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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o Irão à beira de uma nova revolução. "Eu não tenho medo." É isso que esta mulher está a dizer. Tem 60, 70 anos, talvez, escorre-lhe sangue pela boca, o que mostra que esteve envolvida em confrontos e ainda assim grita: "Eu não tenho medo". Que estranha forma esta de começarmos o ano. Primeiro, uma operação dos Estados Unidos na Venezuela, depois ameaças à Gronelândia e agora esta onda de protestos no Irão, que começaram no final do ano passado e agora ganharam dimensão tal que Donald Trump admite intervir. Parece que o mundo todo gira à volta de Donald Trump e em parte até gira, mas hoje os verdadeiros protagonistas não estão em Washington, nem em Moscovo ou Pequim. Estão em Teerão e noutras cidades iranianas, nas ruas, a resistir e a mostrar que não têm medo do regime, mesmo quando o regime faz o que fazem todos estes regimes quando são desafiados. As comunicações foram cortadas e por isso não se sabe ao certo o número de mortos. Fala-se em centenas, talvez milhares. Vítimas entre esta gente que saiu à rua e que da rua não sai. Afinal, o que está a acontecer no Irão? O que querem exatamente os manifestantes? Reformas ou uma mudança de regime? Pode regressar a dinastia Pahlavi do último xá e isso seria a solução ou uma mera ilusão? E o que os Estados Unidos querem ou podem fazer, e onde entram a Rússia e a China neste tabuleiro? Estas são perguntas que eu quero fazer a José Tomás Castelo Branco, especialista em Médio Oriente. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 13 de janeiro. José Tomás, bem-vindo.

Muito obrigado pelo convite.

Deixe-me começar aqui pelo essencial. O que é que estes manifestantes que estamos a ver diariamente nas ruas do Irão querem? Querem reformas económicas, querem liberdades políticas, querem uma mudança de regime? O que é que eles querem?

Olha, é sempre muito difícil nós estarmos aqui a fazer processo de intenções sobre o que outras pessoas querem. Mas aquilo que se consegue perceber, com todo o blackout informativo que temos desde meados da semana passada, é que esta revolução começa nos bazares. Por isso é uma revolução que começa com os lojistas iranianos, os comerciantes, e muito a partir das queixas sobre a economia e as finanças. Isto é, sobretudo a desvalorização abrupta do real. De repente um dólar passou a valer 1 milhão e 500 mil riais. Temos uma inflação que está a galopar já pra cima dos 52%. São todas estas condicionantes económicas, junto à taxa de desemprego, que sobretudo entre os jovens vai pra cima de 25%. São todas estas condicionantes que começam a trazer estas pessoas para um patamar cuja vida se torna completamente difícil, e sobretudo para os jovens. O futuro torna-se sombrio e sem horizonte. Repare, alguém que queira que esteja a fazer planos de sair do Irão e ir para outro ponto do mundo, de repente vê as suas economias reais, quando as quer transformar em dólares, completamente desvalorizadas, por isso fica com os pés completamente cortados. E é também esta juventude que se junta aos protestos. Depois, temos todos os outros setores que se vão juntando. E eu creio que aqui uma das formas boas, razoáveis, de olharmos pra esse problema é tentar perceber os vários setores que foram ao longo dos anos tendo primazia nestes movimentos contestatários, e perceber que se até aqui eram sobretudo setores, temos, por exemplo, em 2022, as mulheres a saírem pra rua, na sequência daqueles protestos depois da morte da Mahsa Amini. Em 2019 era um movimento de contestação ao aumento do preço dos combustíveis. Antes tinham sido os sindicatos com as condições de trabalho. De maneira que foram várias vezes diferentes setores a protestar e a irem pra rua.

E agora juntaram-se todos?

O que me parece que está a acontecer é que os chamados bazares deram o mote, foram pra rua e todos os outros imediatamente se juntaram.

Então o que me está a dizer é que provavelmente aquilo que estamos a assistir é uma série de exigências diferentes consoante também cada grupo. Há quem queira uma melhoria das condições económicas e sociais, há quem queira mais liberdades políticas e há quem queira, de facto, uma mudança de regime.

Sim, sendo que este último incorpora todas essas no sentido em que me parece que é uma opinião que vai sendo cada vez mais partilhada dentro do Irão, a ideia de que aquele modelo em que eles estão a viver, seja lá qual for a forma como categorizemos, mas aquele modelo está esgotado e não é possível continuar a viver daquela maneira. É esta ideia que me parece que está a aparecer como catalisadora. E depois, claro, há um sem número de outras chegas de centelhas que vão sendo jogadas aqui. E a questão, por exemplo, dos condicionamentos económicos Isto é o resultado dos embargos sucessivos que foram sendo feitos à economia iraniana, estão a produzir resultado. E se até há 10 anos a economia iraniana ia vivendo com isso e as empresas iranianas estavam habituadas a lidar com isso, agora a pressão tem vindo a ser cada vez maior e torna-se absolutamente insustentável. Mas eu creio que há aqui uma questão muito importante que é a questão da juventude, a falta de horizontes para a juventude e uma juventude que já não se revê naquele modelo. E isso é particularmente irônico para o regime, porque esta juventude já nasceu no quadro daquele regime, não tem memória de outra coisa, não está a pensar num mundo que já não viveu.

