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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o atentado vai favorecer Donald Trump nas presidenciais? This evening we had what we're calling an assassination attempt against our former president, Donald Trump. Kevin Rojek é o responsável do FBI na Pensilvânia, estado onde no sábado à noite Donald Trump foi alvejado na orelha direita. As autoridades norte-americanas afastam qualquer dúvida e afirmam que se trata de uma tentativa de assassinato. Donald Trump falava de imigração no normal comício de sábado, quando se ouviram os tiros. O ex-presidente levou a mão à orelha e agachou-se. Os agentes do Serviço Secreto cobriram-no e acabaram por levá-lo para um carro que serviu de viatura de evacuação. Trump foi alvejado em Butler, a menos de 60 km de Pittsburgh. No momento, um apoiante de Trump morreu e duas pessoas ficaram gravemente feridas. O atirador, de 20 anos, foi abatido pelas autoridades. E este é apenas mais um episódio de violência num país violento, ou será algo mais? Neste episódio vou conversar com Bruno Cardoso Reis, historiador, especialista em segurança e em relações internacionais. É também presença assídua na Rádio Observador, no Gabinete de Guerra, por exemplo, ou no podcast em que é anfitrião, o "Cinco Continentes". Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de segunda-feira, 15 de julho. Bem-vindo, Bruno.
Obrigado.
O último atentado contra um presidente foi em 1981, contra Ronald Reagan. Estamos aqui perante mais um episódio numa lista de ataques a presidentes e candidatos à presidência, ou estamos a olhar para algo diferente?
Eu penso que, por um lado, é isso, embora aqui a questão é: realmente tivemos já quatro presidentes dos Estados Unidos assassinados, o último dos quais foi o presidente Kennedy, em 1963. Tivemos vários atentados contra candidatos à presidência, inclusive em 1968, o último fatal, que foi contra o Bobby Kennedy, que era provavelmente o candidato democrata contra Nixon. Mas em termos realmente de ataques a presidentes, a candidatos a presidente, o último é realmente em 1981, contra o Ronald Reagan. E, portanto, a ideia era muito de que, até por uma série de melhorias, de reforço de capacidades dos chamados serviços secretos, é mesmo esse o nome. O serviço secreto é, no fundo, o serviço de proteção pessoal do presidente e de outras altas individualidades do Estado americano, mas em particular do presidente. E, no fundo, houve o esforço a partir do ataque ao Bobby Kennedy de alargar também essa proteção, nomeadamente a candidatos. E isso tem se intensificado ao longo dos anos e, portanto, havia um pouco a ideia de que havia mais violência política nos Estados Unidos. Há mais violência política nos Estados Unidos. Houve episódios com mortes e feridos muito sérios nos últimos anos. Talvez o último de monta foi em 2017, contra uma série de congressistas, inclusive o Steve Scalise, que era um congressista republicano, mas ainda há uns meses atrás houve o ataque contra a residência da família da Nancy Pelosi, pensando que ela estaria lá, acabaram por atacar o marido. Mas realmente contra presidentes e candidatos a presidentes, havia a ideia de que, mesmo neste contexto mais polarizado e mais violento, havia aqui uma espécie de bolha de proteção que claramente, neste caso, não funcionou.
E como é que é possível que com toda essa experiência acumulada, que até acabaste por descrever, as autoridades norte-americanas tenham permitido a um homem de 20 anos instalar-se num telhado que, em linha reta para o palco onde estava Donald Trump, são mais ou menos 120 metros, 130 metros. O que é que falhou aqui?
