é real, porém isso não nos impede de sentir esta época de uma forma muito especial. Pelo menos aqui em Portugal ainda vai sendo assim. Mas já deixou de ser uma festa católica pura e dura?

Está nesse caminho. De facto, as tradições natalícias, hoje, nós olhamos para elas e é como dizias, é muito difícil destrinçar o que é lenda e o que é facto. A maioria destas tradições resultam de um misto entre lendas e alguns factos, mas hoje em dia elas estão completamente enraizadas e ao mesmo tempo completamente secularizadas. Nós pensamos na troca de presentes, nós pensamos na árvore de Natal, pensamos no bacalhau, pensamos no Pai Natal, pensamos numa série de coisas e já não pensamos, muitas vezes, nem no nascimento de Jesus Cristo enquanto momento fundador desta festa, nem nas tradições da Igreja Católica que deram origem a estas práticas todas. Por exemplo, há estudos nos Estados Unidos que mostram como uma grande percentagem da população, mais de um terço, já não celebra o Natal de um modo religioso, embora os Estados Unidos sejam um país marcado por uma grande matriz cristã, não necessariamente católica, mas muito cristã. Nós em Portugal não temos dados desse género, inquéritos sobre o modo como se celebra o Natal, mas temos sim dados que nos mostram um país cada vez menos empenhado na vivência da religião. Por exemplo, os últimos censos dizem-nos que 80% da população se identifica como católica. Mas um estudo feito em 2019 sobre as práticas religiosas aqui na área metropolitana de Lisboa, diz-nos que apenas 13% dos católicos vão à missa todas as semanas. Esta diferença entre 80% da população católica e 13% ir à missa todas as semanas mostra como uma grande percentagem da população católica, que é a maioria do país, já está muito desligada daquilo que é a prática das tradições, dos ritos da Igreja Católica. E o Natal, no fundo, enquanto época completamente secularizada ou em grande parte secularizada, como tempo de pausa dedicado à família, às crianças, etc, está, de facto, a tornar-se numa festividade já bastante distante das suas origens católicas.

Obrigado, João.

Obrigado.

E feliz Natal.

Igualmente.

João Francisco Gomes é jornalista do Observador e habitualmente acompanha temas relacionados com a religião. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida. Sim, estes guizos foram aqui postos pelo Bernardo. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Feliz Natal!