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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o atraso, o custo e a polêmica em torno da Jornada Mundial da Juventude.

Primeira: eu soube do valor quando vi, o Observador vai ficar todo contente, a notícia do Observador. Nem sabia, nem tinha que saber.

D. Américo Aguiar é o responsável pela Jornada Mundial da Juventude. Regressou esta quinta-feira do Panamá e ao final da tarde deu uma longa conferência de imprensa para tentar esclarecer todas as dúvidas e deitar um pouco de água na fervura. O bispo auxiliar de Lisboa diz que não tinha conhecimento da estimativa de custo do palco.

Aquilo que significou o anúncio há dias do ajuste direto da obra do palco Tejo, confesso também que o número me magoou. O número magoou-me, como é óbvio. Magoou a mim, magoou o Duarte e magoou-nos a todos, porque é um número que magoa. Porque nós vivemos um tempo em que todos sentimos as dificuldades, todos. E a igreja, de um modo especial.

Os valores agora conhecidos fizeram estalar a polêmica sobre os custos e benefícios daquele que poderá ser o maior evento de sempre em número de participantes em Portugal. Como chegamos a este ponto e nesta altura em que o relógio não para? Vou conversar com o jornalista do Observador, João Francisco Gomes, que acompanha temas ligados à religião. Foi de resto o autor da notícia que revelou o custo estimado do tal palco: 4,2 milhões de euros. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, João Francisco.

Olá.

João, vamos começar pelo princípio. Vamos começar pelo anúncio.

"Y el próximo Jornada Mundial de la Juventud se tendrá en Portugal". Conseguimos. Portugal, Lisboa. Esperávamos, desejávamos, conseguimos. Vitória.

Soubemos em 2019 que a edição seguinte da Jornada Mundial da Juventude ia ser em Lisboa, através de um anúncio que foi feito no palco da edição anterior da jornada, que foi na cidade do Panamá. E este vídeo de Marcelo Rebelo de Sousa, este som que estávamos a ouvir, foi de fato a primeira reação do Estado português a esse anúncio feito em 2019.

Ia ser em 2022, mas foi adiado um ano.

Sim, por causa da pandemia, da Covid-19.

E esta Jornada Mundial da Juventude é o quê, João Francisco?

A Jornada Mundial da Juventude é um acontecimento da Igreja Católica, é o maior acontecimento global da Igreja Católica, cuja origem remonta à década de 80, quando o Papa João Paulo II, o Papa polaco, teve a ideia de reunir jovens católicos de todo o mundo em Roma para um encontro, para debater uma série de temas que são de fato bastante importantes para a juventude. Essa tradição, desde o primeiro momento, ganhou uma grande adesão por parte dos jovens católicos de todo o mundo e começou a repetir-se anualmente, até que se chegou a este modelo que temos hoje e que basicamente passa por uma celebração anual do Dia Mundial da Juventude, é isso que significa a Jornada Mundial da Juventude, mas que a cada três anos toma a forma de um grande encontro mundial dos jovens católicos com o Papa. O Papa é o anfitrião deste encontro e a cada três anos acontece numa cidade diferente do mundo. Habitualmente vai alternando entre edições realizadas na Europa e edições fora da Europa.

E pode dar-nos alguns exemplos de cidades que acolheram este tipo de evento?

Sim, claro. Além, por exemplo, da cidade do Panamá, que foi onde aconteceu a última edição, onde foi anunciado que Lisboa seria a próxima anfitriã. Temos, por exemplo, Cracóvia, a edição de 2016, na Polônia, o Rio de Janeiro, que foi a primeira edição da jornada em que o Papa Francisco participou, em 2013, ou Madri, aqui ao lado, em 2011, para não falar depois de edições mais antigas, bastante conhecidas, como Santiago de Compostela, Roma ou até Sydney, na Austrália.

E sabemos quanto custaram estes eventos?

Sim, foi sempre na ordem dos muitos milhões de euros ou dólares. Por exemplo, a edição de Madri, que é aquela com a qual temos feito uma principal comparação, estima-se que tenha custado 50 milhões de euros. Agora, elas nem sempre são comparáveis no que toca àquilo que é o investimento que é feito e ao retorno que têm.