Aparentemente, houve coisas que não falharam. Por exemplo, há descrições de que ele teria tentado até aproximar-se do próprio comício, mas havia tetos metais, etc. Portanto, isto é fora do perímetro do comício. Aqui, claramente, o que terá falhado é o perímetro de segurança, ou seja, nomeadamente esta questão da proteção dos pontos altos nos telhados, com snipers, inclusive. Ou seja, está lá polícia, ela própria armada, para evitar que esses telhados sejam ocupados por potenciais atacantes e lidar com algum atacante, esse perímetro não foi suficientemente amplo. Portanto, foi demasiado restritivo. Depois, há outras coisas que podem parecer estranhas, não serão tanto. Por exemplo, esta questão de haver pessoas a dizer: "Mas nós apontamos a dizer que havia uma pessoa no telhado com uma arma." Bem, as pessoas devem achar que foi a primeira vez que isso aconteceu. Eu imagino que aconteça em todas as vezes, porque como eu digo, há snipers armados em todo esse tipo de evento e as pessoas, em muitos casos, acham que aquilo não é polícia, que serão potencialmente atacantes. Portanto, não é por haver alguém com uma arma no telhado que automaticamente é um atacante. Agora, claramente, houve aqui alguma falha, ela tem que ser devidamente apurada. Aqui o problema sempre, eu gosto sempre de sublinhar isso, que é nos serviços de informações, no combate ao terrorismo ou neste tipo de serviço de proteção pessoal, nós em qualquer serviço, em qualquer organização que tenha uma taxa de sucesso de 98%, achamos que é uma organização excepcional, ou 99%. Neste caso, se não for 100%, as consequências podem ser terríveis e obviamente toda gente vai querer saber exatamente o que é que falhou. E certamente, aliás, já temos notícia disso. Há, por exemplo, uma comissão do Congresso que é responsável por supervisionar este serviço e que já anunciou que vai fazer um inquérito para apurar exatamente o que é que correu mal.
E os Estados Unidos vivem um momento Particular de polarização será ainda superior àquele que nós vivemos na Europa nessa altura. Até que ponto é que este episódio pode vir a gerar mais violência entre as partes nos Estados Unidos, quando estamos agora a caminhar a passos largos para as eleições de novembro?
Essa eu acho que é a grande questão. Nós sabemos que realmente há múltiplos indicadores, sondagens, a quantidade de pessoas que dizem que a violência pode ser admissível em certas circunstâncias na política tem aumentado dos dois lados, mais do lado republicano, mas dos dois lados. Temos tido declarações muito equívocas de líderes dos dois lados, mais do lado republicano, em particular do próprio Donald Trump, que, que eu saiba, nunca condenou a utilização de violência política por parte dos seus apoiantes, desde o assalto ao Capitólio a este ataque, por exemplo, à família de Nancy Pelosi. Esse tipo de postura por parte das lideranças é muito preocupante. É muito preocupante que dos dois lados, cada vez mais, o outro lado seja apresentado não como adversário, como um opositor, mas como um inimigo, como alguém que é uma ameaça para o próprio país. Tudo isso, obviamente, acaba por, nalguns casos, levar as pessoas a achar que a violência é legítima. Portanto, é fundamental, agora em reação a este ataque, que dos dois lados haja uma moderação da retórica e sobretudo, isso não quer dizer que não haja críticas ao outro lado, mas sobretudo deixar muito clara a completa rejeição da violência na política democrática. Na democracia, as divergências podem ser enormes, as críticas podem ser muito duras, mas as questões resolvem-se pelo voto e não pela bala, não pela força.
Já voltamos à conversa com o Bruno Cardoso Reis, o anfitrião do podcast da Rádio Observador Cinco Continentes. Que impacto poderá este atentado ter nas eleições de novembro? Estamos de regresso à conversa com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, do lado republicano, a começar pelo filho de Donald Trump, foram apontados logo dedos aos democratas e a Joe Biden.
Just last week we saw Joe Biden trying to excuse his poor performance at the debate and get that behind him and say now we need to put Trump in a bullseye.
Isto faz algum sentido?
Eu acho que por um lado, da parte do filho de Donald Trump, eu posso até ter alguma compreensão que haja aqui uma reação mais aquente. Agora, é verdade que houve congressistas, responsáveis republicanos, que vieram logo dizer que a responsabilidade era de Joe Biden, dar a entender que até teria havido aqui algum tipo de cumplicidade nesta falha de segurança e não temos nenhuns dados que apontem nesse sentido. E se é verdade que no caso da retórica que tem sido usada na campanha, pontualmente se pode apontar alguns excessos também do lado democrático, é muito difícil reconhecer autoridade moral aos responsáveis republicanos que tenham utilizado uma retórica igual ou ainda pior em relação a Joe Biden, em relação aos democratas. Isto mostra os perigos desta extrema polarização e mostra que, infelizmente, nem todos os líderes políticos estão a reagir à altura das circunstâncias ou estão a contribuir para usar este momento como uma espécie de reset, um momento de recomeço, para tentar reconduzir a política americana a um contexto um pouco menos polarizado. Eu confesso que acho que isso é desejável e que me parece, por exemplo, as declarações do próprio Joe Biden ou do presidente Obama vão nesse sentido.
