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Esta é a história do dia: as crianças desenham pais com roupa verde e perguntam às mães "Os russos também nos vêm atacar?"
A Europa respondeu bem, mas deve responder com mais força porque o Putin demonstrou que é um homem em quem não se pode confiar e do qual tudo se pode esperar. E tudo do pior.
A opinião de Ramalho Eanes, general e antigo presidente da República, ontem à tarde, em Lisboa.
Se seria conveniente ver se não se poderia ir mais longe. Eu julgo que se poderia ter ido mais longe.
Algumas horas antes desta declaração, Volodymyr Zelensky era aplaudido de pé no Parlamento britânico. Slava velykıy Ukraini! Slava velyküy Brytanii! Dyakuyu. Durante estas quase duas semanas de guerra, os enviados especiais d'O Observador à Ucrânia viram bem de perto o desespero de quem tenta sair do país. Hoje vou conversar com a jornalista Cátia Bruno sobre o que viu nos últimos dias na zona oeste da Ucrânia e como foi conviver durante algumas horas com duas crianças que tentam compreender o que se está a passar. Bem-vinda, Cátia Bruno.
Olá, Ricardo.
Onde estás?
Eu estou numa pequena cidade da Eslováquia chamada Kaluža, que fica perto de um grande lago e que fica não muito longe da cidade ucraniana de Ozhhorod, que é uma grande cidade por onde têm entrado muitos refugiados aqui na Eslováquia.
Ou seja, vocês saíram de Lviv, tu e o João Porfírio. A última vez que conversamos aqui na História do Dia ainda estavam na Ucrânia. Quanto tempo demorou essa viagem? Quantos quilómetros percorreram?
Demoramos mais do que um dia. Paramos para dormir pelo caminho e ao todo percorremos mais de 600 km num percurso que foi de Lviv até Ivano-Frankivsk, que é uma cidade mais no sul da zona ocidental da Ucrânia. Depois atravessamos a fronteira da Hungria e depois viemos para a Eslováquia, pra esta zona perto da fronteira entre a Eslováquia e a Ucrânia.
E como é que correu a viagem? Foi tranquila? Há muitos checkpoints?
Foi relativamente tranquila. A maioria dos checkpoints que nós apanhamos estavam sobretudo concentrados à volta da cidade de Lviv, por ser uma cidade maior e portanto está com mais defesas montadas, digamos, e por isso, para sair tivemos que passar por alguns checkpoints. Depois, na chegada a Ivano-Frankivsk, tudo muito mais calmo. É uma cidade só com 200 mil habitantes e, portanto, não há tanta preparação para eventuais ataques terrestres. Quando partimos para a Hungria, é uma zona que está muito longe das zonas de conflito armado neste momento e por isso não vimos grande aparato, embora tenhamos passado por uma zona de montanha nos Cárpatos, onde nevou intensamente, aí sim encontrámos um checkpoint muito apertado, que demoramos duas horas a atravessar em pára-arranca e cada carro estava a ser visto ao pormenor, bagagem revistada, todas as pessoas identificadas. Mas passado esse ponto seguimos rapidamente até à zona da fronteira e mesmo a parte de atravessar a fronteira para a Hungria foi relativamente rápida. Também não por acaso escolhemos este ponto de fronteira por ser um dos mais pequenos e um dos que tem menos movimento nesta altura.
E nesse checkpoint, nessa revista pormenorizada que descrevias, isso é feito por militares, por polícias ou são milícias?
Este em concreto era feito por militares. Nós apanhamos vários checkpoints, sobretudo em volta das cidades, que são feitos por civis armados. Neste caso, e por ser um checkpoint, de facto, mais apertado, fomos revistados por militares e havia uma grande presença de militares e de polícias armados de forma bastante ostensiva naquele ponto e como era uma estrada única,não havia maneira de alguém passar sem passar por essa revista para poder seguir em direção à zona de fronteira com a Hungria. Mas devo dizer que apesar dessa revista apertada foram bastante simpáticos conosco, não tivemos qualquer problema em conseguir passar.
Ao contrário do que está a acontecer noutras zonas da Ucrânia e pela tua descrição, ainda se consegue circular por aí, pela zona Oeste da Ucrânia, com algum grau de segurança e tranquilidade.
