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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o anel de noivado ainda vale, e muito?
"Siempre están con la bromita de la boda, y la boda ¿pa cuándo? En qué momento Jennifer Lopez sacó esa canción del anillo ¿pa cuándo? Que anda que no me la han cantado. Y bueno, es que es algo que no depende de mí. ¿Y el anillo pa cuándo? ¿Y el anillo pa cuándo?"
Na série da Netflix, "E eu sou a Georgina", a namorada de Cristiano Ronaldo diz que ao ouvir Jennifer Lopez cantar "El Anillo", lhe despertou o desejo. É uma das notícias da semana, o anel de noivado que Ronaldo deu a Georgina, ocasião perfeita para falar de um objeto que para uns já não faz sentido, para outros é um desperdício, mas que para muitos não só faz sentido como é obrigatório. Uma coisa é certa: não se fala de outra coisa. E sim, é sobre o anel de noivado, sobre diamantes, que vou conversar com Maria Ramos Silva, editora de lifestyle do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de quarta-feira, 13 de agosto. Bem-vinda, Maria.
Olá, Ricardo.
Maria, estamos a ter esta conversa porque um dos assuntos desta semana é o anúncio do pedido de casamento de Georgina Rodríguez. Cristiano Ronaldo ofereceu o anel com uma pedra-
Vistosa
...bem robusta, para não dizer outra coisa. Maria, já sabemos que o casamento por amor, com vestido de noiva branco, é uma coisa um pouco recente na história da humanidade. De onde vem isto do anel de noivado?
Não seria bem um anel de noivado, mas há registros antes de Cristo até do uso de várias soluções que evocam esta ligação afetiva. Porque é disso que estamos a falar. Consta que na pré-história, já os nossos antepassados das cavernas entrançavam os pulsos, os tornozelos e cinturão, provavelmente não com diamantes, como é óbvio, com materiais mais modestos, mas era uma forma de mostrarem esse controle sobre o companheiro, digamos assim.
Uma ligação.
Exato. Mais ou menos forçada. Depois, nunca saberemos. E sabemos que os antigos egípcios também eram enterrados usando, entre uma série de outras coisas, anéis feitos de diferentes materiais. E estas peças, é muito curioso, porque já seriam colocadas no dedo anelar, que é uma tradição que se mantém até hoje. Portanto, acredita-se que esteja ligado ao coração, através da famosa veia amoris ou veia do amor, e mantém-se como um símbolo romântico, que se irá seguir com as civilizações gregas e as romanas, e que foram explorando outros materiais entretanto, porque as coisas também foram evoluindo. Já agora, Ricardo, só para ficarmos aqui bem entendidos, no grande dia em que se coloca a aliança, no dia do casamento, este anel não deve estar lá, obviamente.
O anel do noivado, não.
O anel do noivado já não está, salta entretanto, faz uma pausa, depois pode recuperar o seu lugar mais tarde, normalmente ali acomodado junto à aliança, ou então na outra mão, porque isto depois varia muito, já há uma grande fluidez aqui nestas coisas.
São os dois no mesmo dedo.
Podem ser.
Mas como tudo na vida, Maria, a tradição também vai evoluindo e temos de falar dos diamantes.
Dos diamantes.
O diamante é aqui uma peça essencial.
É, o diamante é, pela sua consistência, pela sua característica chave, um símbolo de durabilidade ou mesmo de eternidade. Eles muitas vezes duram mais que os próprios casamentos. É como sabemos.
São os diamantes, são eternos.
São eternos. É muito curioso, porque nós temos uma dupla aliança numa das histórias originais. Em 1477, o arquiduque Maximiliano da Áustria terá oferecido aquilo que é considerado o primeiro anel de noivado com um diamante, a Maria de Borgonha. Isto foi uma união que não foi tanto uma história de amor, mas antes uma decisão estratégica.
Como tantas outras.
Sim, e com grande impacto na história da Europa. O casamento gerou, vê bem, uma guerra ou duas. Serviu para travar o apetite do rei francês, Luiz XI, para estabelecer o próprio Maximiliano como um príncipe independente, que se tornou o sacro imperador romano-germânico. Também para que vários territórios, incluindo os Países Baixos, seguissem para o domínio dos Habsburgos e ainda para que a Espanha pudesse entrar na dinastia. Portanto, tudo isto com uma simples união. Vê bem, nós temos de continuar.
Por um anel.
Por um anel, é verdade.
Bom, e não é a nossa intenção destruir sonhos, não é para isso que cá estamos.
Não, até porque esta senhora acabou muito mal, poucos anos depois, como a queda de cavalo. Portanto, vamos arrumar essa parte.