Look, there's no place in America for this kind of violence. It's sick. It's sick. It's one of the reasons why we have to unite this country.
Mas estou um pouco cético que isso seja muito realista, porque realmente esta polarização está muito cristalizada e já tem uma série de anos longos em que se tem acentuado.
E o facto do atirador ser um eleitor registado como republicano, há um registo também de uma doação de 15 dólares, segundo a imprensa norte-americana, a uma organização liberal. Este facto pode ajudar a desmontar esses argumentos mais extremados que apontam para uma ação de apoiantes de Biden, porque no fundo, aquilo que indicia é que pode ser um apoiante do Partido Republicano.
Sim, e isto mostra que realmente temos que ser muito cuidadosos, inclusive quando já temos alguns dados concretos. Não me parece que o facto de ele ser aparentemente um filiado no Partido Republicano quer dizer que o Partido Republicano é responsável por isto, ou que se valide, inclusive, outra tese que também está a circular e que também não me parece aceitável, de que isto é tudo encenado. Ou que foi de alguma forma organizado para promover a campanha de Donald Trump. O facto de ser útil para a campanha de Donald Trump, para a sua narrativa, não quer dizer que seja uma coisa deliberada ou organizada. Ele esteve claramente em risco de vida, houve um apoiante seu que foi morto, portanto, é inaceitável fazer esse tipo de declarações, muito menos sem provas muito sólidas. Mas não podemos deduzir do facto de aparentemente o atirador ser filiado no Partido Republicano, que isso quer dizer que os republicanos são responsáveis. Também não podemos deduzir do aparente facto que ele terá doado 15 dólares a uma organização qualquer mais à esquerda, que isso quer dizer que essa organização de esquerda é responsável. Não há aqui culpas por associação. A investigação tem de mostrar se ele agiu de forma isolada ou não, se há aqui algum tipo de conspiração, realmente, mas não é uma conspiração por proximidade ideológica Tem de ser uma conspiração por realmente contactos, por haver algum tipo de organização por trás deste ataque e isso só podemos afirmar quando houver provas nesse sentido.
E esta segunda-feira arranca em Milwaukee a convenção do Partido Republicano, convenção que irá formalizar a escolha de Trump como candidato. Também contamos que seja anunciado quem será o vice-presidente de Donald Trump. Como vai Trump apresentar-se nesta convenção, neste grande espetáculo televisivo que é a convenção republicana, neste caso?
Vai se apresentar como uma espécie de Lázaro, como um mártir do Partido Republicano, um mártir da América do povo contra a América das elites. Realmente, o ponto aqui neste atentado não é simplesmente haver geralmente uma reação de uma certa simpatia e empatia pela vítima de um atentado que aumenta no curto prazo a sua popularidade. Vimos isso, por exemplo, com Ronald Reagan e com outros casos, o mesmo Berlusconi na Itália, mas é o facto de que, além disso, tudo isto alimenta, serve perfeitamente, encaixa perfeitamente na narrativa da campanha de Donald Trump, a questão do populismo, ele contra as elites, ele como um defensor do povo que as elites querem impedir a todo o custo de ser eleito, a questão mesmo providencial, sobretudo para os evangélicos, para aquela direita religiosa mais conservadora, a ideia de que houve aqui alguma coisa providencial. Ele esteve quase a ser morto, mas não é morto. Isto seria um sinal de que está destinado, tem aqui uma missão sagrada que fez com que a providência garantisse que ele não era morto neste ataque. Aliás, o próprio Trump já fez declarações exatamente neste sentido que eu agora estou a descrever, estava a ver uns minutos antes de falarmos. Tudo isto encaixa perfeitamente, vai dar um vigor reforçado a toda a narrativa, a toda a propaganda do Partido Republicano para a eleição de Donald Trump em novembro.