Podemos pôr a par, eu não sei os números de cor, mas simbolicamente, Rio de Janeiro e Madri. O Rio de Janeiro deu milhões de prejuízo E Madrid teve um superávit.

E além disso, as fontes de financiamento também são bastante diferentes. Enquanto aqui em Portugal temos um financiamento em grande parte que vem do Estado, em Madrid, por exemplo, o Estado não interveio no financiamento do evento, tendo ele sido dividido entre os peregrinos que se inscreveram e também um conjunto de donativos que foram recebidos pela Igreja Católica, numa razão de 70% pelos peregrinos e 30% pelos donativos.

E quantas pessoas são afinal esperadas em Lisboa, já no início de agosto?

Essa é aquela especulação que desde o início se tem feito sem grande sucesso. Por exemplo, as edições anteriores que aconteceram na Europa, por exemplo, Madrid ou Cracóvia, permitem-nos fazer uma estimativa em torno de 1 a 1,5 milhão de jovens, pelo menos na missa final, que é o ponto alto da jornada. Esta semana, a Câmara Municipal de Lisboa foi a primeira a pôr um número concreto como estimativa, falando em 1,5 milhão de pessoas na missa final. E esta quinta-feira, numa conferência de imprensa, o bispo auxiliar de Lisboa, D. Américo Aguiar, é o presidente do comitê organizador local da jornada, portanto, é o bispo que representa a Igreja Católica na organização deste evento, também colocou essas estimativas entre 1 a 1,5 milhão de participantes.

Nós nunca no nosso país tivemos um acontecimento como vai ser a Jornada Mundial da Juventude. Nem juntando Web Summits, nem juntando festivais de verão, nem juntando outras coisas que possam imaginar, nada disso tem comparação com aquilo que é a Jornada Mundial da Juventude.

Já voltamos à conversa com o jornalista João Francisco Gomes. Vamos tentar perceber as polémicas em torno desta Jornada Mundial da Juventude.

E o resto é história, com João Miguel Tavares e Rui Ramos, às quartas-feiras depois do jornal do meio-dia e sempre em podcast.

Estamos de regresso à conversa com João Francisco Gomes, jornalista do Observador. João, vamos a contas. Nesta altura, qual é a estimativa de custos e quem paga o quê?

É uma estimativa ainda muito difícil de fazer, porque ainda nem todas as partes divulgaram integralmente o seu orçamento. Da última vez que eu fiz estas contas, num artigo que publicámos em dezembro no Observador, as contas já permitiam pôr um orçamento em torno, ou pelo menos acima, dos 80 milhões de euros. Isto quando olhamos para quem é que vai pagar o quê, temos de compreender que estas responsabilidades de financiamento da Jornada Mundial da Juventude estão divididas. Por um lado, a Igreja, representada pela Fundação JMJ, pelo comitê organizador local, por outro lado, o governo central e, por fim, as câmaras municipais que estão envolvidas no processo, com a Câmara de Lisboa a merecer, obviamente, maior destaque.

E já sabemos qual a fatia que vai caber a cada um?

Sabemos que a Câmara de Lisboa prevê gastar até 35 milhões de euros, sabemos que o governo prevê gastar até 36,5 milhões de euros e sabemos também que a Igreja ainda está a fazer contas.

E o bispo está ali que nem um rato e não diz. Não diz porque não vos quero mentir.

O bispo D. Américo Aguiar admitia que de facto a Igreja era a última a divulgar as suas contas e que só nos próximos dias é que estaria em condições de divulgar esse orçamento, mas já deixava dois números que permitem ter aqui uma ideia. Por um lado, só a alimentação dos peregrinos que se inscreveram deverá custar cerca de 30 milhões de euros e o orçamento total da participação da Igreja neste evento poderá ascender aos 80 milhões de euros. Portanto, quando olharmos para tudo o que vai ser o dinheiro gasto nesta jornada, vamos estar seguramente a falar talvez de mais de 150 milhões de euros.

E só para esclarecer aqui num ponto, a Câmara de Loures vai entrar com algum dinheiro ou não?