Mas eu diria que, olhando para aqui com sentido muito prático, porque também há um lado prático da vida, aqui não se vão os anéis e ficam os dedos, aqui o noivo pode ir à vida dele e fica o diamante?
Isto depende do momento em que vai a vida dele.
Essa pausa dramática.
Não, porque a realidade já é muito dinâmica para cada casal, há o seu conjunto de decisões e de regras e tudo mais. Mas se o noivado ficar a pelo caminho, ou seja, se o casamento for cancelado entretanto, eu diria que é de bom tom devolver o anel à procedência. Até porque normalmente as pessoas não querem ficar com uma coisa que de alguma forma simboliza uma relação que fica pelo caminho. Até porque o anel de noivado-
Depende da pedra.
Pronto, lá está. Mas normalmente é dado sob a condição de que o casamento aconteça. Portanto, com algum propósito. Mas claro, também há casos em que o destinatário oferece mais resistência na devolução, por exemplo. Mas atenção, porque há um direito de restituição em causa e quem deu o anel pode ter o direito, de facto, de o pedir de volta e isto gerar alguma litigância mais complicada, sobretudo se estamos a falar de valores-
Avultados, claro.
Avultados. Em caso de divórcio, sim, eu diria que há todo um outro mercado para vender o outrora anel de noivado, e não é uma coisa assim tão incomum, e eventualmente rentabilizar esse desgosto, ou nem por isso, simplesmente rentabilizar uma coisa que já não faz sentido conservar em casa. Ou no dedo.
E aqui até confesso que tenho algum medo da tua resposta, mas há algum protocolo para o preço do anel de noivado?
Lá está, como em tudo, cada caso é um caso. Mas há uma regra não escrita que é muito curiosa e que se convencionou há cerca de um século, muito devido ao marketing, obviamente, mas que sobrevive até hoje, de alguma forma. Nos anos 30, em plena recessão, a De Beers, que é uma marca especialista até hoje no fornecimento, no comércio de diamantes, lançou uma publicidade que fez uma escola enorme nos Estados Unidos e não só. Eles queriam enfatizar o valor do diamante, subir as vendas. Defendiam que, idealmente, os senhores deviam gastar um mês de salário quando se comprasse o anel de noivado. Era uma espécie de slogan, um salário pra vida. Portanto, sabia-se que estava investido ali, que ia durar.
Um mês de salário bruto ou líquido?
Ora, não sei. Não consigo especificar. Mas pronto, arredondemos a coisa.
Vamos assumir que é líquido.
Vamos assumir, para ser mais conveniente. O que é certo é que em poucos anos a bitola foi subindo, parece que a inflação também chegou aqui aos anéis e aos diamantes, e chegamos aos dois salários, ou mesmo ao equivalente a três salários.
Três salários?
Sim, portanto, imagina, num exercício, se tu recebes € 1000, deverias gastar € 3000 no anel que vais oferecer. É assim, umas contas redondas. Eu diria que o Cristiano Ronaldo não deve ter problemas com estes números, provavelmente até ficou a pecar por defeito nesta sua oferta.
Já regressamos à conversa com Maria Ramos Silva, editora de lifestyle do Observador. Quanto valerá o anel de Georgina? Estamos de regresso à conversa com Maria Ramos Silva, editora de lifestyle do Observador. Maria, quanto deste imaginário, já aí deixaste uma pista importante, deste imaginário em torno do anel de noivado, do diamante, tudo isto não tem um bocadinho de Pai Natal vestido vermelho? Pai Natal vestido de vermelho é resultado de uma conhecida campanha de uma marca muito conhecida de refrigerante. Ou seja, há aqui uma espécie de criação das marcas?
Adoraria que tivesse alguma razão, Ricardo. Sim, é importante lembrar que a indústria ganha um impulso decisivo com a descoberta e corrida aos diamantes na África do Sul, no final do século XIX ainda. Um desses grandes investidores é o Cecil Rhodes, ele é um dos fundadores da tal De Beers. Já havia mais players no mercado, eles vão surgindo nesta altura e quando em 1852, o diamante Koh-i-Noor, depois tornou-se muito famosa esta peça, foi recortado, embelezado na coroa da Rainha Vitória, aquilo foi uma loucura. Mas convém lembrar que até aos anos 30 do século XX, sensivelmente, oferecer um anel de noivado com diamante não era uma prática corrente, digamos assim.
Se ainda hoje está reservado a alguns, imagina naquela altura.