Ele diz e escreveu na rede social, e deixa-me citar: "Foi só Deus quem evitou que o impensável acontecesse. Nada vamos temer e, ao invés, permaneceremos resilientes na nossa fé e desafiadores diante da maldade." Foi o que escreveu Trump. Trump que acaba por ser levado do palco e nesse momento erguia o punho, gritava: "Lutem, lutem, lutem!". Deu mostras de uma grande coragem perante perigo de morte. Esteve mesmo em perigo de morte. Isto poderá ser usado contra Biden, que nessa altura está numa situação periclitante, porque enfrenta nas próprias fileiras pedidos para que abandone a corrida ou, por outro lado, até pode ajudar Biden a sair um pouco dos holofotes e aproveitar o momento para ganhar novo fôlego. Como é que Biden fica no meio disto tudo?
Eu acho que fica muito mal neste sentido, que é realmente o contraste que já existia entre um Donald Trump, apesar da idade, da pouca diferença de idade, aliás, em relação a Biden, muito mais vigoroso, e um Biden muito enfraquecido. Esse contraste vai se acentuar. É verdade, em todo caso, como dizias, que isto no curto prazo poderá ser favorável a Biden neste sentido, que deixou de se falar todos os dias de Biden, de como é que ele se portou na última conferência.
Qual é a gafe do dia.
Qual é a gafe do dia, como é que ele se portou na última conferência de imprensa ou na próxima, nomes alternativos. Tudo isso vai ficar em pausa durante pelo menos uns dias. Agora, do meu ponto de vista, isto torna ainda mais evidente que os democratas precisam de fazer aqui um recomeço da sua campanha. Isso será muito difícil, será sempre muito arriscado, mas ainda mais agora. Eu não vejo como é que com Biden e com Trump, com esta força reforçada, como é que se os democratas não criam aqui uma nova narrativa, não apresentam uma alternativa, como é que é possível ter aqui uma dinâmica para ganhar as eleições? Porque Biden já estava em desvantagem nas sondagens, nos estados que decidem as eleições. Cada vez mais estados estavam a entrar nessa lista de estados que podiam mudar de candidato a presidente que vence, os chamados swing states. Parece-me que, a prazo, isto torna Biden ainda menos viável como candidato vencedor. Mas enfim, isso não quer dizer que haja aqui condições para os democratas tomarem a decisão que parecia evidente, que era precisarem de mudar o candidato rapidamente e também de forma consensual. Aí era fundamental realmente não haver aqui um espetáculo de divisões e de multiplicação de potenciais candidatos que tornassem depois muito difícil, em tempo útil, realmente criar uma candidatura unificada e com condições de derrotar Donald Trump, que claramente neste momento, se tinha uma eleição provável, acho que neste momento é uma eleição ainda mais provável em novembro.
Ou seja, esta saída de Trump deste atentado como um mártir poderá ter uma influência decisiva nas eleições de novembro.
Sim, eu penso que sim. Não me parece que por si só se possa dizer que o atentado alterou completamente as dinâmicas. Há um caso histórico comparável, que é o do Teddy Roosevelt, que foi alvo de uma tentativa de atentado em 1912 e que acabou por perder as eleições. Só que nesse caso, realmente a dinâmica eleitoral não estava lá. Ele também se portou muito bem, mostrou grande coragem física, etc. Acabou o seu discurso antes de sair, etc. Não havia estes protocolos de segurança que existem hoje, mas a verdade é que ele estava a concorrer contra outro candidato do Partido Republicano. O voto republicano foi dividido e acabou por ser o presidente Wilson, do Partido Democrático, que foi eleito. Mas neste caso, realmente as dinâmicas já eram favoráveis a Donald Trump e eu acho que a única conclusão possível, como analista, como alguém que está a olhar para isto com alguma distância, a única conclusão possível daquilo que aconteceu ontem, inclusive dessas imagens que referiste, de demonstração de coragem numa situação de elevado risco, etc. Isso só pode favorecer Donald Trump e portanto, como eu dizia, parece-me que de candidato com grandes possibilidades de vencer, ele passou a um vencedor muito provável, porque nada é certo na política, e menos ainda na política americana, e alguns meses são uma eternidade, mas realmente parece-me que sai daqui muito reforçado nas suas hipóteses de vitória agora em novembro de 2024.
Bruno Cardoso Reis é comentador de assuntos internacionais na Rádio Observador e é o anfitrião do podcast "Cinco Continentes". É historiador e professor universitário. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.