A Revolução Islâmica tem cerca de 50 anos.

47 anos, por isso menos de 50. É um pouco como nós, em Portugal, quando pensamos no 25 de Abril, e os jovens antes da revolução, o mundo já não lhes diz nada. São filhos da revolução. Ali também, todos estes são filhos da revolução. Uma das ironias que me parece mais interessantes de destacar é que sendo este regime um regime islâmico, seria de crer que a religião teria um papel importante naquela sociedade.

E, no entanto?

E, no entanto, aquilo que nós vamos vendo é que a juventude está completamente desligada da religião e os números daqueles que se identificam como religiosos são quase residuais, abaixo dos 20%. Isso é irônico, não é? Mas é também dramático, porque esta gente não quer viver daquela forma.

E é também um catalisador para aquilo que está a acontecer. A ideia que dá nas notícias que vão saindo todos os dias sobre isto é que talvez o regime nunca tenha passado uma crise tão grande como esta que está aqui a acontecer e que para haver um movimento popular como este, só olhando para aquilo que aconteceu precisamente em 1979. Acha que é uma avaliação correta?

Parece-me que o que estamos a ver agora ainda não atingiu os números, por exemplo, de 22, da contestação do pós-Mahsa Amini, mas parece-me que está a configurar qualquer coisa de muito maior. E que atravessa todos os setores da sociedade. Nesse sentido, eu acho que se está a viver no Irão, neste momento, um ambiente pré-revolucionário, eventualmente semelhante a esse de 79. Eu na altura ainda era muito criança, ainda não me lembro exatamente, só depois o conhecimento a posteriori, mas não dá para ter uma sensação direta do que foi a coisa. Sendo que nessa altura, aquilo que nós já vamos sabendo da história, é que tínhamos dois movimentos organizados a funcionar e que precipitaram a revolução e fizeram a revolução acontecer, que é um movimento político-marxista radical e um movimento islâmico. Estes dois braços trabalharam em conjunto e fizeram em conjunto a revolução. O problema grave que nós temos agora, que os jovens iranianos têm agora, a população do Irão, é que não há propriamente uma organização, não há uma liderança. De maneira que temos as pessoas na rua, temos uma massa de gente enorme na rua. Falta uma condução. Tem sido interessante ver que nestes últimos dias, o Reza Pahlevi, o herdeiro-

Do antigo regime

...o herdeiro daquele regime, tem-se estado a afirmar como um candidato a liderar esta movimentação, com provas. As provas são as indicações do que fazer. As horas a que começam as manifestações, os setores que entram em greve. E isso ele fez, no fundo, tomou esse risco, porque ainda não se conhecia nada de semelhante. Ele arriscou, deu essa voz pública e aquilo que se verificou foi uma adesão nos termos em que ele propôs. Ora, isso dá a entender que pode estar a começar a haver alguma relação e pode estar aqui a começar a surgir uma liderança para esta revolução.

Isso significaria o regresso desta família aos comandos do Irão.

O regresso, não. Eu não creio que aos comandos do Irão, dessa forma, no sentido de fazer uma restauração daquilo que existia antes da Revolução de 79. Não me parece de todo. Aliás, não só porque o país não queira, não sei se o país quer, se não quer, não há estudos de opinião sobre isso, se quer, muito menos votações.

Só para lembrar que estávamos a falar também de uma ditadura nessa altura, nos últimos anos.

Certo, e com uma polícia política pesada, por isso a revolução também não acontece no vazio. Agora, este senhor, este príncipe herdeiro, que na altura tinha 18 anos e até estava no estrangeiro, estava a ter formação militar nos Estados Unidos. Mas este senhor, entretanto, foi sendo educado, foi formado e tem hoje uma educação completamente secularista e o projeto que ele procura encarnar e está a propor é um projeto de uma democracia secularista. E o que ele tem proposto relativamente a si próprio, o papel a desempenhar neste momento revolucionário, é o de apenas de ser o líder, o concatenador destas vontades diversas, para conduzir o país a eleições e à tal democracia secularista. De maneira que o papel a que ele se propõe é apenas o de fazer esta transição Ele não está a propor, pelo menos eu nunca o ouvi propor, o regresso a nada, não há nenhum modelo de restauração do que quer que seja.

De qualquer forma, para conseguir isso vai ter que ter, para já, o Bruno Plácido dos Estados Unidos, ainda não terá conseguido, pelo menos as declarações que fomos ouvindo são com muitas reservas relativamente a Pahlavi. Qual é o papel dos Estados Unidos aqui? Temos visto trocas de ameaças, agora fala-se de negociações com o regime atual. Qual é o papel dos Estados Unidos? O que é que os Estados Unidos podem fazer ou querem fazer? E já agora, qual é o papel da Rússia e da China, que são aliados deste Irão?

Belíssimas perguntas às quais eu gostaria de dar respostas conclusivas, mas nós sabemos muito pouco, nomeadamente em relação aos Estados Unidos. É óbvio que o papel dos Estados Unidos aqui é absolutamente determinante, mas aquilo que nós vamos sabendo do presidente Trump é que ele não tem dado grandes aberturas à figura precisamente do Reza Pahlavi. Não o recebeu sequer, nem deu indicação de que o queira receber num futuro próximo. Por isso o Trump está naquela linguagem das cartas, que ele gosta de dizer que tem as cartas. Ele está a conservar as cartas todas e não está a pôr nenhumas cartas cá fora, porque a verdade é que é preciso ouvir as outras partes em jogo. Agora, dentro do Irão está a formar, isto começou a se formar desde 2023, uma aliança de vários partidos, não no sentido do nosso partido, mas de vários grupos, e o Reza Pahlavi é uma dessas partes. A outra, por exemplo, é a Prémio Nobel de 2003, a Shirin Ebadi, uma grande jurista iraniana, juíza, aliás, mas que está no exílio, mas também partes como os curdos do norte, o partido curdo. E estas várias sensibilidades têm se vindo a organizar lá desde 2023 e hoje começam a se apresentar como uma solução.

Uma alternativa credível.

Uma alternativa credível, e alguém com quem, por exemplo, os Estados Unidos possam falar. Eu acho que é mais possível que os Estados Unidos falem com esta organização.

Os representantes dessa aliança.

Do que se comprometam diretamente com uma pessoa.

Com uma pessoa. E a China e a Rússia estão aterantada, é que têm estado em silêncio.

A China e a Rússia eu vejo aqui numa posição muito difícil, porque a Rússia é um parceiro estratégico do Irão, ou a Rússia tem o Irão como parceiro estratégico. Lembramos que os mísseis Shahed que estão a cair na Ucrânia são de fabrico iraniano. Era o Irão que tinha a tecnologia destes drones, de maneira que é um parceiro muito importante para a Rússia. E por outro lado, do ponto de vista geoestratégico para a Rússia, o Irão faz a contenção da fronteira sul. Por isso, a ideia para a Rússia de que essa fronteira sul possa entrar de repente em colapso, porque o colapso deste grande agregador pode gerar consequências que nós não sabemos quais são, a Rússia não vê isto nada com bons olhos. Por outro lado, a China não vê o Irão propriamente como parceiro estratégico, mas é cliente do Irão. É a principal fonte das exportações do petróleo iraniano. De maneira que estará preocupadíssima com isto. Já não lhe basta a Venezuela, que apesar de tudo não era muito representativo, agora está também a mãos com o Irão. E o Irão, sim, é bastante mais representativo no que toca às fontes de hidrocarbonetos da China. De maneira que estes dois grandes players mundiais estão a olhar para isto com muita apreensão. Mas eu acredito que os Estados Unidos também estejam a olhar para isto com muita apreensão, porque o Irão não é um paísinho pequenino que se possa chegar lá e mexer dois ou três cordéis, nem é sequer um país em que se possa dizer, como os Estados Unidos dizem em relação à Venezuela: "Vamos tomar conta daquilo". A gente não sabe exatamente o que é que significa o tomar conta daquilo, porque o Irão mexe com a estabilidade, não é só regional, é com a estabilidade do mundo. Repare, um dos grandes problemas de segurança em Londres, por exemplo, é a operação dos serviços de contrainformação e os serviços secretos iranianos, que representam em Londres e na Alemanha ameaças significativas. Já para não falar daquilo que é a influência do Irão junto do Líbano e da Faixa de Gaza, Hamas e Hezbollah, levando inclusive as pessoas, estes manifestantes, ouvimos isso esta semana, vários grupos de manifestantes a gritarem: "Nem Líbano, nem Palestina, a minha vida pelo Irão".

E é isso que tem estado a acontecer, efetivamente. É o que temos visto com o regime a atacar brutalmente. Vamos acompanhar a situação nos próximos dias. José Tomás Castelo Branco, muito obrigado.

Obrigado eu.

José Tomás Castelo Branco é professor de Ciência Política na Universidade Católica e na Universidade da Beira Interior e é especialista em assuntos do Medio Oriente. O Irão é um dos temas a acompanhar neste dia. O Wall Street Journal diz que Donald Trump vai reunir-se com elementos do governo norte-americano para discutirem possíveis ações contra o Irão, que podem ir de sanções a bombardeamentos. Por cá, há manifestação contra o pacote laboral convocada pela CGTP. Como nestas coisas a organização não falha, é possível que haja milhares de pessoas nas ruas de Lisboa, mas o primeiro-ministro não vai ouvi-las. Ele vai estar na festa dos 120 anos da Livraria Lello, no Porto. A entrada é livre e os primeiros 120 visitantes recebem um livro de graça. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do João Tição, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.