Sim, claro que as zonas de checkpoints são sempre zonas com alguma tensão, mas a maior tensão que notamos nesta zona Ocidental da Ucrânia está muito relacionada com a identificação das pessoas. Todo este receio de que haja russos ou pró-russos infiltrados para tentar recolher informação, aqueles chamados sabotadores aqui, e portanto o maior controlo está muito relacionado com documentação. O mais importante é as pessoas provarem que são quem dizem ser. No nosso caso em particular,com passaportes de um país da União Europeia,essa tarefa fica mais facilitada
Através do teu trabalho, Cátia Bruno e do João Perfílio, tivemos um vislumbre daquilo que é o desespero de quem tenta sair da Ucrânia, nomeadamente através da estação de comboios de Lviv com destino à Polónia. Nessa zona já passaram pela fronteira da Hungria e estão agora na Eslováquia. Também há muitos refugiados por aí nessa rota?
Sim, sobretudo a rota em direção à Eslováquia. No caso da Hungria, pelo menos no ponto de fronteira onde nós passamos, era evidente que não havia a mesma quantidade de pessoas que existe, por exemplo, para sair pela fronteira com a Polônia, mas havia também muitos refugiados a pé. Muitas pessoas escolhiam aquele ponto por ser um dos poucos onde é possível atravessar a fronteira a pé e portanto via-se muitas famílias a fazerem essa travessia a pé, mas ainda em números mais controlados. No caso da Eslováquia, hoje estivemos num dos principais postos de fronteira entre a Eslováquia e a Ucrânia, tal que fica perto de Ózvarod, e aí sim, há uma massa constante de gente a chegar, há toda uma infraestrutura já montada com organizações no terreno, voluntários, onde as pessoas podem ter um sítio quente donde se abrigar, comer, ser assistidos pela Cruz Vermelha, há até apoio pra questões como, por exemplo, dar chips aos animais domésticos, para que possam circular à vontade em território europeu. Há toda uma infraestrutura montada para receber esta enorme quantidade de pessoas que têm chegado em direção à Eslováquia e que é também particularmente acentuada aqui porque há alguns laços entre esta zona da Eslováquia e algumas pessoas na Ucrânia. Há uma comunidade ucraniana forte nesta zona norte da Eslováquia e, portanto, é natural que seja um ponto escolhido por alguns que têm esses laços e que acabam por entrar por aqui e outros que escolhem entrar por aqui para fugir à fronteira com a Polônia, que tem estado mais sobrecarregada ao longo dos últimos dias.
Explicavas há pouco, Cátia Bruno, que dormiram uma noite nesse percurso de mais de 600 km, que tiveram de fazer em dois dias. Duas noites?
Na verdade, dormimos duas noites. Sim. Uma ainda na Ucrânia, outra na Hungria.
E onde é que dormiram na Ucrânia?
Dormimos em Ivano-Frankivsk, cidade mais a sul, na casa de uma família, ainda não refugiadas, mas pelo menos deslocadas, uma família de Kiev, que muito amavelmente nos abriram as portas e partilhou conosco toda uma tarde, uma noite, uma manhã. Serviram-nos refeições, divertiram-nos e eles próprios diziam que para eles esta também era uma situação positiva, porque servia até para se distraírem um pouco da realidade que têm vivido nos últimos dias, desde que foram obrigados a abandonar a sua casa em Kiev e refugiaram-se na casa dos pais, neste caso da mulher, em Ivano-Frankivsk.
E eram quantas pessoas, Cátia?
Eram sete pessoas naquela casa, o casal dono da casa, a Maria e o Mikhail, na casa dos 60 anos, os dois têm 64 anos. O casal que fugiu de Kiev e que são a filha destes dois ucranianos e o genro, a Svetlana e o Nikolai. Os filhos deste casal, a terceira geração, de seis e dois anos, o Sasha e a Oriana, e ainda o irmão da Svetlana, que ainda vive com os pais, o Oleg. A que se juntaram estes dois jornalistas portugueses.
E o que essa família vai fazer? Vão ficar todos juntos em casa? Qual é o plano deles?