A Câmara de Loures também tem um investimento interessante na jornada, na medida em que está a requalificar uma parte do recinto que vai acolher esta última parte, estas últimas 48 horas da Jornada da Juventude, que é dos dois lados do rio Trencão, que é o rio que divide os dois concelhos, e do lado norte do rio, o terreno que cabe à Câmara de Loures também está a ser requalificado. E a Câmara prevê gastar até 9 milhões de euros em investimentos relacionados com a jornada.

E agora vamos ouvir aqui vários sons de rajada. Primeiro, o bispo auxiliar de Lisboa, que ao final do dia de quinta-feira anunciava que quer rever o projeto ponto por ponto para cortar despesas.

Se nas parcelas tiverem coisas que são do nosso pedido e puderem ser eliminadas, por não serem essenciais, da nossa parte pediremos para serem eliminadas, como é óbvio.

Também ao final da tarde, Carlos Moedas dizia que limitou os custos e que agora fará aquilo que a Igreja quiser.

Eu vou cumprir tudo aquilo que for vontade do senhor presidente da República e da Igreja, eu aceitarei, farei e ajudarei. Agora estamos a 186 dias.

E Marcelo Rebelo de Sousa, que passou do entusiasmo a um pedido de constrição nos custos e agora acrescenta que vai acompanhar o processo.

Haverá reuniões, governo, câmaras, técnicos, Igreja, sobre essa matéria.

O senhor vai participar nessas reuniões?

Não, o presidente da República não, porque o presidente da República não tem responsabilidades, mas obviamente serei mantido ao corrente daquilo que se passar.

E ainda tivemos o vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Filipe Anacoreta Correia, a admitir na Sic Notícias Que não há muito mais por onde cortar.

Realisticamente, parece-me difícil, até porque nós, neste momento, temos um contrato assinado.

João Francisco Gomes, ouvimos todas estas vozes. Afinal, quem manda na obra? É a Igreja? É a fundação? São as autarquias?

São as autarquias, mais concretamente, a Câmara de Lisboa. Estamos a falar, em concreto, do altar-palco onde o Papa Francisco vai presidir às celebrações que vão encerrar a Jornada da Juventude e que vão ser o ponto alto deste acontecimento, com cerca de 1 milhão e meio de pessoas no Parque Tejo. Sabemos uma coisa: que a Igreja Católica, por via da Fundação JMJ, foi recolhendo, da parte das outras organizações das edições anteriores da jornada, indicações sobre quais as características que deve ter o palco final para o Papa presidir às celebrações. Por exemplo, requisitos que incluem a presença de cerca de 1 milhar de bispos, que têm de garantir espaços para o coro e para a orquestra, para um conjunto de convidados diplomáticos, VIPs e também para um conjunto de pessoas das equipas técnicas. Este conjunto de requisitos foi passando de organização em organização das várias dioceses e agora, chegados a Lisboa, basicamente o que aconteceu foi que a Igreja apresentou este caderno de encargos às várias entidades que vão ser organizadoras do evento. E na divisão de responsabilidades financeiras pela Jornada da Juventude, ficou determinado que é a Câmara Municipal de Lisboa quem vai fazer a intervenção naquele parque, incluindo a consolidação do terreno e a criação do parque verde e também o palco. Ora, por aquilo que foi possível perceber na quinta-feira, na conferência de imprensa do Dom Américo Aguiar, há aqui um ponto muito importante que é preciso focar. É que o primeiro aspeto que foi debatido, ou a primeira ideia que foi debatida entre os vários organizadores, era que havia a expectativa que a Jornada da Juventude deixasse um legado à cidade. E o primeiro legado à cidade seria o parque verde, que substituirá o aterro sanitário que ali existia até agora. No evoluir dessas conversas, segundo revelou Dom Américo Aguiar, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu que, além de ser o parque verde o grande legado da jornada, também devia, naquele lugar, ser erguido um palco, não apenas um palco provisório, que fosse desmontado no final da jornada.

Mas que ficasse.

Exatamente, que o palco ficasse como equipamento para a cidade, para poder ser usado noutros eventos no futuro. E portanto, a autarquia, tendo em conta esse objetivo, avançou para uma empreitada pública da sua própria iniciativa, que além de respeitar as características que foram trazidas pela Igreja para este evento em concreto, também tem como objetivo ficar para o futuro, depois poder ser adaptado no final da jornada e ficar para o futuro, para outros eventos que a Câmara ainda não especificou quais é que poderão vir a ser, mas já se falou da Web Summit, já se falou do Rock in Rio. Não há nada confirmado, mas será esse tipo de acontecimentos que poderão ali ser realizados no futuro.