Aliás, nós falámos daquela aliança europeia no século XV, mas de facto os diamantes, mesmo naquela altura, eram uma raridade ao alcance de uma pequena elite e nobreza. A publicidade e a cultura pop do pós-Segunda Guerra fazem toda a diferença. Em 1947, é muito engraçado, porque para ajudar à festa, há uma copywriter, que é uma senhora chamada Mary Jerity, que cria o famoso slogan "A diamond is forever". Um diamante é para sempre, que muito provavelmente terá inspirado o filme do James Bond, o famoso tema também, o "Diamonds Are Forever". E depois temos o célebre "Breakfast at Tiffany's", com Audrey Hepburn num papel lendário, falamos mais uma vez dos diamantes.
Em que ela se passeia pela loja Tiffany's, respirando e olhando para diamantes bem vistosos. E aqui temos de entrar nos modelos de anel de noivado, porque também, obviamente, há modelos e o mais clássico será o solitário?
Sim, e nós falámos da Tiffany & Co, e é precisamente a Tiffany que introduz ainda em 1886, aquele que é conhecido como o Tiffany Setting, é o modelo icônico do solitário, que prevalece até hoje como uma referência para uma série de outras criações. Mas em termos de características, hoje nós podemos dizer que o céu é o limite, até porque as modas vão variando, as coisas vão ficando muito mais flexíveis e nós até temos os diamantes sintéticos, portanto, poderíamos ordenar aqui todas estas sugestões. Há anéis que vivem do ouro branco, da platina, ou mesmo do ouro amarelo. Há quem prefira as pedras pavê, as halo, a forma mais em pera, mais ovaladas, mais discretos, grandes exemplares, joalheiros clássicos como a Van Cleef, a Chopard, a Harry Winston, ou até os micro joalheiros independentes, com quem é possível hoje, por exemplo, participar do processo de confecção do princípio ao fim, envolvendo até as duas partes. É muito interessante, portanto, Ricardo, absolutamente, incluindo os preços, obviamente.
Claro. E em França, a Cartier também tem um modelo.
Tem aqui uma tradição com uma criação especial.
O Trinity?
O Trinity, sim. É outro modelo icônico. É muito interessante, foi criado para um casal no masculino. Em 1918, a Cartier lançou este Trinity.
Em 1918?
18. Com três aros entrelaçados com ouro branco, rosa e amarelo. Eles representam o amor, a amizade e a fidelidade. E foi uma peça criada para um artista lendário, o Jean Cocteau, que ofereceu o anel ao seu amor, o poeta Raymond Radiguet. Portanto, é aqui também outra criação que sobrevive até hoje e que é muito interessante.
E nos primeiros anos do século XX. E temos, obviamente, na história, N casais famosos com anéis famosos, e alguns deles até se podia comprar uma réplica.
É verdade. Há mais um modelo que sobrevive até hoje, desde 1796, que é o Toi et Moi. Ele foi oferecido pelo Napoleão Bonaparte à Josefina. Eles tiveram um namoro relâmpago de cinco meses. E depois o Napoleão encomenda este projeto, que é outra coisa minimalista, com duas pedras lado a lado, em forma de pera, um diamante e uma safira azul. E é muito engraçado, porque por falar em safira, esta sim, bem popular, quem é que não se lembra do anel de noivado que o então príncipe Carlos deu à jovem Diana em 1981, que quebrou todas as convenções reais também. Era uma peça que era acentuada por 14 diamantes redondos, cravejados, ouro branco. E Ricardo, nesse mesmo ano, o anel foi apresentado no catálogo da joalheira Garrard, também uma Conhecida joalheira. O que significa que o público poderia comprar uma versão similar ao anel da Diana para o seu próprio casamento.
Podia ter um anel de noivado igual ao da princesa.
Ou então podia ser a Kate Middleton, porque após a morte de Diana, o anel saiu de circulação, deixou de ser visto em público, por razões óbvias, até que o seu filho mais velho, o príncipe William, usou a peça para pedir a Kate em casamento em outubro de 2010.
Deixa-me só fazer aqui um parêntesis. É possível também oferecer o anel de noivado da família.
Sim, de joias de passagem. Aquelas que são conhecidas como joias de passagem, que vêm de uma geração para outra e que compõem precisamente este propósito. Também há quem recicle. Há quem pegue em algumas peças, as desmonte, use uma outra pedra. E que depois crie uma coisa mais ajustada àquele que é o seu tempo e o seu gosto.
Mas estamos a falar de estrelas e há uma estrela, Maria, que ficou noiva 10 vezes e casou oito. Elizabeth Taylor teve 10 anéis de noivado ou não?
A Elizabeth Taylor, de facto, é dela que falamos, é uma mulher de muitos talentos, muitos anéis de noivado, é verdade. Mas o mais interessante é que na sua enorme coleção de joias, as peças que fizeram mais história, mais valiosas, não foram os anéis de noivado. Eu penso que o Richard Burton, com quem se casou duas vezes, nem chega a dar exatamente o anel de noivado. Há uma outra peça, uma pregadeira. Mas uma das criações mais impressionantes que ela tinha era o diamante Krupp, 33 quilates, que foi oferecido em 69 precisamente por Richard Burton, e que em 2011, quando foi a leilão, atingiu cerca de $9 milhões.
Nove milhões de dólares. O que é certo é que em tempo de redes sociais, em que as pessoas partilham tudo e mais alguma coisa, se vão almoçar um simples bitoque, põe uma fotografia do bitoque, se vão a um restaurante estrelado, põem a espuma não sei o quê. Ora, o anel de noivado está mesmo a pedi-las. O Instagram ajudou a reanimar o anel de noivado?
Sim, a própria indústria dos casamentos, eu acho que as redes sociais contribuíram muito para isso. Senão vejamos como o anúncio de noivado é hoje um dos acontecimentos mais relevantes online. Há uma espécie de ritual. Mostrando as mãos muito bem cuidadas, exibindo o tal cachucho, maior ou menor, acrescentando uma legenda que seja significativa, neste caso, um sim, quero, como é o caso da Georgina. Ou há até quem faça vídeos do pedido de casamento, já deves ter cruzado certamente com alguns desses casos. Que eu saiba, o Cristiano Ronaldo ainda não publicou nada nas suas contas, pelo menos até esta hora em que falamos, apenas a Georgina, mas a publicação da noiva já soma mais de nove milhões de gostos. Imagina.
Com isto tudo, acabámos por ainda não falar do anel e desta promessa de casamento. E há aqui duas grandes perguntas, Maria Ramos Silva: quanto vale aquela pedra e já se sabe onde vai ser o copo d'água? Acho que devem dispensar aquela cena do leilão da gravata do noivo e da liga da noiva, penso eu.
Que saberemos, Ricardo, pelo menos por agora.
Podemos esperar.
A questão é que, de facto, nós até agora só podemos especular sobre o real valor do anel. O Observador falou com um especialista, neste caso o Miguel Pinto de Carvalho, que nos explica precisamente que nós, na verdade, só temos uma imagem no Instagram, como tu dizias, e bem. Portanto, temos o quê? Uma escala aproximada que nós imaginamos. Nós desconhecemos a marca, o designer, o peso da peça, a classificação da cor, a pureza. Não temos outras informações que nos possam ajudar a mapear isto tudo. Lá fora há imensas informações, especulações sobre o assunto. Supomos que seja um diamante, mas nem isso é confirmado absolutamente pelo especialista. Tanto se fala de 15 a 30 quilates, de 2 milhões como 5 milhões ou mesmo mais.
Portanto, não se sabe o preço.
Eu acho que nós só podemos prometer continuar por cá a acompanhar os desenvolvimentos serenamente e logo faremos.
Maria, a história do dia tem sempre um lado pedagógico, formativo, tem sempre esta preocupação. Estamos em agosto, mês de casamentos, e para um casamento nunca esquecer...
Algo velho, algo novo, algo emprestado e, já agora, algo azul.
Podemos num outro episódio explicar o porquê destas regras. Obrigado, Maria.
Obrigada, Ricardo.
Maria Ramos Silva é editora de lifestyle do Observador. Ficam ainda algumas notas para esta quarta-feira, 13 de agosto. Está agendada uma reunião virtual entre Donald Trump, vários líderes da União Europeia, a NATO e Volodymyr Zelensky, o presidente ucraniano. O convite para este encontro partiu do chanceler alemão, Friedrich Merz. A reunião antecede o encontro previsto para esta sexta-feira entre Trump e Putin, no Alasca. E enquanto a agenda política vai diminuindo em período de férias, cresce a agenda de festas e romarias. Uma nova tradição aqui na história do dia de agosto. Arranca o Festival de Paredes de Coura, depois começa a Festa da Sardinha, na Póvoa de Varzim, e há ainda o Festival do Bacalhau, em Ílhavo, que também começa nesta quarta-feira. Em Figueiró, Paços de Ferreira, arrancam as festas em honra de Nossa Senhora de Todo o Mundo, a protetora da humanidade. Ainda esta quarta-feira, assinala-se o Dia Mundial do Canhoto. Estima-se que 10% da humanidade seja canhota. E numa história do dia sobre o anel de noivado, não podemos ir embora sem esquecer o Trio Odemira, que em 1984 lançou precisamente este êxito: "O Anel de Noivado." Esta foi a história do dia. A sonoplastia do João Tição, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã e boas férias.