Eles ainda não têm a situação completamente fechada, mas aquilo que estão a ponderar fazer é que a Svetlana e os dois filhos menores partam para a Alemanha, onde vive a irmã do Mikolaj, que está pronta para os receber e que os tem todos os dias chateado com mensagens a perguntar quando é que vêm. Mas a Svetlana está muito reticente, diz que não quer abandonar o país dela, não tem grande vontade de separar do marido, mas ele insiste muito para que ela e os filhos partam em segurança pra Alemanha e provavelmente é isso que eles vão fazer nos próximos dias, e o Nikolay vai ficar para trás com os sogros.
Como é que as crianças reagem a esta situação? Nós aqui em Portugal temos vários programas e artigos sobre como explicar a guerra às crianças, aqui em Portugal. Aí essas crianças com quem tiveste a oportunidade de conviver, como elas reagem?
À primeira vista parecem crianças normais, brincam, desenham, dançam muito. O Sacha e a Oriana dançavam muito.
Alguma música em particular?
Por acaso uma música em particular. É uma música que um vocalista de uma banda ucraniana, que são os Boombox, gravou e que é um vídeo que publicou nas redes sociais. Que é uma música de folclore ucraniano muito antiga, que ele filmou a cantar na linha da frente em Kiev e depois foi feito um remix por um outro artista ucraniano, que juntou a esse vídeo o som de instrumentos e que já se tornou um hit na Ucrânia. E o Sasha e a Oriana adoravam dançar esta música e gritar a plenos pulmões esta canção tradicional do folclore ucraniano.
E como é que reagem em relação à guerra
Como eu dizia, aparentemente eles estão bem e parecem crianças absolutamente normais. Mas quando começamos a falar, sobretudo com a mãe, ela começa a contar-nos que eles fazem muitas perguntas sobre quando é que vão voltar a ver os amigos da escola, cuando é que vão voltar a ver a professora, quando é que vão voltar à casa deles. E eu perguntei à Svetlana o que é que ela lhes respondia quando eles faziam estas perguntas. E aquilo que ela disse foi: "Eu respondo sempre a verdade, só que é uma verdade aligeirada." Também se percebe, não só pelas perguntas deles, mas percebe-se que isto os afeta noutros gestos mais pequenos. Por exemplo, pouco tempo depois de nós chegarmos à casa desta família, o Sasha estava a desenhar. Ele gosta muito de desenhar, tem ali uma veia artística muito forte, e aquilo que ele decidiu desenhar foi precisamente uma estação de comboios. Depois desenhou um homem no meio dessa estação de comboios e eu perguntei-lhe que homem era aquele, e ele disse: "É o meu pai". Depois ele começou a pintar o desenho e pintou o pai de verde. Eu perguntei porquê e ele disse que era porque era a cor dos camuflados militares. Portanto, é como se o Sasha expressasse no desenho aquilo que ele sabe que pode acontecer, que é o pai poder ter de ir combater e ter de haver uma despedida, provavelmente numa estação de comboios, como ele tem visto nas notícias tão frequentemente. A própria Svetlana partilhou connosco que foi a reação dos filhos que fez com que o casal tomasse a decisão de sair de Kiev. Eles estavam dispostos a ficar, nem que fosse no abrigo do prédio onde viviam, mas quando os bombardeamentos começaram, o Sasha e a Oriana tiveram tanto medo e reagiram de uma forma tão aflita, que os pais perante a reação deles acharam que deviam tentar sair para os proteger daquilo, porque não os queriam ver assim. E a Svetlana contava que entre as várias perguntas que eles lhe faziam ao longo desses dias em que estavam a tentar sair de Kiev, uma que repetiam insistentemente era: "Mãe, os russos também nos vão atacar a nós?".
Obrigado, Cátia Bruno.
Obrigada eu, Ricardo.
Continuamos a acompanhar o trabalho dos enviados especiais do Observador à Ucrânia, Cátia Bruno e João Porfírio, no jornal e na rádio. A redação do Observador continua mobilizada a acompanhar ao minuto as notícias que fazem estes dias de incerteza. Esta foi a história do dia. A música é do João Ribeiro, a sonoplastia do Diogo Casinha. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.