E há também aqui, obviamente, uma dimensão política, João Francisco. O anúncio da escolha de Lisboa é feito ainda com Fernando Medina na Câmara. Depois ficamos com a sensação, também tivemos a pandemia pelo meio, não é, mas que ficou tudo meio parado, meio enlumbrando.

Sim, de facto, em 2019 houve grande euforia relativamente à escolha de Portugal e de Lisboa, concretamente, para a Jornada da Juventude. E na altura, tudo que era decisores políticos não hesitaram em fazer-se fotografar junto aos bispos, em também chamar a si alguma da responsabilidade pela candidatura bem-sucedida e, portanto, de apresentar a Jornada da Juventude como um evento marcante para o país e para a cidade. Agora, passados praticamente quatro anos, de facto começamos a perceber que há muitas coisas que expectavelmente até já estariam planeadas e programadas e que só estão a ser feitas agora. Por exemplo, esta questão do palco do Parque Tejo nem é a mais flagrante, talvez. Nós sabemos que além do Parque Tejo, haverá outros lugares da cidade que vão acolher eventos. Por exemplo, o Parque Eduardo VII, onde vão acontecer três momentos importantíssimos da jornada, dois deles com o Papa Francisco. E também se sabe que esse palco, que deverá ser feito no Parque Eduardo VII para acolher estes eventos, ainda nem sequer foi lançado o concurso público que levará depois à escolha da empresa que o vai construir. Nesta conferência de imprensa, Dom Américo Aguiar dizia que tudo está dentro dos timings, que nada está atrasado e que as coisas vão estar prontas a tempo da Jornada da Juventude.

Mas João, faltam seis meses para o Papa chegar. 186 dias, se não me falham aqui as contas. Isto vai estar tudo pronto?

A expectativa da Igreja e da Câmara de Lisboa é que sim. Têm-no garantido várias vezes e, aliás, relativamente ao palco do Parque Tejo, que será a obra mais complexa, a Câmara de Lisboa anunciou que tudo indica que estará pronto entre maio e junho.

Além dos prazos, João, temos estado aqui a falar de muitos milhões, de muito dinheiro, estamos a falar da Igreja Católica, que tem uma obra importantíssima em Portugal, presta auxílio a muita gente E há também quem pergunte como é possível gastar este dinheiro nesta festa com tantas pessoas a precisarem de ajuda.

Essa é uma questão crucial. Eu lembro-me que em novembro do ano passado, na última assembleia plenária dos bispos portugueses, a Conferência Episcopal dizia que estava muitíssimo preocupada com a situação financeira muito frágil de uma série de instituições de solidariedade social da Igreja, que muitas delas estavam em risco de falência devido à crise econômica. A própria Cáritas tem dito que tem um aumento muito significativo do número de pedidos de ajuda. Portanto, é natural que perante este discurso da Igreja e um palco de € 4 milhões para o papa celebrar duas missas, surjam estas questões. E por esse motivo, claramente, é que o bispo D. América Aguiar, nesta conferência de imprensa, disse que ter visto aquele valor associado ao palco o tinha magoado, porque a Igreja naturalmente conhece esta realidade e percebe a incompatibilidade destes dois discursos. E aliás, D. América Aguiar até disse, reiterando que de facto há aqui um discurso inconciliável, que o investimento no palco e o investimento mais genérico na Jornada da Juventude não vai pôr em causa a ação social da Igreja.

Obrigado, João.

Obrigado.

João Francisco Gomes é jornalista do Observador. Acompanha temas ligados à religião e é dele a notícia do custo estimado do palco que servirá de altar na missa de encerramento da Jornada Mundial da Juventude, celebração que será presidida pelo papa. Esta foi a história do dia. Os sons que ouvimos de Marcelo Rebelo de Sousa, Carlos Moedas e também Ana Coreta Correia foram retirados da SIC. Este episódio contou com a colaboração do jornalista Mário Silva da Costa. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda.